REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601311759
Isabela Ouverney Livramento Saith1
Raphael Moreira Teixeira2
RESUMO
A mielite transversa longitudinalmente extensa (MTLE) é uma doença rara e caracterizada por lesão medular inflamatória de etiologia variada, podendo estar associada a outras doenças neurológicas como neuromielite óptica (NMOSD), quadros parainfecciosos, inflamatórios e outros. O presente estudo detalha o caso de uma paciente feminina de 33 anos, que desenvolveu tetraparesia flácida aguda após vacinação contra influenza. A investigação demonstrou líquido cefalorraquidiano com características inflamatórias e ressonâncias magnéticas de coluna cervical e torácica com hipersinal T2 contínuo de C2 a C6 e de D1 a D9, compatíveis com MTLE. A paciente recebeu tratamento com pulsoterapia seguida de plasmaférese com melhora das sintomatologias neurológicas. Tal relato de caso evidencia a importância do reconhecimento precoce dos sinais e sintomas sugestivos de MTLE, para realização de investigação adequada e manejo terapêutico oportuno, com o intuito de diminuir sequelas neurológicas.
Palavras-chave: mielite transversa longitudinalmente extensa; neuromielite óptica; vacinação; influenza.
1 INTRODUÇÃO
A mielite transversa longitudinalmente extensa trata-se de um subtipo da mielite transversa e inclui-se em um grupo de doenças que afetam medula espinhal, caracterizada por um processo inflamatório acometendo mais de três segmentos medulares sequenciais, podendo gerar sintomatologias motoras, sensitivas e autonômicas (BMJ Best Practice, 2025).
Segundo Paudel et al. (2021), causas inflamatórias como neuromielite óptica (NMOSD), encefalomielite disseminada aguda (ADEM) e anticorpos anti-MOG apresentam associação significativa com os casos de MTLE. Outras causas relacionadas são as infecciosas, paraneoplásicas, pós vacinais e idiopáticas. Os casos pós-vacinais são raros, entretanto há relatos de mielite após imunizações diversas, como influenza e vacinas contra COVID-19 (SHETTY et al., 2022).
É uma condição rara, potencialmente grave e de etiologia variada. Neste cenário, torna-se relevante a apresentação do seguinte relato para melhor compreensão da doença.
2 OBJETIVO
O presente trabalho tem como objetivo descrever o caso clínico de uma paciente atendida no Hospital Estadual Jayme Santos Neves (HEJSN) em 2025 com quadro compatível com mielite longitudinalmente extensa pós vacinal, descrevendo as manifestações clínicas da doença, incluindo sua evolução temporal e alterações passíveis de serem encontradas no exame neurológico. Também objetiva discorrer sobre a propedêutica laboratorial e imagiológica para diagnóstico e relatar o tratamento específico e de suporte necessário nesses casos, enfatizando a relevância do diagnóstico precoce no curso e desfecho da enfermidade.
3 METODOLOGIA
Este estudo consiste em um relato de caso, estruturado de modo observacional, descritivo e qualitativo. A base de dados para as informações pertinentes ao quadro foi obtida através da análise do prontuário eletrônico da paciente atendida no Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves (HEJSN), localizado no município da Serra, Espírito Santo, no ano de 2025. Ademais, para suporte à discussão e contextualização do caso, foram utilizadas referências bibliográficas presentes nas bases PubMed e BMJ Best Practice.
4 RELATO DE CASO
4.1 Dados clínicos iniciais
Paciente feminina de 33 anos, previamente portadora de trombofilia por deficiência de proteína S — sem eventos trombóticos prévios e sem uso rotineiro de medicações —, sem outras comorbidades conhecidas, apresentou início de quadro neurológico agudo dois dias após vacinação contra influenza. Suas sintomatologias incluíam sensação de fraqueza em membros superiores, piorando rápida e progressivamente com comprometimento de membros inferiores, parestesia de membros inferiores até nível acima da cicatriz umbilical, e ainda sintomas autonômicos como retenção urinária e constipação. Diante da instalação de tetraparesia flácida de evolução aguda, procurou atendimento hospitalar, sendo internada no HEJSN para investigação e monitorização devido ao risco de piora respiratória ou progressão do déficit neurológico.
