EVENTOS ADVERSOS PÓS VACINA: COVID–19 (SARS COV-2)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602080110


William Ernesto Zevallos Pollito1
Profª Drª. Diala Alves de Sousa2


RESUMO

A pandemia de COVID-19 gerou um cenário mundial de medo e incertezas, exigindo respostas rápidas dos sistemas de saúde. Para conter a disseminação do SARS-CoV-2, diversos países, em conjunto com empresas e instituições científicas, aceleraram o desenvolvimento de vacinas. Assim, imunizantes como Coronavac®, Pfizer®, AstraZeneca® e Moderna® foram disponibilizados em tempo recorde e demonstraram alta eficácia na prevenção de casos graves e óbitos. Apesar dos benefícios, foram registrados eventos adversos pós-vacinação. Este artigo, baseado em revisão bibliográfica, descreve as principais complicações atribuídas às vacinas contra a COVID-19. A maioria dos efeitos é leve e autolimitada, destacando-se dor e edema no local de aplicação, febre, cefaleia, mialgia e erupções cutâneas. Entretanto, há relatos de eventos graves, embora raros, classificados conforme os sistemas atingidos. No sistema cardiovascular, observaram-se síndrome coronariana aguda, como infarto e angina, além de insuficiência cardíaca, miocardite e pericardite. No sistema neurológico, foram identificadas convulsões, paralisia de Bell, síndrome de Guillain-Barré, trombose do seio venoso cerebral, encefalomielite disseminada aguda e polineuropatias desmielinizantes. No sistema hematológico, destacam-se fenômenos trombóticos, incluindo síndrome trombótica trombocitopênica e embolia pulmonar, mais frequentemente associados à vacina AstraZeneca®, embora não de forma exclusiva. Os estudos demonstram que tais complicações apresentam incidência muito baixa e não comprometem a segurança do esquema vacinal. Portanto, reforça-se que os benefícios da vacinação superam amplamente os riscos, sendo medida essencial para reduzir hospitalizações, mortes e controlar a pandemia.

Palavras-chave:  COVID-19. Pericardite. Miocardite. Síndrome de Guillain-Barré. Tromboembolismo.

ABSTRACT

The COVID-19 pandemic generated a global scenario of fear and uncertainty, demanding rapid responses from healthcare systems. To contain the spread of SARS-CoV-2, several countries, in conjunction with companies and scientific institutions, accelerated the development of vaccines. Thus, immunizations such as Coronavac®, Pfizer®, AstraZeneca®, and Moderna® were made available in record time and demonstrated high efficacy in preventing severe cases and deaths. Despite the benefits, adverse events following vaccination have been recorded. This article, based on a literature review, describes the main complications attributed to COVID-19 vaccines. Most effects are mild and self-limiting, including pain and edema at the injection site, fever, headache, myalgia, and skin rashes. However, there are reports of serious, though rare, events, classified according to the systems affected. In the cardiovascular system, acute coronary syndrome, such as myocardial infarction and angina, as well as heart failure, myocarditis, and pericarditis, have been observed. In the neurological system, seizures, Bell’s palsy, Guillain-Barré syndrome, cerebral venous sinus thrombosis, acute disseminated encephalomyelitis, and demyelinating polyneuropathies have been identified. In the hematological system, thrombotic phenomena stand out, including thrombotic thrombocytopenic syndrome and pulmonary embolism, most frequently associated with the AstraZeneca® vaccine, although not exclusively. Studies demonstrate that such complications have a very low incidence and do not compromise the safety of the vaccination schedule. Therefore, it is reinforced that the benefits of vaccination far outweigh the risks, being an essential measure to reduce hospitalizations, deaths, and control the pandemic.

Keywords: COVID-19. Pericarditis. Myocarditis. Guillain-Barré Syndrome. Thromboembolism.

1 INTRODUÇÃO

A pandemia de COVID-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2, resultou em elevados índices de morbimortalidade em escala global. Diante da urgência sanitária, governos, indústrias farmacêuticas e instituições científicas mobilizaram esforços para o desenvolvimento rápido de vacinas capazes de controlar a disseminação do vírus. Graças aos avanços tecnológicos e à cooperação internacional, diversos imunizantes foram produzidos em tempo recorde, avaliados em etapas rigorosas de pesquisa clínica e autorizados para uso emergencial, tornando-se essenciais para a redução de casos graves e óbitos.

