REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202601171253
Daniel Rocha Diniz Teles1
RESUMO
A insônia constitui um dos distúrbios do sono mais prevalentes na Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente quando associada a transtornos mentais comuns, como a depressão e a ansiedade. A coexistência dessas condições representa desafio frequente na prática clínica, uma vez que impacta negativamente a qualidade de vida, a funcionalidade diurna e a capacidade produtiva dos indivíduos, além de aumentar a procura pelos serviços de saúde. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, cujo objetivo é analisar as evidências científicas acerca do manejo da insônia associada à depressão e à ansiedade no contexto da APS. A busca foi realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Biblioteca Virtual em Saúde, contemplando estudos publicados nos últimos dez anos. Os resultados apontam para a predominância do tratamento farmacológico na prática assistencial, embora intervenções não farmacológicas, como a terapia cognitivo-comportamental para insônia, educação em saúde e higiene do sono, apresentem melhores desfechos em médio e longo prazo. Conclui-se que o manejo da insônia deve priorizar abordagens integrais, centradas na pessoa, alinhadas aos princípios da Medicina de Família e Comunidade e à longitudinalidade do cuidado.
Palavras-chave: Insônia. Depressão. Ansiedade. Atenção Primária à Saúde.
ABSTRACT
Insomnia is one of the most prevalent sleep disorders in Primary Health Care (PHC), especially when associated with common mental disorders such as depression and anxiety. The coexistence of these conditions represents a frequent challenge in clinical practice, as it negatively impacts quality of life, daytime functionality, and individuals’ productivity, in addition to increasing demand for health services. This is an integrative literature review aimed at analyzing the scientific evidence regarding the management of insomnia associated with depression and anxiety in the PHC context. The search was conducted in the PubMed, SciELO, LILACS, and Virtual Health Library databases, covering studies published over the last ten years. The results indicate the predominance of pharmacological treatment in clinical practice, although non-pharmacological interventions, such as cognitive-behavioral therapy for insomnia, health education of sleep, show better outcomes in the medium and long term. It is concluded that the management of insomnia should prioritize comprehensive, person-centered approaches, aligned with the principles of Family and Community Medicine and the continuity of care.
Keywords: Insomnia. Depression. Anxiety. Primary Health Care.
1 INTRODUÇÃO
A insônia é reconhecida como um dos distúrbios do sono mais frequentes na população geral, caracterizando-se por dificuldade em iniciar ou manter o sono, despertar precoce ou sono não reparador. Essas alterações repercutem de forma significativa no funcionamento físico, emocional, social e cognitivo do indivíduo, comprometendo a qualidade de vida e o desempenho nas atividades cotidianas.
No contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), a queixa de insônia é recorrente e, muitas vezes, surge associada a sintomas de ansiedade e depressão. Tais condições compõem um conjunto de transtornos mentais comuns amplamente observados nesse nível de atenção, exigindo abordagem clínica ampliada, sensível e contextualizada (BRASIL, 2023).
A relação entre insônia, depressão e ansiedade é descrita na literatura como bidirecional e multifatorial. A insônia pode anteceder o surgimento de transtornos depressivos e ansiosos, atuar como fator de manutenção dessas condições ou manifestar-se como sintoma associado, intensificando o sofrimento psíquico. Essa interação contribui para maior procura por serviços de saúde, absenteísmo laboral e uso prolongado de medicamentos (BUSNELLO, et al, 2016).
Diante desse cenário, a Medicina de Família e Comunidade assume papel central ao possibilitar cuidado longitudinal, vínculo terapêutico e abordagem centrada na pessoa, considerando aspectos biopsicossociais. Contudo, observa-se que o manejo da insônia ainda é frequentemente pautado em estratégias medicalizantes, o que reforça a necessidade de sistematização das evidências científicas sobre abordagens mais eficazes e sustentáveis no âmbito da APS.
2 OBJETIVOS
2.1 Objetivo Geral
Analisar as evidências científicas disponíveis acerca do manejo da insônia associada à depressão e à ansiedade na Atenção Primária à Saúde.
2.2 Objetivos Específicos
- Identificar estratégias terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas descritas
na literatura; - Analisar o papel da APS no cuidado dessas condições;
- Discutir implicações para a prática da Medicina de Família e Comunidade.
3 METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, método que possibilita a síntese de resultados de estudos com diferentes delineamentos, permitindo compreensão ampliada do fenômeno investigado. A busca foi realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Biblioteca Virtual em Saúde, contemplando artigos publicados nos últimos dez anos, disponíveis na íntegra (SILVA, 2022).
A pergunta norteadora foi: como a insônia associada à depressão e à ansiedade é manejada na Atenção Primária à Saúde segundo a literatura científica? Foram excluídos estudos duplicados, editoriais, cartas ao editor e pesquisas que não se enquadrassem no contexto da APS. A análise dos dados ocorreu por meio de leitura exploratória, leitura analítica e síntese interpretativa dos achados.
4 DESENVOLVIMENTO
4.1 Insônia no contexto da Atenção Primária à Saúde
A insônia apresenta elevada prevalência na APS, sendo frequentemente relatada como queixa principal ou secundária durante as consultas. Muitos usuários tendem a naturalizar alterações do sono como parte do cotidiano, o que pode retardar a busca por cuidado e dificultar o diagnóstico oportuno (SMITH, 2016).
A identificação da insônia na APS requer escuta qualificada e abordagem clínica cuidadosa, considerando fatores ambientais, comportamentais e psicossociais. A longitudinalidade do cuidado permite acompanhar a evolução do quadro e ajustar intervenções conforme a necessidade do usuário.
4.2 Relação entre insônia, depressão e ansiedade
Estudos indicam que indivíduos com insônia apresentam maior risco de desenvolver transtornos depressivos e ansiosos. Da mesma forma, sintomas de ansiedade e depressão podem intensificar alterações do sono, estabelecendo um ciclo de retroalimentação negativa (STARFIELD, 2022).
Essa relação reforça a necessidade de abordagem integrada, evitando a fragmentação do cuidado e reconhecendo a complexidade do sofrimento psíquico apresentado pelos usuários da APS.
4.3 Manejo farmacológico na APS
O tratamento farmacológico é amplamente utilizado no manejo da insônia associada à depressão e à ansiedade, especialmente por meio do uso de hipnóticos e antidepressivos. Embora apresentem eficácia a curto prazo, esses medicamentos estão associados a riscos quando utilizados de forma prolongada (TAYLOR, et al, 2013).
Na APS, a prescrição deve ser criteriosa, baseada em avaliação clínica abrangente, com monitoramento contínuo, revisão periódica e orientação adequada quanto aos riscos e benefícios do tratamento.
4.4 Manejo não farmacológico
As intervenções não farmacológicas apresentam evidências robustas de eficácia e segurança, sendo recomendadas como estratégias de primeira linha no manejo da insônia. Destacam-se a terapia cognitivo-comportamental para insônia, a educação em saúde e a promoção da higiene do sono (STARFIELD, 2022).
Essas estratégias favorecem o protagonismo do usuário, promovem autonomia no cuidado e estão alinhadas aos princípios da APS, contribuindo para a redução da medicalização excessiva.
4.5 Papel da Medicina de Família e Comunidade
A Medicina de Família e Comunidade ocupa posição estratégica no manejo da insônia associada à depressão e à ansiedade, ao possibilitar acompanhamento longitudinal, vínculo terapêutico e abordagem centrada na pessoa (BRASIL, 2023).
A atuação multiprofissional e a articulação com a rede de atenção psicossocial potencializam os resultados terapêuticos e fortalecem o cuidado integral. Com a colocação de diversos saberes e práticas adquiridas com o tempo ao profissional qualificado, passa a favorecer uma compreensão ampliada das demandas apresentadas pelo usuário, ultrapassando a dimensão clínica.
Com isso, a Rede psicossocial passa a permitir que o encaminhamento mais adequado é o longitudinal e a corresponsabilização pelo cuidado, onde reduz-se a separação das ações em conjunto com a medicalização em grande excesso no uso do sofrimento psíquico. Assim, o trabalho em conjunto fortalece o vínculo terapêutico, amplia o acesso e acima de tudo contribui para a promoção da autonomia do usuário.
5 CONCLUSÃO
O manejo da insônia associada à depressão e à ansiedade na Atenção Primária à Saúde deve priorizar abordagens integrais, com ênfase em estratégias não farmacológicas e cuidado centrado na pessoa. O fortalecimento da APS e da Medicina de Família e Comunidade é essencial para a qualificação do cuidado e para a promoção de melhores desfechos clínicos e psicossociais.
O cuidado centrado no indivíduo, possibilita a criação de planos e formas de terapias compartilhadas, sempre respeitando as singularidades, os contextos de vivencia de vida de cada um com suas respectivas necessidades. Nesse sentido, as estratégias não farmacológicas, como por exemplo o uso da educação em saúde, a perseverança da higiene do sono e a terapia cognitivo-comportamental apresentariam como intervenções centrais, ao promoverem conclusões mais sustentáveis a médio e longo prazo, que consequentemente reduziriam os riscos associados ao uso de medicamentos prolongados.
REFERÊNCIAS
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1Médico graduado pela Afya Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba. Residente de Medicina de Família e Comunidade pela Escola de Saúde Pública da Paraíba. E-mail: dinizteles13@gmail.com.
