COLONIC INTERPOSITION IN ESOPHAGEAL RECONSTRUCTION AFTER CAUSTIC INGESTION: A NARRATIVE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202602101228
Autor principal: Jade Gomes Ferreira1
Orientador: Soraia Barroso de Almeida2
Resumo
A ingestão de agentes cáusticos representa importante causa de estenose esofágica irreversível, frequentemente demandando reconstrução cirúrgica complexa. Esta revisão narrativa teve como objetivo analisar os desfechos da interposição colônica na reconstrução esofágica pós ingestão cáustica. Foi conduzida revisão da literatura conforme as recomendações do PRISMA, incluindo estudos observacionais, séries de casos e relatos institucionais que avaliaram a interposição colônica nesses casos. Foram extraídos dados referentes ao número de pacientes, segmento colônico utilizado, tempo de seguimento, taxas de fístula, mortalidade, estenose tardia e reoperações. Foram incluídos 16 estudos, totalizando 648 pacientes. O cólon esquerdo foi o segmento mais frequentemente utilizado, seguido do cólon direito e do cólon transverso. As taxas de fístula anastomótica variaram de 0 a 15,7%, enquanto a mortalidade perioperatória manteve-se, em geral, abaixo de 7%. A estenose tardia apresentou médias de 19% no cólon direito, 18% no cólon esquerdo e 4,5% no cólon transverso, associando-se diretamente à necessidade de reintervenção cirúrgica. Conclui-se que a interposição colônica constitui alternativa eficaz para reconstrução esofágica em lesões cáusticas complexas, embora permaneça associada a elevada morbidade. A escolha do segmento deve ser individualizada, baseada na avaliação vascular e na experiência do serviço, sendo necessários estudos comparativos prospectivos para padronização da técnica.
Palavras-chave: ingestão cáustica; reconstrução esofágica, estenose esofágica, interposição colônica
Introdução
A ingestão de agentes cáusticos representa uma das principais causas de estenose esofágica extensa e irreversível, frequentemente demandando reconstrução cirúrgica tardia do trânsito alimentar (JAVED et al., 2012; EZE; EZEMBA, 2014). No Brasil, a intoxicação por componentes exógenos é um acometimento de notificação compulsória, com a ingestão de álcalis contabilizada junto a dos demais produtos químicos. Segundo o SINAN, no Brasil, em 2025, foram realizadas 7134 notificações, sendo 749 por tentativa de autoextermínio (DATASUS/SINAN). Destes, 382 eram do sexo feminino (DATASUS/SINAN). As lesões cáusticas ocorrem quando do contato de substâncias com pH <2 ou > 12 com a mucosa do trato gastrointestinal, contemplando, portanto, ácidos e álcalis (JAVED et al., 2012; EZEMBA et al., 2014). Tais compostos são de fácil acesso e estão amplamente presentes em material de uso doméstico. Esôfago e estômago são as regiões mais afetadas, dado o contato mais prolongado dos componentes com tais vísceras (KNEŽEVIĆ et al., 2007).A interação com o material químico promove inflamação profunda e fibrose transmural, com necrose de liquefação e coagulação do tecido da víscera acometida, com seu comprometimento progressivo, podendo chegar à perfuração do órgão nos casos graves (JAVED et al., 2012; BOUKERROUCHE, 2013). Lesões corrosivas da mucosa esofágica são associadas a mortalidade significativa e complicações à longo prazo, como as estenoses da luz do órgão (EZE; EZEMBA, 2014; ZENG et al., 2019). Nos casos agudos que evoluem com perfuração e nas estenoses refratárias à terapia endoscópica pós cicatrização e fibrose, há a potencial necessidade de abordagem cirúrgica com esofagectomia e reconstituição do trato digestivo, que apresenta elevada complexidade técnica (EZEMBA et al., 2014; ZENG et al., 2019). Embora a esofagogastroplastia seja considerada o método de escolha para substituição esofágica, sua aplicabilidade é limitada em casos de lesão gástrica associada, falha de reconstruções prévias, comprometimento vascular (KNEŽEVIĆ et al., 2007; TIEN et al., 2025) ou necessidade de reconstruções cervicais extensas. Nessas situações, a interposição colônica consolida-se como uma alternativa cirúrgica (BOUKERROUCHE, 2013; VINAY et al., 2024).
Cólon direito, esquerdo e transverso podem ser utilizados para tal fim, tendo, cada um dos segmentos, particularidades anatômicas, variações vasculares e implicações técnicas (ZENG et al., 2019; SAIKRISHNA et al., 2025). Apesar de alternativa amplamente utilizada, a interposição colônica permanece associada a taxas relevantes de morbidade, especialmente fístula anastomótica, estenose tardia e mortalidade perioperatória, sobretudo em reconstruções secundárias ou de resgate (JAVED et al., 2012; SHARMA; PANCHOLI, 2021; NASERI et al., 2024). A literatura disponível é predominantemente composta por séries observacionais heterogêneas, dificultando a comparação objetiva dos resultados e a definição de padrões técnicos consistentes (BRAGHETTO, 2019; JAPANESE STUDY GROUP, 2013; CONTEMPORARY THORACIC SURGERY GROUP, 2020).
Metodologia

Desenho do estudo
Revisão narrativa conduzida de acordo com as recomendações do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses).
Estratégia de busca e seleção
Foram incluídos estudos observacionais (séries de casos, coortes retrospectivas e prospectivas), séries técnicas e relatos institucionais que avaliaram interposição colônica para reconstrução esofágica, com foco predominante ou explícito em lesão por ingestão cáustica. Revisões narrativas isoladas, duplicatas, estudos experimentais e publicações sem dados de desfecho clínico foram excluídos.
Extração de dados
Foram extraídos: autor, ano, desenho do estudo, número de pacientes, segmento colônico utilizado, tempo de seguimento, taxa de fístula anastomótica e mortalidade, estenoses tardias e necessidade de reoperações. Dados não reportados foram descritos como NR.
Resultados
Foram incluídos 16 estudos, totalizando 648 pacientes submetidos à interposição colônica. A maioria dos estudos consistiu em séries retrospectivas e coortes observacionais. O tempo de seguimento variou de 10 a 60 meses. O cólon esquerdo foi o segmento mais frequentemente utilizado, seguido do cólon direito, enquanto o cólon transverso foi empregado principalmente em séries técnicas e reconstruções complexas. As taxas de fístula anastomótica variaram de 0 a 15,7%, enquanto a mortalidade peri-operatória permaneceu geralmente abaixo de 7%, com tendência de redução nos estudos mais recentes. A análise das complicações tardias demonstrou taxas médias de estenose anastomótica de aproximadamente 19% nos estudos com utilização predominante do cólon direito, 18% nos que empregaram o cólon esquerdo e 4,5% naqueles que utilizaram o cólon transverso. Observou-se, ainda, associação direta entre a taxa de estenose anastomótica e a necessidade de reoperações. Estudos com estenose superior a 20% apresentaram taxas de reintervenção superiores a 12%, enquanto séries com estenose inferior a 10% apresentaram reoperações abaixo de 5%.


Discussão
A avaliação dos artigos incluídos no estudo demonstra que a interposição colônica permanece uma estratégia cirúrgica eficaz para reconstrução esofágica em pacientes com história de ingestão de componentes cáusticos que evoluem com necrose gástrica ou que apresentem falha em reconstrução gástrica prévia (JAVED et al., 2012; EZEMBA et al., 2014; ZENG et al., 2019), apesar disso, representa um desafio cirúrgico dada a alta morbidade global associada ao procedimento (50-70%) (JAVED et al., 2012; SHARMA; PANCHOLI, 2021; CONTEMPORARY THORACIC SURGERY GROUP, 2020), principalmente nos quadros em que o esôfago cervical foi completamente comprometido (JAVED et al., 2012; KNEŽEVIĆ et al., 2007; BOUKERROUCHE, 2013). As principais variáveis avaliadas nos estudos foram: ocorrência de fístulas, mortalidade peri-operatória, estenose tardia e necessidade de reoperação.
A análise estratificada por segmento colônico demonstrou maior frequência de fístulas anastomóticas nos estudos que utilizaram o cólon direito (média ≈11,3%), seguida pelo cólon esquerdo (≈11,1%), enquanto o cólon transverso apresentou as menores taxas de complicação (≈4,5%).
O predomínio do uso do cólon esquerdo reflete sua vascularização mais previsível (BOUKERROUCHE, 2013; TIEN et al., 2025), fatores tradicionalmente associados a menor risco de necrose e fístula, entretanto, a ausência da válvula ileocecal implica em mais intenso refluxo de bile ao cólon transposto e, em consonância, mais intensa regurgitação (ZENG et al.,2019; SHARMA; PANCHOLI, 2021). Para ascensão do cólon esquerdo é utilizado o pedículo da artéria cólica esquerda e arcadas marginais.
O cólon direito, embora ofereça maior comprimento e, portanto, menor tensão nas anastomoses, apresenta maior variabilidade anatômica da vascularização (EZE; EZEMBA, 2014; NASERI et al., 2024), o que pode justificar as taxas ligeiramente superiores de complicações em algumas séries. Avalia-se a vascularização obtida pela artéria ileocólica, pelo ramo direito da artéria cólica média e pela artéria cólica direita, caso esteja presente. Dentre as vantagens da transposição do cólon direito estão: menor ocorrência de refluxo dada a presença da válvula ileo-cecal, capacidade cecal de reservatório, proximidade entre os diâmetros esofágico e ileal e maior comprimento, diminuindo a tensão (JAVED et al., 2012). Atualmente, há a possibilidade da abordagem microcirúrgica na transposição do cólon direito e íleo terminal com a realização de reforços vasculares com anastomoses entre pedículos arteriais ileais e artéria tireóidea superior e o plexo venoso ileal ao pedículo da veia tireóidea inferior (BRAGHETTO, 2019; BRAGHETTO; CARDEMIL, 2018). Com os reforços de anastomoses microcirúrgicas, a intenção é a diminuição da ocorrência de necroses do enxerto.
O uso do cólon transverso, descrito principalmente em estudos mais recentes, esteve associado a taxas reduzidas de fístula, mortalidade e estenose, possivelmente relacionadas à menor tensão anastomótica e à incorporação de técnicas adjuvantes, como as anastomoses microvasculares, e como a fixação adicional do enxerto em dois pontos (cervical e em ligamento falciforme) (SAIKRISHNA et al., 2025; BRAGHETTO, 2019), na tentativa de evitar a redundância do órgão, uma complicação tardia dada pelo aumento progressivo do tamanho da víscera, em que há maior probabilidade de ocorrência de disfagia, regurgitação e broncoaspiração resultantes de constrição mecânica.
Nos estudos analisados, séries que relataram taxas de estenose superiores a 20% apresentaram, de forma proporcional, maiores índices de reoperações, frequentemente superiores a 12% (EZEMBA et al., 2014; BICHANGA et al., 2025). Em contrapartida, estudos com estenose inferior a 10% apresentaram necessidade reduzida de reintervenções, geralmente abaixo de 5% (JAPANESE STUDY GROUP, 2013; CONTEMPORARY THORACIC SURGERY GROUP, 2020). Esses achados reforçam o papel central da estenose como principal determinante de falha funcional tardia da reconstrução. A necessidade de reoperação está frequentemente relacionada à refratariedade das estenoses ao tratamento endoscópico, especialmente nos casos de estenoses longas, rígidas ou associadas à isquemia marginal do enxerto. Embora a dilatação endoscópica represente a primeira linha terapêutica, sua eficácia é limitada em estenoses complexas (JAVED et al., 2012; ZENG et al., 2019), levando à indicação de revisão anastomótica, reconstrução parcial ou, em casos extremos, nova substituição esofágica.
A presente revisão apresenta limitações inerentes à natureza e à qualidade dos estudos incluídos. Primeiramente, observa-se acentuada heterogeneidade metodológica entre os trabalhos, com variações nos critérios de inclusão, nas indicações cirúrgicas, nas técnicas empregadas, nas vias de reconstrução e no manejo perioperatório, o que limita a comparabilidade direta dos resultados (KNEŽEVIĆ et al., 2007; ZENG et al., 2019; JAPANESE STUDY GROUP, 2013; CONTEMPORARY THORACIC SURGERY GROUP, 2020).A maioria dos estudos consiste em séries retrospectivas de centro único, com amostras reduzidas e ausência de grupos controle, aumentando o risco de viés de seleção e de relato. Ademais, poucos trabalhos apresentaram estratificação detalhada dos desfechos de acordo com o segmento colônico utilizado, dificultando análises comparativas mais robustas entre cólon direito, esquerdo e transverso.
Conclusão
Observa-se uma tendência temporal de melhora dos resultados pós operatórios, com redução progressiva da mortalidade operatória após 2015, reforçando o papel da centralização dos casos em centros especializados e da padronização do cuidado perioperatório (SAIKRISHNA et al., 2025; BICHANGA et al., 2025; CONTEMPORARY THORACIC SURGERY GROUP, 2020). Contudo, a heterogeneidade metodológica dos estudos e a ausência de ensaios comparativos diretos limitam conclusões definitivas sobre a superioridade de um segmento colônico específico (ZENG et al., 2019; JAPANESE STUDY GROUP, 2013).Apesar da ocorrência global de complicação pós ingestão de componentes cáusticos, não há padrão ouro ou protocolo que guie as reconstruções esofago-gástricas, de maneira que a escolha do procedimento cirúrgico fica a cargo do cirurgião e das condições das vísceras pós procedimento, percebendo-se que o ideal é que o segmento colônico utilizado seja definido após a realização de angiotomografia de abdome e pelve, de maneira a avaliar a vascularização das arcadas mesentéricas e cólicas (JAVED et al.,2012; EZEMBA et al., 2014; BRAGHETTO, 2019) na tentativa de reduzir as complicações isquêmicas.
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1Médica, Residente em Cirurgia Geral pelo HBDF. E-mail: jadegomesf@gmail.com
2Médica pela Universidade Federal de Goiás. Residência Médica em Cirurgia Geral no HRAN. Residência Médica em Cirurgia Videolaparoscopica no HUB E-mail: barrosodealmeida@gmail.com