Nesse contexto, torna-se relevante investigar o perfil de segurança dessas vacinas e identificar os eventos adversos mais comuns e aqueles considerados graves. A compreensão desses efeitos contribui para estratégias de vigilância, prevenção e manejo adequado de complicações pós-vacinação, reforçando a segurança dos programas imunizatórios.

Este estudo tem como objetivo analisar os principais eventos adversos associados à vacinação contra a COVID-19. Para isso, realiza-se uma revisão bibliográfica baseada em artigos científicos e dados publicados internacionalmente, desde o início das campanhas de imunização até o período atual.

Trata-se de uma pesquisa retrospectiva que enumera os eventos relatados após a administração das vacinas contra a COVID-19, considerando sua frequência, gravidade e riscos associados, conforme critérios clínicos já estabelecidos. Os resultados visam subsidiaro conhecimento científico e a tomada de decisões em saúde pública, sempre reafirmando a importância da vacinação como principal medida de controle da pandemia.

2 REVISÃODELITERATURA

 VACINADOCOVID-19

Após a pandemia que acometeu o mundo, originada na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China, a principal hipótese apontou para uma origem zoonótica, envolvendo coronavírus semelhantes encontrados em morcegos infectados e, possivelmente, um hospedeiro intermediário, como o pangolim, antes da transmissão ao ser humano. A doença espalhou-se rapidamente pelo mundo, caracterizando-se por uma síndrome gripal cujo agente etiológico é um coronavírus, altamente contagioso e potencialmente mortal, com principal via de transmissão respiratória.

Esse vírus gerou medo, ansiedade, angústia, insegurança e pânico generalizado, tornando necessárias medidas de isolamento, confinamento, proteção e higiene. Diante desse cenário dramático, com mortes rápidas e inesperadas de familiares e conhecidos, iniciou-se uma intensa busca por vacinas capazes de oferecer proteção individual e coletiva e conter a disseminação do vírus. Grandes indústrias farmacêuticas, então, iniciaram uma verdadeira corrida contra o tempo, trabalhando continuamente no desenvolvimento de imunizantes. A primeira vacina contra a COVID-19 foi a Sputnik V, desenvolvida pelo Centro Gamaleya, na Rússia. No Brasil, a primeira vacina aplicada foi a CoronaVac®, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a empresa chinesa Sinovac.

 EFEITOSADVERSOSDAVACINACOVID-19

Com o avanço da vacinação e o passar de aproximadamente cinco anos desde o início da pandemia, diversas complicações e efeitos colaterais começaram a ser descritos, inclusive alguns potencialmente fatais. Em julho de 2021, a Anvisa emitiu comunicado sobre a ocorrênciade casosdemiocardite(inflamação do músculocardíaco)e pericardite(inflamação do pericárdio) após o uso de vacinas de plataforma de RNA mensageiro (mRNA), como Pfizer® e Moderna®, inicialmente relatados nos Estados Unidos.(1)

Esses eventos adversos continuaram sendo estudados em vários países. No Brasil, em 2021, médicos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo avaliaram 137 casos de eventos pós-vacinação contra a COVID 19:34 (28,8%) foram classificados com o graves; 80 (58,4%) relacionados à AstraZeneca®, 28 (20,4%) à CoronaVac®, 27 (19,7%) à Pfizer® e 2 (1,5%) à Janssen®. Observou-se que 84,7% dos casos ocorreram após a primeira dose; 91,5% se iniciaram até 6 horas após a aplicação, com predominância do sexo feminino superior a 60%.(2)

