DEVELOPMENT AND VALIDATION OF AN INSTITUTIONAL WATER BALANCE FORM
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202602101245
Jéssica da Silva Santos1
Raiane Mara Borges da Silva2
Priscila Cristina de Souza Papariello3
Letícia Lopes Dorneles4
Resumo
O equilíbrio hidroeletrolítico é essencial para a manutenção das funções fisiológicas do organismo, sendo o balanço hídrico um instrumento fundamental para a mensuração das entradas e eliminações de fluidos corporais. Em serviços de urgência e emergência, a complexidade assistencial exige registros padronizados, claros e confiáveis, nos quais a equipe de enfermagem desempenha papel central. Este estudo teve como objetivo descrever o processo de desenvolvimento e validação de conteúdo de um formulário institucional de balanço hídrico. Trata-se de uma pesquisa-ação, com abordagem documental e análise qualitativa e quantitativa, realizada em 2025. Participaram da etapa de validação 12 especialistas, entre enfermeiros e médicos atuantes em serviços de urgência e emergência da rede hospitalar pública do Distrito Federal. O estudo foi desenvolvido em três etapas: diagnóstico do problema, elaboração do formulário e validação do instrumento por especialistas. A validação de conteúdo considerou os critérios de clareza, relevância e aplicabilidade, sendo analisada por meio do Índice de Validade de Conteúdo (IVC). Os resultados demonstraram elevada concordância entre os avaliadores, com IVC global superior a 0,95, indicando excelente validade de conteúdo. Conclui-se que o formulário desenvolvido é válido e apresenta potencial para padronizar o registro do balanço hídrico, contribuindo para a qualificação da assistência, a segurança do paciente e o aprimoramento do cuidado de enfermagem em serviços de urgência e emergência.
Palavras-chave: Equilíbrio hidroeletrolítico. Enfermagem em emergência. Pesquisa-ação.
Abstract
The water balance is essential for maintaining the body’s physiological functions, and it is a fundamental tool for measuring the entry and elimination of body fluids. The nursing profession performed a central role in this control, working directly at the edge of beds, making the use of a structured and validated form to support care practice indispensable. This study aims to describe the process of creating and validating an institutional water balance form. It is an action research study, with a documentary approach and qualitative and quantitative analysis, accomplished in 2025, with the participation of 12 professionals, including nurses and physicians from the public hospital network of the Federal District, working in emergency services, with specialization, residency, master’s, or doctoral degrees in the area of urgency and emergency. The study was developed in three phases: diagnosis of the problem, planning with the elaboration of the form and educational material, and implementation through the validation of the instrument. The validation was carried out by specialists, considering the criteria of clarity, relevance, and applicability of the form. The results indicated the suitability of the proposed instrument, with consensus among the assessors regarding its usefulness and potential for standardizing the recording of water balance in clinical practice. It is concluded that the validated form constitutes a relevant tool for quantifying fluid management, contributing to patient safety and enhancing nursing care in emergency services.
Keywords: Water-Electrolyte Balance. Emergency Nursing. Research-Action.
INTRODUÇÃO
O balanço hídrico é a mensuração dos fluidos que entram e saem do organismo humano. Essa avaliação é realizada por meio do registro do volume de todos os líquidos infundidos, como medicamentos administrados, nutrição ofertada, hemocomponentes, entre outros. De forma complementar, os líquidos eliminados pelas vias urinária, digestiva, tegumentar e respiratória também devem ser contabilizados. A partir do cálculo diário do saldo final, os resultados podem indicar um balanço positivo, quando há acúmulo de líquidos superior à eliminação, ou negativo, quando ocorre maior eliminação do que retenção (FIGUEIREDO, 2021).
O equilíbrio hídrico é fundamental para a manutenção da homeostase sistêmica, sendo essencial para o adequado funcionamento celular e para a preservação da saúde do indivíduo. Alterações nesse equilíbrio, especialmente aquelas relacionadas aos distúrbios hidroeletrolíticos decorrentes de patologias, alterações endócrinas ou uso de determinados medicamentos, podem comprometer de forma significativa o desfecho clínico, caracterizando esses indivíduos como pacientes críticos (POTTER & PERRY, 2024).
