VIVÊNCIAS FORMATIVAS DE FISIOTERAPEUTAS RESIDENTES NA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE COMO ESPAÇO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL NO SISTEMA PÚBLICO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202601181927


Nícolas Milhome de Lima; Claudia Melo Canto; Crislaine Duarte de Loiola; Mona Indianara da Costa Aragão; Larissa Ravenna Brandão Silva; Thamires Sousa Coelho; Monik Cavalcante Damasceno; Ileana Maria Mendes Siqueira; Maria Eduarda Souto Pedrosa; Katiana Ximenes Prado


RESUMO

 As residências multiprofissionais em saúde, apresentam-se enquanto estratégia de formação em serviço e para o serviço, ao passo que se configuram como importante ferramenta de experimentação prática, discussão, reflexão e espaço de construção de conhecimento significativo que estimula a construção de profissionais capazes de produzir transformações nos espaços de saúde. Trata-se de um estudo do tipo relato de experiência a partir da vivência de fisioterapeutas residentes vinculados aos Programas de Residência Multiprofissional. A experiência ocorreu entre janeiro a maio de 2025 em turno vespertino nos serviços da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), Santa Casa de Misericórdia de Sobral (SCMS), Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), Centro de Reabilitação de Sobral (CRS), casa bom samaritano e programa melhor em casa.  De maneira geral, vivenciar a rotina de serviço de uma mesma categoria em setores distintos aos que os residentes estão inseridos, favorece sensibilização com relação à diferentes temáticas que possam chegar como demanda em seu espaço de atuação, ao passo que a troca de conhecimentos de profissionais atuantes no nível primário com aqueles que atuam nos níveis secundários e terciários trazem luz à problemas de efetiva realização de ações redirecionadas por outros setores que fogem à realidade dos territórios. A vivência dos fisioterapeutas residentes nos diferentes pontos da rede de saúde de Sobral-CE representou um espaço de aprendizagem e reflexão crítica sobre as práticas de cuidado.

Palavras chaves: Modalidades de Fisioterapia. Serviços de Saúde. Internato e Residência.

ABSTRACT

Multiprofessional health residencies are presented as a strategy for in-service and service-oriented training, while also constituting an important tool for practical experimentation, discussion, reflection, and a space for the construction of meaningful knowledge that encourages the development of professionals capable of promoting transformations within healthcare settings. This study is an experience report based on the experiences of resident physiotherapists affiliated with Multiprofessional Residency Programs. The experience took place between January and May 2025, during the afternoon shift, in services of the Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), Santa Casa de Misericórdia de Sobral (SCMS), Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), Centro de Reabilitação de Sobral (CRS), Casa Bom Samaritano, and the Melhor em Casa Program. In general, experiencing the service routine of the same professional category in sectors different from those in which residents are usually inserted promotes greater awareness of diverse demands that may arise in their own fields of practice. At the same time, the exchange of knowledge between professionals working at the primary, secondary, and tertiary levels of care highlights challenges related to the effective implementation of actions redirected by other sectors, often misaligned with the realities of the territories. The experience of resident physiotherapists across different points of the healthcare network in Sobral, Ceará, represented a space for learning and critical reflection on healthcare practices.

Keywords: Physical Therapy Modalities; Health Services; Internship and Residency.

1 INTRODUÇÃO

A Atenção primária à saúde (APS) é a principal porta de entrada dos usuários aos serviços de saúde, caracteriza-se pela prestação de cuidado integral, que se dá através da articulação de conhecimentos entre diferentes atores, sejam eles profissionais e/ou usuários, funcionando como o núcleo de comunicação da Rede de Atenção à Saúde e coordenadora dos processos de cuidado à saúde (Santos, 2024) (Soares, 2025). As mudanças observadas no perfil demográfico e epidemiológico nos últimos anos, causam impacto sobre as necessidades e demandas em saúde apresentadas pelas pessoas, ao demonstrarem maior complexidade e necessidade de preparo profissional para o desempenho de um trabalho colaborativo em equipe pautado na interprofissionalidade (Medeiros, 2024).

