USO DE TRICHOGRAMMA PRETIOSUM NO CONTROLE BIOLÓGICO DE STENOMA CATENIFER NA CULTURA DO ABACATE (PERSEA AMERICANA)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512092235


João Vitor de Souza
Luiz Otávio Alves Candido
Orientadora: Me. Mariana Cecília Melo


1 INTRODUÇÃO

A cultura do abacate possui significativa importância econômica no Brasil, destacando-se como uma das principais fontes de rendimento agrícola, tanto no mercado interno quanto externo (Gomes et al., 2018). Em 2024, a produção nacional de abacate atingiu 266.784 toneladas, com o estado de São Paulo liderando a produção, seguido por Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e o Distrito Federal (Serra, 2024). A crescente demanda por este fruto, associado à sua ampla aceitação no mercado internacional, sublinha a relevância dessa cultura e a necessidade de estratégias eficazes para garantir sua produtividade e sustentabilidade, bem como a manutenção da qualidade dos frutos (Serra, 2024).

A cultura do abacate está sujeita a uma ampla gama de pragas que afetam suas diversas fases de desenvolvimento, comprometendo tanto a produtividade quanto a qualidade dos frutos (Fazolin, 2024). Dentre as principais pragas, destacam-se insetos como as lagartas e coleópteros, os quais atacam folhas, flores e frutos, gerando danos diretos à planta e exigindo um manejo adequado para mitigar os prejuízos (Fazolin, 2024). 

Stenoma catenifer, um lepidóptero da família Gelechiidae, representa uma das principais pragas que afetam o abacateiro. As larvas dessa espécie causam danos diretos ao penetrar na polpa dos frutos, comprometendo sua qualidade, aparência e integridade estrutural (Hohmann; Meneguim, 1933). O ataque de Stenoma catenifer não apenas resulta em perdas econômicas devido à redução da comercialização dos frutos, mas também favorece a entrada de patógenos, exacerbando os prejuízos (Mitter, 2017). 

O controle biológico se configura como uma alternativa viável e sustentável para o manejo de Stenoma catenifer, destacando-se o uso do parasitoide Trichogramma pretiosum (Grenier, 1994). Este inseto, pertencente à família Trichogrammatidae, é reconhecido por sua capacidade de parasitar ovos de diversas espécies de insetos-praga, incluindo Stenoma catenifer (Mitter, 2017). A aplicação de Trichogramma pretiosum no controle de pragas representa uma estratégia promissora para reduzir a população da praga-alvo, promovendo um manejo integrado e sustentável, com menores impactos ambientais e redução no uso de pesticidas (Sá; Parra; Silveira, 1993).

A justificativa para o desenvolvimento deste estudo reside na crescente demanda por alternativas sustentáveis e eficazes para o controle de pragas que afetam a cultura do abacate. O uso de Trichogramma pretiosum visa não apenas a diminuição dos danos causados por Stenoma catenifer, mas também o aprimoramento das práticas agrícolas por meio de estratégias de manejo que atendem aos princípios exigidos pelos mercados consumidores.

O problema de pesquisa consiste na avaliação da eficácia do parasitoide Trichogramma pretiosum no controle de Stenoma catenifer em condições específicas da cultura do abacate, assim como a análise da viabilidade de sua implementação no manejo de pragas em sistemas produtivos. 

O objetivo geral deste trabalho é avaliar a eficácia do uso de Trichogramma pretiosum no controle biológico de Stenoma catenifer, visando a redução dos danos causados por essa praga na produção de abacate.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 Cultura do abacate 

O abacateiro (Persea americana Mill.), pertencente à família Lauraceae, é uma frutífera de origem mesoamericana amplamente cultivada em regiões tropicais e subtropicais. Seu cultivo tem se expandido consideravelmente nos últimos anos, impulsionado pela crescente demanda por alimentos saudáveis e pelo aumento do consumo da fruta tanto in natura quanto na forma de derivados, como óleos e cosméticos (Donadio et al., 2019).

No Brasil, a cultura do abacate é relevante economicamente, principalmente em estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. O país apresenta condições edafoclimáticas favoráveis para o cultivo, o que contribui para a produção em larga escala, com destaque para as cultivares dos grupos botânicos Antilhano, Guatemalense e Mexicano, que se diferenciam em termos de adaptação climática, época de produção e características dos frutos (Cantuarias-Avilés et al., 2010).

A escolha do material genético é um fator determinante para o sucesso do cultivo do abacate. As variedades do grupo Antilhano, por exemplo, são mais adaptadas ao clima quente e úmido, enquanto as do grupo Mexicano toleram temperaturas mais baixas. A propagação é geralmente realizada por enxertia, garantindo a manutenção das características genéticas da cultivar e acelerando o início da produção (Salazar-García et al., 2013).

O abacateiro apresenta exigências específicas quanto ao solo e clima. Prefere solos profundos, bem drenados, com pH entre 5,5 e 6,5, e é sensível ao encharcamento. As temperaturas ideais para o desenvolvimento da planta variam entre 20 °C e 30 °C, sendo que geadas e ventos fortes podem prejudicar o florescimento e a frutificação. A pluviosidade anual adequada deve estar entre 1.200 mm e 1.600 mm, bem distribuída ao longo do ano (Carvalho et al., 2020).

No manejo da cultura, a adubação equilibrada é essencial para garantir o bom desenvolvimento vegetativo e produtivo do abacateiro. A recomendação da adubação deve ser baseada na análise de solo e folha, priorizando elementos como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e boro, este último essencial para a formação e qualidade dos frutos (Malavolta et al., 1997).

O manejo fitossanitário é outro aspecto fundamental, sendo necessário o monitoramento constante de pragas e doenças. Entre os principais problemas fitossanitários destacam-se a antracnose (Colletotrichum gloeosporioides), o ácaro-vermelho (Oligonychus yothersi), a broca-do-tronco (Heilipus lauri) e a podridão-de-raiz causada por Phytophthora cinnamomi. O controle integrado, com uso de práticas culturais, controle biológico e, quando necessário, produtos químicos seletivos, é recomendado para reduzir os impactos dessas pragas e doenças (Lemos et al., 2014).

A polinização do abacateiro é um processo complexo, sendo a planta considerada protogínica e com flores hermafroditas que se abrem em dois períodos distintos, promovendo a polinização cruzada. A presença de polinizadores, como abelhas e outros insetos, é essencial para garantir o pegamento dos frutos, especialmente em cultivares com flores do tipo A e B que se complementam (Ish-Am e Eisikowitch, 1993).

A colheita e o pós-colheita do abacate exigem cuidados específicos, já que o fruto é climatérico e sensível ao manuseio inadequado. A colheita deve ser realizada manualmente com ferramentas apropriadas, quando os frutos atingirem a maturidade fisiológica. Após a colheita, é importante o armazenamento em temperaturas controladas entre 5 °C e 8 °C para prolongar a vida útil e manter a qualidade do produto até a comercialização (Pinto et al., 2016).

Em termos de mercado, o abacate tem se destacado pelas suas propriedades nutricionais, sendo fonte de ácidos graxos monoinsaturados, fibras, vitaminas e antioxidantes. Isso o torna um alimento funcional, cuja demanda vem crescendo tanto no mercado interno quanto externo. O Brasil possui potencial para aumentar sua participação nas exportações, desde que haja investimentos em tecnologias de produção, beneficiamento e certificações fitossanitárias (Silva et al., 2021).

2.2 Pragas do abacate

O cultivo do abacate está sujeito ao ataque de diversas pragas que comprometem o desenvolvimento vegetativo e a produção de frutos. O manejo eficiente dessas pragas é essencial para garantir a sanidade da lavoura e a qualidade da colheita. A compreensão das principais espécies, seus ciclos biológicos e estratégias de controle permite a adoção de práticas de manejo integrado, fundamentais para a sustentabilidade da cultura (Lemos et al., 2014).

Dentre as principais pragas do abacateiro no Brasil, destaca-se a broca-do-tronco (Heilipus lauri), um besouro que ataca o caule e os ramos da planta, causando perfurações que podem levar à morte de ramos inteiros ou, em casos severos, à morte da planta. Os adultos colocam ovos em fendas da casca, e as larvas se alimentam do lenho, provocando danos irreversíveis (Santos et al., 2019).