A mensuração diária do peso corporal e da ingestão hídrica é recomendada, sobretudo em pacientes acometidos por condições clínicas associadas a importantes desequilíbrios hidroeletrolíticos, como insuficiência cardíaca descompensada, desidratação, anasarcados entre outros. A comparação seriada do peso permite identificar ganhos ou perdas hídricas, considerando-se a individualidade de cada paciente, uma vez que o aumento ponderal pode refletir tanto retenção de líquidos quanto a recuperação do estado hídrico basal. O registro rigoroso do volume ingerido e eliminado ao longo de 24 horas, com a comparação entre ingestão e excreção, constitui ferramenta essencial para o direcionamento das condutas clínicas (POTTER & PERRY, 2024).
Nesse contexto, a equipe de enfermagem desempenha papel fundamental no monitoramento e registro do balanço hídrico, fundamentando sua prática em conhecimentos científicos e assistenciais. Essa atuação envolve a identificação de fatores de risco, sinais e sintomas de desequilíbrios hidroeletrolíticos, bem como o planejamento e a implementação de intervenções adequadas. O processo sistemático de avaliação de enfermagem compreende a anamnese, o exame físico e a investigação detalhada da ingestão alimentar, dos líquidos ingeridos, das perdas gastrointestinais, de traumas, medicamentos e terapias administradas, entre outros aspectos, contribuindo para o restabelecimento do equilíbrio hidroeletrolítico e para a segurança do cuidado prestado (POTTER & PERRY, 2024).
Para que o balanço hídrico seja realizado de forma adequada, faz-se necessário o registro fidedigno e preciso das informações no formulário específico, bem como o comprometimento da equipe de enfermagem no controle rigoroso das entradas e saídas de líquidos durante o período de 24 horas. O Parecer Técnico COREN-DF nº 004/2021 estabelece que auxiliares e técnicos de enfermagem podem participar desse processo, desde que sob supervisão e orientação do enfermeiro. Ademais, a padronização do registro do balanço hídrico é essencial para garantir sua compreensão sistematizada, sendo o formulário para registro de balanço hídrico um instrumento que assegura a execução técnica, científica, confiável e de baixo custo desse procedimento (COREN-DF, 2021).
Diante da relevância do balanço hídrico para a tomada de decisão clínica e da necessidade de registros padronizados e confiáveis, especialmente em ambientes de alta complexidade, a presente pesquisa tem como objetivo a criação e validação de um formulário de balanço hídrico, visando contribuir para a melhoria da qualidade da assistência aos pacientes em um serviço de emergência da rede pública hospitalar do Distrito Federal.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Na clínica e prognóstico do paciente crítico o balanço hídrico é essencial. Os distúrbios hidroeletrolíticos estão diretamente relacionados ao aumento da mortalidade e morbidade desse público. Realizar diariamente os registros das mensurações dos líquidos infundidos e excretados é importante para tomada de decisões terapêuticas e assistenciais, pois identifica complicações ou disfunções orgânicas que podem ser prevenidas ou minimizadas. Para realizar esses registros é necessário um profissional capacitado, treinado, que preste assistência aos pacientes durante às 24 horas de internação, e essa atividade é exercida pela equipe de enfermagem, que é coordenada e supervisionada pelo Enfermeiro. Diante da relevância do balanço hídrico para o acompanhamento clínico do paciente, torna-se fundamental compreender os desafios que podem tornar esses registros inadequados na prática assistencial em um serviço de urgência e emergência (COREN-DF, 2019).
A prática da sistematização da assistência de enfermagem em um ambiente dinâmico, com grande rotatividade como em uma sala vermelha, pode ser um desafio para a equipe de enfermagem. Esses ambientes normalmente são caracterizados por elevados níveis de estresse e pressão. Fatores estes que interferem e prejudicam diretamente na assistência, e podem induzir a erros ou retardar o cuidado, e consequentemente podem gerar registros inadequados frequentemente. Nesse contexto, os obstáculos relacionados às anotações inadequadas do balanço hídrico tornam-se ainda mais evidentes em ambientes de alta complexidade e dinamismo, como nos serviços de urgência e emergência (MONTENEGRO et al., 2025).
A padronização dos cuidados de enfermagem nesses serviços ameniza falhas durante os atendimentos, identifica e evita precocemente agravos, riscos, e garante qualidade e segurança na assistência. Porém, a falta dessa padronização, juntamente com a alta demanda, ambiente estressante e a pressão sobre os trabalhos da enfermagem, evidencia falhas na assistência (MONTENEGRO et al., 2025). Diante dessas limitações, destaca-se a importância da criação de instrumentos claros, objetivos e cientificamente fundamentados, capazes de subsidiar a prática clínica.