Nesse sentido, as residências multiprofissionais em saúde, apresentam-se enquanto estratégia de formação em serviço e para o serviço, ao passo que se configuram como importante ferramenta de experimentação prática, discussão, reflexão e espaço de construção de conhecimento significativo que estimula a construção de profissionais capazes de produzir transformações nos espaços de saúde (Ferreira, 2025), (Noro, 2025), (Soares, 2025). As residências, constituem-se como programas de Pós-graduação Latu-sensu, compostas por carga horária 80% prática em serviço e 20% teórica, as quais contribuem à melhor qualidade do serviço prestado pelos profissionais e fortalecem o Sistema Único de Saúde (SUS), centrado no cuidado do usuário, da família e da comunidade, considerando as necessidades e particularidades de cada território (Ferreira, 2025), (Medeiros, 2024), (Noro, 2025), (Soares, 2025).

 A carga horária das residências em saúde, de maneira geral, é composta por diferentes tipos de vivências, as quais podem ser do tipo, teórico conceitual, na rotina dos territórios, na produção científica e no formato de extensão (Menezes,2022). Dentre as vivências citadas, a Residência Multiprofissional em Saúde da Família,desenvolvida pela parceria entre a Escola de Saúde Pública Visconde de Sabóia (ESP-VS) e Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), oportuniza o seguimento de vivência de extensão a partir da observação do trabalho desenvolvido em setores específicos da rede municipal de saúde do município de Sobral-Ce, sendo estas, de caráter obrigatório a cada categoria, que a partir da observação do trabalho desenvolvido nestes pontos da rede, possibilitam melhor manejo de diferentes demandas presentes na APS, articulação efetiva da rede e troca de conhecimentos e experiências profissionais (Menezes, 2022), (Soares, 2025).

Este estudo se justifica, a partir da relevância significativa agregada às vivências de extensão, as quais, se apresentam enquanto importante ferramenta de reflexão crítica, que contribui ao processo formativo de profissionais aptos à atuarem no Sistema Único de Saúde. Deste modo, o objetivo deste estudo é relatar a experiência de fisioterapeutas residentes em Saúde da Família pela ESP-VS que vivenciaram o desenvolvimento do serviço de 6 pontos da rede de atenção à saúde de Sobral-CE.

2 METODOLOGIA

Trata-se de um estudo do tipo relato de experiência a partir da vivência de fisioterapeutas residentes vinculados aos Programas de Residência Multiprofissional em Saúde da Família da Escola de Saúde Pública Visconde Sabóia (ESP-VS), localizada no município de Sobral, Ceará. A experiência ocorreu entre janeiro a maio de 2025 em turno vespertino nos serviços da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), Santa Casa de Misericórdia de Sobral (SCMS), Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), Centro de Reabilitação de Sobral (CRS), casa bom samaritano e programa melhor em casa.      

A vivência em cada serviço se deu a partir de pactuação institucional entre a Escola de Saúde Pública Visconde de Sabóia e as instituições proponentes das vivências, com prioridade de realização durante o ano 1 de residência e com duração mínima de 3 turnos por serviço, com devido preenchimento de frequência, a fim de comprovar cumprimento total de 80h de vivência. 

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

 De maneira geral, vivenciar a rotina de serviço de uma mesma categoria em setores distintos aos que os residentes estão inseridos, favorece sensibilização com relação à diferentes temáticas que possam chegar como demanda em seu espaço de atuação, ao passo que a troca de conhecimentos de profissionais atuantes no nível primário com aqueles que atuam nos níveis secundários e terciários trazem luz à problemas de efetiva realização de ações redirecionadas por outros setores que fogem à realidade dos territórios. Barreiras como  a rotatividade de profissionais, mudanças constantes de fluxos e o acesso a informatização que não chega à todos os serviços, são fatores que dificultam a efetiva articulação da rede de saúde, assim como observado no período de vivência.

Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE)

A associação de pais e amigos dos excepcionais vinculada ao município de Sobral é uma instituição filantrópica que atua na promoção da inclusão social, educacional e do desenvolvimento integral de pessoas com deficiência cognitiva e física. A instituição oferece atendimento educacional especializado, bem como ações de apoio pedagógico, social e terapêutico, possuindo uma equipe multiprofissional, além de uma estrutura adaptada para as necessidades de seus usuários. Desse modo, a APAE tem um papel fundamental no contexto local ao contribuir para aumento da autonomia, garantia de direitos e melhoria da qualidade de vida dos pacientes, além de fortalecer o vínculo com a comunidade e o serviço de saúde.