4.2 Exame físico na admissão
Ao exame inicial, apresentava-se afebril, consciente, lúcida e orientada. Exibia tetraparesia flácida, com força grau 4 em membros superiores e grau 2 em membros inferiores. Havia hipoestesia bilateral em membros inferiores até nível sensitivo de D8-D9, reflexos patelares e aquileus presentes. Não apresentava sinais sugestivos de irritação meníngea, como rigidez nucal. A ausculta cardiorrespiratória não exibia alterações e a paciente mantinha-se estável hemodinamicamente, eupneica em ar ambiente, sem necessidade de oxigenoterapia suplementar, sem sinais de acometimento da musculatura diafragmática.
4.3 Exames laboratoriais
O hemograma inicial não evidenciou alterações hematimétricas ou plaquetárias, apresentando apenas leucocitose sem desvios (16.150/mm³) com neutrofilia (95%). Não foram observados distúrbios hidroeletrolíticos relevantes ou disfunção renal.
A análise do líquor evidenciou pleocitose linfocítica (285 células/mm³ sendo 96% linfócitos), proteína discretamente elevada (68 mg/dL), glicose dentro dos padrões da normalidade (60 mg/dL). Havia ainda 150 hemácias/mm³, compatíveis com acidente de punção. O VDRL do LCR não foi reagente e na bacterioscopia não houve presença de micro-organismos, a cultura fechou negativa. Esse conjunto de dados é sugestivo de processo inflamatório não relacionado a infecção bacteriana, geralmente associado com quadros autoimunes, pós vacinais e pós virais. As sorologias para hepatite B, hepatite C, HIV e sífilis foram negativas.
Para propedêutica complementar, foi solicitado dosagem de anticorpo anti-AQP4 IgG, em virtude da elevada associação do quadro com neuromielite óptica (NMOSD), tendo resultado negativo.
4.4 Exames de imagem
Não foram evidenciadas alterações significativas na tomografia computadorizada de crânio, sendo visualizado apenas achado incidental de imagem hipodensa septada na hipótese, sem relação com o quadro clínico da paciente.
Foi realizada ressonância magnética (RM) de toda a extensão da coluna para investigação. A RM lombar não apresentou alterações vertebrais ou medulares nesse nível. Já a RM torácica demonstrou extenso hipersinal em T2 envolvendo D1 a D9, com leve espessamento medular e ausência de realce pós-contraste, e na RM cervical também foi evidenciado as mesmas alterações a nível de C2 a C6. Analisando esses achados, foi observado lesão longitudinal extensa superior a dez metâmeros, sendo padrão característico de mielite longitudinalmente extensa, em que se acomete mais de três segmentos.
4.5 Evolução e tratamento
Inicialmente foi realizado tratamento com imunoglobulina humana (IG), sob a suspeita de Síndrome de Guillain-Barré (SGB) em um primeiro momento, devido às circunstâncias clínicas e epidemiológicas. Porém, após reavaliação neurológica e análise do líquor sem o padrão de dissociação proteino-citológica característica da SGB, optou-se por suspender a IG com 1 dia de infusão e iniciar pulsoterapia com metilprednisolona 1 grama por dia, por cinco dias, sendo o tratamento de primeira linha para mielite inflamatória aguda.
A paciente apresentou melhora progressiva da força, especialmente nos membros inferiores, além de redução da parestesia. Entretanto, após o término da pulsoterapia a paciente ainda mantinha grau moderado de parestesia em membros inferiores, sendo optado por realizar plasmaférese para melhora da sintomatologia, a qual foi alcançada após 05 sessões, realizadas em dias alternados.
Durante a internação, não houve piora clínica ou instabilidade hemodinâmica. Diante da evolução favorável com a terapêutica instituída, com melhora dos sintomas e manutenção da estabilidade clínica, a paciente encontrou-se apta para alta hospitalar com planejamento de reabilitação motora, continuidade da investigação etiológica e seguimento ambulatorial.
5. DISCUSSÃO
A mielite transversa longitudinalmente extensa (MTLE) constitui uma síndrome neurológica caracterizada pelo comprometimento inflamatório da medula espinhal envolvendo três ou mais segmentos vertebrais consecutivos. Suas manifestações clínicas costumam ser agudas ou subagudas, incluindo paresia rapidamente progressiva e alteração sensitiva com níveis bem definidos a depender das regiões afetadas da medula espinhal, bem como comprometimento autonômico (BMJ Best Practice, 2025).