Entre os eventos associados à AstraZeneca®, 34 casos (42,5%) apresentaram manifestações vasculares (plaquetopenia, eventos trombóticos); 28 (35%) neurológicas (neurites, paresias, parestesias, síndrome de Guillain-Barré – SGB); e 18 (22,5%) cutâneas (urticária, angioedema, prurido). Na CoronaVac®, 60,8% dos casos foram manifestações cutâneas, como urticária, angioedema ou prurido isolado (um caso deanafilaxia), além detrês diagnósticos de SGB. Na Pfizer®, 10 casos (64%) cursaram com manifestações neurológicas, 8 (29,6%) cutâneas, 7 (25,9%) vasculares e 2 (7,4%) com pericardite em adultos jovens do sexo masculino, todos com boa evolução. Na Janssen®, 2 casos envolveram eventos vasculares (plaquetopenia com trombose). (2)

Eventos supostamente atribuíveis à vacinação ou imunização (ESAVI) são definidos como qualquer ocorrência médica indesejada, não intencional ou achado laboratorial anormal após a vacinação, sem que necessariamente exista relação causal comprovada com umavacina ou outro imunobiológico (como imunoglobulinas e soros heterólogos). (2)

Já os eventos adversos pós vacinação (EAPV) podem resultar de diversos fatores e são classificados em: relacionados ao imunobiológico em si; relacionados aos demaisconstituintes da vacina; relacionados às características do paciente; relacionados ao ato da aplicação; ou relacionados às condições de armazenamento e manipulação da vacina. (2)

Após a administração das vacinas contra a COVID-19, podem ocorrer eventos considerados “esperados”, semelhantes aos de outras vacinas, caracterizados por febre, cefaleia, mialgia e adinamia, geralmente autolimitados em 24 a 48 horas, com ou sem uso de analgésicos comuns. (2)

 PesquisassobreoseventosadversosdavacinacontraoCOVID-19

No estado de Minas Gerais, um grupo coordenado pela Dra. Roberta Barros da Silva publicou, em outubro de 2021, na Revista de Saúde Pública, estudo sobre “Eventos adversos pós-vacinaçãocontraSARS-CoV-2(COVID-19)noestadodeMinasGerais”,analisando

7.305 casos de EAPV entre 20 de janeiro e 5 de março de 2021, relacionados às vacinas AstraZeneca® e CoronaVac®. Calculou-se a taxa de incidência para cada 100 mil doses aplicadas. A ocorrência de EAPV foi considerada frequente (TI: 777,12), porém apenas 3% foram classificados com o graves (TI:20,85), e 4,71 evoluíram para óbito (TI: 8,19 óbitos por 100 mil doses). Entre esses óbitos, 84,4% foram atribuídos a condições pré-existentes e não às vacinas. Entre os EAPV não graves, 1,11% decorreram de erros de imunização (TI: 8,62 EI por 100 mil doses). (3)

Do total de notificações, 43,6% ocorreram em pessoas entre 18 e 35 anos, predominando o sexo feminino (83,4%). O intervalo médio entre a vacinação e o início dos sintomas foi de seis dias. Em relação aos eventos adversos graves (EAG), a maioria (60,7%) acometeu indivíduos com 65 anos ou mais, também com predominância feminina (65,3%), com início de sintomas em média oito dias depois a vacina. Foram notificados 77 óbitos, em 89,6% dos casos em pessoas com 65 anos ou mais e, em 57,1%, em mulheres; 84,4% foram atribuídos a condições pré-existentes, não relacionadas à vacinação. (3)

A maioria dos óbitos ocorreu em residentes de instituições de longa permanência para idosos, com comorbidades importantes, como adenocarcinoma de próstata, doença pulmonar obstrutiva crônica, neoplasias malignas, diabetes, insuficiência cardíaca congestiva, hipertensão e doença renal terminal. As causas de morte foram descritas como septicemia, parada cardíaca, acidente vascular encefálico, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca congestiva, infecções bacterianas, infecção do trato urinário e hipertensão secundária a doenças endócrinas. (3)

Nos casos de erros de imunização, 43,2% ocorreram em pessoas entre 18 e 35 anos,em sua maioria mulheres (80,2%), e 8,6% foram classificados como EI com evento adverso (TI: 0,74 por100 mil doses). Os EAPV são classificados em: eventos adversos graves (EAG), que exigem hospitalização, representam risco de morte, causam disfunção significativa, incapacidade permanente, anomalia congênita ou óbito; e eventos adversos não graves (EANG), que não se enquadram nesses critérios. (3) Os erros de imunização são eventos decorrentes de manuseio, prescrição ou administração inadequados.

