HEMANGIOSSARCOMA CUTÂNEO CANINO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511302220


Roberto Filho Bessa Dias1; Henrico Ferreira Ferrari Filho2; Julia Marcela Vasconcelos de Moraes Vilela3; Eloisa Schroeder Medina4; Mariana Paz Rodrigues Dias5; Diego Silva Lima6; Tales Dias do Prado7


RESUMO

O hemangiossarcoma cutâneo é uma neoplasia maligna de origem endotelial caracterizada por alta agressividade, elevado potencial metastático e prognóstico geralmente reservado. Sua etiopatogenia envolve fatores ambientais, genéticos e moleculares, destacando-se a exposição solar crônica e predisposições raciais. Clinicamente, manifesta-se como nódulos avermelhados, ulcerados e friáveis, que podem evoluir rapidamente e causar dores, hemorragias e sinais sistêmicos em casos metastáticos. O diagnóstico exige correlação entre exame físico, biópsia histopatológica e técnicas complementares como imunohistoquímica e exames de imagem. O tratamento baseia-se na excisão cirúrgica ampla, frequentemente associada à quimioterapia ou terapias emergentes, como eletroquimioterapia. O prognóstico varia conforme profundidade, localização e estágio da lesão. O caso clínico apresentado ilustra a evolução de um cão com hemangiossarcoma cutâneo, submetido à excisão tumoral e acompanhamento clínico, reforçando a importância do diagnóstico precoce e da abordagem multimodal.

Palavras chave: Hemangiossarcoma; Neoplasias cutâneas; Oncologia veterinária; Tumores vasculares.

ABSTRACT

Cutaneous hemangiosarcoma is a malignant endothelial neoplasm marked by high aggressiveness, significant metastatic potential and an overall guarded prognosis. Its etiopathogenesis involves environmental, genetic and molecular factors, with chronic sun exposure and breed predispositions playing major roles. Clinically, it manifests as reddish, friable and ulcerated nodules that may progress rapidly, causing pain, hemorrhage and systemic signs in metastatic cases. Diagnosis requires correlation between clinical examination, histopathological evaluation and complementary techniques such as immunohistochemistry and imaging. Treatment is primarily based on wide surgical excision, frequently combined with chemotherapy or emerging modalities such as electrochemotherapy. Prognosis depends on lesion depth, anatomical location and clinical stage. The reported case demonstrates the clinical development of a dog with cutaneous hemangiosarcoma treated through surgical excision and continued monitoring, emphasizing the relevance of early diagnosis and multimodal therapeutic planning.

KEYWORDS: Cutaneous neoplasms; Hemangiosarcoma; Veterinary oncology; Vascular tumors.

REVISÃO LITERÁRIA 

O hemangiossarcoma cutâneo é uma neoplasia maligna de origem endotelial que, apesar de sua menor incidência, em relação a outros tumores de pele, possui grande importância clínica como: agressividade, alto potencial metastático e prognóstico geralmente reservado. O primeiro relato documentado da doença, em cães remonta à década de 1950, quando foram descritas as características histopatológicas de tumores vasculares em animais domésticos, o que marcou o início da diferenciação entre hemangiomas benignos e hemangiossarcomas malignos (Williams et al., 1959). 

Diversos trabalhos apontam que a etiologia do hemangiossarcoma é multifatorial, envolvendo: predisposição genética, exposição solar crônica e possíveis influências hormonais. Em cães de pelagem clara e áreas pouco pigmentadas, como: abdômen, flancos e membros, a incidência é maior, especialmente, em regiões de intensa insolação (Brown et al., 2019). Raças como: Pastor Alemão, Golden Retriever e Labrador Retriever são frequentemente relatadas como predispostas, sugerindo a participação de fatores hereditários (Smith et al., 2021).

No cenário internacional, pesquisas realizadas: nos Estados Unidos, Europa e Japão indicam variações na prevalência, de acordo com, a latitude e intensidade da radiação ultravioleta. Já no Brasil, em que a radiação solar é intensa durante a maior parte do ano, relatos sugerem que o hemangiossarcoma cutâneo ocorre com frequência considerável, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, embora dados consolidados ainda sejam limitados (Ferreira et al., 2021).