O instrumento de saúde estruturado e validado para atender especificamente o serviço de urgência e emergência, como um formulário de balanço hídrico visa padronizar o registro das informações, garantindo maior precisão, confiabilidade e sistematização dos dados relacionados à entrada e saída de líquidos, além de subsidiar a tomada de decisão clínica e a continuidade do cuidado, levando em consideração a realidade do serviço. Além disso, validar esse instrumento é determinante para verificar se satisfaz o objetivo proposto. (SILVA et al., 2024).
Neste estudo utilizou-se a validade por conteúdo, que se refere ao nível em que os itens de um instrumento representam, de forma apropriada, o construto que se pretende mensurar, considerando tanto a pertinência quanto à abrangência dos aspectos avaliados. Sua análise envolve etapas que incluem a elaboração do instrumento e a apreciação por especialistas, seguida de uma avaliação quantitativa por meio do Índice de Validade de Conteúdo (IVC). Já a validade relacionada a critério corresponde ao grau de concordância entre os resultados do instrumento avaliado e uma medida de referência amplamente aceita, e a validade de construto refere-se à capacidade do instrumento em medir adequadamente o fenômeno que se propõe avaliar, com base em fundamentos teóricos e evidências científicas (SILVA et al., 2024).
Diante do exposto, evidencia-se que o balanço hídrico constitui uma ferramenta fundamental para o acompanhamento clínico do paciente crítico, especialmente em serviços de urgência e emergência, nos quais a dinâmica assistencial e a complexidade do cuidado impõem desafios adicionais à prática da enfermagem. Nesse cenário, a padronização dos registros por meio de instrumentos estruturados e cientificamente validados mostra-se essencial para qualificar a assistência, promover a segurança do paciente e subsidiar a tomada de decisões clínicas (SILVA et al., 2024). Assim, a criação e validação de um formulário de balanço hídrico adequado à realidade desses serviços reforça a importância de estratégias que fortaleçam a prática baseada em evidências e contribuam para a melhoria contínua do cuidado em saúde
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo do tipo pesquisa-ação, de abordagem documental, com análise qualitativa e quantitativa, desenvolvido a partir da criação e validação de um formulário de Balanço Hídrico, no ano de 2025, destinado a um serviço de emergência da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF).
A pesquisa-ação caracteriza-se pela articulação entre investigação e intervenção, permitindo a identificação de problemas no contexto estudado e o planejamento de ações voltadas à sua resolução, integrando teoria e prática (DENDASCK & CARLA, 2021). Por apresentar abordagem mista, o estudo possibilita a análise de dados objetivos e subjetivos, contribuindo para a compreensão das necessidades do ambiente no qual a pesquisa foi desenvolvida.
A pesquisa contou com a participação de médicos e enfermeiros atuantes nos setores de Urgência e Emergência de três hospitais públicos do Distrito Federal: Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), Hospital Regional do Paranoá (HRPa) e Hospital Regional de Ceilândia (HRC). A escolha dessas instituições deveu-se ao fato de serem campos de prática de residentes de urgência e trauma e disporem de pronto-socorro com atendimento ininterrupto, contemplando diversas especialidades assistenciais.
O estudo foi desenvolvido em etapas. Inicialmente, realizou-se a avaliação do ambiente assistencial, identificando-se a ausência de um formulário padronizado para o registro do balanço hídrico nos serviços de urgência e emergência hospitalares da SES-DF. Em seguida, procedeu-se à análise e ao planejamento da intervenção, por meio de levantamento na literatura científica de formulários de balanço hídrico previamente desenvolvidos, os quais subsidiaram a elaboração do novo instrumento.
Após a construção do formulário, realizou-se o processo de validação de conteúdo. Para essa etapa, foram convidados 12 especialistas, selecionados por amostragem intencional e não probabilística. Os critérios de inclusão foram: ser médico ou enfermeiro, possuir no mínimo um ano de atuação no setor de urgência, emergência e exercer suas atividades em hospital público da rede do Distrito Federal.
O convite aos especialistas foi encaminhado por correio eletrônico, contendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), disponibilizado para leitura e assinatura eletrônica por meio da plataforma Google Forms. Após o aceite, os participantes tiveram acesso ao formulário de balanço hídrico e ao instrumento de validação adaptado destinado à caracterização do perfil profissional dos juízes e à avaliação do instrumento quanto aos aspectos de objetivo, estrutura, apresentação e relevância.
Os dados obtidos na etapa de validação foram tabulados e analisados com o auxílio do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 28. Para a análise da validade de conteúdo, utilizou-se o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), permitindo a avaliação individual dos itens e do instrumento como um todo, por meio da proporção de concordância entre os especialistas.
As etapas subsequentes da pesquisa consistiram na capacitação dos profissionais de enfermagem para a correta mensuração e registro do balanço hídrico, por meio de vídeo educativo ilustrativo, seguido da implementação do formulário nos serviços de urgência e emergência. O formulário será disponibilizado em formato impresso, permitindo o registro sistemático das entradas e saídas de líquidos ao longo de 24 horas. A mensuração será realizada pela equipe de enfermagem em intervalos regulares, com cálculo parcial e total do balanço hídrico efetuado pelo enfermeiro ou médico responsável, possibilitando a tomada de decisões clínicas individualizadas.
ANÁLISE DOS DADOS
Os dados quantitativos desta pesquisa foram convertidos pelo Google Forms em um banco de dados em planilha do software Microsoft Excel e a análise estatística foi realizada por meio do Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 28.0. Utilizou-se frequências absolutas e relativas para a caracterização dos juízes. Neste estudo as variáveis eleitas para investigação sociodemográfica foram: idade, sexo, profissão, titulação, tempo de formado e tempo de atuação na área de emergência.
Tabela 1. Caracterização sociodemográfica dos especialistas

Participaram da etapa de validação 12 juízes especialistas. Observou-se predominância do sexo feminino (n = 9; 75%), enquanto o sexo masculino correspondeu a 25% da amostra (n = 3). A idade dos participantes variou entre 32 e 42 anos, com maior concentração nas faixas etárias de 36 anos (n = 3) e 32, 33 e 35 anos (n = 2 cada), evidenciando um grupo de profissionais adultos, em plena atividade profissional.
Quanto à formação profissional, a maioria dos juízes era da área da Enfermagem (n = 10; 83,3%), seguida da Medicina (n = 2; 16,7%). Em relação à titulação, predominou a especialização (n = 8), havendo ainda profissionais com mestrado e doutorado na área, evidenciando qualificação compatível com o julgamento do instrumento.
No que se refere à área de especialização, todos os participantes possuíam atuação relacionada à urgência e emergência, incluindo interfaces com terapia intensiva, cardiologia, trauma, saúde ocupacional, docência e educação em saúde, demonstrando diversidade de experiências dentro do campo de atuação.
Os juízes especialistas apresentam tempo de formação profissional variado, contemplando tanto profissionais com trajetória mais recente quanto aqueles com vários anos de experiência, o que favorece a combinação de olhares atualizados e vivência consolidada na área da saúde.
Em relação ao tempo de atuação em urgência e emergência, observa-se que todos os participantes possuem experiência prática significativa nesse campo, com atuação prolongada em serviços de emergência hospitalar. Esse dado é particularmente relevante, pois assegura que os juízes não apenas detêm formação teórica, mas também vivência cotidiana no cuidado ao paciente em situação crítica, condição essencial para a avaliação da pertinência, clareza e aplicabilidade do instrumento proposto.
De modo geral, os dados indicam que o instrumento foi avaliado por profissionais qualificados, experientes e atuantes na área de urgência e emergência, conferindo robustez e credibilidade ao processo de validação.
Tabela 2. Validação do formulário de Balanço Hídrico





A validação de conteúdo do formulário de balanço hídrico foi realizada por 12 juízes especialistas atuantes na área de urgência e emergência. Para a análise, utilizou-se o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), considerando a proporção de concordância entre os avaliadores. As respostas “concordo” e “concordo parcialmente” foram classificadas como concordância, conforme recomendado na literatura (MINCOV et al., 2022).
Na análise do IVC por item (IVC-I), observou-se que nove dos dez itens avaliados (90%) apresentaram IVC igual a 1,00, indicando concordância total entre os juízes. Apenas um item apresentou IVC de 0,92, valor que permanece acima do ponto de corte mínimo recomendado (IVC ≥ 0,78) para validação de conteúdo quando há seis ou mais especialistas (LYNN, 1986; POLIT; BECK, 2006). Dessa forma, todos os itens do instrumento foram considerados válidos, não sendo necessária a exclusão de nenhum deles.
Ao analisar o IVC por dimensão, verificou-se que as dimensões objetivo, estrutura e apresentação e relevância apresentaram índices elevados, com valores médios variando entre 0,97 e 1,00, demonstrando elevada concordância dos especialistas quanto à clareza, organização, pertinência e aplicabilidade clínica do formulário.
