RELATO DE CASO: PILEFLEBITE EM PÓS-OPERATÓRIO DE DUODENOPANCREATECTOMIA

CASE REPORT: POST-OPERATIVE PYLEPHLEBITIS FOLLOWING DUODENOPANCREATECTOMY

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202602071501


Bruna Reis Freire1


Resumo

A pileflebite, uma tromboflebite séptica da veia porta, é uma complicação rara e grave de infecções intra-abdominais, como as decorrentes de cirurgias complexas como a duodenopancreatectomia. Sua fisiopatologia envolve disseminação bacteriana e trombose séptica, tratada com antibioticoterapia de amplo espectro (2-6 semanas) e anticoagulação individualizada. O caso descreve uma paciente que, após duodenopancreatectomia, desenvolveu febre, vômitos e trombose portal. A tomografia e a identificação de bacteremia por Streptococcus pyogenes confirmaram o diagnóstico. O tratamento com anticoagulação e antibioticoterapia,  levou à recanalização do trombo e boa evolução clínica. A discussão enfatiza a raridade da pileflebite pós-operatória e a necessidade de alta suspeição clínica, dada a inespecificidade dos sintomas. A tomografia é vital para o diagnóstico, diferenciando trombos sépticos por meio da bacteremia. O diagnóstico e tratamento precoces, combinando antibióticos e anticoagulação, são cruciais para reduzir a morbidade e mortalidade.

Palavras-chave: Pileflebite. Duodenopancreatectomia. Trombose da veia porta. 

1 INTRODUÇÃO

A pileflebite, uma tromboflebite séptica da veia porta, representa uma complicação rara e grave, frequentemente associada a processos infecciosos intra-abdominais, como aqueles decorrentes de cirurgias (Arteche et al., 2005).  A fisiopatologia dessa condição envolve a disseminação de bactérias da região infectada para o sistema portal, resultando em trombose séptica que pode ser precipitada por estados de hipercoagulabilidade e manipulação cirúrgica (Fontanella, 2017; Kinoshita et al., 2017). 

A inflamação biliar adjacente pode influenciar a estenose portal ou a redução do fluxo devido à parede venosa fina e ao baixo fluxo venoso, o que pode resultar em trombose da veia porta intra-hepática (Yamashita et al., 2020). A extensão do trombo pode acometer a veia esplênica ou a mesentérica superior, o que ocorre em até 40% dos casos (Stine, 2019). A literatura sugere que o uso de anticoagulação sistêmica é benéfico no manejo dessa condição, embora as evidências sejam baseadas principalmente em séries de casos e relatos de experiência (Arteche et al., 2005; Dai et al., 2023). A decisão de iniciar anticoagulação deve ser individualizada, considerando fatores como a extensão da trombose venosa mesentérica, a tendência de progressão do trombo, a persistência de bacteremia apesar da antibioticoterapia e a presença de estados de hipercoagulabilidade (Norimatsu et al., 2024). 

A antibioticoterapia de amplo espectro constitui o pilar central do tratamento, devendo cobrir germes aeróbios e anaeróbios e ser mantida por um período mínimo de quatro semanas devido ao risco de formação de abscessos hepáticos (Arteche et al., 2005). A duração do tratamento antimicrobiano pode variar entre 2 a 4 semanas, devendo ser prolongada para até 6 semanas na presença de abscessos hepáticos (Blanco et al., 2006). Estudos indicam que a terapia anticoagulante precoce pode reduzir a incidência de complicações graves e favorecer a recanalização venosa, embora a decisão deva considerar o estado de hipercoagulabilidade do paciente e a extensão do trombo (Gao et al., 2023; Song & Kim, 2019). Este relato de caso visa detalhar a ocorrência de pileflebite em um paciente submetido a duodenopancreatectomia de Whipple, contribuindo para a literatura sobre as complicações pós-operatórias raras e graves (Choudhry et al., 2015).

2 RELATO DE CASO CLÍNICO

Paciente do sexo feminino, M. F. F. F, com histórico de hipertensão arterial sistêmica, transtorno do pânico, doença do refluxo gastroesofágico, síndrome da apneia obstrutiva do sono e ex-tabagista, foi submetida à duodenopancreatectomia assistida por robótica em 27 de janeiro de 2025, apresentando boa evolução pós-operatório imediato. No entanto, no dia 11 de fevereiro, a paciente iniciou quadro de febre, vômitos e hiporexia, evoluindo com manutenção dos sintomas e comparecendo ao pronto-atendimento em 13 de fevereiro. A tomografia computadorizada de abdome com contraste endovenoso revelou leve densificação difusa dos planos adiposos adjacentes ao leito cirúrgico, com destaque para uma densificação tubular que se estendia do leito da vesícula biliar ao tecido adiposo anterior no hipocôndrio direito, além de falha de enchimento parcial na veia porta compatível com trombo, que se estendia por aproximadamente 13 milímetros, associando-se a material hipodenso adjacente à junção esplenomesentérica. 

