TÉCNICAS DE TRATAMENTO UTILIZADAS PELA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL EM CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO

TREATMENT TECHNIQUES USED BY THE MULTIPROFESSIONAL TEAM IN CHILDREN WITH AUTISM SPECTRUM DISORDER

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202602101220


Ananda Keller Costa Nascimento1
Sumaya Medeiros Botelho2
Camila Rego Amorim3
Isnara Teixeira de Britto4
Lorena Couto Lobo5
Maria Nice Dutra de Oliveira6


Resumo

Introdução: O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) está associado a diversos comprometimentos neurocomportamentais, bem como a alterações físicas e funcionais do cérebro, que podem resultar em prejuízos no desenvolvimento motor, da linguagem e do comportamento. A criança com TEA necessita de acompanhamento por uma equipa multidisciplinar, composta por profissionais como fisioterapeuta, psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo, assistente social, terapeuta ocupacional, educador físico e neuropediatra. Para além do tratamento ambulatorial, destaca-se a importância da educação em saúde, com o objetivo de orientar pais e cuidadores quanto ao manejo adequado no ambiente domiciliar, favorecendo melhores resultados terapêuticos. Objetivo: Identificar e analisar as técnicas de tratamento utilizadas pela equipa multiprofissional no acompanhamento de crianças com TEA. Metodologia:  Trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório, que teve como foco as técnicas de tratamento empregadas pela equipa multiprofissional no atendimento a crianças com TEA, buscando compreender as teorias e práticas adotadas. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com profissionais do NUPREJ e da APAE. A análise dos dados foi conduzida por meio da análise de conteúdo temática proposta por Bardin, desenvolvida em três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. Conclusão: Os resultados do estudo permitiram identificar e analisar diversas técnicas de tratamento utilizadas pela equipe multiprofissional no acompanhamento de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), o que evidenciou que a atuação integrada desta equipe contribui significativamente para o desenvolvimento global da criança, promovendo avanços nas habilidades sociais, comunicativas e funcionais, além de impactar positivamente a qualidade de vida dos indivíduos com TEA e de suas famílias.

Palavras-chave: Transtorno do Espectro do Autismo. Equipe multiprofissional. Criança.

1. INTRODUÇÃO

    O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) está associado a um conjunto de comprometimentos neurocomportamentais, bem como a alterações físicas e funcionais do cérebro, que resultam em prejuízos no desenvolvimento motor, da linguagem e do comportamento (MANNING et al., 2021).

    Estima-se que o TEA afete aproximadamente 1 em cada 58 pessoas, apresentando elevada prevalência, sobretudo no sexo masculino, numa proporção de 4:1. A literatura aponta para uma forte base genética, evidenciada desde 1977, a partir de estudos sobre a prevalência do transtorno em gémeos idênticos e fraternos. Investigações estatísticas indicam que a contribuição genética para o desenvolvimento do TEA varia entre 56% e 95% (ARBERAS & RUGGIERI, 2019).

    Crianças com TEA podem apresentar sinais de alterações no desenvolvimento motor entre o nascimento e os três anos de idade. No entanto, muitos pais começam a perceber mudanças a partir dos 12 meses, como diminuição da interação social, desinteresse por determinadas atividades, seletividade alimentar e atraso no desenvolvimento da fala, entre outros sinais. Ressalta-se que algumas crianças podem apresentar desenvolvimento neuropsicomotor típico até cerca dos 12 meses, seguido de regressão e manifestação progressiva dos sinais anteriormente descritos (ARAÚJO, 2019).

    O acompanhamento da criança com TEA deve ser realizado por uma equipa multidisciplinar, composta por fisioterapeuta, psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo, assistente social, terapeuta ocupacional, educador físico e neuropediatra. Para além do tratamento ambulatorial, destaca-se a importância da educação em saúde, com o objetivo de orientar pais e cuidadores quanto ao manejo adequado no ambiente domiciliar, promovendo melhores resultados terapêuticos (JOHNSON et al., 2019).

    A intervenção precoce é fundamental e deve ser iniciada imediatamente após a confirmação do diagnóstico. As terapias envolvem um conjunto de abordagens que visam potenciar o desenvolvimento motor, social e comunicativo da criança, bem como apoiar as funções intelectuais comprometidas, promovendo maior autonomia e melhoria da qualidade de vida (RIBEIRO & PEREIRA, 2021).

