REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202602081306
Renilson Ferreira Martins
Orientador: Prof. Dr. Mario Thadeu Leme de Barros Filho
RESUMO
O envelhecimento é uma fase do ciclo vital, entendido como processo contínuo e gradual de alterações naturais que tem o seu início na idade adulta. É uma fase marcada por muitas mudanças, seja na rotina, no corpo ou na mentalidade. O envelhecimento tem despertado olhares atenciosos. A percepção do fenômeno nos leva a considerar a longevidade devido aos avanços tecnológicos, na área da saúde e conquistas da medicina. Este artigo tem como objetivo analisar de forma reflexiva o processo de luto por envelhecimento, e como as mudanças reais e esperadas podem afetar no comportamento dos idosos, levando em consideração a genética, a economia e o ambiente em que vive com suas experiências de vida. Sendo o envelhecimento um processo de perdas, um caminhar para finitude, com mortes simbólicas de sonhos e projetos. Para delimitar, no entanto, o tema faz-se necessário, antes de tudo, responder a questão: O impacto das perdas simbólicas e reais que ocorrem no cotidiano intensifica o processo de luto? Para pesquisa buscamos os artigos científicos em língua portuguesa, com alguma relevância com o tema proposto. Os artigos analisados buscam analisar como é percebido o envelhecimento e qual a compreensão simbólica da morte dos sonhos e projetos, nesse processo de construção de significados.
Palavras-chave: envelhecimento, luto, perdas simbólicas.
ABSTRACT
Aging is a phase of the life cycle, understood as a continuous and gradual process of natural changes that begins in adulthood. It is a phase marked by many changes, whether in routine, body, or mentality. Aging has aroused attentive eyes. The perception of the phenomenon leads us to consider longevity due to technological advances, in the area of health and medical achievements. This article aims to reflectively analyze the process of grieving aging, and how real and expected changes can affect the behavior of the elderly, taking into account genetics, economics and the environment in which they live with their life experiences. Aging is a process of loss, a journey towards finitude, with symbolic deaths of dreams and projects. To delimit, however, the theme is necessary, first of all, to answer the question: Does the impact of symbolic and real losses that occur in daily life intensify the grieving process? For research, we searched for scientific articles in Portuguese, with some relevance to the proposed theme. The analyzed articles seek to analyze how aging is perceived and what is the symbolic understanding of the death of dreams and projects, in this process of construction of meanings.
Keywords: aging, mourning, symbolic losses.
Introdução
No atual contexto em que vivemos, o tema envelhecimento vem sendo muito discutido e abordado na atual conjuntura, devido ao aumento da expectativa de vida. O nosso intuito além de investigar o impacto das perdas simbólicas nesse processo normativo, deseja compreender como acontecem essas perdas e como a sociedade responde a esse anseio urgente.
Falar do envelhecimento é algo complexo, por ser gradativo e englobar aprendizagens, desenvolvimento e amadurecimento. A literatura diz ser um processo natural com representações biopsicossociais, podendo culminar em diversas perdas físicas, sociais e cognitivas. Com isso, se faz necessário uma intensa elaboração emocional, visando uma adaptação saudável às mudanças para obtenção de uma qualidade de vida.
Ao fim dos estudos, estamos apresentando este trabalho de síntese. Tentando escrever sobre a tríade: o envelhecimento, as perdas simbólicas e o luto. Em relação ao envelhecimento as autoras Kreuz & Franco (2017), observando dados estatísticos, de países em desenvolvimento e desenvolvidos, constataram que a população idosa é compreendida como aquela constituída por pessoas com 60 a 65 anos.
As pesquisas apontam o crescente número de pessoas em processo de envelhecimento com base em pesquisas recentes sobre a longevidade. Para tanto, envelhecer é um fato comprovado. Segundo Silva (2007), é possível perceber a velhice no contexto das mudanças biológicas esperadas, porém não define na sua totalidade.
Desde o começo queremos desenvolver uma reflexão acerca do envelhecimento e das perdas. Qual seria o impacto do luto nessas pessoas? Como é percebida as perdas simbólicas nesse processo? Uma rede de apoio sólida diminuiria o impacto?
