REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511302213
Luara Lôbo Rocha1
Mariana Cerqueira Souza2
Karla Klarto Carvalho3
RESUMO
A pesquisa teve como objetivo identificar a contribuição da captação de recursos para a sustentabilidade financeira de uma Associação X sem fins lucrativos em Feira de Santana com relação aos recursos arrecadados em 2024, além de compreender os desafios enfrentados por organizações do Terceiro Setor na obtenção de recursos financeiros e avaliar as perspectivas futuras sobre a captação. Para isso, foi realizada uma entrevista semiestruturada com a Vice-Presidente responsável pela captação de recursos, abordando temas como estratégias de captação, fontes de recursos, desafios, gestão financeira e planos de diversificação. Os resultados mostraram que a Associação depende de diversas fontes de recursos, como doações, apoio corporativo, eventos e editais, e adota um planejamento anual estruturado para captação, enfrentando desafios como a instabilidade nas doações. A diversificação de fontes de receita foi destacada como crucial para garantir a sustentabilidade financeira e reduzir a dependência de uma única fonte. A organização possui um fundo de emergência e adapta o orçamento dos projetos conforme necessário. A pesquisa conclui que, embora enfrente desafios, a Associação tem adotado práticas eficazes de gestão e captação, incluindo parcerias estratégicas e inovação digital, como o uso de voluntários para o marketing, destacando a importância de uma gestão financeira eficiente e da diversificação de recursos para assegurar a continuidade das operações e o impacto social.
PALAVRAS-CHAVE
Captação de recursos; Sustentabilidade financeira; Terceiro Setor.
ABSTRACT
This study aimed to identify the contribution of fundraising to the financial sustainability of a non-profit association in Feira de Santana, based on the funds raised in 2024. It also sought to understand the challenges faced by Third Sector organizations in securing financial resources and to assess future perspectives on fundraising. A semi-structured interview was conducted with the Vice President responsible for fundraising, addressing topics such as fundraising strategies, funding sources, challenges, financial management, and diversification plans. The results indicate that the Association relies on multiple sources of funding, including donations, corporate support, events, and public calls for proposals, and follows a structured annual fundraising plan. However, it faces challenges related to donation instability. The diversification of revenue sources emerged as a key factor in ensuring financial sustainability and reducing dependence on a single source. Additionally, the organization maintains an emergency fund and adjusts project budgets when necessary. The study concludes that, despite ongoing challenges, the Association has implemented effective management and fundraising practices, including strategic partnerships and digital innovation — such as the use of volunteers for marketing activities. These practices highlight the importance of efficient financial management and revenue diversification to ensure the continuity of operations and strengthen social impact.
KEYWORDS:
Fundraising; Financial sustainability; Third Sector.
1. INTRODUÇÃO
O Terceiro Setor é composto por instituições que surgem com o objetivo de garantir boa qualidade de vida e cidadania, defesa de valores e de direitos da sociedade como um todo, ou seja, ele se destaca por promover atividades que auxiliam a garantir os direitos sociais. (Mos tagi, 2020). Dessa forma, as entidades sem fins lucrativos são constituídas por ações de interesse público, voltadas a um determinado campo social, não atendido pelo setor público. Além disso, as organizações da sociedade civil não estão diretamente ligadas ao Estado e aos interesses lucrativos que permeiam a economia do mercado. No Brasil, a expansão das entidades sem fins lucrativos tem sido acompanhada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) que, em seu último levantamento apontou um crescimento no número de Instituições na ordem de 7,8% em relação a 2021 totalizando 879.326 organizações ativas até 2023. (IPEA, 2023).
Ademais, a sustentabilidade financeira está associada a capacidade de captação de recursos financeiros, materiais e humanos de maneira satisfatória e contínua que permite a instituição atingir seus objetivos sociais. (Cunha, 2019). As organizações da sociedade civil vêm lutando para dar continuidade ao trabalho social desenvolvido e o que permite isso é a sua sustentabilidade financeira visto que a insustentabilidade no terceiro setor afeta vários tipos de segmentos, desde as organizações tradicionais como as instituições filantrópicas até as mais contemporâneas que é o caso das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP).
Para melhor entender sobre a relação entre a captação de recursos e a sustentabilidade financeira na instituição X, será desenvolvido um estudo de caso para responder ao seguinte problema de pesquisa: Quais as formas de captação de recursos utilizadas pela Associação em Feira de Santana e como elas contribuem para sua sustentabilidade financeira? Dessa forma, o objetivo geral da pesquisa é analisar as formas de captação de recursos utilizadas e sua contribuição para a sustentabilidade financeira da Associação X. Além disso, a pesquisa busca compreender os desafios e perspectivas relacionados à obtenção de recursos financeiros para organizações do Terceiro Setor e conhecer as expectativas futuras em relação ao recolhimento de recursos. Ademais, a relevância desse trabalho se justifica por estudar as estratégias de captação de recursos e encontrar possíveis problemas da referida instituição. O Terceiro Setor se consolida através de ações, que consistem na captação de recursos – sejam financeiros, materiais ou de outra natureza – com o objetivo de manterem seu equilíbrio financeiro e promover atividades que visam atender as necessidades sociais, são organizações sem fins lucrativos que desenvolvem ações de interesse público, atuando em áreas sociais específicas que não são plenamente contempladas pelo setor estatal (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014). As organizações do terceiro setor enfrentam grandes dificuldades na captação de recursos, principalmente devido à falta de visibilidade e reconhecimento público de suas ações. Muitas vezes, essas associações desenvolvem trabalhos relevantes e de impacto social significativo, mas não conseguem alcançar a mesma projeção que empresas privadas ou órgãos governamentais. Nesse sentido, a Associação com filial em Feira de Santana se enquadra como uma entidade sem fins lucrativos, dessa forma, ressalta-se a importância de compreender os desafios hodiernos enfrentados em busca da sua sustentabilidade financeira e conhecer essa entidade que dedica seus esforços para o bem-estar coletivo, buscando suprir diariamente as necessidades de indivíduos que, por diversas razões, não tiveram acesso às mesmas oportunidades que outros.
A contabilidade é uma ciência social que se conecta diretamente com a sociedade analisando como as decisões financeiras impactam os indivíduos, as instituições e a sociedade, além disso, fornece a análise técnica para as instituições através de normas e pronunciamentos para auxiliar na obtenção das operações financeiras e uma maior transparência ao transmitir seus demonstrativos. Conforme mencionado na Resolução do CFC, Resolução CFC nº 774/94:
“[…] Na premissa de que a Contabilidade é uma ciência social com plena fundamentação epistemológica. Por consequência, todas as demais classificações – método, conjunto de procedimentos, técnica, sistema, arte, para citarmos as mais correntes – referem-se a simples facetas ou aspectos da Contabilidade, usualmente concernentes à sua aplicação prática, na solução de questões concretas.”
Dessa forma, à medida que os processos possuam uma maior transparência, mais visibilidade as organizações terão e mais recursos serão adquiridos influenciado para o seu crescimento.
Portanto, esse trabalho oferece uma contribuição ao explorar a interseção entre sustentabilidade financeira e o terceiro setor, revelando aspectos fundamentais que alguns leitores desconhecem. Ao final do estudo o leitor será guiado para uma análise detalhada dos desafios enfrentados pela Associação objeto da pesquisa na busca por sustentabilidade financeira. Além disso, terá acesso a informações essenciais sobre as estratégias utilizadas por essa entidade para manter suas operações e melhorar seu impacto social. A pesquisa não demonstra apenas a importância dessa organização, mas também destaca como o engajamento comunitário e a participação ativa podem fortalecer essa entidade.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Conceituação e caracterização do Terceiro Setor.
No Brasil, o terceiro setor diz respeito a entidades da sociedade civil que se dedicam a objetivos voltados para o bem público e social, sem serem governamentais ou com finalidade lucrativa. Essas instituições desempenham um papel fundamental na promoção de causas sociais, ambientais, culturais e educacionais, frequentemente colaborando com o governo e a iniciativa privada para atingir suas metas. Nesse sentido, o terceiro setor representa uma evolução crucial nas relações entre Estado, mercado e sociedade no Brasil. Este setor não se limita apenas à atuação de seus membros, mas sim à qualidade do processo democrático que regula as interações entre o Estado e as organizações civis. Além disso, o terceiro setor é composto por diferentes tipos de entidades, como Organizações Não Governamentais (ONGs), associações, cooperativas, fundações que se dedicam a causas variadas como o combate à fome e exclusão social. (Conselho Federal de Contabilidade, 2015).
O terceiro setor é formado por organizações que, de maneira voluntária, têm como objetivo o bem-estar da comunidade, sem a intenção de obter lucro, razão pela qual são chamadas de entidades sem fins lucrativos, uma das principais características do terceiro setor é sua natureza não lucrativa. Diferente das empresas privadas, que visam o lucro financeiro, as organizações do terceiro setor reinvestem seus recursos na própria causa social. Este aspecto é importante porque reflete o comprometimento com o bem comum e com a maximização de impactos positivos na comunidade, ao invés de gerar retornos financeiros para os acionistas ou donos. Isso também implica que, em vez de serem movidas por interesses econômicos, essas organizações são orientadas por valores éticos e sociais, o que pode gerar uma confiança mais profunda na população. Ademais, é importante destacar que, embora o terceiro setor seja frequentemente visto como uma resposta às limitações do Estado, ele não deve ser encarado como um substituto. Em muitas situações, ele funciona como uma parceria ou um complemento às políticas públicas, atuando de maneira mais flexível, ágil e próxima das necessidades locais. (Santos, 2022).
De acordo com Tinkelman (2023), o Terceiro Setor proporciona à sociedade uma contribuição que não pode ser quantificada de maneira convencional. Assim, a coleta e apresentação de dados e estatísticas sobre essas iniciativas voltadas para a comunidade são essenciais para uma análise mais precisa do impacto e da relevância desse setor no cenário nacional. O autor também destaca que esse setor desempenha um papel crucial para o governo, que deve promover ações que incentivam doações e investimentos; quanto mais organizado e investido for o setor, maiores serão os benefícios para a sociedade. Além disso, o governo tem uma função estratégica ao criar um ambiente regulatório e fiscal que permita o crescimento e a organização dessas organizações. Por exemplo, a implementação de incentivos fiscais para doações a organizações sem fins lucrativos pode aumentar os recursos disponíveis para iniciativas sociais. O apoio institucional também pode incluir a criação de plataformas que promovam a colaboração entre o setor público, privado e o terceiro setor, facilitando parcerias mais eficazes e permitindo uma maior troca de informações e recursos.
A atuação das Organizações da Sociedade Civil (OSCs) é multifacetada, variando desde a implementação de programas de capacitação e geração de emprego até a defesa de direitos humanos e o combate a práticas discriminatórias. Muitas vezes, as ONGs funcionam como um canal para a promoção da cidadania, empoderando comunidades a lutar por seus direitos e a se organizar em torno de causas coletivas. Além disso, as OSCs são essenciais para a ampliação da participação social, uma vez que incentivam a mobilização de cidadãos em defesa de seus direitos e na construção de uma sociedade mais justa e equitativa.
Segundo Lima (2016),
As entidades prestam serviço de interesse coletivo e de utilidade pública, ensejando, por conseguinte, o apoio do Estado por meio de uma vasta gama de benefícios fiscais, entre os quais se destaca a imunidade consagrada no art. 150, VI, c, da Constituição Federal de 1988. O dispositivo veda a incidência impostos (federais, estaduais, distritais e municipais) sobre o patrimônio, as rendas e os serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação assistência social, desde que sem fins lucrativos, e desde que esses impostos estejam relacionados às atividades essenciais das entidades, e que sejam atendidas as exigências da lei. (Lima, 2016, p.15).
Dessa forma, as organizações sem fins lucrativos, como associações e fundações, podem usufruir de um tratamento fiscal diferenciado, ou que pode ser um incentivo para sua operação e crescimento, facilitando a captação de recursos para a execução.
Além disso, entidades que se qualifiquem como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) ou que obtenham o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS) podem acessar benefícios adicionais, como isenções fiscais e acesso a convênios com o governo. O CEBAS, por exemplo, é um reconhecimento que concede a entidades que realizam atividades de assistência social e que cumprem com requisitos legais específicos, enquanto as OSCIPs têm acesso a uma série de facilidades na celebração de parcerias com o poder público. Esses instrumentos jurídicos são fundamentais para fortalecer a sustentabilidade financeira das organizações sem fins lucrativos e facilitar a captação de recursos para a execução de suas finalidades.
2.2 Captação de Recursos e Sustentabilidade Financeira nas Organizações da Sociedade Civil.
Segundo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) (2011, p. 6), a captação de recursos representa um desafio significativo para as Organizações do Terceiro Setor, requerendo estratégias eficazes que respeitem não apenas as exigências legais, mas também os princípios éticos e de transparência. Dessa forma, é imprescindível que essas organizações adotem uma abordagem estratégica e integrada na captação de recursos. No entanto, para cumprir suas missões de forma sustentável, é essencial que essas organizações alcancem estabilidade financeira.
A captação de recursos é uma batalha constante, com OSCs competindo por recursos limitados. A gestão financeira eficaz também é um desafio, com muitas organizações lutando para implementar práticas sólidas devido à falta de capacidade técnica ou recursos. Os desafios são significativos pois muitas OSCs dependem de poucas fontes de financiamento, como doações individuais ou subsídios governamentais, tornando-as vulneráveis a cortes orçamentários repentinos ou volatilidade nas receitas, variando anualmente, dificultando o planejamento a longo prazo.
De acordo com Faro, Moura e Leitão (2023), 83% das organizações não governamentais (ONGs) dependem exclusivamente de doações privadas para a manutenção de suas atividades, refletindo uma elevada vulnerabilidade financeira. Apenas 17% dessas organizações recebem algum tipo de financiamento governamental, que, em geral, está vinculado à execução de serviços públicos essenciais, como a gestão de creches, hospitais ou programas sociais. Essa dependência de recursos privados destaca os desafios enfrentados pelas ONGs em garantir sustentabilidade financeira, especialmente em contextos de instabilidade econômica, onde a captação de doações pode ser ainda mais limitada.
Nesse sentido, a sustentabilidade financeira caracteriza-se pela capacidade de uma entidade assegurar recursos financeiros para enfrentar os obstáculos decorrentes do seu funcionamento econômico, articulando autonomia financeira e um crescimento equilibrado. (Meireles, 2013). O objetivo das Organizações da Sociedade Civil não está limitado apenas a resolver problemas imediatos, mas também auxiliar na promoção de mudanças da sociedade. O verdadeiro desafio que essas organizações enfrentam reside em constantemente revisar seus métodos e programas para melhor atender as minorias sociais. Dessa forma, fica nítido o papel e a responsabilidade das OSCs na sociedade contemporânea. Essas organizações não devem apenas administrar programas sociais, mas sim liderar iniciativas que visem à transformação real e duradoura das condições sociais. É necessário garantir a sustentabilidade na finalidade social, mas as OSCs devem se atentar para que a procura pela sustentabilidade não vire o propósito da entidade.
As organizações sem fins lucrativos devem não só buscar eficiência e transparência em suas operações internas, como também cultivar relações positivas e colaborativas com a comunidade e demais partes interessadas. Santos (2012, p.61) complementa essa visão ao salientar a importância de uma contabilidade organizada, uma estrutura de custos clara e projetos definidos de intervenção social para garantir sucesso na captação de recursos. Portanto, para que as organizações do terceiro setor alcancem seus objetivos de maneira sustentável, é imprescindível que incorporem a sustentabilidade como um princípio orientador. Isso não apenas fortalece sua capacidade de realizar impactos positivos na sociedade, mas também assegura sua continuidade e relevância no cenário social contemporâneo.
Em suma, a relação entre sustentabilidade financeira e captação de recursos é fundamental para as organizações do terceiro setor, que dependem de recursos externos para realizar suas missões sociais. A sustentabilidade financeira proporciona a base necessária para atrair investidores e doadores, demonstrando eficácia na gestão contábil e eficiência na aplicação dos recursos. Sem uma estrutura financeira sólida e projetos bem definidos, as organizações enfrentam dificuldades significativas na obtenção de recursos, tornando-se menos competitivas em um ambiente onde a concorrência por financiamento é intensa e as fontes de recursos são limitadas e variáveis. Assim, a captação eficaz de recursos não apenas viabiliza a execução das atividades planejadas, mas também fortalece a posição das organizações no cenário social e econômico, garantindo sua continuidade e impacto a longo prazo.
2.3 Importância da Contabilidade na Sustentabilidade Financeira e Captação de Recursos no Terceiro Setor.
De acordo com Lida e Crepaldi (2019, p. 2), a contabilidade remonta ao início da história humana, quando os primeiros vestígios deixados não eram abordados sob a perspectiva científica. Ao longo dos anos, a contabilidade sofreu diversas transformações em seus aspectos cultural, econômico, político, social e científico. Desde os primórdios, seu principal foco foi o controle das riquezas, algo que é corroborado por diversos autores. Com o passar do tempo, essa prática evoluiu e passou a ser reconhecida como uma ciência essencial, especialmente para a sobrevivência no comércio, à medida que sua prática se desenvolveu e buscou constantemente novas formas de enriquecer seus conhecimentos.
A contabilidade é uma ciência que possui o objetivo de controlar o patrimônio e apurar os resultados das aziendas, que é o conceito de empresa, além de fornecer informações aos usuários interessados em avaliar o patrimônio e o desempenho das organizações (Viceconti; Neves, 2017). Nesse sentido, é notório a relevância da contabilidade para as instituições, pois auxilia aos gestores e demais usuários na tomada de decisão. Uma contabilidade bem estruturada dentro de uma instituição sem fins lucrativos permite que essa apresente de forma clara e precisa a sua situação financeira, o que é fundamental para estabelecer confiança junto a doadores, investidores e parceiros institucionais visto que essas organizações dependem de fontes externas de financiamento.
De acordo com Quirino e Alves (2022), a contabilidade desempenha um papel fundamental nas instituições do Terceiro Setor, permitindo que elas cumpram suas obrigações financeiras de maneira adequada em relação ao seu patrimônio. O governo contribui para o fortalecimento de determinadas organizações por meio de isenções e reduções de impostos, além da imunidade em relação à contribuição social para entidades sem fins lucrativos caso estas se enquadrem nos pré-requisitos, assim como em relação à tributação sobre patrimônio, renda ou serviços. Para continuar usufruindo desses benefícios, é crucial que essas instituições comprovem a forma como estão utilizando seus recursos, assegurando assim a transparência e a responsabilidade em sua gestão financeira. Ademais, a contabilidade auxilia diretamente na participação das organizações em processos licitatórios e seletivos de coleta de recursos, por meio da elaboração de demonstrativos contábeis claros e detalhados, como o balanço patrimonial, a demonstração do resultado do exercício e a demonstração de fluxos de caixa. Esses relatórios financeiros são frequentemente exigidos em processos de licitação e em editais de captação de recursos públicos e privados, sendo fundamentais para comprovar a saúde financeira da organização e sua capacidade de gerenciamento de recursos de forma eficiente. Assim, a contabilidade se torna um instrumento estratégico para que as organizações do Terceiro Setor obtenham os recursos necessários para a execução de suas atividades.
Macário (2023) ressalta a importância crucial da contabilidade para as entidades do Terceiro Setor, especialmente no que se refere às organizações sem fins lucrativos (ONGs). A área contábil contribui significativamente para a transparência dessas instituições, facilitando a prestação de contas e permitindo que administradores gerenciam seus recursos de forma responsável, alinhando-se às suas metas. Assim, a contabilidade se firmou como um elemento essencial na gestão das organizações do Terceiro Setor.
3. METODOLOGIA
O presente estudo se caracteriza por uma abordagem qualitativa de caráter descritivo, essa abordagem proporciona uma análise mais profunda das dinâmicas sociais e organizacionais, essenciais para entender como a Associação lida com sua sustentabilidade financeira e como as estratégias de captação de recursos impactam seus resultados. De acordo com Silva (2017, p. 152), a pesquisa qualitativa fornece um conjunto de práticas que auxiliam na visão da realidade dos indivíduos, sendo altamente descritiva. Além disso, a pesquisa qualitativa permite capturar as experiências e opiniões dos membros e beneficiários da associação, oferecendo uma visão holística do funcionamento da organização (Oliveira,2020). Nesse sentido, a entrevista coletou dados específicos sobre as fontes de financiamento, práticas de captação de recursos, desafios enfrentados e estratégias adotadas pela organização para alcançar sua sustentabilidade.
Com base no enfoque que foi atribuído a este trabalho, houve a realização de um estudo de caso. Segundo (Menezes et al., 2019, p. 44) o estudo de caso, portanto, “é o tipo de pesquisa cujo procedimento volta-se para um caso específico com o objetivo de conhecer suas causas de modo abrangente e completo.”. O estudo de caso foi realizado em uma Associação localizada em Feira de Santana-BA A escolha dessa unidade de análise deve-se ao papel relevante que a Associação desempenha na comunidade local, por meio de ações voltadas à capacitação, inclusão sociais e fortalecimento da cidadania. A instituição possui sua matriz em Quixadá – CE e outra filial em Fortaleza – CE, porém a pesquisa concentrou-se na unidade baiana devido à sua representatividade e facilidade de acesso à gestão.