O fisioterapeuta ganha destaque pelo cuidado integral ao atuar na avaliação, prevenção e tratamento das disfunções cinético-funcionais nas crianças associadas às diferentes condições de deficiência (Soares, 2024). A intervenção fisioterapêutica na APAE contribui para o desenvolvimento motor, aumento da funcionalidade por meio de intervenções terapêuticas individualizadas baseada na prática baseada em evidência, alinhando os princípios da melhor evidência disponível, experiência clínica do profissional, além das preferências dos pacientes e responsáveis (Neto, 2023).

Durante a vivência prática, os fisioterapeutas residentes acompanharam a atuação de um fisioterapeuta com anos de experiência em pediatria por três turnos de atendimento com sessões de duração média de 30 minutos. Os atendimentos realizados em crianças com diagnóstico de paralisia cerebral em diferentes níveis do Gross Motor Function Classification System (GMFCS), além de indivíduos com transtorno do espectro autista (TEA) e síndrome de Down. As intervenções fisioterapêuticas incluíram o uso de recursos como barra paralela, superfícies instáveis e atividades lúdicas, associadas a estímulos sensoriais e exercícios de fortalecimento muscular para promover o desenvolvimento motor, a funcionalidade e o engajamento das crianças no processo terapêutico.

Santa Casa de Misericórdia de Sobral (SCMS) 

A Santa Casa de Misericórdia de Sobral trata-se de uma instituição filantrópica, reconhecida pelo Ministério da Saúde e da Educação desde de 2007 como Hospital de Ensino, que atua como referência regional e estadual no seguimento de atendimento em saúde de média e alta complexidade. Apresenta-se enquanto um ponto da rede de atenção à saúde que funciona como porta aberta para a população de 55 municípios da macrorregião norte do Ceará. Fundada em 1925 por um bispo, como ponto de apoio aos mais necessitados, passou por diversas expansões ao longo do tempo e hoje é reconhecida como Centro de Alta Complexidade em Oncologia (CACON) e referência no atendimento à demandas dos segmentos de Traumato-ortopedia, Obstetrícia, Neurocirurgia, Oncologia e Terapia Renal Substitutiva e em especialidades como neurologia, neonatologia e gestação de alto risco.

Durante o período de vivência, os residentes puderam observar a rotina de 3 setores, o oncológico, UTI e emergência. Com relação ao setor oncológico, os residentes acompanhados de uma fisioterapeuta residente de oncologia, foram apresentados à rotina do serviço desempenhado pelo profissional fisioterapeuta neste seguimento, com reconhecimento desde o espaço de tratamento com radioterapia e suas devidas precauções e normas de segurança, espaço destinado à realização de quimioterapia e espaço de atendimentos multiprofissional de diferentes categorias. Durante a visita e acompanhamento da rotina, foram observados desafios com relação à falta de espaço adequado para realização dos atendimentos de fisioterapia, continuidade de acompanhamento dos pacientes atendidos, falta de materiais e outros, sendo ainda realizada troca de experiências e conhecimentos acerca dos pacientes que necessitam de um suporte longitudinal na APS.

No setor de UTI, os residentes acompanharam a rotina de um profissional fisioterapeuta que atua também como preceptor de outros residentes em saúde, o qual apresentou as características físicas do espaço e suas funcionalidades. Foi descrito o perfil de pacientes inseridos neste ambiente, como idade média, perfil clínico, causa da internação em ambiente de UTI, além de observação do serviço desempenhado pelo profissional aos pacientes críticos. No setor de urgência, os residentes acompanharam a rotina de serviço de um fisioterapêuta residente em urgência e emergência, que apresentou o ambiente que funciona enquanto porta de entrada de diferentes condições de agravo em saúde e relatou a atuação do fisioterapêuta neste seguimento, reforçando a importância da comunicação entre a equipe e o manejo breve das demandas apresentadas. Neste setor, foram relatados problemas como a superlotação e a sobrecarga de trabalho sobre os profissionais.

De maneira geral, o papel do fisioterapeuta no ambiente hospitalar, seja na UTI ou nas enfermarias, engloba a manutenção e/ou recuperação funcional dos pacientes internados, seja por meio de mobilização precoce, manejo de ventilação mecânica, no preparo pré e pós operatório e bem como nos manejo de condições clínicas agudas ou crônicas do paciente sendo um ponto de significativa relevância na assistência à saúde, assim como observado nas vivências (Costa, 2022), (Ferreira, 2017).

Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST)

Durante as vivências de extensão, os residentes tiveram contato com o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), um equipamento especializado em saúde do trabalhador, que vai além da prática clínica. Trata-se de um centro regional, habilitado desde o ano de 2005 que cobre uma área de abrangência de 47 municípios (Ribeiro, 2013). Tem como objetivos e funções a realização de ações de vigilância nos ambientes de trabalho, que são acompanhadas de momentos de troca de informações aos trabalhadores a cerca de práticas laborais saudáveis e consequente redução dos riscos no ambiente de trabalho, além de desempenhar funções epidemiológicas, educativas e  investigativas, fortalecendo o desempenho de políticas públicas (Ribeiro, 2013)

O CEREST possui funcionamento na assistência especializada com trabalhadores que possuem agravos de saúde relacionados às atividades laborais, além da promoção, proteção e recuperação de saúde. Além disso, funciona como órgão que investiga as condições de trabalho, colaborando com a vigilância sanitária e coletando dados epidemiológicos, a fim de estudar os padrões de adoecimento.

Durante o processo de observação da rotina desempenhada pelos profissionais que atuam neste equipamento de saúde, foram apresentados conceitos chaves de saúde do trabalhador, como definição e exemplificação de tipos de trabalhadores, acidente de trabalho e de percurso, tipos de notificação em saúde, municípios de abrangência do equipamento, os fluxos de entrada e encaminhamentos realizados a pelos profissionais atuantes neste nível de atenção e suas funções, informando que os atendimentos no CEREST funcionam com equipe multidisciplinar que inclui médico, enfermeiro, psicólogo, fisioterapeuta e outros, que irão avaliar o estado de saúde do trabalhador e identificar a existência de nexo causal entre o agravo e a atividade laboral, que a partir da identificação de correlação, o trabalhador será atendido no ambulatório do CEREST, caso contrário será encaminhado a outros serviços de saúde.

Ainda durante o período de vivência, os profissionais demonstraram como se dá o processo de preenchimento e registro das fichas de notificação dos acidentes de trabalho que chegam à este setor, demonstrando quais os principais problemas com relação ao preenchimento incompleto de informações e/ou com ortografia de difícil compreensão, reafirmando a importância deste recurso para o acompanhamento de dados referentes à saúde do trabalhador e suas implicações aos serviços de saúde como um todo. Além disso, realizou-se ainda o acompanhamento dos momentos de visitas de fiscalização de ambientes de trabalho e momentos de educação em saúde desenvolvidos pela equipe de profissionais incorporados neste serviço. Como desafios enfrentados, foi relatada a falta de transporte, número reduzido de profissionais e baixa notificação advindas da atenção primária à saúde.

A vivência permitiu evidenciar a importância estratégica da articulação entre CEREST e atenção básica, uma vez que a mesma atua como porta de entrada do SUS e identifica precocemente, os agravos relacionados ao trabalho, sendo responsável por realizar encaminhamentos dos usuários aos centros especializados. Sabe-se que os CEREST’s, fazem parte da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do trabalhador (RENAST), e que estes funcionam como pontos de estratégia e efetivação da saúde do trabalhador, ao atuar como articuladores e organizadores que assumem retaguarda técnica no que diz respeito à esse segmento nos diferentes níveis de atenção do SUS (Jorge, 2023).

A atuação do profissional fisioterapêuta neste ponto da rede é crucial e reflete a ampliação da percepção de possíveis campos de atuação desta categoria, que à curtos passos se consolida no desempenho de ações integrais de saúde, que fogem da antiga concepção de atuação somente no tratamento de distúrbios cinéticos funcionais já instalados. A crescente inserção do fisioterapeuta em diferentes níveis de atenção à saúde, reforça o modelo de atenção à saúde vigente no país, que aborda e reconhece o sujeito enquanto suas múltiplas dimensões que se correlacionam aos agravos e interferem na assistência à saúde do trabalhador (Melo, 2017).

Casa Bom Samaritano

A casa Bom Samaritano é uma instituição de acolhimento de idosos que estão em vulnerabilidade social funcionando como unidade de acolhimento institucional, sendo ofertado moradia provisória aos acolhidos, até que eles possam retornar ao convívio familiar, ser encaminhados a uma família substituta ou fortalecer autonomia suficiente para que esse idoso viva de forma independente. A instituição tem como proposta desenvolver convívio comunitário e familiar, promovendo dignidade e bem estar. Além disso, a instituição possui características residenciais com um vínculo acolhedor,visando promover e estreitar vínculos familiares.

O local atualmente funciona apenas com técnicos de enfermagem e auxiliares de limpeza que são responsáveis por realizar os cuidados dos idosos, desde alimentação, saúde e higiene pessoal. Essa é uma das problemáticas enfrentadas pela instituição, tendo em vista que muitos idosos possuem comorbidades e incapacitações físicas que exigem cuidado especializado e continuado. A equipe do CSF realiza atendimentos mensal na instituição, porém ainda é pouco, pois grande parte necessita de um acompanhamento próximo. Outra problemática evidente é a dificuldade financeira recorrente, sendo necessário doações recorrentes.

De acordo com Ribas e colaboradores (2012) a atuação do fisioterapeuta nas instituições de longa permanência para idosos é fundamental para a manutenção da funcionalidade e da qualidade de vida dessa população. Desse modo, os idosos que institucionalizados frequentemente apresentam redução da mobilidade, perda de força muscular e alterações sensório-motor, consequentemente um maior risco de quedas, onde a fisioterapia desempenha um papel essencial na prevenção de complicações secundárias ao imobilismo e permitir maior autonomia para realização tanto das atividade básicas de vida diárias, quanto as atividades instrumentais de vida diária (Costa, 2025) (Medeiros, 2024).

Durante a vivência prática na instituição, cada profissional realizou dois atendimentos distribuídos ao longo de três turnos, com sessões previamente organizadas e duração estabelecida conforme as necessidades dos idosos assistidos. Os atendimentos foram direcionados, em sua maioria, a idosos com perda da independência funcional, restrição ao leito, atrofia e fraqueza muscular, além de déficits cinético-funcionais significativos. As intervenções tiveram como foco a manutenção e a recuperação da funcionalidade, a prevenção de complicações secundárias decorrentes da imobilidade prolongada e a promoção da qualidade de vida, evidenciando a importância da atuação fisioterapêutica no contexto do acolhimento institucional de idosos em situação de vulnerabilidade social.

Centro de Reabilitação de Sobral (CRS)

O Centro de Reabilitação de Sobral (CRS), é um serviço de atenção especializada presente no município de Sobral-CE desde 2010, que tem como principal objetivo suprir com o manejo adequado às demandas que não são passíveis de resolutividade apenas na APS. O CRS é implementado no município de Sobral visando recuperação e reabilitação funcional de indivíduos com diferentes condições de saúde, como sequelas neurológicas, traumato-ortopédicas, respiratórias e cardiovasculares e para isso, contavam com equipe multiprofissional.

Durante o período de vivência dos residentes, foi apresentada toda a estrutura física do ambiente e suas adaptações que visam atender as necessidades dos pacientes atendidos neste espaço, além de um momento de apresentação dos serviços ofertados, composição do quadro de profissionais e formas de acesso ao serviço que se dá tanto por meio de encaminhamento via sistema de regulação para tratamentos longitudinais como por demanda de agendamentos para serviços específicos. No período da vivência, o serviço contava com um quadro de 58 profissionais de diferentes categorias profissionais, como assistência social, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia, educação física, medicina e fisioterapia, sendo esta última categoria a que conta com a maior parte de profissionais que compunham o quadro.

Além dos atendimentos individuais, ocorrem ainda no mesmo complexo, grupos de convivência para familiares, grupo de apoio à pacientes com hanseníase e grupo de pilates solo guiado por educador físico. Ainda com relação à atuação fisioterapêutica, são realizados atendimentos à população pediátrica e aos amputados, sendo este último um serviço muito bem estabelecido que interage ainda que de maneira breve com outros pontos da rede de saúde, diante da integração entre os serviços de dispensação de órteses e próteses, preparo pós amputação e acompanhamento longitudinal na APS. Ao acompanhar a rotina do serviço desempenhada por fisioterapêutas, os residentes puderam observar a grande demanda de atendimentos realizados, o espaço inadequado para a realização de terapia de reabilitação cinesioterapêutica, salas ociosas equipadas com equipamentos sem comprovação científica de eficácia, sobrecarga dos profissionais e ausência de interação com os demais pontos da rede de atenção à saúde. Por outro lado, o ambiente de realização de atividades em grupo e o espaço de atendimentos pediátricos eram muito bem equipados.

Outros serviços são desenvolvidos também no CRS, como o acompanhamento de pacientes ostomizados, realização de consultas com médicos especialistas no segmento de traumato-ortopedia, atendimento com psicopedagoga e psicóloga, terapia fonoaudiológica, atendimentos de reflexologia podal e atendimentos em saúde auditiva. Sabe-se que as práticas de reabilitação em saúde objetivam contribuir ao alcance máximo de funcionalidade dos indivíduos, estimulando e realizando manutenção das funções e prevenindo o agravo de limitações (Assis, 2025).

Na APS, é comum às equipes receber demandas de casos consequentes de situações geradoras de deficiências e/ou com impacto sobre a funcionalidade, desta forma, o reconhecimento e integração entre os diferentes pontos da rede reduzem possíveis limitações encontradas tanto pelo profissional que atua na APS quanto do que atua na atenção especializada, especialmente pelo fato de que na APS o fisioterapeuta contribui como microrregulador dos fluxos, realizando quando possível suas intervenções no território bem como os devidos encaminhamentos aos demais pontos da rede quando necessário, assim como observado e discutido durante o período de vicência neste serviço (Martins, 2017).

Programa Melhor Em Casa

O programa Melhor em Casa (PMeC) é um programa do Ministério da Saúde instituído com a finalidade de estruturar e ampliar a atenção domiciliar como estratégia de cuidado oferecendo serviços de caráter multiprofissional no domicílio de usuários que, por limitações funcionais, restrição ao leito, não podem ser deslocar até unidades de saúde. O programa integra os Serviços de Atenção Domiciliar (SAD) na Rede de Atenção à Saúde e está regulamentado por portarias do Ministério da Saúde, como a Portaria GM/MS nº 3.005/2024 que dispõe sobre sua organização e funcionamento, estabelecendo critérios de habilitação, modalidades assistenciais, além de articular a atuação das equipes multiprofissionais para garantir a longitudinalidade do cuidado.

O fisioterapeuta desempenha papel fundamental na promoção da funcionalidade, manutenção da mobilidade, prevenção de complicações e estímulo à autonomia dos pacientes atendidos em domicílio dentro do PMeC (Figueira, 2024). O profissional realiza avaliação individualizada da capacidade funcional, força muscular, amplitude de movimento e equilíbrio. Entre os recursos e técnicas utilizados destacam-se exercícios ativos e assistidos, mobilizações, alongamentos, treino de marcha e transferência, posicionamento adequado, adaptação de ambientes e orientação a cuidadores (De Sousa 2022). O PMeC contempla cuidados que vão desde o tratamento de doenças e prevenção de agravos até cuidados paliativos e reabilitação intensiva em ambiente domiciliar, contribuindo para a desospitalização, a humanização do cuidado e a promoção da qualidade de vida dos pacientes (Cavalcante, 2022).

Durante a vivência no serviço, foi realizado acompanhamento de um fisioterapeuta vinculado ao PMeC por três turnos, atendendo dois pacientes com necessidades distintas e complexas. O primeiro era uma criança com paralisia cerebral, al, classificada como GMFCS nível IV, enquanto o segundo paciente era um adulto restrito ao leito devido a complicações de acidente vascular cerebral (AVC) há aproximadamente um ano. Ambos apresentavam histórico de acompanhamento contínuo pelo programa, com cuidados já consolidados e vínculo estabelecido com a equipe multiprofissional. As intervenções observadas incluíram mobilizações passivas e assistidas, exercícios para manutenção da amplitude de movimento, treino de postura e transferências, sempre com foco na preservação da funcionalidade, prevenção de complicações secundárias e promoção do conforto e bem-estar dos pacientes no contexto domiciliar.

4 CONCLUSÃO

A vivência dos fisioterapeutas residentes nos diferentes pontos da rede de saúde de Sobral-CE representou um espaço de aprendizagem e reflexão crítica sobre as práticas de cuidado. A experiência possibilitou compreender o papel do fisioterapeuta na promoção da funcionalidade, prevenção de complicações e estímulo à autonomia dos usuários. Observou-se ainda as barreiras estruturais e a importância da integração entre os serviços. Dessa forma, a residência contribuiu para a qualificação da atuação fisioterapêutica e desenvolvimento de competências profissionais no serviço público de saúde.

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