Para responder ao questionário, é importante ressaltar que a velhice pode ser compreendida como um movimento que acontece de “fora para dentro”, em alguns momentos não é reconhecida pela própria pessoa de imediato, ela é algo do externo, tanto que os psicanalistas falam do “susto ao espelho” como um momento de surpresa e não reconhecimento frente a própria imagem (Cezar & Col.,2022).
Sob este prisma, entendemos ser uma tarefa complexa, conceituar a velhice, pois envolve fatores biológicos, emocionais, existenciais, socioculturais como também um autoconceito relativo ao ser e sentir-se velho. O fator complicador é a subjetividade atrelada a fatores do ponto de vista socioeconômico, demográfico e epidemiológico (Kreuz & Franco, 2017).
Dentro da reflexão levamos em consideração a velhice e suas perdas cotidianas, reforçando que as diferentes perdas e modificações corporais associadas ao envelhecimento podem acarretar um processo de “desconhecimento de si”, uma quebra no mundo presumido, quando visto de forma negativa, no contrário, quando assumimos esse processo natural de perdas e percebemos as marcas deixadas, possibilita uma perspectiva menos idealizada do eu, o que ajudará no trabalho de luto (Cezar & Col., 2022).
Queremos afirmar com isso, quando não assumimos o processo de envelhecimento como algo natural e esperado, poderá ser um complicador do luto, entendido não só por morte, mas um processo de elaboração de uma perda significativa. A perda pode ser entendida como uma situação importante da vida, ou um adoecimento, uma realidade concreta e simbólica.
Esta apresentação narrativa de literatura é organizada em três partes, ou melhor, em três tópicos:
Na primeira parte pretende observar o processo de envelhecimento normativo, entendido como aquele repleto de mudanças esperadas. Algumas autoras descrevem como uma fase marcada por perdas significativas. Portanto, analisaremos alguns conceitos básicos: envelhecer, envelhecimento… para tanto estudaremos as mudanças inerentes e marcantes na vida do ser humano, podendo ser mudanças físicas, psicológicas e sociais.
O envelhecimento, é a última etapa do ciclo vital, uma fase de vivência de perdas significativas que ocupam lugar de compreensão de finitude. Em paralelo, um movimento contrário, de ressignificação e reinvenção afirmando ser possível prazer, conquistas e realizações de sonhos, com planos futuros na construção subjetiva.
Cezar & Col. (2022), compreendem esse processo inserido num contexto cultural, relacionado com a ideia de sabedoria e confronto com a morte, do outro lado pode ser compreendida como uma série de processos decorrentes do modo como é percebida essa fase de envelhecimento e suas implicações simbólicas.
A segunda e terceira parte apresentam as perdas simbólicas e o processo de luto. As perdas significativas confrontam o sujeito “envelhecido” despertando reconhecimento dos limites e fraquezas. Este reconhecimento pode suscitar mecanismos de enfrentamentos, reforçando a necessidade de estabelecimento de laços sociais.
Em relação ao processo de luto, pode-se entender como algo dinâmico, uma reação ou resposta diante de uma perda significativa, de um rompimento de um vínculo significativo. Dessa maneira, o luto e o envelhecimento são vividos de maneira singular, particular e única, assim como a relação que foi rompida.
As autoras Kreuz & Franco (2017), ao observarem o luto e as perdas contemplam a ideia de que não pode ser algo entendido como imutável e dogmático.
As perdas ocorrem de forma única, variando de pessoa a pessoa e não obedecem a um tempo e uma fase determinada como um padrão, tudo deve ser levado em consideração, contexto, natureza do que foi perdido, o apoio recebido, personalidade e situação que o indivíduo se encontra.
A perda de um “elo” significativo, ocorre de forma natural no processo vital, é algo esperado que causará um rompimento entre uma pessoa e seu objeto. Caberá ao trabalho de luto a manutenção mental para a elaboração das perdas vivenciadas. Cezar & Col. (2022), referem-se ao luto como um processo normal e esperado. Para enfrentar esse processo de enlutamento é preciso conhecer as forças e fraquezas sabendo qual a bagagem que carrego.
Por fim, uma conclusão que nos ajude a refletir se o envelhecimento é uma forma de luto, observando a normatividade, particularidade e historicidade. Pensar as perdas vivenciadas nesse processo como rompimentos que nos afeta direta ou indiretamente e se não elaboradas, potencializa para um luto complicado.