    Os fisioterapeutas desempenham um papel relevante na minimização das incapacidades e na promoção do desenvolvimento das habilidades motoras em crianças com TEA, por meio da aplicação de diversas estratégias terapêuticas. O tratamento fisioterapêutico tem como objetivos melhorar a coordenação motora, a força, o equilíbrio e a integração sensorial. As técnicas utilizadas apresentam benefícios significativos, contribuindo para o aprimoramento das habilidades motoras, redução de movimentos estereotipados e prevenção de limitações no desempenho funcional (GAIA & FREITAS, 2022).

    A terapia ocupacional tem como finalidade melhorar a qualidade de vida da criança tanto no contexto escolar quanto no familiar, atuando no planejamento e implementação de intervenções específicas. Este profissional auxilia no desenvolvimento da independência e no fortalecimento das habilidades funcionais das crianças com TEA (GONÇALVES, GUARDIANO & LEÃO, 2019).

    A fonoaudiologia desempenha um papel essencial no desenvolvimento da comunicação interpessoal. No contexto do TEA, contribui para o aprimoramento das competências comunicativas e facilita o processo de aprendizagem. Além disso, destaca-se a importância da consciência fonológica como um componente fundamental para a aprendizagem da leitura e da escrita, funcionando como estímulo prévio para esses processos (SILVA & COELHO, 2021).

    A psicologia possui grande relevância no desenvolvimento pessoal da criança, auxiliando na adaptação a mudanças emocionais, ambientais e físicas. A infância constitui uma fase determinante para a formação do caráter e da educação, influenciando diretamente as características e a forma de relacionamento do indivíduo na vida adulta (LUCCA et al., 2022).

    A motivação para a escolha desta temática surgiu a partir do contacto com crianças com TEA, no qual foram observadas alterações no desenvolvimento motor e da fala, despertando o interesse pela investigação e aprofundamento do conhecimento sobre o tema.

    A relevância social deste estudo reside na possibilidade de demonstrar à sociedade as ações desenvolvidas pela equipa multiprofissional, por meio de diferentes técnicas de estimulação no tratamento da criança com TEA, contribuindo para o fortalecimento de políticas públicas e para a valorização da atuação multidisciplinar na área da saúde.

    Deste modo, o objetivo do presente estudo foi identificar e analisar as técnicas de tratamento utilizadas pela equipa multiprofissional no acompanhamento de crianças com TEA.

    2. METODOLOGIA 

      Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e descritiva. No âmbito da abordagem qualitativa, privilegia-se a compreensão das interpretações, percepções e significados atribuídos pelos sujeitos envolvidos, possibilitando uma análise mais profunda da complexidade e diversidade das experiências humanas. Esse tipo de metodologia permite uma aproximação mais rica e detalhada com o objeto de estudo, favorecendo a identificação de aspetos que, muitas vezes, não são apreendidos por métodos quantitativos.

      O estudo foi desenvolvido em dois locais situados no município de Jequié, no interior do estado da Bahia. O primeiro cenário de coleta de dados foi o Núcleo de Prevenção e Reabilitação à Pessoa Física de Jequié (NUPREJ), vinculado à Secretaria Municipal de Saúde, caracterizado como uma unidade de referência de média complexidade em reabilitação física. O segundo local foi o núcleo de autismo da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), instituição que oferece atendimento médico, fisioterapia, psicologia, assistência social e fonoaudiologia.

      Participaram da pesquisa cinco profissionais de saúde, sendo eles fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e fonoaudiólogos, que atuam no atendimento a crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Os critérios de inclusão abrangeram profissionais dessas áreas que realizavam atendimento a crianças com TEA e que aceitaram participar do estudo. Como critérios de exclusão, foram considerados os profissionais que, embora atuassem com crianças com TEA, possuíam menos de seis meses de experiência na área.

      A coleta de dados ocorreu no período de fevereiro a abril de 2024, por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas de forma remota, através de chamadas de áudio gravadas via aplicativo WhatsApp. O instrumento de coleta foi composto por duas questões abertas, diretamente relacionadas ao tema da pesquisa.

      As entrevistas foram realizadas remotamente devido à dificuldade de conciliar a disponibilidade de horários dos profissionais para encontros presenciais. Ressalta-se que o número reduzido de participantes foi devido, principalmente, à indisponibilidade de alguns profissionais em participar do estudo.

      Os dados obtidos foram tratados e analisados segundo a técnica de análise de conteúdo temática, proposta por Bardin (2011), desenvolvida em três etapas: a pré-análise, caracterizada pela organização do material e leitura flutuante; a fase de exploração do material, que envolve a codificação, extração de trechos significativos e categorização das informações; e a fase de tratamento, inferência e interpretação dos dados, na qual os resultados são sistematizados e analisados de forma crítica.

      A análise dos dados possibilitou a construção de duas categorias temáticas. A primeira refere-se às técnicas utilizadas pelos profissionais de saúde no tratamento de crianças com TEA, subdividida em quatro subcategorias: ABA, PECS ou reabilitação cognitiva; estimulação visual, da linguagem, cognitiva e da interação social; estimulação sensorial e motora; e estimulação por meio da ludicidade. A segunda categoria aborda as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde durante o tratamento de crianças com TEA, também composta por quatro subcategorias: comportamento das crianças; relação com a família e a escola; carência de estudos científicos, políticas públicas e estruturas adequadas; e dificuldades na criação de vínculo com a criança. Para garantir o anonimato, os participantes foram identificados pela letra “E”, seguida do número correspondente à ordem das entrevistas.

      A coleta de dados teve início após a submissão e aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (CEP/UESB), órgão responsável pela regulamentação de pesquisas envolvendo seres humanos, conforme Parecer nº 6.296.894, aprovado em 12 de setembro de 2023.

      3. RESULTADOS E DISCUSSÕES 

        O estudo contou com a participação de cinco profissionais de saúde, sendo um fonoaudiólogo, um terapeuta ocupacional, um psicólogo e dois fisioterapeutas. O tempo de atuação desses profissionais no atendimento a crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) variou entre um e seis anos. Todos possuíam formação complementar na área do TEA, incluindo cursos de capacitação e especialização, e apresentavam uma carga horária semanal média de trabalho com esse público entre 12 e 40 horas.

        A análise das entrevistas semiestruturadas possibilitou a identificação de duas categorias temáticas principais, descritas a seguir.

        Categoria 1: Técnicas utilizadas pelos profissionais de saúde no tratamento de crianças com TEA.

        Esta categoria reúne as principais técnicas terapêuticas empregadas pelos profissionais no cuidado às crianças com TEA.

        Subcategoria  1.1: ABA, PECS ou reabilitação cognitiva.

        Os depoimentos evidenciaram o uso frequente da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) como uma das principais abordagens terapêuticas no tratamento do TEA. Essa metodologia fundamenta-se em princípios científicos voltados à compreensão e modificação do comportamento, com o objetivo de desenvolver habilidades sociais, comunicativas e funcionais, além de reduzir comportamentos inadequados. 

        (E 01) Uso ABA e a depender também da demanda do paciente o PECS […] (E02) Eu utilizo da reabilitação cognitiva associada aos conhecimentos da análise do comportamento aplicada, a ciência Aba, então juntando essas duas áreas o foco está em desenvolver e melhorar as aptidões como memória, concentração, atenção […] (E 03) aplicação do ABA […]

        Os profissionais relataram a utilização da ABA de forma isolada ou associada a outras estratégias, como o Picture Exchange Communication System (PECS) e a reabilitação cognitiva, de acordo com as necessidades individuais de cada criança. A ABA possibilita a ampliação do repertório comportamental, o desenvolvimento da autonomia, das habilidades sociais, do comportamento verbal e do desempenho académico, além da minimização de comportamentos disruptivos (ROSA & ALBRECHT, 2021).

        Estudos apontam que fatores culturais, educacionais e familiares exercem influência direta no desenvolvimento cognitivo de crianças com TEA, e que o estímulo cognitivo adequado contribui para melhorias na memória, atenção, linguagem e aprendizagem, refletindo positivamente na interação social (MARTELETO et al., 2011).

        O PECS destaca-se como um dos sistemas de comunicação alternativa mais utilizados mundialmente no atendimento a crianças com autismo. Baseia-se no uso de imagens selecionadas de acordo com o repertório lexical da criança, não se limitando à substituição da fala, mas incentivando a expressão ativa de desejos e necessidades (SANTOS et al., 2021).

        Subcategoria 1.2:  Estimulação visual, de linguagem, cognitiva e de interação social.