Diante desses achados radiológicos sugestivos de trombose portal extensa e possível processo inflamatório infeccioso adjacente, foi iniciada anticoagulação com heparina de baixo peso molecular como medida terapêutica inicial para prevenir a progressão do trombo e complicações isquêmicas (Allan et al., 2018; Kelter et al., 2022). Na sequência da internação, em 14 de fevereiro, a paciente evoluiu com quadro de bacteremia, caracterizado por hipotensão, taquicardia e dessaturação, necessitando de transferência para a unidade de terapia intensiva para suporte hemodinâmico e respiratório, onde foram iniciadas medidas de ressuscitação, coleta de hemoculturas e antibioticoterapia de amplo espectro com Tigeciclina e Meropenem para cobertura de germes gram-negativos, gram-positivos e anaeróbios, visando o controle da sepse de foco abdominal (Emekli & Gündoğdu, 2020; Riccetti et al., 2023). 

Após a estabilização clínica e melhora dos parâmetros infecciosos, com hemoculturas positivas para Streptococcus pyogenes, optou-se pelo descalonamento da antibioticoterapia para Ciprofloxacino e Metronidazol, seguido pela transição da anticoagulação para Rivaroxabana 20 mg ao dia. A paciente apresentou boa evolução clínica subsequente, mantendo-se afebril, sem recorrência de bacteremia, com melhora progressiva do apetite, aceitação da dieta e do estado geral, além de redução nos níveis de proteína C reativa e normalização da leucocitose. A recanalização do trombo e a ausência de complicações tromboembólicas foram confirmadas através de acompanhamento clínico e laboratorial, demonstrando a eficácia da abordagem terapêutica combinada instituída. 

3 DISCUSSÃO

A duodenopancreatectomia, em particular, predispõe a complicações infecciosas devido à sua complexidade e manipulação extensa do trato gastrointestinal e estruturas vasculares. 

A pileflebite é uma condição rara, com incidência estimada em 1 a cada 1.000 internações por causas agudas, e é caracterizada por sintomas inespecíficos, como febre e dor abdominal, que dificultam seu diagnóstico diferencial de outras complicações infecciosas pós-operatórias (Řezáč et al., 2021).

A raridade da pileflebite como complicação pós-operatória de grandes cirurgias abdominais, como a duodenopancreatectomia, ressalta a importância de um alto índice de suspeição clínica, especialmente em pacientes com quadros febris e sinais de sepse, para um diagnóstico e tratamento precoces (Arteche et al., 2005).  A tomografia computadorizada é o método de escolha para a demonstração da trombose portal em pacientes febris com bacteremia, permitindo a visualização de falhas de enchimento e densificações adjacentes ao leito cirúrgico (Fontanella, 2018; Machado et al., 2018). A identificação de falhas de enchimento no lumen venoso durante a fase portal é considerada o achado típico, permitindo diferenciar a trombose de outras causas de densificação tecidual (Chincarini et al., 2018). 

A evolução no diagnóstico por imagem e nas abordagens terapêuticas melhorou significativamente o prognóstico, mas a condição ainda carrega alta morbidade e mortalidade substancial (Arteche et al., 2005; Talwar et al., 2022). 

A presença de material hipodenso adjacente aos vasos, associada à bacteremia documentada, reforça o diagnóstico de tromboflebite séptica, exigindo a diferenciação de trombos estéreis frequentemente observados no pós-operatório de cirurgias de grande porte (Linsen & Schrier, 2023; Norimatsu et al., 2024). A presença de bacteremia documentada, neste caso por Streptococcus pyogenes, associada à trombose portal em paciente com foco infeccioso abdominal, confirma a natureza séptica do processo, distinguindo-a da trombose estéril. A identificação precoce dessa complicação é crucial, pois o atraso no diagnóstico está associado a piores desfechos clínicos, incluindo a formação de abscessos hepáticos e sepse (Arteche et al., 2005; Norimatsu et al., 2024). Todos os tipos de pesquisa devem apresentar material e métodos.

4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este relato de caso demonstra que a pileflebite, embora incomum, deve ser considerada como diagnóstico diferencial crucial em pacientes com febre e sinais inflamatórios no pós-operatório tardio de cirurgias complexas como a duodenopancreatectomia. O diagnóstico precoce, associado à antibioticoterapia e anticoagulação, são fundamentais para a evolução favorável e redução da mortalidade nesta complicação grave (Arteche et al., 2005; Yamashita et al., 2020). 

REFERÊNCIAS

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1Residente de Clínica Médica do Hospital Madre Teresa e-mail: brunar_freire@hotmail.com