Desenvolvimento
A pesquisa obedecendo o corpo docente procurou analisar de forma sistemática e objetiva uma revisão narrativa dos textos. Foram feitas leituras sistemáticas do material pesquisado, observando uma análise de conteúdo, entendida como técnica investigativa, como desejo de descrever de forma objetiva, sistemática e qualitativa o conteúdo da informação. Para isso, a leitura resultou em 20 artigos, sendo 12 selecionados:
O luto do idoso diante das perdas da doença e do envelhecimento – Revisão Sistemática de Literatura (2017); Desenvolvimento Humano na Velhice: um estudo sobre as perdas e o luto entre mulheres no início do processo de envelhecimento(2007); As perdas e o processo de luto na velhice: um olhar da psicanálise (2022); Ansiedade da pessoa idosa institucionalizada: um contributo para (re) pensar a enfermagem comunitária (2023); Envelhecimento e morte: percepção de idosas de um grupo de convivência (2016); Percepção de mulheres idosas face aos benefícios em saúde decorrentes da prática de hidroginástica (2015); Espiritualidade e resiliência na adultez e velhice: uma revisão (2019); Perfil de idosos através do modelo dos cinco fatores de personalidade (Big Five): revisão sistemática (2016); Pandemia da Covid-19 e população idosa no Brasil: anos de vida perdidos e efeitos na expectativa de vida (2022); O luxo do Futuro, Idosos LGBT, teleologias heteronormativas e futuros viáveis (2020); O ensino de cuidados paliativos na graduação do curso de medicina: um olhar multicêntrico (2023); Programas baseados em evidência para um cuidado integrado e centrado para a pessoa idosa na atenção primária à saúde (2022).
As principais fontes de pesquisa foram: Banco de dados da Internet; Bancos de dados do Crossref; Trabalhos acadêmicos; Publicações; Conteúdos publicados no Crossref.
Após a leitura e revisão dos artigos. Separamos as análises em 03 categorias temáticas: 01 – Ciclo vital de envelhecimento e o processo normativo; 02 – Envelhecimento e perdas simbólicas. 03 – As perdas simbólicas e o processo de luto.
01 – Ciclo Vital de Envelhecimento: um processo normativo.
Nesse tópico abordaremos o envelhecimento como um processo natural, ressaltado por Barbosa (2023), como um fenômeno universal, irreversível e inevitável. Na compreensão do autor é uma fase de mudanças biopsicossocial como as outras fases da vida. Em seu estudo sobre a ansiedade de pessoas idosas com 181 participantes pode observar os vários níveis de ansiedade compondo institucionalização, escolaridade, enfermidades, apoio familiar ou amigos, concluiu que a mobilidade é um fator muito importante.
Não obstante, percebemos que, a autonomia é um componente importante para promoção de saúde e melhor qualidade de vida. Entendemos essa, como algo que vai além da capacidade de governar a vida, pois implica em utilidade, se sentir capaz de valor, de relação justa “pessoa-pessoa”, de poder decidir o queremos e podemos.
Segundo Barbosa (2023), os idosos institucionalizados sofrem mais com ansiedade, pois acarreta sofrimento pela separação e abandono. Para aqueles que recebem apoio dos familiares e gozam da liberdade parece minimizar o sofrimento.
Para entendermos melhor, a autora ressalta a importância das relações recíprocas como algo inerente ao ser humano, pois pela própria natureza é um ser social, que necessita encontrar no outro a realidade da sua existência, por que se inserindo participa e faz com que o outro participe. Portanto, ao receber visitas de amigos e familiares sente-se parte integrante, percebendo a sua utilidade diminuindo com a medicação.
Em relação ao envelhecimento, Silva (2015), refere-se a um processo contínuo, gradual com alterações esperadas. Por isso, um processo natural, normativo, esperado que se inicia na idade adulta com os declínios, um descer a ladeira.
A compreensão da autora ao ressaltar um “descer a ladeira” parece ofertar uma conformidade com a finitude. Porém, é preciso levar em consideração três diferentes níveis: biológico, patológico e social. As mudanças são reais, com perdas de adaptação e deficiências funcionais, parecendo um corpo diferente do corpo conhecido. Porém, recorremos a Gestalt questionando a ‘parte’ e o ‘todo’, aquilo que percebemos no envelhecimento como uma etapa de declínio pode definir ou conceituar a velhice?
A autora refere-se também a alguns ganhos mediante ao processo de envelhecimento como por exemplo: ganhos em sabedoria, conhecimento e experiência. Com isso, percebemos que não se trata de descer a ladeira na sua totalidade, mas no que se refere aos declínios funcionais esperados, como diminuição da energia motora e alteração orgânica.
Os autores, Bulsing & Jung (2016), afirmam que o envelhecimento vem sendo percebido de forma mais clara, e por vezes de forma lentificada. É evidente que a percepção, como processo psíquico da dimensão cognitiva diz respeito, a como me percebo e percebo as coisas em volta.
Com essa afirmação, recorremos a subjetividade como algo inerente e particular, como me percebo e como sou percebido, as minhas vivências, o contexto em que estou inserido influenciará nas percepções.
Os autores concordam na percepção de que o envelhecimento é uma fase como as demais do desenvolvimento humano, por isso, deve ser encarada como um período de desenvolvimento e de melhor idade. É uma fase marcada por dificuldades como as demais, em analogia referem-se à adolescência, onde tudo é novo, com novas descobertas e habilidades. Referem-se as preocupações próprias desse tempo marcadas por distanciamento, enfrentamento de enfermidades e abandono por parte de familiares.
Enfim, o envelhecimento deve ser encarado como as demais fases, buscando os recursos necessários para os enfrentamentos que surgirão ao longo da jornada, suscitando uma rede de apoio e a disposição na dignidade da vida para um viver abundantemente. É necessário pensar no envelhecimento diferente de finitude para “des-estigmatizar” o que culturalmente foi atribuído.
Segundo pesquisa Bulsing & Jung (2016), afirmam que as pessoas estão vivendo mais e com melhor qualidade de vida, atribuindo-se isso aos avanços da tecnologia médica e as melhorias na saúde pública. Representando 10,08% da população total, o Brasil possui cerca de 20,6 milhões de idosos atualmente e, para 2060, a previsão é que o país tenha 58,4 milhões de idosos. A expectativa de vida do brasileiro também cresceu nos últimos anos: nos anos 1940 a expectativa média de vida era 50 anos de idade; nos anos 2000 subiu para 70 anos e, para 2050, espera-se que o brasileiro atinja 81 anos. Portanto, a tendência é uma população de idosos, em sua maioria.
A pesquisa nos leva a compreensão de que estamos envelhecendo, porém devemos levar em consideração se estamos preparados para esse modelo que se apresenta. Uma sociedade capitalista, pragmatista, individualista e fetichista que trata o outro como objeto, onde valor estar naquilo que se produz qual seria o espaço desse sujeito que envelhece? É necessário políticas públicas que acolha essa demanda, valorizando e promovendo a dignidade humana.
Fica evidente, essa faixa etária necessita de atenção e cuidados como as demais fases do ciclo vital. Segundo Margaça & Rodrigues (2019), trata-se de uma fase de mudanças, com limitações e deficiências, onde o indivíduo é desafiado a estabelecer novas relações consigo e com o mundo, bem como encontrar estratégias de superação das limitações. Por isso, se faz necessário estudo sobre o caso, com aprofundamento sobre o tema.
Sobre o envelhecimento como ‘um fim em si mesmo’, os autores visualizam a necessidade de mudança na compreensão, desmistificando o olhar de regressão e finitude para pensar de forma mais ampla, envelhecer é algo normal e esperado.
Por fim, uma sociedade que potencializa os preconceitos e estigmatiza fazendo vir à tona o que há de pior, negligenciando o outro como pessoa, como um ser capaz de relação recíproca não pode ser justa, por isso, castradora de sonhos e possibilidades. A velhice não pode ser estigmatizada de forma negativa, como a pior parte do desenvolvimento humano, mas uma fase de maturação e experiência, com suas perdas e ganhos.