Outra praga de importância econômica é o ácaro-vermelho (Oligonychus yothersi), que se alimenta da seiva das folhas, reduzindo a taxa fotossintética e provocando o amarelamento e queda precoce das folhas. Em infestações severas, pode haver comprometimento da frutificação, além de uma maior suscetibilidade da planta a estresses bióticos e abióticos (Reis et al., 2016).

A mosca-das-frutas (Anastrepha spp.) também constitui um desafio para os pomares de abacate, especialmente nas regiões mais quentes. As fêmeas ovipositam diretamente nos frutos, e as larvas desenvolvem-se em seu interior, causando apodrecimento e tornando-os impróprios para o consumo e comercialização. O monitoramento com armadilhas e o uso de iscas atrativas são ferramentas importantes para seu controle (Uramoto et al., 2008).

Insetos sugadores como percevejos (Leptoglossus gonagra) também atacam os frutos em formação, causando deformações e quedas prematuras. O ataque desses insetos pode levar à perda significativa da produção, especialmente quando ocorrem durante o enchimento dos frutos. A presença de ninhos próximos aos pomares favorece a infestação, exigindo práticas de controle preventivo e monitoramento constante (Silva et al., 2015).

O tripes (Frankliniella spp.), embora de menor impacto em cultivos comerciais, pode causar danos significativos na fase de florescimento do abacateiro. A alimentação nas flores reduz o pegamento e o desenvolvimento inicial dos frutos, afetando diretamente a produtividade. O uso de inseticidas seletivos e o incentivo ao controle biológico são estratégias recomendadas (Moura et al., 2020).

Além das pragas diretas, há também insetos que favorecem a entrada de patógenos por meio das feridas causadas em folhas e ramos. Esse é o caso de coleópteros que se alimentam da casca ou da madeira, facilitando a infecção por fungos e bactérias. Tais interações agravam os danos e aumentam a complexidade do manejo fitossanitário (Lemos et al., 2014).

O controle químico, embora eficaz em alguns casos, deve ser utilizado com cautela, respeitando-se os períodos de carência e priorizando produtos seletivos que não comprometam os inimigos naturais. O uso indiscriminado de inseticidas pode provocar resistência nas pragas e desequilíbrio ecológico, além de impactos ambientais e à saúde humana (Malavolta et al., 1997).

2.2.1 Lagarta do Fruto (Stenoma catenifer)

A lagarta-do-fruto (Stenoma catenifer) é considerada uma das pragas mais importantes do abacateiro no Brasil e em diversos países da América Latina. Essa mariposa da família Elachistidae ataca diretamente os frutos, provocando prejuízos econômicos significativos, tanto pela redução da produção comercializável quanto pelas perdas pós-colheita decorrentes da deterioração dos frutos infestados (Hohmann et al., 2000).

As fêmeas adultas da Stenoma catenifer realizam a oviposição preferencialmente em frutos jovens, próximos à inserção do pedúnculo ou em ferimentos naturais. Após a eclosão, as lagartas penetram no interior do fruto, onde se alimentam da polpa e da semente, provocando galerias internas. Esses danos são difíceis de detectar visualmente no início da infestação, o que dificulta o controle (Silva et al., 2013).

Os sintomas externos da infestação incluem a presença de excrementos no orifício de entrada da lagarta e, em estágios mais avançados, a queda precoce dos frutos. Internamente, a polpa se torna escurecida e com odor desagradável, inviabilizando o consumo e a comercialização. Em áreas com alta incidência, as perdas podem superar 50% da produção, tornando o controle dessa praga uma prioridade (Carvalho et al., 2020).

O ciclo biológico da S. catenifer varia conforme as condições ambientais, podendo durar de 30 a 45 dias. O desenvolvimento larval ocorre dentro do fruto, enquanto a pupação pode ocorrer tanto dentro quanto fora dele. Os adultos são noturnos e têm hábitos de voo crepusculares. A praga apresenta múltiplas gerações ao longo do ano, com maior incidência em períodos de frutificação intensa (Hohmann et al., 2000).

O controle da lagarta-do-fruto deve ser realizado de forma integrada, envolvendo o monitoramento da presença da praga por meio de armadilhas com feromônio sexual, o controle cultural com a retirada e destruição dos frutos atacados, e o uso racional de inseticidas seletivos. A adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP) tem se mostrado eficaz no controle da S. catenifer, promovendo redução da população da praga e menor impacto ambiental (Araújo et al., 2012).

O controle biológico também representa uma alternativa promissora, com estudos indicando a eficiência de parasitoides, como Trichogramma pretiosum, no controle dos ovos da lagarta-do-fruto. Esses agentes biológicos podem ser utilizados em programas de controle integrado, reduzindo a necessidade de aplicações químicas e contribuindo para o equilíbrio ecológico dos pomares (Parra et al., 2012).

Dentre os principais desafios para o manejo eficaz da S. catenifer está o conhecimento do nível de dano econômico e a dificuldade de detecção precoce. Por esse motivo, o monitoramento constante da lavoura, especialmente nos períodos de frutificação, é fundamental. A instalação de armadilhas e a capacitação técnica dos produtores são medidas essenciais para o sucesso do controle (Silva et al., 2013).

2.3 Controle de pragas no abacate

O controle de pragas no cultivo do abacate exige uma abordagem integrada, considerando as diferentes espécies que atacam a planta ao longo de seu ciclo produtivo. Dentre as pragas mais recorrentes estão a lagarta-do-fruto (Stenoma catenifer), a broca-do-tronco (Heilipus lauri), o ácaro-vermelho (Oligonychus yothersi) e a mosca-das-frutas (Anastrepha spp.), as quais afetam diretamente os frutos, troncos, folhas e o sistema produtivo como um todo (Lemos et al., 2014).

A adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP) é a estratégia mais eficiente e sustentável, pois combina métodos de controle cultural, biológico, químico e comportamental, sempre com base no monitoramento da população das pragas e nos níveis de dano econômico. O MIP visa preservar inimigos naturais, reduzir o uso de agrotóxicos e promover maior equilíbrio ecológico nos pomares (Gallo et al., 2002).

O controle cultural envolve práticas como o manejo adequado do solo, a eliminação de frutos caídos ou atacados e a poda de ramos infestados. Essas ações reduzem a população das pragas e dificultam seu ciclo reprodutivo. A retirada sistemática de frutos com sintomas de infestação, especialmente da Stenoma catenifer, é essencial para evitar a reinfestação e diminuir a pressão populacional (Silva et al., 2013).

O controle biológico tem ganhado destaque como alternativa ao uso de defensivos químicos. Inimigos naturais como parasitoides do gênero Trichogramma e predadores como crisopídeos e ácaros fitoseídeos são eficazes no controle de ovos e larvas de pragas. Além disso, pesquisas recentes têm demonstrado a viabilidade do uso de microrganismos entomopatogênicos, como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae, no manejo da lagarta-do-fruto e do ácaro-vermelho (Parra et al., 2012).

O controle químico, embora necessário em situações de alta infestação, deve ser utilizado com critério e como último recurso. O uso racional de inseticidas seletivos, com base no monitoramento da lavoura e respeitando os períodos de carência, é fundamental para evitar impactos negativos sobre polinizadores, inimigos naturais e a saúde humana (Malavolta et al., 1997).

O monitoramento populacional é a base para qualquer decisão de controle. O uso de armadilhas com feromônios sexuais, armadilhas adesivas coloridas e amostragens visuais permite a detecção precoce das pragas, a estimativa da intensidade da infestação e a aplicação de medidas de controle no momento mais adequado (Araújo et al., 2012).

O manejo ecológico do ambiente do pomar, por meio da manutenção da biodiversidade, cobertura vegetal e consórcios com outras culturas, pode contribuir significativamente para a regulação natural das populações de pragas. Tais práticas favorecem o habitat de predadores e parasitoides, tornando o sistema mais resiliente às infestações (Carvalho et al., 2020).

A capacitação técnica dos produtores e o acompanhamento por profissionais especializados são indispensáveis para o sucesso do controle de pragas. A aplicação correta das medidas de manejo exige conhecimento sobre a biologia das pragas, as condições climáticas e as características específicas do sistema de produção (Gallo et al., 2002).

2.3.1 Controle biológico 

O controle biológico tem ganhado destaque como uma ferramenta essencial no manejo sustentável de pragas no cultivo do abacate. Essa estratégia baseia-se na utilização de inimigos naturais — como parasitoides, predadores e microrganismos entomopatogênicos — para suprimir populações de insetos-praga abaixo do nível de dano econômico. Por ser uma técnica seletiva e ecologicamente segura, o controle biológico contribui significativamente para a redução do uso de agrotóxicos e para a preservação do equilíbrio ambiental (Parra et al., 2012).

Dentre os principais inimigos naturais utilizados na cultura do abacate, destacam-se os parasitoides do gênero Trichogramma, que atuam principalmente no controle da lagarta-do-fruto (Stenoma catenifer), parasitando seus ovos. A liberação inundativa desses agentes biológicos, em áreas com histórico de alta infestação, tem mostrado eficácia na redução das populações da praga, desde que realizada de forma sincronizada com os períodos de oviposição da mariposa (Zanuncio et al., 2016).

Além dos parasitoides, predadores como crisopídeos (família Chrysopidae), joaninhas (família Coccinellidae) e percevejos predadores também desempenham papel importante no controle de pragas como ácaros, pulgões e tripes. Esses inimigos naturais, por possuírem hábitos generalistas, são capazes de atuar sobre diferentes alvos simultaneamente, favorecendo a estabilidade ecológica do pomar (Gallo et al., 2002).

Os microrganismos entomopatogênicos representam outra frente promissora do controle biológico. Fungos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae têm demonstrado eficácia no controle de larvas e adultos de diversas pragas do abacateiro, especialmente quando aplicados em condições adequadas de umidade e temperatura. Esses produtos, atualmente disponíveis em formulações comerciais, oferecem boa compatibilidade com práticas de manejo integrado (Faria e Wraight, 2007).

Para garantir a eficiência do controle biológico, é fundamental adotar práticas que favoreçam a conservação dos inimigos naturais no ambiente. Isso inclui evitar pulverizações indiscriminadas com inseticidas de amplo espectro, promover a diversidade vegetal ao redor dos pomares e manter áreas de refúgio ecológico. A integração de controle biológico com outras táticas do MIP torna o sistema mais resiliente e sustentável a longo prazo (Lemos et al., 2014).

2.3.1.1 Trichogramma pretiosum

O parasitoide Trichogramma pretiosum Riley (Hymenoptera: Trichogrammatidae) é amplamente utilizado em programas de controle biológico no Brasil devido à sua eficácia no controle de diversas espécies de lepidópteros, incluindo a lagarta-do-fruto do abacateiro, Stenoma catenifer. Trata-se de um inseto minúsculo, com menos de 1 mm de comprimento, cuja fase larval se desenvolve dentro dos ovos do hospedeiro, impedindo sua eclosão e, consequentemente, a emergência de lagartas (Parra et al., 2012).

No contexto da cultura do abacate, T. pretiosum tem sido utilizado principalmente para o controle da S. catenifer, praga de grande importância econômica. A liberação inundativa de Trichogramma em pomares de abacate demonstrou ser eficaz na redução da infestação da praga, desde que realizada em períodos estratégicos, alinhados ao pico de oviposição da mariposa (Oliveira et al., 2014).

A eficiência do controle com T. pretiosum depende de diversos fatores, como a qualidade dos indivíduos liberados, as condições climáticas (especialmente temperatura e umidade) e a densidade populacional da praga. Estudos mostram que a temperatura ideal para o desenvolvimento do parasitoide varia entre 25 °C e 28 °C, com boa taxa de parasitismo e rápida emergência dos adultos (Beserra et al., 2002).

Além disso, T. pretiosum apresenta alta adaptabilidade a diferentes regiões climáticas, sendo uma vantagem para sua aplicação em áreas produtoras de abacate localizadas em distintas condições edafoclimáticas. A facilidade de criação massal em laboratório, utilizando ovos do hospedeiro alternativo Anagasta kuehniella, contribui para sua viabilidade comercial e operacional (Parra, 2010).

As liberações do parasitoide devem ser feitas semanalmente durante o período crítico de oviposição da praga, utilizando-se doses recomendadas que variam de 100 a 200 mil indivíduos por hectare, dependendo da pressão da infestação. A repetição e o monitoramento das áreas tratadas são essenciais para alcançar níveis satisfatórios de controle (Oliveira et al., 2014).

3 METODOLOGIA

O presente experimento foi conduzido com o objetivo de avaliar a eficácia do controle biológico com o parasitoide Trichogramma pretiosum no manejo da lagarta-do-fruto (Stenoma catenifer) em pomares de abacate (Persea americana Mill.). 

O experimento foi conduzido entre fevereiro a maio de 2025, no município de São Gotardo, Minas Gerais, em uma propriedade particular. A região está situada a uma altitude de aproximadamente 1.100 metros e apresenta clima úmido, com vegetação típica do Cerrado Mineiro. São Gotardo é caracterizado por uma variação sazonal expressiva na precipitação, com um período chuvoso que se estende por cerca de 9,9 meses, de 17 de agosto a 14 de junho. Durante esse intervalo, a precipitação mínima registrada em um período contínuo de 31 dias é de 13 milímetros. O mês mais chuvoso é dezembro, com uma média de 236 milímetros de precipitação (INMET, 2025).

O estudo foi realizado em área de cultivo comercial, dividida em dois tratamentos: aplicação de T. pretiosum e área testemunha (sem controle biológico).

Foram estabelecidos pontos de amostragem georreferenciados por meio de coordenadas de latitude e longitude, totalizando dez pontos por tratamento. Em cada ponto, realizou-se a vistoria de frutos selecionados aleatoriamente, sendo contabilizadas as seguintes variáveis: número de frutos vistoriados, frutos brocados, frutos com larvas vivas, frutos com larvas mortas e frutos com galerias abandonadas. Os dados foram registrados separadamente para cada ponto, a fim de garantir a independência amostral e a variabilidade espacial.

A liberação do parasitoide Trichogramma pretiosum foi realizada semanalmente, em doses recomendadas de 150 mil indivíduos por hectare, durante o período de oviposição da praga-alvo, de forma inundativa. As liberações foram feitas manualmente com o uso de cartelas contendo ovos parasitados de hospedeiro alternativo (Anagasta kuehniella), conforme metodologia descrita por Parra (2010).

A coleta de dados foi realizada após o período de controle, de forma padronizada entre os tratamentos. Para garantir a confiabilidade dos resultados, foram consideradas apenas avaliações realizadas em condições climáticas similares, sem interferência de outros métodos de controle fitossanitário.

Os dados foram tabulados em planilhas eletrônicas e submetidos à análise estatística descritiva, sendo calculadas médias e frequências relativas dos danos observados. 

Este delineamento experimental permitiu comparar a eficiência do controle biológico com T. pretiosum em relação à ausência de controle, avaliando não apenas a incidência de frutos atacados, mas também o estágio de desenvolvimento das larvas e a presença de sintomas residuais de infestação.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Tabela 1 – Larvas vivas em função do controle e liberação de Trichogramma pretiosum em abacate em experimento realizado em São Gotardo, Minas Gerais, 2025.

Fonte: Dados da Pesquisa, 2025

Gráfico 1 – Larvas vivas em função do controle e liberação de Trichogramma pretiosum em abacate em experimento realizado em São Gotardo, Minas Gerais, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

Tabela 2 – Larvas mortas em função do controle e liberação de Trichogramma pretiosum em abacate em experimento realizado em São Gotardo, Minas Gerais, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

Gráfico 2 – Larvas mortas em função do controle e liberação de Trichogramma pretiosum em abacate em experimento realizado em São Gotardo, Minas Gerais, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

Tabela 3 – Frutos brocados em função do controle e liberação de Trichogramma pretiosum em abacate em experimento realizado em São Gotardo, Minas Gerais, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

Gráfico 3 – Frutos brocados em função do controle e liberação de Trichogramma pretiosum em abacate em experimento realizado em São Gotardo, Minas Gerais, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

Tabela 4 – Galerias abandonadas em função do controle e liberação de Trichogramma pretiosum em abacate em experimento realizado em São Gotardo, Minas Gerais, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

Gráfico 4 – Galerias abandonadas em função do controle e liberação de Trichogramma pretiosum em abacate em experimento realizado em São Gotardo, Minas Gerais, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

REFERÊNCIAS

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