No mesmo período, foi realizado estudo sobre complicações tromboembólicas associadas às vacinas para COVID-19. Smadja et al. avaliaram a ocorrência de tromboembolismo venoso (TEV) e tromboembolismo arterial (TEA) em vacinados contra COVID-19, utilizando o banco VigiBase, da OMS. Entre 13 de dezembro de 2020 e 16 de março de 2021 (94dias), dentre 361.734.967 pessoas vacinadas, ocorreram 2.169 eventos trombóticos (795 venosos e 1.374 arteriais): 1.194 com Pfizer®, 333 com Moderna® e 642 com AstraZeneca®. A taxa de notificação de TEV e TEA foi de 0,21 (IC 95%: 0,19–0,22) eventos trombóticos por milhão de vacinados/dia; para TEV, 0,075 (IC 95%: 0,07–0,08) e, para TEA, 0,13 (IC95%: 0,120,14) por milhão de vacinados/dia. No Brasil, a taxa foi de 0,89 eventos para cada 100 mil doses, abaixo da esperada na população geral, mantendo favorável a relação risco-benefício das vacinas. (4)

Casos raros de plaquetopenia também foram relatados e, apesar do balanço ainda favorável, alguns países europeus passaram a não recomendar a vacina AstraZeneca® para mulheres abaixo de 55 ou 60 anos. A hipótese para a associação entre TEV em sítios atípicos (veias cerebrais e esplâncnicas) e trombocitopenia é uma resposta imune contra o fator 4 plaquetário, levando a ativação e consumo plaquetário acentuados, de forma semelhante à trombocitopenia induzida por heparina, em indivíduos sem exposição prévia a heparinas. Nessas situações, o dímero-D costuma estar muito elevado, com fibrinogênio normal. As tromboses ocorreram entre 4 e 24 dias após a vacinação, predominantemente em mulheres de 20 a 50 anos, com quadro clínico grave e mortalidade superior a 50% em alguns relatos. (4)

Em geral, o número de eventos trombóticos graves associados à AstraZeneca® variou de 5,5 a 7,6 por milhão de vacinados. Modelos matemáticos estimaram que o risco de trombose diminui com a idade: de 1,9 por 100 mil em vacinados entre 20 e 29 anos, caindo para 0,4 por 100 mil acima de 80 anos. (4) Até abril de 2021, 7,98 milhões de doses da Janssen® haviam sido aplicadas, com 15 casos confirmados de síndrome trombótica trombocitopênica (STT), principalmente em mulheres com menos de 50 anos. (4)

Deve-se suspeitar de STT em pacientes com eventos tromboembólicos associados à plaquetopenia (<150.000/mm³) até 28 dias após a vacinação. No manejo clínico, recomenda- se evitar heparinas, optando-se por anticoagulantes orais de ação direta ou fondaparinux. Nos casos graves, pode-se usar imunoglobulina humana intravenosa; o uso de corticoides pode ser considerado, especialmente quando há atraso diagnóstico. (4)

Em novembro de 2023, Cullen et al. publicaram, em revista de saúde pública, análise sobre a segurança das vacinas contra COVID-19, com foco em taxas de incidência de eventos adversos em estudo realizado na Escócia. As taxas de incidência (IR) no período pré- pandêmico variaram de 0,4 casos por 100.000 pessoas-ano para neuromielite óptica a 478,4 casos por 100.000 para insuficiência renal aguda. Na população pandêmica, as IR variaram a partir de 0,3 casos por 100.000 pessoas-ano para síndrome coronariana aguda. Todas as IR de eventos adversos de interesse especial (AESI) variaram conforme idade e sexo. (5)