        Os profissionais ressaltaram a importância da estimulação visual, da linguagem, das funções cognitivas e da interação social como pilares fundamentais do desenvolvimento global da criança com TEA. As falas evidenciaram que habilidades básicas, como o contacto visual, são pré-requisitos essenciais para o desenvolvimento de competências mais complexas, como a linguagem verbal e a autonomia nas atividades de vida diária.

        (E 02) É, as funções executivas, partindo do pensamento que existem habilidades que são pré-requisitos para o desenvolvimento de habilidades mais complexas. Um exemplo seria o contato visual, que seria uma habilidade básica, que é um pré-requisito de uma habilidade complexa que seria a linguagem […] então primeiro precisa se estabelecer um contato visual, estimular esse contato visual, para que assim se possa estimular o desenvolvimento da linguagem […] com o intuito de desenvolver a autonomia das atividades de vida diária dessa pessoa, dando suporte também, que é parte da área da psicologia, dando suporte aos aspectos emocionais e estimulando a interação social, que são áreas de comprometimento no TEA, sempre visando o ser em sua totalidade, é…buscando contribuir nas áreas em que aquela pessoa tem maior comprometimento […] (E 03) As condutas utilizadas são: estímulos cognitivos […]

        Crianças com TEA apresentam dificuldades significativas na comunicação, no compartilhamento de interesses e sentimentos, na fixação visual espontânea e na interação em grupo (MAGAGNIN et al., 2019). O desenvolvimento da linguagem constitui um dos domínios mais comprometidos no TEA, podendo envolver prejuízos nos aspectos pragmáticos, semânticos, fonológicos, sintáticos e paralinguísticos, além de alterações como ecolalia, inversão pronominal e dificuldades na manutenção do diálogo (ASSUNÇÃO, 2019).

        Dessa forma, a estimulação sistemática dessas áreas mostra-se essencial para favorecer a comunicação funcional, a interação social e a autonomia da criança.

        Subcategoria 1.3:  Estimulação sensorial e motora.

        Nesta subcategoria, os profissionais enfatizaram a relevância da estimulação sensorial e motora no tratamento de crianças com TEA, destacando a sua contribuição para a participação social e funcional. As intervenções incluem atividades voltadas ao equilíbrio, propriocepção, coordenação motora fina e grossa, força muscular, alongamentos, mobilização articular e treino de marcha.

        (E 03) e sensoriais, treino de marcha com obstáculos, propriocepção, coordenação motora fina e grossa, força muscular, alongamento de membros superiores e membros inferiores, mobilização articular, equilíbrio […] (E 04) Técnica, rapaz, técnica em específico assim, não sei se dá pra nomear como técnica, mas eu trabalho muito com alongamento, principalmente de MMII né, para tentar melhorar a questão da marcha na ponta dos pés […] também tem uma atividade de alinhavar, a gente faz muito para simular o cadarço de passar e amarrar de tampa de garrafa […] mas as principais demandas motoras com meus meninos eram essa parte de alongamento e musculatura, equilíbrio e propriocepção, coordenação motora tanto fina quanto grossa […]

        Alterações no tónus muscular, como a hipotonia, são comuns em crianças com TEA e podem impactar o controle postural e o desenvolvimento funcional. O movimento desempenha um papel essencial na aquisição da independência nas atividades da vida diária e na interação com o ambiente (AZEVEDO & GUSMÃO, 2016).

        A fisioterapia, nesse contexto, atua na minimização de déficits motores e na promoção do aprendizado funcional, utilizando estímulos motores associados a atividades lúdicas e interativas, favorecendo o desenvolvimento cognitivo, a atenção e a memória (GAIA & FREITAS, 2022).

        Subcategoria 1.4: Estimulação através da ludicidade.

        Os profissionais destacaram a ludicidade como um recurso terapêutico fundamental no atendimento a crianças com TEA. O uso de jogos, brinquedos e atividades recreativas favorece a adesão ao tratamento, promove a humanização do cuidado e estimula a participação ativa da criança.