Quanto ao diagnóstico, os exames de imagem são instrumentos fundamentais para a definição da MTLE. A ressonância magnética costuma evidenciar hipersinal longitudinal na sequência T2, associada a edema medular e, muitas vezes, ausência de realce pós-contraste, sugerindo processo inflamatório subagudo (BMJ Best Practice, 2025). A análise liquórica apresenta-se majoritariamente com pleocitose linfocitária, hiperproteinorraquia leve a moderada e glicose normal, compatível com inflamação não associada a agentes bacterianos. A ausência de microrganismos na bacterioscopia e cultura, associada a sorologias negativas, auxiliam na exclusão de causas infecciosas (CHANDRASEKAR et al., 2022).
O presente relato traz o caso de uma paciente com quadro clínico, alterações liquóricas e radiológicas características de MTLE: início agudo de tetraparesia flácida, pleocitose às custas de linfócitos e acometimento medular envolvendo mais de três segmentos. Paudel et al. (2021) descrevem que a neuromielite óptica (NMOSD) apresenta-se como a etiologia mais prevalente de MTLE, apesar de haverem outras condições relevantes, como a doença associada ao anticorpo anti-MOG (MOGAD), encefalomielite disseminada aguda (ADEM), infecções virais e casos idiopáticos
A neuromielite óptica (NMOSD) é uma doença inflamatória autoimune que acomete principalmente o nervo óptico e a medula espinhal, comumente relacionada a lesões medulares extensas. Geralmente associada com a presença de anticorpo anti-AQP4, o qual está relacionado a destruição de astrócitos, rompimento da barreira hematoencefálica e desmielinização. Quanto à apresentação clínica, a NMOSD pode manifestar-se com neurite óptica unilateral ou bilateral, mielite extensa, e sintomatologias relacionadas ao acometimento da área postrema, como náuseas, vômitos e soluços refratários (PAUDEL et al., 2021).
A negatividade de anticorpos anti-AQP4 (AQP4-IgG) no presente caso reduz a probabilidade de NMOSD típica, apesar de não excluir completamente, tendo em vista a possibilidade de espectros soronegativos, como descrito em estudos do Nepal (DHAKAL et al., 2023). Além disso, a ausência de lesões do nervo óptico, ausência de sintomatologias relacionadas ao acometimento da área postrema, e ausência de lesões encefálicas favorecem outras hipóteses.
A MOGAD, por sua vez, está associada a um processo de desmielinização mediada por anticorpos contra a glicoproteína da mielina oligodendroglial (MOG). Os pacientes podem apresentar mielite extensa, também sem realce significativo após contraste na ressonância magnética, frequentemente com maior espessamento medular, apresentando resposta clínica com corticoterapia, assim como no caso descrito. Outro fator relevante que fala a favor de MOGAD é a faixa etária da paciente e o início de sintomas após estímulo antigênico, como vacinação. Ademais, seu prognóstico costuma ser mais favorável que na NMOSD, com maior possibilidade de remissão completa com o tratamento adequado (BMJ Best Practice, 2025).
Outra hipótese a ser considerada em contexto pós imunização é a encefalomielite disseminada aguda (ADEM), também relacionada a um processo desmielinizante inflamatório do sistema nervoso central, geralmente ocorrendo após gatilho imunológico, como infecções virais ou vacinação, sendo também visualizada em adultos, apesar de ser mais comum em crianças (PAUDEL et al., 2021). As alterações dos exames de imagem e do líquor, bem como a melhora clínica após pulsoterapia reforçam essa possibilidade.
Além das causas autoimunes, a mielite pós-infecciosa representa causa relevante de MTLE, principalmente após quadros de etiologia viral. Há descrição de associação com influenza, enterovírus, Epstein-Barr e coronavírus, sendo capazes de gerar respostas imunes exacerbadas e inflamação medular (MANGUDKAR et al., 2024). Mesmo sem relato de sintomatologias prodrômicas sugestivas de quadro infeccioso prévio, existe a possibilidade de desenvolver o quadro após infecção subclínica. A fisiopatologia proposta envolve mecanismos de mimetismo molecular, nos quais anticorpos gerados contra patógenos compartilham epitopos com componentes do sistema nervoso central, levando a inflamação medular desmielinizante (MANGUDKAR et al., 2024).