Dez AESI (como síndrome coronariana aguda, infarto agudo do miocárdio, angina, insuficiência cardíaca, esclerose múltipla, polineuropatias, insuficiência respiratória, artrite reumatoide, convulsões e vasculites) apresentaram IR pandêmica menores do que no período pré-pandêmicoemgeral.Emcontrapartida,encefalomielitedisseminadaaguda,mielite transversa, trombose venosa profunda e embolia pulmonar apresentaram IR pandêmica mais elevada. (5)

Em 2023, Phillips e colaboradores, por meio da Rede Global de Dados de Vacinas (GVDN), realizaram estudo multinacional com 197 milhões de pessoas, avaliando internações e atendimentos em pronto-socorro estratificados por idade e sexo, comparando períodos pré e pandêmicos e utilizando taxas de incidência. Encontraram, no período pré-pandêmico, convulsões generalizadas como AESI neurológica mais comum, enquanto a encefalomielite disseminada aguda foi a menos frequente. Entre os eventos trombóticos, a embolia pulmonar foi a mais comum, com incidência basal de miocardite variando entre 1,6 e 7,76 por 100.000 pessoas. (6)

Em 1º de outubro de 2023, o Journal of Clinical and Experimental Dentistry publicou relato de caso de polineuropatia axonal sensitiva distal assimétrica, predominante em membro inferiordireito,degrau moderado,ocorrida após aterceiradoseda vacina Moderna® contra a COVID-19. (7)

Sabe-se que as vacinas contra a COVID-19 frequentemente causam efeitos colaterais leves, como dor e inchaço no local da injeção, cefaleia, febre e mialgias. Contudo, complicações mais graves também vêm sendo descritas, incluindo eventos neurológicos como paralisia de Bell, síndrome de Guillain-Barré, mielite transversa, trombose do seio venoso cerebral, encefalomielite disseminada aguda, polineuropatia desmielinizante aguda e reativação de herpes-zóster. (7)

Em 2024, a revista Vaccine publicou estudo de coorte observacional sobre eventos adversos de interesse especial (EAE) após vacinação contra a COVID-19 em 10 centros de oito países, comparando 13 desfechos neurológicos, hematológicos e cardíacos. Os riscos foram avaliados por razões observadas versus esperadas (OE), com IC 95%, priorizandosinais de segurança com limite inferior do IC (LBCI) > 1,5. (8)

Participaram 99.068.901 indivíduos vacinados. No total, foram administradas 183.559.462 doses de BNT 162b2, 36.178.442 de mRNA-1273 e 23.093.399 de ChAdOx1. Os períodos de risco após esquemas homólogos somaram 23.168.335 pessoas-ano de acompanhamento. Razões OE com LBCI > 1,5 foram observadas para síndrome de Guillain- Barré (2,49; IC 95%: 2,15–2,87) e trombose de seio venoso cerebral (3,23; IC 95%: 2,51– 4,09) após a primeira dose de ChAdOx1. A encefalomielite disseminada aguda apresentou razão OE de 3,78 (IC95%:1,52–7,78) após a primeira dose de mRNA-1273. As razões OE para miocardite e pericardite após BNT162b2, mRNA1273 e ChAdOx1 também aumentaram significativamente, com LBCI > 1,5. (8)

Em fevereiro de 2024, a Associação Paulista de Medicina (APM) publicou síntese baseada em evidências sobre efetividade e segurança das vacinas contra a COVID-19 em crianças e adolescentes. Em um conjunto de estudos envolvendo 13 milhões de participantes, os principais eventos adversos observados foram dor no local da aplicação, cefaleia, febre e discreta ocorrência de miocardite, em média 1,8 casos por milhão. (9)

Em 2024, estudo global com 99 milhões de pessoas de Austrália, Argentina, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Nova Zelândia e Escócia identificou algumas complicações raras associadas a vacinas de mRNA, incluindo distúrbios neurológicos e inflamação da medulaespinhal.(10) Pesquisadores observaram associações entre ou sode Pfizer®,Moderna® e AstraZeneca® e raros efeitos como miocardite (inflamação do miocárdio), pericardite (inflamação do pericárdio), síndrome de Guillain-Barré e trombose de seio venoso cerebral, sobretudo com AstraZeneca®, sempre ressaltando a raridade desses eventos.(10)

Novos efeitos colaterais raros, como encefalomielite disseminada aguda e mielite transversa, além de trombose venosa profunda e embolia pulmonar, também apresentaram maior incidência em contexto pandêmico. (10) Estudo de setembro de 2024 demonstrou que pericardite e miocardite pós-vacinação, principalmente após a segunda dose de vacinas de mRNA, em geral têm evolução favorável, embora alguns casos exijam terapia intensiva e possam ser fatais. (11)

Esse estudo comparou miocardites e pericardites relacionadas à vacinação comaquelas de outras etiologias, mostrando que as pós-vacina são mais raras e apresentam menos complicações. (11)

Em junho de 2025, a Associação Americana para o Avanço da Ciência publicou análise de artigos sobre COVID-19 e eventos adversos pós-vacina. Em 2024, pesquisadoresda Universidade da Califórnia detectaram níveis elevados de autoanticorpos em pessoas após infecção por SARS-CoV-2. Em 2021, na Nature, Aaron Ring e Akiko Iwasaki, de Yale, relataram autoanticorpos em pacientes com COVID-19 aguda, com alvo no sistema imunológico e no cérebro; posteriormente, Susan Cheng e Justyna Fert-Bober descreveram, no Journal of Translational Medicine, que esses anticorpos podem persistir por até seismeses. (12)

Pruss e colaboradores descreveram autoanticorpos que atacam neurônios e outras células cerebraisem parte dos pacientes. Pesquisa dores da North western University relataram ativação persistente de subpopulações de células T em complicações neurológicas pós-COVID-19, sugerindo resposta imune aberrante ou possível persistência viral. (12)

Outro foco de investigação na COVID longa são microcoágulos sanguíneos. Resia Pretorius, da Universidade de Stellenbosch, na Áfricado Sul, publico uevidências de coágulos microscópicos persistentes após a infecção, que poderiam comprometer o fornecimento de oxigênio e explicar sintomas como névoa mental. Pretorius e colegas estudam métodos diagnósticos e terapêuticos para essa microcoagulação. (12)

Segundo a autora, alguns pacientes também referem sintomas crônicos após a vacinação, semelhantes à COVID longa, incluindo confusão mental e trombose venosa profunda. A causa da coagulação rara, porém grave associada às vacinas AstraZeneca® e Johnson & Johnson® ainda é desconhecida, mas há hipótese de que todas as vacinas possam, raramente, desencadear microcoagulação discreta, geralmente assintomática e autolimitada.(12)

William Murphy, imunologista da Universidade da Califórnia, argumenta que não se deve ignorar eventos adversos, e propôs, em 2021, no New England Journal of Medicine, que um mecanismo autoimune desencadeado pela proteína Spike poderia explicar sintomas de COVID longa e alguns efeitos colaterais raros das vacinas. (12)

De forma geral, esta revisão bibliográfica mostra que os eventos adversos das vacinas para prevenção da COVID-19 se concentram, em sua maioria, em efeitos leves, e que as complicações graves – sobretudo neurológicas, cardiovasculares e hematológicas – são raras, embora possam ser potencialmente fatais. Estudos indicam, ainda, que o risco de tais complicações é maior na própria infecção por COVID-19 do que na vacinação, e que, quando relacionadas ao imunizante, tendem a ter evolução mais rápida e favorável, como no caso das miocardites e pericardites. Observa-se também que muitos óbitos ocorreram em pacientescom comorbidades avançadas, frequentemente institucionalizados.

Assim, conclui-se que, embora existam eventos indesejáveis associados às vacinas contra a COVID-19, a sua incidência é inferior à das complicações próprias da doença, mantendo-se as vacinas como instrumentos fundamentais e necessários para a prevenção, redução de hospitalizações e óbitos.

3 METODOLOGIA

A metodologia utilizada neste estudo consiste na avaliação criteriosa de diferentes estudos e artigos publicados desde o início da aplicação das vacinas contra a COVID-19 (SARS-CoV-2) até as pesquisas mais recentes. Foram analisados os indicadores, desfechos e resultados apresentados em cada trabalho, permitindo a comparação entre eles e a formulação de conclusões e observações fundamentadas.