02 – As perdas simbólicas
Na perspectiva em que estamos desenvolvendo nossa reflexão devemos compreender que as perdas simbólicas nessa síntese estão associadas ao envelhecimento. Queremos entender como perdas simbólicas, todas as perdas significativas, rompimentos, transformações físicas ou sociais que ocorreram nesse processo.
As autoras, Kreuz & Franco (2017), abordam a perspectiva do envelhecimento e adoecimento como perdas significativas, levando em consideração multiplicidade de valores e visões acerca do envelhecimento.
É necessário compreender a complexidade dos temas, devido o olhar externo na maneira como percebo o envelhecimento ou adoecimento, isso muda pela ótica do espectador, estabelecendo uma dificuldade em reconhecer ou acolher. Quando nos referimos as perdas normativas, aquelas próprias do desenvolvimento humano é percebido com certa resistência, ou em alguns momentos negados.
No estudo sobre as perdas simbólicas nesse processo de envelhecimento se faz necessário abordar as repercussões negativas e analisar o contexto em que elas acontecem. Para Kreuz & Franco (2017), é preciso levar em consideração as condições socioeconômicas, a problemática da transição demográfica e os seus desafios.
Quando falamos de repercussões negativas e contexto queremos atribuir lugar de fala e envolvimento ativo diante dessa população longeva que vem aumentando. Ao olhar para esse idoso devemos despertar um interesse sobre suas perdas reais e simbólicas, sua cotidianidade, sua história e sua subjetividade.
Sobre as perdas simbólicas nesse processo de envelhecimento, Silva (2007), descreve-a como múltiplas perdas significativas com percepções de ganhos e aprendizagens. A autora percebe a necessidade de um espaço para percepção dos novos papéis, oportunidades de socialização, aprendizagem e crescimento, mediante as representações negativas e as tentativas de negação do envelhecimento.
É preciso compreender que as perdas vão acontecendo com a vida, sem obedecer a uma ordem sistemática e cronológica, simplesmente vão acontecendo junto a percepção de limites e dificuldades. Essas acontecem de forma diferente em relação ao tempo e pessoa, podendo ser perdas simultâneas.
O envelhecimento é um período marcado por mudanças em todas as esferas que suscitam a necessidade de adaptação à nova realidade. Com isso, Cezar & Col. (2022), diz que é um processo de adaptação que pode ser compreendido enquanto trabalho de luto, um processo de metabolização das perdas em suas diferentes esferas.
Quando os autores se referem ao processo de adaptação compreendido como trabalho de luto reforçam a ideia de uma situação conhecida e significativa com pertencimento e vivência àquela situação. A experiência de perda é vivida de forma singular, por isso, devem ser consideradas importantes nessa fase do desenvolvimento.
No mesmo sentido, Farina & Col. (2016), entende o envelhecimento como um período marcado por mudanças, com redução de diversas capacidades, tais como: funcional, cognitiva, motoras dentre outras.
A partir da perspectiva dos autores, percebemos que as perdas são reais e inevitáveis e requerem necessidades de adaptação, revisão dos conceitos e percepção das implicações para reorganização mediante perda. É preciso conhecer o contexto em que estas perdas acontecem nesse processo de envelhecimento, entendendo o significado atribuído e qual o valor estabelecido.
Por fim, queremos compreender as perdas simbólicas como perdas reais, com necessidades específicas de construção de significados e reestruturação da vida, possibilitando aceitação, processamento e ajustamento da nova realidade.
03 – O processo de luto
Na terceira parte da nossa revisão narrativa abordamos o processo de luto que não pode ser desvinculado da reflexão proposta: luto por envelhecimento e as perdas simbólicas. Quando nos referimos ao luto pensamos num rompimento de vínculos significativos sejam perdas primárias ou secundárias.
Os autores, Cezar & Col. (2022), com um olhar na psicanálise definem o luto como um afeto resultante da perda de um objeto libidinal, que impede a formação do desejo, vontade para obter novas perspectivas de vida.
Na compreensão dos autores, essa desorganização provocada pela perda do afeto pode atrapalhar obtenção de novas perspectivas de vida, dificultando vivenciar as experiências cotidianas e entrar em contato com a dor da perda.
Segundo Marques (2022), devemos levar em consideração o contexto histórico e social, momentos de vulnerabilidade social e econômica, com taxas elevadas de desemprego e o sistema público de saúde caótico como fatores importantes para expectativa de vida.
Não podemos pensar o processo de luto, sem pensar nas experiências cotidianas e nas expectativas entorno da vida, uma vida marcada por perdas múltiplas e simultâneas. A pessoa que recebeu o diagnóstico de uma doença grave e que ao mesmo tempo foi mandado embora do trabalho, qual a expectativa de vida desse sujeito? Para reconstrução de significados é preciso levar em conta a reorganização e uma sólida base de apoio.
Sobre o luto Kreuz & Franco (2017), ressaltam o dinamismo do rompimento do vínculo significativo, como também da sua singularidade e particularidade de duração e fases sem critérios estabelecidos.
Não obstante, o luto deve ser compreendido como único, singular, particular e dinâmico. Sendo o luto uma experiência que apresente similaridades entre os enlutados, terá sempre um cunho particular, a ideia de padronizá-los não ajudaria na compreensão.
Em consonância com Marques (2022), sobre a importância do contexto histórico e social, Henning (2020), ressalta a importância de se traçar uma trajetória observando as dinâmicas relacionadas a transformações contemporâneas em relação a velhice e a subjetividade.
Segundo o autor, deve-se observar a multiplicidade de experiências, desejos, práticas sexuais, identidades de gênero, identidade sexuais como parte integrante desse processo de envelhecimento.
Em relação ao luto deve ser observado o indivíduo na sua totalidade, quais perdas ele está vivenciando e qual a significação, como este avalia e considera com maior ou menor importância, quando percebida como situação ameaçadora que gera estresse e sofrimento.
Quando nos referimos ao luto percebemos que não poderia ser separado do envelhecimento, segundo Cezar & Col. (2022), é um processo gradativo de aprendizado e desenvolvimento, com inúmeras perdas e modificações corporais associadas ao envelhecimento, o que necessitaria um trabalho de luto, como manutenção da saúde mental e maior compreensão dessa perda significativa.
Os autores compreendem a necessidade de um trabalho de luto nessa fase do desenvolvimento cercada por perdas reais e significativas. É importante ressaltar a necessidade de uma rede apoio para oferecer afeto, respeito, consideração e amizade.
Em relação ao luto por morte de um ente querido, recorremos ao mesmo conceito de encerramento e desligamento do objeto amado, uma experiência de perda, o rompimento de um vínculo.
Segundo Apratto & Col. (2023), é necessário a reafirmação da vida humana sempre de forma integral e com isso, tomar a morte como processo natural. Para tanto, se faz necessário promoção da vida, alívio das dores, apoio familiar para o enfrentamento e superação do luto após a morte.
O tema da morte é importante ressaltar nesse processo de envelhecimento, pois os idosos convivem com essa realidade a todo instante. O luto vivido por idosos é diferente quando vivido por adultos jovens, devido as experiências vividas constantemente, por isso a necessidade de reafirmação da vida, com apoio familiar e de amigos para enfrentar possíveis lutos.
Em relação ao envelhecimento Kreuz & Franco (2017), falam de perdas significativas que merecem ser reconhecidas, permitindo o processo de luto. É preciso compreender e acolher o luto do idoso dentro do processo de envelhecimento, com suas perdas efetivas reais e simbólicas. É necessário desvincular-se do mundo presumido para se projetar as possibilidades vindouras.
Portanto, o luto precisa ser reconhecido para que seja vivido abertamente, tornando acessível a manifestação dele, sendo acolhido e compreendido por todos. É importante ressaltar, que o reconhecimento das perdas passa pelo reconhecimento da pessoa que se encontra em processo de envelhecimento.
O envelhecimento pode ser saudável, entendido como habilidades funcionais em ordem. Segundo OPAS (2022), é uma habilidade que envolve todas as capacidades físicas e mentais do indivíduo. Percebe-se também a importância da autoeficácia nesse processo normativo, pois possibilitará o controle da situação vigente. O portifólio apresenta o envelhecimento saudável como autogestão, colocando o idoso no papel de ativo, capaz de suas ações e decisões, levando em consideração os erros e acertos.