Já em relação à imunização contra influenza, tal associação mostra-se plausível em virtude da correlação temporal, em que o início dos sintomas se dá dois dias após a vacinação, sendo compatível com o período necessário para ativação imunológica e reação inflamatória. Apesar de raros, os eventos adversos neurológicos pós-vacina são documentados em literatura, com apresentação de casos após imunização contra influenza e COVID-19, nos quais a fisiopatologia relaciona-se com mimetismo molecular, ativação inespecífica de linfócitos T e descontrole imunológico em indivíduos que apresentam predisposição. Embora haja plausibilidade biológica, cabe salientar que tal relação não pode ser confirmada apenas levando em consideração a temporalidade dos fatos (SHETTY et al., 2022).
A característica imunomediada do acometimento neurológico no presente caso é reforçada ao observar a resposta clínica rápida e significativa com a pulsoterapia com metilprednisolona, sugerindo reversibilidade do processo inflamatório. Tal padrão está comumente associado às mielites pós infecciosas, ADEM e MOGAD, sendo menos frequente na NMOSD por ocasionar quadros de maior gravidade e menor potencial de recuperação total (PAUDEL et al., 2021).
Neste contexto, o diagnóstico diferencial do ponto de vista etiológico torna-se importante para definição de prognóstico e risco de recorrência, apesar de não alterar o tratamento inicial. (BMJ Best Practice, 2025).
6 CONCLUSÃO
Este relato descreve um caso de mielite transversa longitudinalmente extensa (MTLE) de evolução aguda após imunização contra influenza, apresentando sintomatologias neurológicas motoras, sensitivas e autonômicas com extenso acometimento medular visualizado na ressonância magnética.
O início da corticoterapia em altas doses em tempo hábil foi fundamental para a melhora clínica significativa, o que endossa a importância da intervenção terapêutica imediata. Dessa forma, é notória a necessidade do reconhecimento das mielites, com avaliação neurológica sistemática e investigação detalhada com exames de imagem e análise de líquor, considerando epidemiologia e gatilhos imunológicos possíveis (PAUDEL et al., 2021).
Em resumo, o presente caso clínico demonstra a complexidade do diagnóstico etiológico da mielite transversa longitudinalmente extensa, e a importância do reconhecimento precoce para instituição do tratamento de primeira linha, reduzindo assim as sequelas neurológicas e melhorando o prognóstico nesses casos.
REFERÊNCIAS
Mielite transversa. BMJ Best Practice, Londres, atualizado em 12 ago. 2025.
Disponível em: https://bestpractice.bmj.com. Acesso em: 07 dez. 2025.
SHETTY, A. J.; RASTOGI, A.; JHA, V.; SUDHAYAKUMAR, A. Longitudinalmente extensa mielite transversa após a vacina ChAdOx1 nCoV-19. Journal of Postgraduate Medicine, v. 68, n. 3, p. 179-181, jul./set. 2022. DOI: 10.4103/jpgm.jpgm_1047_21.
CHANDRASEKAR, S.; JOHN, J.; SATAPATHY, A. K. Mielite transversa longitudinalmente extensa: uma doença, desfechos variáveis – série de casos. Journal of Neurosciences in Rural Practice, v. 13, n. 2, p. 339-342, 11 mar. 2022. DOI: 10.1055/s-0042-1743211.
DHAKAL, B. et al. Mielite transversa longitudinalmente extensa: um distúrbio incapacitante com bom prognóstico – série de casos do Nepal. Annals of Medicine and Surgery (London), v. 86, n. 1, p. 252-256, 27 nov. 2023. DOI: 10.1097/MS9.0000000000001537.
PAUDEL, S. et al. Mielite transversa longitudinalmente extensa: um estudo retrospectivo diferenciando o transtorno do espectro da neuromielite óptica de outras etiologias. Cureus, v. 13, n. 3, e13968, 18 mar. 2021. DOI: 10.7759/cureus.13968.
MANGUDKAR, S.; NIMMALA, S. G.; MISHRA, M. P.; GIDUTURI, V. N. Mielite transversa extensa longitudinalmente pós-viral: relato de caso. Cureus, v. 16, n. 6, e62033, 9 jun. 2024. DOI: 10.7759/cureus.62033.
1Médico residente do programa de Clínica Médica do HEJSN
2Orientador: Raphael Moreira Teixeira – Neurologista