O IVC global do instrumento (IVC-T), obtido a partir da média dos IVCs dos itens, foi superior a 0,95, evidenciando excelente validade de conteúdo. Esses resultados indicam que o formulário apresenta conteúdo adequado, claro e pertinente para utilização no contexto da assistência em urgência e emergência.
Na questão aberta destinada a comentários e sugestões, os juízes especialistas apresentaram contribuições qualitativas relevantes para o aprimoramento do formulário de balanço hídrico. As sugestões concentraram-se, principalmente, em aspectos relacionados à organização visual, clareza estrutural e padronização dos campos, com o objetivo de favorecer o registro seguro e a adesão da equipe de enfermagem.
Destacaram-se recomendações como a quantificação do volume de fraldas por meio de balança, a utilização de instrumentos padronizados para mensuração de perdas específicas como a Escala de Avaliação Pictórica de Sangramento (PBAC), a inclusão do campo “diagnóstico” na identificação do paciente e o preenchimento prévio dos horários para facilitar o registro contínuo. Além disso, os especialistas sugeriram maior delimitação visual entre seções (sinais vitais, infusões e eliminações), uso de cores mais contrastantes para diferenciar os períodos diurno e noturno, reorganização dos campos em setores claramente identificados e ajustes na nomenclatura de colunas, como a integração da categoria “soluções” às infusões endovenosas e a inclusão da concentração de oxigênio utilizada pelo paciente.
Também foi ressaltada a importância de alinhar o layout do formulário aos modelos já utilizados institucionalmente, especialmente ao prontuário eletrônico, a fim de minimizar rupturas no processo de trabalho e favorecer a adesão da equipe. Todas as sugestões consideradas pertinentes e exequíveis foram analisadas pela equipe pesquisadora e incorporadas à versão final do formulário, resultando em um instrumento com melhor organização visual, maior clareza operacional e maior adequação à prática clínica no contexto da urgência e emergência.
DISCUSSÃO
Os resultados da validação de conteúdo demonstram que o formulário de balanço hídrico desenvolvido apresenta elevado grau de concordância entre os especialistas, evidenciando sua adequação conceitual e prática para o contexto da emergência hospitalar. O IVC global superior a 0,95 reforça a robustez metodológica do instrumento, uma vez que valores acima de 0,90 são considerados indicativos de excelente validade de conteúdo (LYNN, 1986; POLIT & BECK, 2006).
Estudos metodológicos apontam que o uso do IVC constitui uma estratégia amplamente aceita para a validação de instrumentos na área da saúde, por permitir avaliar de forma sistemática a clareza, relevância e representatividade dos itens (Polit & Beck). A literatura recomenda como critério mínimo de aceitabilidade valores de IVC iguais ou superiores a 0,78 quando o número de juízes é maior ou igual a seis, parâmetro que foi plenamente atendido neste estudo.
Resultados semelhantes são descritos em pesquisas de validação de instrumentos de enfermagem, como no estudo de Mori (2010) e em investigações voltadas à construção de formulários e protocolos assistenciais, nos quais a maioria dos itens alcançou IVCs elevados, indicando consenso entre especialistas quanto à pertinência e aplicabilidade clínica. Assim como observado nesses estudos, o presente instrumento demonstrou boa organização estrutural, linguagem clara e alinhamento com a prática profissional.
A elevada concordância observada na dimensão estrutural e apresentação é particularmente relevante, considerando que o balanço hídrico é um instrumento de uso contínuo e frequentemente preenchido em contextos de alta demanda, como os setores de urgência e emergência. Instrumentos com layout inadequado ou linguagem ambígua podem comprometer a qualidade dos registros e, consequentemente, a segurança do paciente. Nesse sentido, a validação positiva desta dimensão sugere que o formulário favorece o preenchimento adequado e a conferência das informações ao final do plantão.
Da mesma forma, a dimensão relevância apresentou altos índices de validade, indicando que os especialistas reconhecem o potencial do instrumento para subsidiar a tomada de decisão clínica e contribuir para o monitoramento eficaz do estado hídrico do paciente. Esse achado converge com outros estudos que destacam a importância de instrumentos padronizados para qualificar o processo de cuidado e fortalecer a sistematização da assistência de enfermagem.
Portanto, os resultados obtidos permitem afirmar que o formulário de balanço hídrico apresenta validade de conteúdo satisfatória, estando apto para ser implementado como instrumento institucional no setor de urgência e emergência. Recomenda-se, como etapa subsequente, a avaliação da aplicabilidade prática e da adesão dos profissionais, a fim de complementar o processo de validação e fortalecer a utilização do instrumento na rotina assistencial.
Além da validade de conteúdo satisfatória, destaca-se que o processo de construção do formulário considerou a realidade assistencial dos serviços de urgência e emergência, caracterizados por elevada demanda, rotatividade de pacientes e necessidade de tomada de decisão rápida. A participação de especialistas com experiência prática nesses cenários contribuiu para que o instrumento fosse desenvolvido de forma contextualizada, favorecendo sua aplicabilidade no cotidiano assistencial. Instrumentos alinhados à prática clínica tendem a apresentar maior adesão por parte da equipe, aspecto essencial para a efetividade do registro do balanço hídrico e para a continuidade do cuidado.
Outro ponto relevante refere-se ao potencial impacto do formulário na segurança do paciente. Registros incompletos ou inconsistentes do balanço hídrico podem comprometer a avaliação clínica, retardar intervenções e favorecer a ocorrência de eventos adversos relacionados a distúrbios hidroeletrolíticos. Nesse sentido, a utilização de um instrumento padronizado e validado pode contribuir para a redução de falhas nos registros, aprimorando a comunicação entre os profissionais de saúde e subsidiando condutas clínicas mais seguras e embasadas.
Cabe destacar que, embora o instrumento tenha apresentado excelentes índices de validade de conteúdo, este estudo apresenta limitações. A validação foi realizada com especialistas de uma única unidade federativa, o que pode restringir a generalização dos resultados para outros contextos institucionais. Além disso, não foi contemplada, nesta etapa, a avaliação da validade clínica e da adesão da equipe de enfermagem durante o uso contínuo do formulário na prática assistencial.
Dessa forma, em estudos futuros realizaremos, após 6 meses de implementação do formulário de balanço hídrico na unidade de emergência, desenvolvemos a etapa que avalia a aplicabilidade do instrumento, bem como sua efetividade na melhoria da qualidade dos registros e na tomada de decisão clínica. A realização de estudos de validação clínica e de análise da adesão dos profissionais poderá complementar o processo de validação, fortalecendo a incorporação do formulário como ferramenta institucional e contribuindo para o avanço das práticas baseadas em evidências na enfermagem.
CONCLUSÃO
O presente estudo permitiu o desenvolvimento e a validação de conteúdo de um formulário institucional de balanço hídrico voltado para a realidade dos serviços de urgência e emergência da rede pública hospitalar do Distrito Federal. O processo metodológico adotado, fundamentado na pesquisa-ação e na participação de juízes especialistas qualificados e atuantes na prática assistencial, resultou em um instrumento claro, organizado, pertinente e aplicável ao contexto clínico.
Os elevados índices de validade de conteúdo, evidenciados pelo Índice de Validade de Conteúdo global superior a 0,95, confirmam que o formulário atende de forma satisfatória ao objetivo proposto, demonstrando consistência teórica e adequação prática. Dessa forma, o instrumento apresenta potencial para padronizar o registro do balanço hídrico, favorecer a comunicação entre os profissionais de saúde e subsidiar a tomada de decisão clínica, especialmente em ambientes de alta complexidade assistencial.
A utilização de um formulário validado pode contribuir significativamente para a qualificação da assistência de enfermagem, promovendo maior segurança do paciente, redução de falhas nos registros e fortalecimento das práticas baseadas em evidências. Além disso, o instrumento configura-se como uma ferramenta de apoio à sistematização da assistência, alinhando-se às normativas profissionais e às demandas dos serviços de urgência e emergência.
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1Residente do Programa de Residência de Urgência e Trauma da FEPECS, Brasília- DF.e-mail: jessica-santos@fepecs.edu.br
2Residente do Programa de Residência de Urgência e Trauma da FEPECS, Brasília- DF. e-mail: raiane-silva@fepecs.edu.br
3Preceptora do Programa de Residência de Urgência e Trauma da FEPECS, Brasília-DF. Especialista em Preceptoria Multiprofissional na área da saúde (ESC/GDF).e-mail: priscila.souza@escs.edu.br.
4Tutora do Programa de Residência de Urgência e Trauma da FEPECS, Brasília-DF. Mestre em Enfermagem em Saúde Pública (USP/SP), Doutora em Saúde pública pela escola de Enfermagem (USP/RP). e-mail: leticia.dorneles@escs.edu.br