        (E 03) É de suma importância, trazer a ludicidade para o atendimento, pois ajuda a criança aceitar as condutas […] (E 04) Então são fatores bem importantes assim essa questão da diferenciação, você tem que ter uma gama de conhecimento, de preparação e de criatividade e ludicidade para lidar com esses meninos muito grandes […] (E 05) e na criança em específico que seria em cima do brincar né, da educação da escola, desse desempenho escolar, do lazer, do sono, das atividades da vida diária e nesta participação social né, da criança […] 

        Intervenções fisioterapêuticas com abordagem lúdica demonstram maior motivação, prazer e interação social durante as sessões, fortalecendo o vínculo terapêutico e os ganhos funcionais (PIVA, CARDOSO & SCHWARTZ, 2022). 

        O brincar é uma função ocupacional essencial para o desenvolvimento infantil, contribuindo para a aquisição de habilidades sociais, emocionais e cognitivas necessárias para a vida adulta. No contexto do TEA, a ludicidade deve ser estruturada e orientada, com estímulos simples e objetivos claros, favorecendo a autonomia e a integração social (AZEVEDO, 2015).

        Categoria 2: Dificuldades encontradas pelos profissionais de saúde durante o tratamento de crianças com TEA.

        Esta categoria aborda os principais desafios relatados pelos profissionais durante o processo terapêutico.

        Subcategoria 2.1:  O comportamento das crianças.

        Os profissionais relataram que as alterações comportamentais representam uma das maiores dificuldades no atendimento, especialmente em crianças com maior comprometimento comportamental. A variabilidade de comportamentos entre sessões, a agitação, a falta de engajamento e os episódios de hiperfoco foram citados como obstáculos frequentes.

        (E 01) Dificuldades eu acho que é uma pergunta muito ampla, a gente tem dificuldade, por exemplo, diretamente com o paciente, se ele for um paciente que tem uma alteração significativa no comportamento é uma dificuldade muito grande […] a questão comportamental, então aí se a gente não tiver ajuda né, do psicólogo com a terapia, com a psicoterapia com a demanda aí a gente vai arrastando […] (E 04) Por exemplo, a mesma criança, cada atendimento ela era uma criança diferente, entendeu? Às vezes mais agitada, às vezes mais tranquila, às vezes menos empenhada, às vezes mais empenhada, às vezes ela aprendeu uma coisa nova e tá com o hiperfoco naquilo, às vezes ela desaprendeu uma coisa que ela tinha […]

        Pessoas com TEA apresentam prejuízos precoces na interação social e na comunicação, o que impacta diretamente o desenvolvimento das habilidades sociocomunicativas (MOTA, VIEIRA & NUERNBERG, 2020). A compreensão dessas características é fundamental para a escolha de estratégias terapêuticas adequadas, visando o desenvolvimento das potencialidades do indivíduo e a promoção da sua autonomia (SOUSA et al., 2020).

        Subcategoria 2.2: Relação com a família e a escola

        Os profissionais destacaram a dificuldade enfrentada quando não há continuidade dos estímulos terapêuticos no ambiente familiar e escolar, bem como nos casos de resistência ou negação do diagnóstico por parte da família. 

        (E 05) Bom, é o mais preocupante no trabalho é quando não tem uma parceira né, enquanto terapia, família e escola […] contudo o trabalho com a família é bem importante e às vezes a gente não consegue fazer com que a família entenda na participação dela nas outras horas que ela passa com a criança em casa […] Então a dificuldade maior que eu vejo é nesse sentido, quando não há uma continuidade, quando não há uma compreensão e uma parceria de a família tá continuando esse trabalho em casa [….]

        O diagnóstico do TEA impacta significativamente a dinâmica familiar, influenciando aspetos emocionais, financeiros e sociais. A falta de informação e compreensão sobre o transtorno pode dificultar a adaptação da família à nova realidade, reforçando a necessidade de apoio e orientação contínuos (BARROS et al., 2022).

        A participação ativa da família é essencial para o progresso terapêutico, uma vez que a criança passa a maior parte do tempo em casa. O envolvimento familiar está associado a melhores prognósticos, maior desenvolvimento de habilidades sociais e comunicativas e maior qualidade de vida (ARRUDA et al., 2018).

        Subcategoria 2.3: Carência de estudos científicos, de políticas públicas e de estruturas adequadas.

        Os entrevistados relataram dificuldades relacionadas à escassez de estudos científicos, à insuficiência de políticas públicas e à falta de recursos materiais e estruturais, especialmente no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS).

        (E 02) E ser terapeuta infantil dentro do SUS, traz as dificuldades pela falta de políticas públicas, pela falta de recursos muitas vezes, pela falta de estrutura para o desenvolvimento do trabalho, então esses são os desafios que eu encontro e que mais percebo dentro da minha atuação […] (E 05) Além da psicomotricidade eu tenho a formação em integração sensorial com tudo para eu atuar enquanto integração sensorial de Aires eu não consigo fazer, executar esse meu trabalho no NUPREJ por conta que precisa de equipamentos suspensos […] E quanto a material, a estrutura também, às vezes é precária né porque é um serviço novo, só tem um ano de construção, então a gente ainda está aguardando materiais, mais materiais pra gente tá executando a nossa, o nosso papel […] 

        A ausência de dados precisos sobre a prevalência do TEA no Brasil dificulta o planejamento de políticas públicas eficazes e a organização de serviços adequados para essa população (LEAL, 2022). Embora haja avanços recentes, o país ainda enfrenta desafios significativos na implementação de políticas públicas voltadas ao TEA (NICOLETTI & HONDA, 2020).

        Subcategoria 2.4: Criação de vínculo com a criança.

        A criação de vínculo terapêutico foi apontada como um desafio importante, especialmente devido às dificuldades de comunicação, interação social e sensibilidade sensorial características do TEA. O estabelecimento de uma relação de confiança pode demandar mais tempo e estratégias específicas.

        (E 04) A criação de vínculo é muito diferente né, criar vínculos com crianças é uma coisa meio complexa, às vezes é muito rápido, as vezes não, mas se tratando do autismo, principalmente se for uma criança que tem como características o comprometimento na interação social isso se torna muito mais difícil, então assim você vai passar mais de um mês e não consegue criar vínculo com esse menino. Então esse é um ponto né, a questão da criação de vínculo […] 

        Um vínculo sólido entre terapeuta e criança é essencial para a eficácia do tratamento e para a melhoria da qualidade de vida do indivíduo com TEA (MARQUES & ARRUDA, 2007). A construção de uma aliança terapêutica positiva está associada à empatia, à flexibilidade do terapeuta e à adaptação do atendimento às necessidades da criança, favorecendo maior envolvimento e adesão ao tratamento (CARVALHO, FIORINI & RAMIRES, 2015).

        4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

          Os resultados deste estudo permitiram identificar e analisar as principais técnicas de tratamento utilizadas pela equipe multiprofissional no acompanhamento de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Entre as estratégias empregadas destacam-se a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), o uso do Picture Exchange Communication System (PECS), a reabilitação cognitiva, as estimulações sensorial, motora, cognitiva, de linguagem e de interação social, bem como as intervenções mediadas pela ludicidade.

          A análise dessas técnicas evidenciou que a atuação integrada de diferentes profissionais contribui de forma significativa para o desenvolvimento de habilidades sociais, comunicativas, cognitivas e adaptativas, favorecendo avanços na linguagem expressiva e receptiva, na autonomia, no desempenho escolar e nas atividades da vida diária. Dessa forma, a intervenção multiprofissional mostrou-se essencial para promover o desenvolvimento global da criança e ampliar a sua participação social.

          Além disso, os achados reforçam que o tratamento não se restringe ao contexto terapêutico, sendo fundamental a participação ativa da família no processo de cuidado. A continuidade das estratégias e técnicas no ambiente domiciliar potencializa os efeitos das intervenções realizadas pela equipa multiprofissional, contribuindo para melhores resultados e para a melhoria da qualidade de vida das crianças com TEA e de seus familiares.

          REFERÊNCIAS

          ARAÚJO, Liubiana A. et al. Manual de orientação: transtornos do espectro do autismo. Sociedade Brasileira de Pediatria-Departamento de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento. n. 5, 2019. p. 1-24. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/Ped._Desenvolvimento_-_21775b-MO_- _Transtorno_do_Espectro_do_Autismo.pdf.. Acesso em: 17 jun. 2020.

          ARBERAS, Claudia; RUGGIERI, Víctor. Autismo: aspectos genéticos y biológicos. Medicina (Buenos Aires), v. 79, n. 1, p. 16-21, 2019.

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          1Graduação em Fisioterapia, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
          2Docente do Departamento de Saúde I, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
          3Docente do Departamento de Saúde I, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
          4Docente do Departamento de Saúde I, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
          5Docente do Departamento de Saúde I, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
          6Docente do Departamento de Saúde I, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB