PANORAMA DA GESTÃO HOSPITALAR DURANTE A COVID-19 E SUA EVOLUÇÃO NOS SETORES PÚBLICO E PRIVADO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602101050


Cleiton Luis Maldaner1


RESUMO

O advento da crise sanitária global, denominada COVID-19, impôs aos sistemas de saúde uma pressão operacional sem precedentes, exigindo respostas rápidas e adaptações estruturais profundas. O presente artigo investiga as nuances da administração hospitalar durante o período pandêmico, traçando um comparativo entre as realidades enfrentadas pelas instituições públicas e privadas. A análise foca nas estratégias de contingência adotadas para mitigar a escassez de recursos, a sobrecarga das equipes e as incertezas logísticas. Utilizou-se a revisão bibliográfica como método para compilar e interpretar as evidências disponíveis na literatura recente sobre a matéria. A hipótese trabalhada sugere que, embora ambos os setores tenham enfrentado o mesmo inimigo biológico, as capacidades de resposta foram moldadas por diferentes níveis de autonomia administrativa e flexibilidade orçamentária. Os resultados apontam que a liderança ágil e a incorporação tecnológica foram determinantes para a manutenção dos serviços assistenciais básicos, independentemente da natureza jurídica da instituição (pública ou privada). O legado desse período reside, portanto, na necessidade de fortalecer a integração entre os sistemas e modernizar os processos de gestão para enfrentar futuras emergências.

Palavras-chave: Gestão Hospitalar. Pandemia COVID-19. Saúde Pública. Saúde Suplementar. Estratégias de Enfrentamento.

ABSTRACT

The advent of the global health crisis known as COVID-19 placed unprecedented operational pressure on healthcare systems, demanding rapid responses and profound structural adaptations. This article investigates the nuances of hospital administration during the pandemic period, drawing a comparison between the realities faced by public and private institutions. The analysis focuses on the contingency strategies adopted to mitigate resource shortages, staff overload, and logistical uncertainties. A literature review was used as the method to compile and interpret the available evidence from recent studies on the topic. The working hypothesis suggests that, although both sectors faced the same biological enemy, their response capacities were shaped by different levels of administrative autonomy and budgetary flexibility. The results indicate that agile leadership and technological incorporation were crucial for maintaining basic care services, regardless of the institution’s legal nature (public or private). The legacy of this period, therefore, lies in the need to strengthen integration between systems and modernize management processes to confront future emergencies.

Keywords: Hospital Management. COVID-19 Pandemic. Public Health. Private Health. Coping Strategies.

1. Introdução

A emergência sanitária deflagrada pelo novo coronavírus testou os limites da resiliência das organizações de saúde em escala mundial. O cenário de incertezas, marcado pela rápida disseminação do vírus e pela gravidade dos casos clínicos, obrigou gestores a tomarem decisões complexas em tempo recorde. O objeto deste estudo é a análise das repercussões desse período turbulento sobre a administração hospitalar, observando como diferentes modelos de gestão reagiram às demandas emergenciais.

No que tange à questão norteadora, busca-se compreender: quais foram as divergências e convergências nas estratégias adotadas pelos hospitais públicos e privados para contornar o colapso iminente do atendimento? A importância da discussão reside na oportunidade de extrair lições que possam aprimorar a capacidade de resposta do sistema de saúde como um todo diante de futuras crises.

A hipótese inicial indica que a rigidez burocrática do setor público e a autonomia financeira do setor privado geraram velocidades de reação distintas, embora os desafios macroestruturais fossem compartilhados. Acredita-se que a pandemia funcionou como um catalisador para a revisão de processos obsoletos e para a valorização da gestão de crise.

O objetivo geral do trabalho é mapear as dificuldades operacionais, financeiras e humanas enfrentadas, bem como as soluções gerenciais implementadas. Pretende-se examinar desde a aquisição de insumos até a gestão de recursos humanos, destacando o papel das lideranças na condução das equipes.

Para a fundamentação deste artigo, optou-se pela metodologia de revisão bibliográfica, reunindo estudos publicados entre 2021 e 2025 que documentam as experiências vividas no front hospitalar. O texto estrutura-se abordando primeiramente o impacto inicial e as carências materiais, seguindo para a comparação entre os setores e finalizando com a análise das estratégias de liderança e inovação.

2. O Impacto Inicial e as Dificuldades Operacionais

O cenário pandêmico revelou fragilidades latentes na infraestrutura de saúde, expondo gestores a um ambiente de extrema insegurança e escassez. De acordo com Gomes e Sousa (2021), as principais barreiras incluíram o medo generalizado entre os profissionais, a dificuldade na obtenção de materiais básicos e a falta de conhecimento técnico sobre a nova doença. A complexidade inerente à atividade hospitalar foi exacerbada pela baixa densidade tecnológica de algumas unidades e pela desmotivação das equipes, submetidas a uma carga física e emocional extenuante diante do elevado número de óbitos.

A superlotação das unidades ocorreu em um intervalo de tempo exíguo, pressionando a capacidade instalada ao limite. Segundo relatam Oliveira et al. (2025), a falta de medicamentos, insumos e equipamentos médicos foi uma constante, agravada pela inexistência de protocolos clínicos consolidados no início do surto. Os recursos financeiros previamente orçados mostraram-se insuficientes para cobrir as novas necessidades, e a indisponibilidade de testes diagnósticos em larga escala dificultou a triagem e o manejo adequado dos pacientes que buscavam internamento.

Diante da imprevisibilidade dos acontecimentos, o mundo precisou reavaliar suas práticas assistenciais e administrativas. Para Gomes e Sousa (2021), a criação de estratégias ágeis tornou-se imperativa, envolvendo a revisão completa dos fluxos de atendimento e a capacitação emergencial das equipes. A adaptação não se restringiu aos aspectos físicos, mas exigiu também suporte psicológico para os colaboradores, que precisavam manter o aprimoramento contínuo mesmo sob pressão extrema.

A necessidade de mudanças estruturais para garantir a segurança biológica dos pacientes e funcionários foi um dos pontos críticos da gestão. Segundo Gois et al. (2021), os líderes hospitalares enfrentaram o desafio de realizar adequações quase diárias nos processos, em resposta à dinâmica de propagação viral. O gerenciamento de recursos humanos tornou-se uma tarefa hercúlea, com a necessidade de cobrir os frequentes afastamentos por adoecimento da própria força de trabalho, exigindo treinamentos constantes para os novos integrantes.

A busca por soluções envolveu um esforço de realocação orçamentária e captação de novos fundos. Conforme descrevem Oliveira et al. (2025), a gestão hospitalar precisou ser criativa para ampliar o número de leitos, adquirir Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e investir em informática em saúde. O redesenho estratégico foi fundamental, obrigando os administradores a buscarem parceiros comerciais alternativos e a ajustarem a utilização da capacidade instalada para atender à demanda explosiva.

3. Divergências e Convergências entre os Setores Público e Privado

As instituições financiadas pelo erário enfrentaram obstáculos adicionais decorrentes de problemas históricos de gestão e financiamento. Em sua análise, Rocha e Silva (2025) apontam que os hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) sofreram com a falta de coordenação federal e com a politização das medidas sanitárias. A pressão sobre os gestores públicos foi imensa, pois precisaram articular ações entre diferentes esferas governamentais e reestruturar serviços com verbas limitadas, lidando com um legado de subfinanciamento que agravou a crise.

Em contrapartida, a dinâmica de aquisição de insumos evidenciou a disparidade na agilidade administrativa entre os sistemas. Sobre essa questão, Oliveira et al. (2025) explicam que, enquanto os gestores privados possuíam flexibilidade para realizar compras estratégicas imediatas, os administradores públicos permaneciam atados a processos licitatórios e legislações específicas. Embora existissem mecanismos de dispensa emergencial, a burocracia estatal muitas vezes retardou a chegada de materiais críticos às unidades de saúde pública.

A autonomia decisória conferiu ao setor privado uma vantagem competitiva na velocidade de adaptação. Na visão de Rocha e Silva (2025), observou-se que hospitais particulares conseguiram contratar pessoal e investir em tecnologia com maior rapidez. Todavia, esses estabelecimentos não ficaram imunes aos gargalos logísticos globais e à escassez de suprimentos, precisando também revisar seus procedimentos assistenciais e firmar compromissos de emergência para manter a operabilidade.

Apesar das diferenças operacionais, ambos os setores convergiram em algumas soluções táticas, como a expansão de leitos e o uso de ferramentas remotas. Ainda segundo Rocha e Silva (2025), enquanto a iniciativa privada focou na eficiência logística, o setor público priorizou a universalidade do acesso e a integração com a atenção primária. O legado desse período ressalta a importância de uma maior colaboração entre as esferas pública e privada, visando um sistema de saúde mais integrado e tecnologicamente moderno.

A cooperação interinstitucional revelou-se uma estratégia vital para evitar o colapso total da rede de assistência. Nesse sentido, Santos et al. (2025) reforçam que a colaboração entre hospitais públicos e privados permitiu a redistribuição de pacientes, otimizando a ocupação de leitos. A capacidade de adaptação variou, com o setor privado demonstrando maior facilidade na alocação de recursos, enquanto o público lidava com as amarras burocráticas, mas a união de esforços foi essencial para ampliar o alcance dos serviços hospitalares.

4. Liderança, Enfermagem e Estratégias de Enfrentamento

O papel dos administradores foi decisivo para mediar os conflitos e implementar as mudanças necessárias em tempo hábil. Analisando o cenário, Gois et al. (2021) enfatizam que a liderança precisou agir com precisão no remanejamento de horários e na contratação temporária, mantendo uma comunicação clara e assertiva. Em um contexto de transformações rápidas, a avaliação contínua dos processos e a tomada de decisão consciente tornaram-se competências indispensáveis para a governança hospitalar.

A enfermagem, em particular, assumiu um protagonismo gerencial na linha de frente do combate à pandemia. Os autores Rebello et al. (2024) descrevem a atuação dos enfermeiros gestores no planejamento de hospitais de campanha e na reestruturação de unidades gerais. A conversão de espaços não clínicos em áreas de atendimento e a reconfiguração de leitos exigiram um rearranjo completo da infraestrutura, liderado por profissionais que precisaram revisar fluxos e elaborar novos protocolos de segurança.

A gestão de pessoas no âmbito da enfermagem enfrentou o desafio do esgotamento profissional e da sobrecarga de trabalho. Nesse aspecto, Rebello et al. (2024) observam que muitos contratados temporários acumulavam vínculos, o que levava à interrupção precoce dos contratos. Para mitigar esses efeitos, os gestores investiram em educação continuada e na promoção do diálogo, buscando criar um ambiente de aprendizado significativo que garantisse a segurança tanto dos pacientes quanto da equipe assistencial.

A incorporação de tecnologias digitais consolidou-se como uma ferramenta estratégica para a manutenção dos cuidados. Como indicam Santos et al. (2025), a telemedicina foi fundamental para reduzir a exposição ao vírus e monitorar pacientes à distância. Além disso, a implementação de sistemas informatizados para o gerenciamento de leitos e para a comunicação interna otimizou o uso dos recursos hospitalares, permitindo uma resposta mais coordenada às demandas flutuantes da pandemia.

Por fim, a humanização do atendimento e a resposta rápida às intercorrências exigiram inovações nos processos de trabalho. Em seu estudo, Rebello et al. (2024) citam a implementação de Times de Resposta Rápida (TRR) e a adaptação dos planos de comunicação com familiares como medidas cruciais. A impossibilidade de visitas presenciais forçou a criação de novos canais de contato, demonstrando que a gestão eficaz precisou equilibrar a excelência técnica com a sensibilidade humana.

5. Considerações Finais

A investigação realizada evidencia que a pandemia de COVID-19 funcionou como um divisor de águas para a gestão hospitalar, expondo tanto as vulnerabilidades quanto a capacidade de adaptação das instituições. A crise exigiu uma reinvenção das práticas administrativas, forçando a quebra de paradigmas e a aceleração de processos decisórios que, em tempos normais, levariam anos para serem implementados.

Observa-se que, a despeito das diferenças estruturais e financeiras, os setores público e privado compartilharam a necessidade de inovar. A autonomia do setor privado permitiu respostas mais ágeis, mas o setor público demonstrou a importância da capilaridade e do acesso universal. A colaboração entre ambos aponta para um futuro em que a integração pode ser a chave para a sustentabilidade do sistema.

Em suma, o legado deixado por este período desafiador é a certeza de que a gestão em saúde precisa ser flexível, tecnológica e, acima de tudo, humana. A preparação para futuras emergências dependerá do investimento contínuo na capacitação das lideranças e na modernização das infraestruturas, garantindo que os hospitais sejam ambientes seguros e eficientes para profissionais e pacientes.

6. Referências Bibliográficas

Gois, E. A. d. S., Silva, G. A. M., Pereira, S. C., Barja, P. R., & Viriato, A. (2021). Liderança e novos desafios da gestão hospitalar diante da pandemia de COVID-19. Revista Univap, 27(55). Disponível em https://revista.univap.br/index.php/revistaunivap/article/view/2590/1685

Gomes, R. N. F., & Sousa, M. N. A. d. (2021). Gestão hospitalar em tempo de pandemia: dificuldades e estratégias de enfrentamento. Bioethics Archives, Management and Health, 1(1), 89-101. Disponível em https://www.biamah.com.br/index.php/biomah/article/view/8/8

Oliveira, D. C. d., Oliveira, C. G. C., & Oliveira Junior, D. C. d. (2025). O impacto da pandemia da COVID-19 na gestão hospitalar. Revista Políticas Públicas & Cidades, 14(2), e1686-e1686. Disponível em https://journalppc.com/RPPC/article/view/1686/1010

Rebello, P. D., Duarte, S. D. C. M., Araújo, J. L. D., Baixinho, C. L., Costa, A., & Silva, M.M. D. (2024). Análise qualitativa sobre a atuação e as experiências dos enfermeiros na gestão hospitalar frente à COVID-19. Ciência & Saúde Coletiva, 29, e05052024. Disponível em https://www.scielosp.org/pdf/csc/2024.v29n8/e05052024/pt

Rocha, S. H. D. d. N., Silva, J. d. L. L. R. d. (2025). A pandemia da Covid-19 e sua repercussão na gestão hospitalar: uma análise comparativa entre a gestão pública e privada no Brasil. Revista foco, 18(12), e10869-e10869. Disponível em https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/10869/7643

Santos, O. J. d., Souza, C. B. d., Ambrozim, H. L. B. P., Pinto, J. B., Santos, M. D. d, & Santos, S. M. A. V. (2025). Estratégias e impactos da gestão hospitalar durante a COVID-19: perspectivas para o futuro. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, 11(2), 2114-2120. Disponível em https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/18258/10537


 1Bacharel em Farmácia. Mestrando em Gestão de Saúde com Concentração em Gestão de Serviços de Saúde pela Must University. E-mail: cleitonmaldaner28310@student.mustedu.com