REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma102026010855
William Felipe Machado1
Alexandre Pereira Ricci2
Resumo
Introdução: O planejamento de carreira médica atravessa a formação e os primeiros anos de exercício, envolvendo escolhas de especialização, arranjos de trabalho e competências de gestão profissional. Objetivo: Avaliar as perspectivas de internos de cursos de Medicina de uma rede educacional quanto à escolha da especialidade, formatos de formação, intenções de trabalho, preocupações com a carreira e conteúdos de gestão/planejamento desejáveis na graduação. Métodos: Estudo exploratório-descritivo, quantitativo, realizado por meio de questionário digital autoadministrado (31 itens) aplicado a alunos do internato. Resultados: Dos 198 questionários, 196 foram válidos. A maioria era do sexo feminino (72,2%), com predominância etária entre 20–24 anos. A intenção de seguir a especialidade foi de 99,5%, motivo principal afinidade; o formato preferido foi a residência (90,9%). Houve lacunas informacionais sobre modalidades formativas (44,2% não souberam diferenciar residência, lato sensu e fellow) e 84,3% referiram não ter recebido dados suficientes na graduação para decidir o modelo. Conclusão: Identificaram-se necessidades formativas relacionadas à educação para a carreira e gestão profissional ao longo da graduação em Medicina.
Palavras-chave: Educação Médica; Internato e Residência; Escolha da Profissão; Especialidades Médicas; Mercado de Trabalho; Planejamento de Carreira.
Introdução
A transição da graduação para o exercício profissional médico requer decisões complexas sobre especialização, locais e vínculos de trabalho, além de competências de gestão de carreira e de finanças pessoais. Esse processo é influenciado por mudanças demográficas, políticas públicas e condições de trabalho, e por fatores individuais como afinidade, estilo de vida e valores. Compreender as aspirações e necessidades informacionais de internos é estratégico para o desenho curricular e para ações de apoio institucional.
Objetivos
Objetivo geral: avaliar a opinião de estudantes do internato de cursos de Medicina sobre perspectivas de carreira. Objetivos específicos: (a) descrever o perfil dos internos; (b) mapear especialidades pretendidas e modos de obtenção do título; (c) identificar motivações de escolha; (d) verificar percepções sobre conteúdos de carreira na graduação; (e) explorar objetivos imediatos pós-formatura; (f) identificar dificuldades atuais; (g) mapear perspectivas de renda e gestão de carreira.
Métodos
Estudo exploratório-descritivo, quantitativo, com aplicação de questionário digital autoadministrado (31 itens) a internos de uma rede de cursos de Medicina (IDOMED). O instrumento incluiu dados sociodemográficos, escolha e motivação da especialidade, formatos de formação, objetivos pós-formatura, dificuldades, preocupações, expectativas, setor e ambiente de trabalho pretendidos, faixa salarial e temas de gestão de carreira. As respostas foram tabuladas em planilha eletrônica para análise descritiva. Ética: pesquisa sem risco físico, conduzida segundo a Resolução CNS 466/2012; coleta mediante TCLE e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, CAAE nº 69106523.1.0000.5414.
Resultados
Dos 198 questionários, 196 foram validados. Predominaram mulheres (72,2%); a faixa etária mais frequente foi 20–24 anos. A maioria declarou-se branca (70,6%), seguida de parda (24,9%) e preta (3,6%). Em relação à formação, o vestibular foi a principal forma de ingresso (43,4%). Quanto à especialização, 99,5% pretendem seguir uma especialidade; a residência médica foi o formato preferido (90,9%). As motivações para o formato concentraram-se em mercado de trabalho (33,8%) e afinidade (32,3%), seguidas de estilo de vida (14,1%). Para a escolha da especialidade, o principal motivo foi afinidade (61,4%), seguido de estilo de vida (10,7%). Observou-se lacuna informacional: 44,2% não sabiam diferenciar residência, lato sensu e fellow; 84,3% relataram que a graduação não forneceu dados suficientes para essa decisão, embora 97,5% considerem importante que a IES forneça tais dados. Quanto às prioridades pós-formatura, o objetivo mais citado foi realizar especialização (33,3%), seguido por estudar para residência (16,9%) e combinações envolvendo ESF e UPA. As principais dificuldades no momento foram priorização de estudo para residência (35,9%) e administração do tempo (33,8%). As preocupações futuras concentraram-se em competência profissional (38,9%), medo do erro (28,8%) e desvalorização/mercantilização (25,3%). A maioria pretende atuar simultaneamente nos setores público e privado (89,4%), e a faixa salarial almejada mais frequente foi acima de R$ 40 mil mensais (33,3%). Quanto a conteúdos curriculares, 99% consideraram importante a inclusão de gestão e carreira médica na graduação.
Discussão
Os achados revelam forte orientação à especialização entre internos, acompanhada de lacunas informacionais sobre modalidades formativas e gestão de carreira. Tais resultados reforçam a necessidade de intervenções curriculares estruturadas (p. ex., trilhas de educação para a carreira, mentoria com egressos, oficinas de planejamento) e de conteúdos de gestão e economia da saúde para médicos (contratos, tributação, modelos de vínculo, precificação e indicadores de qualidade). A tensão entre preparo para provas de residência e o aproveitamento do internato sugere estratégias pedagógicas que integrem raciocínio clínico e competências avaliadas, mitigando a dissociação teoria–prática e reduzindo estressores. Adicionalmente, a ênfase em competência profissional e medo do erro aponta para o fortalecimento de segurança do paciente, prática reflexiva, feedback estruturado e cultura de apoio.
Conclusão
Internos de Medicina desta rede apresentam elevada intenção de especialização e valorizam conteúdos de gestão e planejamento de carreira na graduação. Constatam-se lacunas de informação sobre modalidades formativas e dilemas de alocação de tempo no fim do curso. Currículos que integrem educação para a carreira, gestão profissional, bem-estar e preparo para residência podem favorecer escolhas conscientes e trajetórias sustentáveis.
Agradecimentos
Aos estudantes participantes e às coordenações de internato e cursos envolvidos.
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Aspectos éticos e conflitos de interesse
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, CAAE n° 69106523.1.0000.5414. Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
1Autor correspondente: William Felipe Machado – Centro Universitário Estácio IDOMED de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil – E-mail: Williamfm001@hotmail.com
2Orientador: Alexandre Pereira Ricci – Centro Universitário Estácio IDOMED de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil
