WHO CARES FOR THE CAREGIVERS?THE RISE OF BURNOUT SYNDROME IN THE HEALTHCARE SYSTEMS OF DEVELOPING COUNTRIES, SUCH BRAZIL AND SOMALIA
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202512240810
Giordano de Toledo Palumbo Walderrama1
Pedro Staciarini Silveira Rodrigues2
RESUMO
Este artigo analisa a Síndrome de Burnout (SB) em profissionais de saúde da linha de frente, com foco em países de baixa e média renda, como Somália e Brasil. Trata-se de uma revisão de escopo focado baseada em quatro fontes científicas principais. Os resultados indicam uma prevalência de SB em torno de 25% nos contextos analisados, com fatores preditores variando entre gênero, carga horária e tempo de experiência. A pandemia de COVID-19 é identificada como o principal agravante contemporâneo. Conclui-se que a sustentabilidade dos sistemas de saúde depende de intervenções urgentes na gestão do trabalho e no suporte mental dos profissionais.
Palavras-chave: Síndrome de Burnout¹. Profissionais de Saúde². Saúde Pública³. COVID-19 4.
ABSTRACT
This article analyzes Burnout Syndrome (BS) among frontline healthcare professionals, focusing on low- and middle-income countries, such as Somalia and, to a lesser extent, Brazil. It is a focused scope literature review based on four specific scientific sources. The results indicate a BS prevalence of approximately 25% across the analyzed contexts, with predictive factors ranging from gender and marital status to workload rigidity and professional experience. The COVID-19 pandemic is identified as the primary contemporary aggravating factor, exacerbating emotional exhaustion due to prolonged exposure to high stress environments. The study concludes that the sustainability of healthcare systems, particularly in developing nations, depends on urgent management interventions, including workload adjustment and continuous mental health support for professionals.
Keywords: Burnout Syndrome¹. Healthcare Professionals². Public Health³. COVID-19 4.
1. INTRODUÇÃO
A Síndrome de Burnout (SB) foi caracterizada pioneiramente por Freudenberger [1] em 1974 como um estado de exaustão decorrente de demandas excessivas de energia e recursos no ambiente de trabalho. Posteriormente, o conceito foi refinado por Maslach et al. [2] como um construto multidimensional que envolve a exaustão emocional (EE), a despersonalização (DP) e a redução da realização pessoal (RP). Embora seja um fenômeno global, a SB manifesta-se com particular gravidade entre profissionais de saúde da linha de frente, cujas pressões interpessoais e riscos ocupacionais os colocam em um grupo de vulnerabilidade crítica.
A disparidade no enfrentamento desta síndrome é evidente ao comparar diferentes contextos socioeconômicos. Em países de baixa e média renda, o sistema de saúde enfrenta desafios estruturais crônicos, como a escassez de profissionais e a sobrecarga resultante da alta demanda por serviços. Na África Subsaariana, especificamente na Somália, a escassez de pesquisas locais sobre a magnitude do Burnout mascara uma realidade onde a prevalência pode atingir até 80%, influenciada por fatores como longos turnos e precariedade de recursos. No Brasil, embora existam mais dados consolidados, a realidade da linha de frente — exemplificada pelos técnicos de enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) — revela que o contato direto e prolongado com o sofrimento e o risco de morte são preditores centrais para o esgotamento.
Um divisor de águas na análise do Burnout foi a pandemia de COVID-19. Este período atípico exacerbou a relação direta entre o tempo de exposição ao trabalho e o desenvolvimento da patologia. O espectro clínico grave da doença exigiu um esforço hercúleo dos profissionais, que enfrentaram jornadas exaustivas e falta de preparo emocional para lidar com demandas inéditas. Como resposta a esses estressores crônicos, a SB não apenas compromete o desempenho profissional e a segurança do paciente, mas também desencadeia graves consequências físicas e psíquicas, incluindo distúrbios cardiovasculares, ansiedade e depressão.
Diante desse cenário, torna-se imperativo investigar os fatores preditores da SB em contextos de alta pressão e poucos recursos. Entender como variáveis sociodemográficas e a carga horária excessiva interagem na saúde mental desses trabalhadores é fundamental para que medidas ágeis de proteção sejam adotadas, garantindo a sustentabilidade dos sistemas de saúde, principalmente, em nações em desenvolvimento, como é o caso do Brasil.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de uma revisão de literatura de escopo focado. O objetivo metodológico não é realizar uma revisão sistemática exaustiva de todo o campo da dependência digital, mas sim sintetizar e analisar qualitativamente os dados específicos contidos exclusivamente nas quatro fontes de pesquisa fornecidas¹ para construir uma narrativa coesa sobre o tema. Os “materiais” ou “instrumentos”¹ utilizados para esta análise foram os quatro artigos científicos pré-selecionados, cada um fornecendo uma perspectiva metodológica distinta sobre o problema:
1. Um estudo transversal prospectivo (2025) realizado com 246 profissionais de saúde empregados em um hospital terciário em Mogadíscio, Somália, por Nur Adam Mohamed, Yusuf Abdirisak Mohamed, Rahma Yusuf Haji Mohamud e Adan Ali Gabow. Neste estudo, os dados foram coletados por meio da aplicação de questionários que abrangiam características sociodemográficas, psicológicas, relacionadas ao trabalho e à síndrome de Burnout. Os resultados foram apresentados utilizando razões de chances ajustadas (AORs), intervalos de confiança de 95% (IC 95%) e calores p, com um ponto de corte de 0,05.
2. Um estudo transversal descritivo(2021) de Ronilson Ferreira Freitas, Ione Medeiros de Barros, Marco Antônio Freitas Miranda, Tahiana Ferreira Freitas, Joasiane Santos Brant Rocha e Angelina do Carmo Lessa, realizado com 94 técnicos de enfermagem de terapia intensiva. Para isso, foram utilizados: um formulário de coleta de dados sociodemográficos, ocupacionais e comportamentais e o Maslach Burnout Inventory (MBI) em sua versão Human Services Survey (HSS). Assim, a associação entre as variáveis estudadas e a prevalência da síndrome de Burnout foi verificada por análise bivariada seguida de regressão de Poisson hierarquizada, com variância robusta.
3. Um artigo de revisão de literatura(2025) de José I. M. B. Júnior, Danilo C. Shockness, Cícero J. L. Costa, Marcela G. de L. M. Freire, Ana Beatriz R. C. Silva, Eduardo S. do Ó, Juan C. Mosqueda, Maria C. N. Saraiva, Fernanda G. de M. Sales e Lara M. de S. Benjamin, que tem como objetivo identificar o panorama atual do Burnout entre profissionais da saúde após a pandemia, com ênfase na identificação dos fatores de risco, consequências e estratégias de enfrentamento.
O “método de análise dos dados” ¹consistiu em uma síntese qualitativa e comparativa. Os achados de cada fonte foram extraídos, analisados e justapostos para construir um modelo explicativo unificado. A análise focou em identificar os fatores determinantes ¹, agravantes¹ e as consequências causadas pela síndrome de Burnout nos trabalhadores e no sistema de saúde ¹, seguindo uma lógica causal que vai das causas para as consequências.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A prevalência da Síndrome de Burnout encontrada nos estudos variou entre 24% em profissionais de saúde em Mogadíscio, Somália, e 25,5% entre técnicos de enfermagem intensivistas no Brasil. Estes dados corroboram a literatura que posiciona os trabalhadores da saúde como um grupo de alto risco global para o esgotamento profissional. Nesse aspecto, os principais determinantes da síndrome de Burnout (SB) refletem uma combinação de vulnerabilidades individuais e pressões do ambiente de trabalho. Na Somália, o gênero feminino apresentou uma chance 6,6 vezes maior de desenvolver a síndrome em comparação aos homens. Outros fatores significativos incluíram o estado civil (casados, divorciados ou viúvos apresentaram maior risco que solteiros) e a baixa experiência profissional (menos de 5 anos de carreira).
No contexto brasileiro, especificamente entre técnicos de enfermagem em UTIs, os principais preditores foram:
- Idade superior a 36 anos;
- Carga horária de trabalho rígida;
- Realização de horas extras;
- Hábito etilista.
Nesse sentido, alguns fatores podem acentuar a persistência e o aparecimento da SB, sendo os principais dentre eles avaliados nas pesquisas realizadas a precariedade do sistema de saúde, a qual está atrelada principalmente aos países em desenvolvimento e ocasiões em que os profissionais estão sobrecarregados e estressados. Sob essa ótica, a pandemia da COVID-19 atuou como um catalisador de estresse, especialmente em sistemas de saúde já fragilizados. Na Somália, a sobrecarga de trabalho (mais de 50 horas semanais) e a realização de sete ou mais plantões noturnos por mês triplicaram a probabilidade de Burnout. O sistema de saúde somali, marcado pela escassez de profissionais e demanda crescente, torna os trabalhadores particularmente vulneráveis ao esgotamento emocional devido à falta de recursos adequados.
Tabela 1. Distribuição (%) da síndrome de Burnout segundo características sociodemográficas, ocupacionais e comportamentais dos técnicos de enfermagem da unidade de terapia intensiva durante a pandemia da COVID-19

A Tabela 1, explícita fatores que aumentam a ocorrência da SB em um grupo de profissionais (técnicos de enfermagem) durante a pandemia, um período em que a carga horária, trabalho, estresse, medo e insegurança aumentaram. É possível observar nessa tabela que fatores como a idade, o sexo, a renda, vínculo profissional, estado conjugal, carga horária, tempo de trabalho na instituição, contato direto com pacientes, tabagismo e elitismo afetam a ocorrência da síndrome de Burnout nesses trabalhadores.
No Brasil, a linha de frente da pandemia expôs os técnicos de enfermagem ao contato prolongado com o sofrimento e o medo da morte, intensificando os estressores interpessoais crônicos. A falta de preparo emocional para lidar com as demandas de uma patologia grave, como a COVID-19, elevou o desgaste desses profissionais que passam a maior parte do tempo em assistência direta ao paciente e seus familiares.
As consequências do Burnout transcendem o indivíduo, afetando a infraestrutura de saúde como um todo:
- Para o Profissional: Observou-se uma correlação direta com patologias psicossociais, incluindo sintomas de ansiedade e depressão. Além disso, a SB está associada a consequências físicas graves, como fadiga prolongada, distúrbios cardiovasculares, gastrointestinais e dependência de substâncias psicotrópicas ou álcool. A má qualidade do sono foi um agravante físico crítico identificado na Somália.
- Para o Sistema de Saúde: O esgotamento profissional está intrinsecamente ligado ao baixo desempenho laboral e ao aumento do risco de erros assistenciais, o que compromete diretamente a segurança do paciente e a qualidade do cuidado. A intenção de abandonar a profissão, impulsionada pelo Burnout, ameaça agravar ainda mais a escassez de mão de obra em países de baixa e média renda.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão de escopo focado permitiu concluir que a Síndrome de Burnout não é apenas um fenômeno individual, mas uma crise estrutural que atinge o cerne dos sistemas de saúde, com especial severidade em países de baixa e média renda. Os dados analisados revelam uma prevalência alarmante, em torno de 25%, tanto no contexto hospitalar da Somália quanto nas unidades de terapia intensiva brasileiras, evidenciando que, independentemente da geografia, a exaustão emocional é a resposta direta a ambientes de alta pressão e recursos limitados.
Ficou demonstrado que os determinantes da síndrome são multifatoriais: envolvendo fatores sociais, biológicos e ambientais. Em ambos os cenários(Somália e Brasil), a pandemia de COVID-19 atuou como um catalisador irreversível, expondo profissionais a jornadas exaustivas e ao trauma psicológico do contato constante com a morte, muitas vezes sem o suporte institucional necessário.
As consequências desse esgotamento são cíclicas e perigosas. Para o trabalhador, o Burnout evolui para transtornos psicossociais graves e doenças físicas crônicas. Para o sistema de saúde, resulta em desfalques nas equipes pela intenção de abandono da profissão e na queda da qualidade da assistência, elevando o risco de erros médicos.
Em suma, a sustentabilidade dos sistemas de saúde, especialmente em nações em desenvolvimento, depende urgentemente de uma mudança de paradigma na gestão. É imperativo que as instituições implementem políticas de saúde ocupacional que incluam: Redução da rigidez de escalas e controle de horas extras; Suporte psicológico contínuo e programas de literacia em saúde mental;
Melhoria das condições estruturais de trabalho para mitigar o estresse ético causado pela falta de recursos.
Espera-se que este estudo contribua para sensibilizar gestores e pesquisadores sobre a necessidade de estratégias preventivas ágeis, garantindo que aqueles que cuidam da saúde pública também sejam devidamente cuidados.
REFERÊNCIAS
FREITAS, Ronilson Ferreira et al. Preditores da síndrome de Burnout em técnicos de enfermagem de unidade de terapia intensiva durante a pandemia da COVID-19. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 70, n. 1, p. 12-20, 2021.
FREUDENBERGER, Herbert J. Staff burn-out. Journal of Social Issues, v. 30, n. 1, p. 159- 165, 1974.
JÚNIOR, José Iracy Macário Barros et al. Burnout entre profissionais da saúde no pós-pandemia: o legado invisível da COVID-19. Asclepius International Journal of Scientific Health Science, v. 4, n. 8, p. 49-57, 2025.
MASLACH, Christina; JACKSON, Susan E.; LEITER, Michael P. Maslach Burnout Inventory Manual. 4. ed. Menlo Park, CA: Mind Garden, 1996.
MOHAMED, Nur Adam et al. Evaluation of the prevalence and risk factors of burnout syndrome among healthcare workers: A cross-sectional study. World Journal of Psychiatry, v. 15, n. 2, 2025.
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