A organização desempenha um papel crucial no apoio à comunidade local, especialmente em iniciativas voltadas à capacitação profissional, geração de oportunidades e suporte a grupos em situação de vulnerabilidade. Sua atuação promove a melhoria da qualidade de vida, fortalece a rede de apoio social e contribui para o desenvolvimento sustentável da cidade. Além disso, ao garantir a sustentabilidade financeira através da captação de recursos, a associação assegura a continuidade e expansão de suas ações, estimulando o engajamento comunitário e o fortalecimento da cidadania local.
Como procedimento de coleta de dados, foi utilizada uma entrevista semiestruturada, aplicada via formulário do Google, direcionada à pessoa responsável pela captação de recursos e vice-presidente da filial de Feira de Santana. O roteiro da entrevista foi elaborado com base nos objetivos da pesquisa e dividido em três blocos temáticos: (1) identificação da entidade e perfil da entrevistada; (2) estratégias e desafios de captação de recursos; e (3) sustentabilidade financeira e gestão institucional. Cada bloco continha perguntas abertas que buscavam compreender as práticas de arrecadação, o planejamento financeiro, as fontes de financiamento, os principais obstáculos e as iniciativas de inovação implementadas pela organização. A entrevista foi escolhida por permitir maior liberdade de expressão à participante, favorecendo o aprofundamento das respostas e a emergência de informações espontâneas. De acordo com Oliveira, Guimarães e Ferreira (2023), esse tipo de instrumento é flexível, pois combina perguntas previamente definidas com a possibilidade de explorar novas questões que surjam durante a interação entre pesquisador e entrevistado.
As delimitações da pesquisa buscaram entender a percepção da Vice-Presidente da Associação que administra a organização, documentos institucionais relevantes e questionamento sobre os processos internos. Esse foco evitou que a pesquisa se tornasse ampla demais. Além disso, houve a limitação da pesquisa na filial da cidade de Feira de Santana.
As informações coletadas foram agrupadas em categorias que correspondiam aos três blocos do roteiro: identidade institucional, captação de recursos e sustentabilidade financeira. Essa técnica permitiu identificar padrões, convergências e contradições nas respostas, facilitando a interpretação dos resultados à luz do referencial teórico.
Por fim, a pesquisa foi enriquecida com uma revisão bibliográfica com o objetivo de comparar os resultados práticos com as ideias e conceitos teóricos sobre captação de recursos e sustentabilidade financeira em organizações do terceiro setor. A união das informações obtidas na entrevista com o conteúdo teórico ajudou a alcançar o principal propósito do estudo: entender como a Associação realiza a captação de recursos e de que maneira essas ações influenciam sua estabilidade e continuidade financeira.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para identificar os projetos realizados por essa organização e entender como funciona sua forma de captar recursos, foi elaborado um roteiro para a entrevista semi estruturada dividida em três etapas, a primeira etapa versava sobre a história da Associação e identificação da entrevistada, a segunda etapa foi constituída por perguntas que envolviam a captação de recursos da entidade e a terceira etapa consistia em verificar a sustentabilidade financeira da organização. Esse roteiro foi essencial para realizar a entrevista para uma pessoa responsável pela parte de captação de recursos e Vice-Presidente da organização. Foi elaborado uma série de perguntas divididas em blocos envolvendo o tema e foi solicitado que a entrevistada respondesse de acordo com a realidade da Associação e o seu tempo de experiência.
4.1 Bloco 1- Identificação da entidade e perfil do respondente.
A primeira etapa da entrevista envolveu questionamentos sobre a história da Associação, a identificação da funcionária entrevistada, seu cargo na organização, tempo de serviço e nível de escolaridade. Nessa etapa, foi apresentada a história da Associação, sua missão e os principais programas que promovem para as pessoas hipossuficientes da região.
Para entender melhor essas informações, foram realizados questionamentos à captação de recursos da Associação. Ela respondeu que ocupa o cargo de Captadora de Recursos e Vice Presidente da filial de Feira de Santana-BA. Ao ser questionada sobre sua formação acadêmica, Elisabete informou que não possui formação acadêmica. Quando questionada sobre o tempo de participação na Associação, ela relatou que está envolvida há 16 anos, tendo iniciado suas atividades em 2008.
Além disso, foi questionada sobre a história da Associação e sua missão. A entrevistada explicou que a Associação teve seu início com a missão de ajudar comunidades em situações de vulnerabilidade social, oferecendo programas focados no crescimento individual e comunitário. O objetivo principal é promover a inclusão social por meio de iniciativas educativas, culturais e de assistência social.
Por fim, Elisabete foi questionada sobre os principais programas ou projetos desenvolvidos pela Associação. Ela informou que a organização realiza diversos projetos voltados para o esporte infantil, além de projetos pedagógicos com profissionais da área. Nesse sentido, foram citados todos os projetos que a Associação promove e suas respectivas descrições. O detalhamento desses projetos está explicitado no quadro a seguir:
Quadro 1: Mapeamento dos projetos (Associação X, 2024):

Dessa forma, essa etapa ajudou a entender que a Associação X tem como objetivo promover o bem-estar e o desenvolvimento social de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Localizada em Feira de Santana, a organização foi fundada com a missão de oferecer apoio em diversas áreas, como educação e inclusão social. Ao longo dos anos, a instituição tem se destacado por seus programas voltados à capacitação e ao fortalecimento dos vínculos comunitários. Atualmente, a organização desenvolve uma série de projetos que impactam positivamente a vida de muitas pessoas, proporcionando oportunidades e transformando realidades.
4.2 Bloco 2 – Captação de Recursos.
O objetivo dos questionamentos voltados para a captação de recursos é compreender como a organização sem fins lucrativos planeja, implementa e gerencia suas estratégias de arrecadação de fundos. Essas perguntas visam identificar os métodos e desafios da organização na busca por recursos financeiros para garantir a continuidade de suas atividades e o cumprimento de sua missão.
No primeiro momento, foi perguntado sobre a estratégia de captação de recursos na entidade, essa pergunta explorou o processo de captação de recursos e a entrevistada relatou que a organização segue um planejamento anual com projetos que favorecem a captação desses recursos, e se baseia em parcerias específicas com pessoas físicas e empresas do setor privado, mas não participa ainda de um chamamento público. Assim, é perceptível com esse aspecto uma certa vulnerabilidade caracterizada pela dependência de recursos oriundas apenas das parcerias com pessoas físicas e jurídicas. Ademais, de acordo com Cruz, Quitério e Scretas (2019, p.34), as entidades da sociedade civil têm uma função essencial na defesa dos direitos e na redução das desigualdades sociais. Entretanto, elas costumam encontrar desafios constantes para conseguir os recursos indispensáveis que garantam o funcionamento e o sucesso de seus projetos e atividades.
Dando sequência, buscou-se verificar quais as principais fontes de recursos, seguindo-se então para a próxima pergunta onde foi informado que os recursos mais significativos são oriundos de pessoas físicas, apoios corporativos e eventos de arrecadação. Ela informou que eles contam com o apoio de feirantes que fazem doação de verduras toda segunda-feira e a entrega é realizada pelo próprio feirante. Além disso, conta ainda com associados (pessoas físicas) que se responsabilizam em realizar doações mensalmente com qualquer quantia. Nesse sentido, a resposta apresentada ressalta de maneira evidente as principais origens de recursos da Associação, como contribuições de indivíduos, apoio de empresas, eventos e a colaboração dos feirantes. Contudo, a ausência de referência a editais ou outras fontes de financiamento público pode sugerir uma dependência excessiva de recursos privados, o que pode restringir sua capacidade financeira.
Assim, buscou-se saber se a Associação estava recebendo algum apoio oriundo de recursos públicos e foi informado que ainda não participava. Em suma, como os chamamentos públicos oferecem uma importante fonte de financiamento para projetos sociais, ao não participar a organização perde a oportunidade de obter recursos governamentais o que pode restringir sua capacidade de realizar ou expandir projetos.
Além disso, para entender os obstáculos que dificultam a captação de recursos foi questionado sobre quais os maiores desafios que a Instituição enfrenta e foi citado como principais desafios a dependência de doações voluntárias e a falta de visibilidade. Desse modo, a dependência em doações de pessoas físicas e jurídicas pode resultar em recursos instáveis sem garantias mensais consistentes. Além disso, a falta de visibilidade como mencionado dificulta a atração de novos doadores e parceiros, impactando a capacidade de expandir a base de recursos da instituição.
Ademais, com o intuito de avaliar a resiliência financeira da instituição foi questionado como a Associação lida com a instabilidade nas doações e foi sinalizado que há uma reserva de emergência que utilizam quando precisam para dar continuidade nas atividades em períodos de queda nas arrecadações. Portanto, é notório que a instituição lida de forma estratégica e essa reserva oferece maior segurança financeira e flexibilidade para enfrentar imprevistos, permitindo que a organização se mantenha estável e cumpra seus objetivos sem comprometer seus serviços. Além disso, a reserva de emergência contribui para a confiança de doadores e parceiros, sabendo que a Associação está preparada para lidar com desafios financeiros. Desse modo, desenvolver resiliência financeira é uma das consequências da aplicação do conhecimento em finanças que se obtém por meio da educação financeira. O acúmulo de saberes financeiros, competências e comportamentos praticados no dia a dia representa a literacia financeira, cujos equivalentes são letramento financeiro e alfabetização financeira (BCB, 2021, p.21 e 66).
Na sequência, para compreender qual a nova abordagem planejada para a captação de recursos foi realizada uma pergunta voltada para quais inovações eles têm implementado ou pretendem implementar na estratégia de captação de recursos e foi relatado que recentemente determinados voluntários que trabalham na área de marketing estão auxiliando na divulgação da Associação em redes sociais para melhorar a captação de recursos, além disso eles estão planejando participar do edital de chamamento público em 2025. No âmbito da captação de recursos, sua importância se acentua, pois é decisivo para atrair doadores, parceiros e apoiadores, além de transmitir de maneira eficaz a missão e os resultados obtidos pela organização.
Para entender sobre o histórico de captação de recursos da instituição, foi imprescindível questionar se essa já participou de algum chamamento público. Foi esclarecido que eles estabeleceram uma parceria com o poder público para os recursos oriundos dessa parceria serem implementados na creche e escola, mas a experiência não foi bem-sucedida. Embora houvesse a intenção de firmar um acordo para financiar parte das operações da organização, os custos envolvidos eram elevados e a parceria se limitava a cobrir apenas o salário da equipe, sem garantir outros recursos essenciais para a continuidade dos projetos. Essa limitação tornou inviável a implementação eficaz da parceria, o que resultou no encerramento da creche e da escola de nível fundamental. Apesar de a entidade possuir o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS), o que lhe garante benefícios fiscais e maior acesso a convênios, a parceria não foi suficiente para suprir as necessidades financeiras da instituição. Portanto, a vivência ressalta a necessidade de estabelecer parcerias mais equilibradas, que vão além do simples fornecimento de recursos para cobrir despesas operacionais, mas que também ofereçam uma contribuição mais significativa para o crescimento e a sustentabilidade das iniciativas da instituição. A dependência de doações individuais e de parcerias privadas, como evidenciado pela entrevistada, reflete um desafio comum às OSCs, conforme apontam Cruz, Quitério e Scretas (2019), que ressaltam a dificuldade de manter a estabilidade financeira apenas com recursos voluntários. Essa ausência de parceria com o poder público revela um ponto de fragilidade, considerando que, conforme Pecequilo (2017), o Brasil se tornou, em 2010, referência internacional na luta contra a pobreza e a fome justamente pela união entre três fatores: a atuação pública que unificou os projetos sociais existentes, o estabelecimento de uma rede de agências governamentais e, por fim, a atuação conjunta com o terceiro setor:
Por fim houve o empoderamento de atores sociais, como comunidades e organizações não governamentais, na condição de agentes da implementação de políticas, conscientização e verificação dessas agendas. (Pecequilo, 2017, p. 157)
Dessa forma, a integração entre Estado e organizações da sociedade civil, é essencial para potencializar o alcance das políticas públicas e promover resultados mais sustentáveis, pois somente por meio de uma cooperação estruturada, com responsabilidades claramente distribu ídas e investimentos compatíveis com as necessidades reais das OSCs, é possível assegurar a continuidade das ações e ampliar o impacto social.
4.3 Bloco 3 – Sustentabilidade Financeira e gestão.
Comini et al (2020) enfatizam que a sustentabilidade financeira de uma instituição influencia as habilidades que ela deve escolher para assegurar a continuidade de suas atividades a longo prazo, por meio de uma administração eficaz de seus recursos. Sendo assim, o terceiro bloco envolveu assuntos que abordam a sustentabilidade financeira da Associação. Assim, buscou-se saber como eles administram os recursos coletados, foi introduzido no terceiro bloco uma pergunta para entender como acontece a gestão de recursos dentro da Organização. Essa pergunta tinha como objetivo principal entender como a organização administra seus recursos financeiros, garantindo que sejam utilizados de forma eficiente, transparente e alinhada com seus objetivos e valores. A entrevistada respondeu que a gestão de recursos dentro da Associação é geralmente estruturada em torno de práticas que promovem transparência, eficiência e alinhamento com os objetivos e valores da instituição. A organização começa definindo um orçamento anual baseado nas projeções de receita (doações, parcerias, eventos etc.) e nas necessidades de cada área e projeto. Os recursos são alocados de acordo com as prioridades, equilibrando entre despesas administrativas, operacionais e a execução de projetos e programas.
Seguindo na perspectiva de saber sobre a importância da diversificação dos recursos, foi indagado sobre como a diversificação de receitas podem contribuir para a sustentabilidade financeira da organização e a respondente demonstrou que essa diversificação ajudaria a reduzir a dependência de uma única fonte de recurso. Ao explorar diferentes fontes de recursos, como doações, parcerias corporativas, eventos de arrecadação de fundos e anúncios públicos, a organização aumenta suas chances de alcançar um fluxo de caixa mais estável e previsível. Conforme exposto, foi possível observar que essa pluralidade garante uma maior capacidade de adaptação e continuidade das suas atividades a longo prazo.
Ademais, foi preciso entender os aspectos da gestão na organização sem fins lucrativos. Nesse cenário foi questionado sobre como eles distribuem os valores arrecadados e foi esclarecido que grande parte dos recursos é direcionada aos projetos e programas sociais que estão no centro da missão da ONG. Esses projetos incluem atividades específicas para atender ao público, como iniciativas de educação, capacitação e apoio comunitário.
É possível concluir que para os projetos serem realizados de forma eficiente, é necessário cobrir despesas administrativas, que incluem salário de equipe, aluguel de espaço, contas de água, luz e internet, entre outras despesas básicas. Além disso, para manter a transparência com os doadores e parceiros, todos os recursos arrecadados são usados nos relatórios financeiros, garantindo que as doações estão sendo empregadas corretamente e conforme o planejado.
Em suma, para entender sobre a organização financeira da instituição foi um questionamento para verificar se há um departamento responsável por cuidar da parte financeira e foi comunicado que há uma equipe ou pessoa responsável pela gestão financeira. Essa equipe cuida do orçamento, auditoria, contabilidade, realiza relatórios financeiros e a prestação de contas, além disso, também cuida do fundo de emergência da Associação com o intuito de garantir que as práticas estejam em conformidade com a legislação.
Além disso, os registros devem ser fundamentados em práticas contábeis, regulamentações legais e documentos que atestem o cumprimento das exigências fiscais (Queiroz et al., 2018).
A presença de uma equipe responsável pela gestão financeira e pela prestação de contas reforça a importância da transparência, aspecto amplamente destacado por Queiroz et al. (2018), que defendem a contabilidade como ferramenta de credibilidade e de apoio à tomada de decisão nas entidades do terceiro setor. Além disso, a adoção de um orçamento anual e a destinação responsável dos recursos corroboram o que Comini et al. (2020) descrevem como pilares de uma gestão sustentável, pautada em planejamento e responsabilidade social.
De modo geral, os resultados obtidos demonstram que a Associação apresenta práticas condizentes com as diretrizes propostas por autores como Comini et al. (2020) e Queiroz et al. (2018), ao adotar mecanismos de gestão financeira e de transparência. Contudo, observa-se a necessidade de avançar na diversificação das fontes de captação, conforme sugerem Cruz, Quitério e Scretas (2019), de modo a garantir maior estabilidade financeira e sustentabilidade institucional.
5. CONCLUSÃO
O estudo na Associação, focado na captação de recursos e sustentabilidade financeira, revelou aspectos essenciais sobre a gestão e os desafios enfrentados pela organização. A pesquisa demonstrou que a Associação possui uma estrutura sólida, com um planejamento orçamentário anual e um processo claro de alocação de recursos para suas diversas áreas de atuação. A diversidade nas fontes de recursos, como doações de indivíduos, apoio corporativo e eventos de arrecadação, é uma estratégia central para a sobrevivência e expansão da instituição, ainda que a dependência de recursos privados e a ausência de participação em editais públicos representem desafios a serem superados.
A falta de visibilidade e a instabilidade das doações voluntárias são obstáculos significativos, mas a criação de uma reserva de emergência para enfrentar períodos de queda nas arrecadações mostra a resiliência financeira da organização. A iniciativa de diversificar as fontes de receita, incluindo esforços no marketing digital e o planejamento de participação em chamamentos públicos, revela uma abordagem estratégica para garantir a sustentabilidade a longo prazo.
Em relação à gestão de recursos, a Associação se destaca por seu compromisso com a transparência, eficiência e alinhamento com seus valores. Com base na entrevista realizada a alocação dos recursos é feita de maneira cuidadosa, priorizando os projetos sociais, que são a essência da organização, enquanto as despesas administrativas são mantidas sob controle. A presença de uma equipe dedicada à gestão financeira e a contabilidade contribui para que os recursos sejam bem gerenciados e que a associação permaneça em conformidade com as obrigações legais e financeiras. A Contabilidade representa a chave fundamental para avaliar o patrimônio de uma empresa. Ela permite uma identificação precisa de todos os eventos que provocaram alterações qualitativas ou quantitativas, guiando a administração dos negócios e contribuindo para a realização de objetivos.
Apesar das contribuições significativas deste estudo sobre a captação de recursos e a sustentabilidade financeira da Associação, algumas limitações devem ser destacadas. A pesquisa foi limitada ao estudo de caso de uma única organização, o que impede a generalização dos resultados para outras entidades do Terceiro Setor, especialmente considerando as diferentes realidades financeiras e operacionais de cada uma.
As organizações do terceiro setor enfrentam desafios significativos na captação de recursos, muitas vezes agravados pela falta de visibilidade e reconhecimento de suas ações. Nesse contexto, a contabilidade exerce um papel estratégico, pois possibilita o controle e a correta aplicação dos recursos, reforçando a credibilidade institucional. A adoção de práticas contábeis transparentes e a divulgação clara das informações financeiras fortalecem a confiança de doadores, parceiros e da sociedade, favorecendo novas oportunidades de apoio. Além disso, a diversificação das fontes de receita — por meio de doações, parcerias, incentivos fiscais e atividades autossustentáveis — torna-se essencial para garantir a continuidade das atividades e reduzir a dependência de um único tipo de financiamento. Assim, a combinação entre transparência, boa gestão contábil e sustentabilidade financeira é fundamental para que as organizações do terceiro setor consolidem sua relevância social e ampliem seu impacto.
Nos últimos anos, observa-se que inúmeras organizações sem fins lucrativos têm buscado formas mais autônomas e criativas de manter sua sustentabilidade financeira, desenvolvendo estratégias que permitam reduzir a dependência de doações tradicionais e ampliar suas fontes de receita. De acordo com o SEBRAE (2023), esse movimento reflete uma mudança significativa na forma como o terceiro setor tem se estruturado, adotando práticas inovadoras e diversificadas para assegurar a continuidade de suas atividades. A busca por alternativas mais sustentáveis tem levado essas instituições a explorarem novas formas de arrecadação que envolvem maior engajamento do público e a utilização de ferramentas tecnológicas que possibilitam ampliar o alcance de suas campanhas e a visibilidade de suas causas.
Por fim, a experiência da Associação reflete a importância de parcerias mais equilibradas e de uma diversificação de fontes de financiamento para garantir a continuidade e expansão de suas atividades. A busca por novas formas de captação e a conscientização sobre a necessidade de uma gestão financeira eficiente são passos importantes para consolidar sua sustentabilidade financeira e o impacto positivo nas comunidades atendidas. As sugestões para investigações futuras incluem a realização de estudos comparativos entre diferentes associações sem fins lucrativos, a fim de identificar práticas de coleta de recursos que sejam mais eficazes em diferentes contextos.
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