Na reflexão do envelhecimento saudável e do autocuidado desejamos expressar os recursos necessários para a elaboração das perdas ou luto pela morte de ente querido. Entendemos os recursos, como a capacidade interna e externa para lidar com a situação, de se adaptar à nova realidade, reelaborando e ressignificando os sentimentos.
Segundo Franco (2021), é preciso sustentação para ações de prevenção e cuidado para que as pessoas enlutadas possam enfrentar esse processo com seus recursos adaptativos e na ausência contar com um apoio de qualidade. O luto trata-se de um fenômeno complexo que abrange o indivíduo na sua totalidade, com um movimento de idas e vindas num processo orientado para perda e outro para restauração como função regulatória adaptativa.
Esta reflexão acerca do processo de luto, demonstrou as variadas manifestações de luto, relacionadas a diferentes tipos de perdas da vida cotidiana que são enfrentadas com recursos adaptativos próprios ou da própria rede onde o enlutado está inserido. Dentre as perdas encontram-se as perdas normativas, próprias do desenvolvimento humano.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No fim do presente estudo, julgamos atingido nosso objetivo. Sabemos que o tema proposto é complexo por se tratar do processo de envelhecimento que é abordado como secundário.
Em face disto, não nos compete tecer comentários elucidativos. Em vez disto, vamos chamar a atenção para certos aspectos que abrange: O luto por envelhecimento: reflexões sobre o processo de perdas simbólicas.
Nesse sentido, as perdas simbólicas são experiências negativas vividas no cotidiano que causam impactos em nossas vidas.
Contudo, vale ressaltar que as perdas são reais, com mudanças no estilo de vida que necessitam de atenção primária em vista de recursos adaptativos para expressão da dor e sentimentos.
No processo de envelhecimento é evidenciado diferentes perdas e modificações, sejam estas corporais, psicológicas e sociais. Estas modificações existenciais acarretam um estranhamento em si mesmo e no outro, uma ideia de mundo presumido destruído.
O estranhamento ‘em si mesmo’, e ‘no outro’ nos projeta a percepção do movimento de ‘dentro para fora’ e ‘de fora para dentro’, a ideia do espelho. Quando a velhice não é percebida de imediato ou quando oriento o autoconceito.
Sobre o luto, recordamos tratar-se de uma manifestação universal mediante a uma perda significativa. É dinâmico, uma resposta diante de um rompimento de um vínculo. Por isso, devemos levar em consideração na avaliação do processo como um todo.
A reflexão que fizemos acerca do luto não se limitou ao luto por morte, mas a um processo de elaboração de uma perda significativa. Com isso, entendemos como luto, as perdas sofridas no processo de envelhecimento, as situações importantes da vida, ou mesmo o adoecimento.
Não obstante, faz-se necessário um trabalho de luto mediante a realidade de perda para potencializar as experiências vividas, possibilitando a adaptação à nova realidade, restabelecendo os recursos emocionais para atuar sobre a realidade de perdas concretas e simbólicas.
Um aspecto extremamente importante mencionado nesse estudo sobre o processo normativo de envelhecimento e luto, foram as perdas significativas que ocuparam um lugar de compreensão de finitude. E em paralelo, o movimento de ressignificação e reinvenção, afirmando ser possível prazer, conquistas e realizações de sonhos, com planos futuros na construção subjetiva nessa última etapa do ciclo vital.
Por fim, o processo de envelhecimento pode intensificar o luto dependendo de como é elaborado as perdas reais e simbólicas.
Com isso, se faz necessário uma escuta ativa, acolhimento, compreensão e espaço para ser elaborado e ressignificado. Em relação a esta escuta nos referimos a uma prática interventiva que auxilie nesse processo psicoterápico.
Como profissionais da saúde, é preciso estarmos atentos para todas as singularidades e vivências das perdas e lutos das pessoas idosas. Com isso, queremos abordar a necessidade de políticas públicas que atendam esse interesse em vista do envelhecimento.
É importante ressaltar que o campo de investigação sobre o envelhecimento ainda é precário. É preciso a interação com abordagens multidisciplinares na pesquisa do envelhecimento para validar os sentimentos envolvidos nesse processo para que os mais velhos possam elaborar suas perdas, encontrar mecanismos de enfrentamento e reinvestirem no mundo.
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