Trata-se de um estudo retrospectivo e de análise documental, no qual os achados são confrontados com parâmetros de normalidade e com dados de referência, tendo como principal objetivo identificar padrões, possíveis fatores de risco e a ocorrência de eventos adversos relacionados à vacinação.

4 RESULTADOS

1. Foi demonstrado que existem eventos adversos pós-vacinação contra a COVID-19. Eles podem ser:

  • Leves ou esperados, como febre, cefaleia, mialgia e adinamia, com início entre 24 e 48 horas após a aplicação, apresentando rápida resolução.
  • Eventos adversos graves (EAG), que devido à sua severidade podem evoluir para óbito, tais como infarto agudo do miocárdio, pericardite, miocardite, parada cardiorrespiratória, acidente vascular cerebral (AVC), eventos tromboembólicos arteriais e venosos e síndrome de Guillain-Barré.

2. A maioria dos EAG relatados está associada às vacinas de nova plataforma tecnológica, como mRNA (Pfizer® e Moderna®) e vetores virais (AstraZeneca® e Janssen®).

3. Os principais sistemas acometidos nos eventos adversos de maior gravidade são:

  • Sistema cardiovascular
  • Sistema neurológico
  • Sistema hematológico

4. As vacinas de mRNA (Pfizer® e Moderna®) apresentam maior frequência de eventos cardíacos e neurológicos. Entre os mais reportados:

  • Cardíacos: síndrome coronariana aguda, infarto do miocárdio, angina, insuficiência cardíaca, pericardite e miocardite.
  • Neurológicos: síndrome de Guillain-Barré, paralisia de Bell, mielite transversa, encefalomielite disseminada aguda, polineuropatias periféricas, convulsões e vasculites.

5. As vacinas de vetorviral (AstraZeneca® e Janssen®) apresentam maior incidência de eventos hematológicos,como:

  • Trombo em bolismo venoso (TEV) 
  • Trombo em bolismo arterial(TEA)
  • Trombo sedo seio venoso cerebral
  • Plaquetopenia

Além disso, a AstraZeneca® também foi associada a alguns casos de encefalomielite disseminada aguda.

6. Até abril de 2021, após a aplicação de 7,98 milhões de doses da Janssen®, foram confirmados 15 casos de Síndrome Trombocitopênica Trombótica (STT), configurandoevento raro.

7. A maioria dos óbitos relacionados a eventos adversos ocorreu em idosos com comorbidades importantes, principalmente residentes em instituições de longa permanência.

8. Os eventos trombóticos graves associados à AstraZeneca® variaram entre 5,5 e 7,6 por milhão de vacinados. O risco diminui com a idade:

  • 1,9/100mil entre 20–29 anos
  • 0,4/100mil acima de 80 anos

9. Estudos sugerem que todas as vacinas podem, raramente, desencadear microcoágulos, geralmente assintomáticos e autolimitados.

10. Conforme os estudos revisados, os eventos adversos graves são considerados estatisticamente raros e muito menos frequentes do que as complicações decorrentes da infecção pela COVID-19.

11. A suspensão ou restrição da AstraZeneca® para mulheres jovens em alguns países ocorreu devido à associação com TEV em sítios venosos atípicos e trombocitopenia, atribuídos a uma reação imunológica contra o fator plaquetário 4, resultando em intensa ativação e consumo de plaquetas.

5 DISCUSSÃO

As vacinas contra a COVID-19 foram desenvolvidas em um tempo recorde, pois foram produzidas em menos de 10 meses, sem que fossem realizados testes em animais e sem seguir integralmente as metodologias tradicionalmente estabelecidas para esse tipo de vacina. Como exemplo comparativo, a vacina contra a caxumba, que foi a mais rápida desenvolvida antes da pandemia, levou mais de 5 anos para ser testada e então liberada para uso em seres humanos, seguindo todo o processo metodológico adequado.

Além disso, a forma comoforam produzidas vacinas como aPfizer®, a AstraZeneca® e a Janssen®, baseadas em RNA mensageiro, utiliza uma tecnologia nova, da qual ainda não se sabe com precisão todos os efeitos que poderão ocorrer a longo prazo.

Da mesma forma, os estudos vêm sendo realizados a partir de grupos de pacientes selecionados, e ainda não se conhecem os efeitos reais sobre o total da população, considerando que muitas pessoas não procuraram atendimento hospitalar ou buscaram serviços privados, além de casos em que o óbito ocorreu em domicílio e pode não ter sido contabilizado estatisticamente.

Os resultados observados até o momento podem indicar confiabilidade e segurançadas vacinas, pois os eventos adversos pós-aplicação registrados são estatisticamente inexpressivos e, portanto, não representam perigo significativo, já que a maioria dessas complicações se resolve ao longo do tempo.

Observa-se que a vacina AstraZeneca® pode atingir locais mais inusuais, produzindo TEV em veias esplâncnicas e veias cerebrais.

A CoronaVac®, ao apresentar cerca de 50% de cobertura, mostra-se a mais inócua, pois foi produzida com tecnologia tradicional, não utilizando RNA mensageiro.

Portanto, vivencia-se um dilema: muitos eventos adversos ainda estão sendo descobertos e, mesmo que se assegure proteção contra a COVID-19, será necessário aguardar alguns anos para se ter plena certeza sobre todos os efeitos relacionados às vacinas.

6 CONCLUSÃO

A análise realizada demonstra que, apesar de a vacinação contra a COVID-19 ter sido desenvolvida em caráter emergencial e com uso de tecnologias inovadoras, como os imunizantes de mRNA e vetores virais, o conjunto de evidências científicas publicadas desde 2020 até os estudos mais recentes aponta para um perfil de segurança amplamente favorável. Os eventos adversos pós-vacinação existem, podendo variar desde reações leves e autolimitadas até complicações graves, mas estes últimos se mantêm raros quando comparados ao número total de doses administradas globalmente.

Os dados encontrados mostram que os principais sistemas acometidos nos eventos gravessãoos cardiovasculares,os neurológicos e oshematológicos,especialmenteassociados às plataformas de mRNA e de vetor viral. Ainda assim, mesmo essas reações rarasapresentam incidência muito inferior às complicações decorrentes da própria infecção pelo SARS-CoV-2, que demonstrou potencial muito maior de causar miocardites, tromboses, sequelas neurológicas e até morte. Além disso, grande parte dos casos graves ocorreu em indivíduos com comorbidades prévias importantes, o que reforça a necessidade de avaliação clínica individualizada, mas não compromete a recomendação universal da vacinação.

Outro aspecto relevante é que muitos dos eventos identificados tiveram boa evolução clínicaquando manejados adequadamente, como no caso demiocardite, pericarditeealgumas síndromes neurológicas, reforçando a importância da vigilância contínua, do diagnóstico precoce e do acompanhamento pós-vacinação. Estudos internacionais em larga escala mostram, ainda, que a relação risco-benefício permanece amplamente favorável às vacinas, independentemente da plataforma utilizada.

Portanto, conclui-sequeas vacinas contraaCOVID-19 continuam sendo instrumentos essenciais para a proteção individual e coletiva, reduzindo significativamente hospitalizações, formas graves da doença e mortalidade.

REFERÊNCIAS

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1Médico Cirurgião; Especialista em Ginecologia e Obstetrícia, UNIMES; Especialista em Ultrassom GinecológicaeObstétrica,FATESA;EspecialistaemMedicinadoTrabalho,IBCMED;DiplomadoemPediatria Tropical Internacional, ISCIII.
²Enfermeira; Especialista em Terapia Intensiva, UVA-CE; Especialista em Docência do Ensino Superior, FAK-
CE;EspecialistaemSaúdedaFamília,UVA-CE;EspecialistaemQualidadeeSegurançanoCuidadoaoPaciente, Instituto Sírio Libanês-SP, Mestre em Terapia Intensiva, IBRATI-SP; Doutora em Terapia Intensiva, SORRATI -SP;DocentedaUNIFAMEC,CRATO–CE;DocentedoCentrodeEnsinoemSaúde -SP.