Outro ponto relevante é a comparação com a medicina humana, na qual tumores vasculares malignos da pele, como o angiossarcoma, compartilham diversas características morfológicas e moleculares com o hemangiossarcoma canino. Essa semelhança reforça a importância do cão, como modelo comparativo, para pesquisas translacionais em oncologia (Zhang et al., 2020).

Tumores de pele com ênfase no hemangiossarcoma  

Dentro deste grupo, o hemangiossarcoma, apesar de menos frequente, apresenta particular importância devido à sua alta taxa de infiltração local e potencial metastático para pulmões, fígado e baço (Johnson e Couto, 2020).

Além disso, estudos epidemiológicos realizados no Brasil indicam que o hemangiossarcoma cutâneo pode corresponder a 27 a 80% de todos os hemangiossarcomas em cães, representando cerca de 13,9% das neoplasias cutâneas diagnosticadas. Esses índices são superiores aos observados em estudos norte-americanos, sugerindo a influência de fatores ambientais, como a elevada exposição à radiação ultravioleta em regiões tropicais (CARNEIRO et al., 2023).

Em termos de comportamento clínico, um estudo retrospectivo envolvendo 25 cães demonstrou que o hemangiossarcoma localizado na derme (estágio I) apresenta uma sobrevida mediana aproximada de 780 dias, enquanto aqueles que acometem o tecido hipodérmico ou muscular (estágios II e III) exibem prognóstico significativamente menos favorável, com sobrevida entre 172 e 307 dias, evidenciando a correlação entre profundidade da lesão e desfecho clínico (WATERS et al., 1995).

Etiopatogenia 

A etiopatogenia do hemangiossarcoma cutâneo relaciona-se à transformação neoplásica de células endoteliais vasculares, possivelmente induzida por mutações somáticas e fatores ambientais. A exposição solar é considerada fator predisponente, sobretudo em cães de pelagem clara e áreas pouco pigmentadas. Além disso, alterações genéticas envolvendo oncogenes e supressores tumorais, como TP53, têm sido descritas (Martins et al., 2019).

Adicionalmente, a exposição crônica à radiação ultravioleta é reconhecida como fator predisponente significativo, principalmente em cães de pelagem clara, pele pouco pigmentada ou regiões com cobertura capilar reduzida. Morfologias de mutação associadas à radiação UV e assinaturas genéticas compatíveis com neoplasias induzidas por luz solar têm sido observadas em amostras de hemangiossarcoma cutâneo, reforçando a contribuição do ambiente na sua patogênese (REGATIERI, 2022).

Além dos fatores ambientais, aspectos genéticos herdados também parecem exercer influência no desenvolvimento do hemangiossarcoma. Essa tendência pode relacionar-se a variações em genes responsáveis, pela regulação do ciclo celular e da apoptose, além de polimorfismos que favorecem a proliferação endotelial anormal (CHEN et al., 2022).

Outro aspecto importante na etiopatogenia é o papel do microambiente tumoral. Evidências recentes demonstram que o processo inflamatório crônico e a presença de citocinas angiogênicas, como o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF) e o fator de crescimento derivado de plaquetas (PDGF), promovem angiogênese descontrolada e favorecem a transformação neoplásica das células endoteliais. Esse ambiente pró-angiogênico cria condições ideais para a progressão tumoral e o comportamento invasivo característico do hemangiossarcoma (CASSALI et al., 2021).

Sinais Clínicos 

Os sinais clínicos variam conforme a localização e extensão do tumor. Lesões cutâneas geralmente se apresentam como: nódulos avermelhados, friáveis e ulcerados, podendo sangrar facilmente. Em estágios avançados, podem causar: dor, anorexia, apatia e, em casos metastáticos, sinais respiratórios ou abdominais decorrentes do comprometimento sistêmico (Câmara et al., 2018).

Em muitos casos, as lesões do hemangiossarcoma cutâneo são inicialmente confundidas com processos inflamatórios ou traumáticos, retardando o diagnóstico definitivo. A evolução clínica tende a ser rápida, especialmente, em formas subcutâneas ou musculares, nas quais o crescimento infiltrativo e o risco de ruptura vascular são mais pronunciados, resultando em hemorragias locais ou sistêmicas (REGATIERI, 2022).

Os sinais clínicos sistêmicos tornam-se mais evidentes quando ocorre: disseminação metastática, geralmente envolvendo pulmões, fígado, baço e rins. Nesses casos, podem ocorrer manifestações como: dispneia, mucosas pálidas, taquicardia e distensão abdominal por hemoperitônio. Tais achados refletem a natureza agressiva e o comportamento angiogênico da neoplasia, características que comprometem significativamente o prognóstico e a resposta terapêutica (FONSECA et al., 2021).

Diagnóstico 

O diagnóstico envolve exame clínico associado a métodos complementares, como citologia aspirativa por agulha fina, que frequentemente resulta inconclusiva devido à fragilidade das células endoteliais. A biópsia incisional ou excisional, seguida de exame histopatológico, é considerada padrão-ouro. Imuno-histoquímica com marcadores como CD31 e fator VIII auxiliam na confirmação, exames como Raio-x, ultrassonografia e Tomografia são diferenciais no diagnóstico (Santos et al., 2021).

 A biópsia excisional é indicada em casos de lesões pequenas ou em locais que permitam ampla margem de segurança. Esse procedimento pode ser curativo em estágios iniciais, embora deva sempre ser acompanhado, por análise histopatológica completa, para confirmar margens livres e estadiamento do tumor (Pereira et al., 2022).

Tratamento  

O tratamento de escolha é a excisão cirúrgica ampla, quanto possível, visando margens livres. Contudo, a recorrência local é comum, justificando a associação com terapias adjuvantes como quimioterapia (doxorrubicina e ciclofosfamida) e, em alguns casos, radioterapia. Terapias emergentes, como a eletroquimioterapia, têm demonstrado resultados promissores (Ribeiro et al., 2020). 

A abordagem cirúrgica deve considerar, não apenas a remoção completa da lesão visível, mas também, a inclusão de margens de segurança lateral e profunda, reduzindo o risco de recidiva. Nos casos em que há envolvimento subcutâneo ou muscular, a excisão completa pode ser inviável, tornando-se essencial o uso de terapias adjuvantes. A quimioterapia sistêmica com agentes antraciclínicos, como a doxorrubicina, tem demonstrado eficácia na contenção de metástases e no prolongamento da sobrevida, embora a resposta varie, conforme o estágio clínico e o grau histológico do tumor. Hemangiossarcoma cutâneo grau l (Formação de vasos bem organizada; poucas mitoses; pouca atipia celular.) menor agressividade, grau ll(Vasos irregulares; moderada atipia e mitoses.) agressividade intermediária e grau lll (Pouca ou nenhuma formação de vasos; células muito anaplásicas e mitoticamente ativas.) muito agressivo e com alta taxa de metástase. (CASSALI et al., 2021).

Nos últimos anos, terapias inovadoras como a eletroquimioterapia e a imunoterapia destacam-se no tratamento de hemangiossarcomas cutâneos em cães. A eletroquimioterapia combina pulsos elétricos, com fármacos citotóxicos, como a bleomicina, promovendo maior penetração celular e destruição seletiva de células tumorais. Já a imunoterapia experimental, com vacinas autólogas e uso de citocinas recombinantes, apresenta resultados promissores no controle da recidiva e na modulação da resposta inflamatória tumoral, embora ainda careça de padronização clínica (PACHECO et al., 2022).

Cuidados pré-operatórios 

Antes da cirurgia, recomenda-se estabilização clínica do paciente, com exames laboratoriais e de imagem para estadiamento. A avaliação hematológica é fundamental devido ao risco de anemia secundária a hemorragias tumorais. A fluidoterapia e a correção de distúrbios metabólicos são essenciais para reduzir complicações anestésicas (Oliveira et al., 2018).

Técnica cirúrgica 

A técnica cirúrgica envolve a excisão ampla da lesão, incluindo tecido subcutâneo e, quando necessário, músculo adjacente. Margens de 2 a 3 cm são recomendadas para reduzir a chance de recidiva local. Em áreas de difícil fechamento, podem ser necessários retalhos cutâneos ou enxertos (Costa et al., 2019). 

A escolha da técnica reconstrutiva depende do tamanho e da localização da ferida cirúrgica. Retalhos de avanço, rotação ou transposição são frequentemente utilizados para cobertura de defeitos maiores, garantindo adequada vascularização e cicatrização. O uso de drenagem passiva ou ativa é indicado, em casos de ampla dissecção tecidual, reduzindo o acúmulo de seroma e favorecendo a recuperação pós-operatória. Além disso, o manejo cuidadoso dos tecidos e o controle de sangramento são fundamentais para: minimizar complicações, promover melhor resultado estético e funcional (FREITAS et al., 2021).

Pós-operatório 

O manejo pós-operatório inclui: analgesia adequada, antibioticoterapia e monitoramento do sítio cirúrgico para detecção precoce de deiscência ou infecção. O uso de colar elizabetano é indicado para evitar trauma local. O acompanhamento frequente é necessário devido à alta taxa de recidiva e metástases (Gomes et al., 2020).

Prognóstico  

O prognóstico do hemangiossarcoma cutâneo é reservado a desfavorável, variando conforme a localização e estágio do tumor. Lesões dérmicas superficiais apresentam melhor sobrevida, quando tratadas precocemente, enquanto formas subcutâneas e metastáticas estão associadas a prognóstico ruim, com média de sobrevida de 6 a 9 meses, mesmo com tratamento combinado (Freitas et al., 2021). 

DESCRIÇÃO DO CASO ACOMPANHADO

Um cão da raça Golden Retriever, oito anos de idade, fértil e pesando 50,50 kg, deu entrada ao atendimento apresentando uma ferida crônica que não demonstrava evolução favorável, apesar dos tratamentos prévios. O tutor relatou que a lesão não diminuía de tamanho, não cicatrizava e apresentava características sugestivas de processo neoplásico (Figura 1). Informou também que o animal havia realizado exames anteriores sem que se obtivesse um diagnóstico conclusivo. Durante esse período, observou progressão da ferida, discreta dificuldade respiratória e aumento do cansaço.

Durante a anamnese, o paciente apresentava dispneia e acentuado cansaço. À inspeção física, identificou-se uma ferida localizada na escápula esquerda, com coloração vermelho-escura, áreas enegrecidas e ausência de aderência tecidual. As mucosas estavam normocoradas, e os linfonodos mandibulares encontravam-se reativos. O tempo de preenchimento capilar foi de 2 segundos, com estimativa de 2% de desidratação. Os parâmetros vitais incluíam temperatura de 38,9°C, frequência cardíaca de 140 bpm, frequência respiratória de 20 movimentos por minuto e pressão arterial sistólica de 120 mmHg. 

FIGURA 1 – Lesão do animal.

O paciente foi submetido ao exame de ultrassonografia abdominal, que evidenciou neoformação esplênica, enquanto os demais órgãos apresentaram-se em topografia habitual e dentro da normalidade (Figura 2).

Adicionalmente, realizaram-se exames radiográficos com o objetivo de investigar possível ocorrência de metástases (Figura 3). A avaliação revelou uma área arredondada, de radiopacidade compatível com tecidos moles, com bordos parcialmente definidos, localizada na região dorsocaudal do tórax e visualizada apenas na projeção latero-lateral esquerda. Esse achado foi interpretado como possivelmente decorrente de sobreposição de estruturas, como tecidos moles ou vasos pulmonares. Contudo, não se descartou a hipótese de linfadenopatia ou, em menor probabilidade, de neoformação pulmonar.

FIGURA 2 – BAÇO: Achados compatíveis com possíveis alterações proliferativas (neoplasias primárias ou metastáticas), processos inflamatórios ou alterações vasculares (hematomas, infartos esplênicos).
FIGURA 3- A) Radiografia latero lateral direito B) Radiografia latero lateral esquerda C) Radiografia ventrodorsal.

O tratamento cirúrgico instituído consistiu, inicialmente, na realização de biópsia excisional, com o objetivo de remover a lesão tumoral e promover alívio da dor. Para a execução do procedimento, adotou-se o seguinte protocolo anestésico: como medicação pré-anestésica, administraram-se metadona (0,2 mg/kg) e cetamina (1 mg/kg) por via intramuscular. Na indução anestésica, utilizaram-se propofol (2 mg/kg) e lidocaína (2 mg/kg) por via intravenosa. Após alcançar plano anestésico adequado, realizou-se a intubação orotraqueal, mantendo-se o paciente sob infusão contínua de propofol (0,2 mg/kg/min), associada à administração de lidocaína sem vasoconstritor.

A cirurgia iniciou após a tricotomia ampla da região, seguida de assepsia prévia e definitiva. Procedeu-se à marcação da área de ressecção em formato elíptico e, posteriormente, à incisão cutânea correspondente (Figura 4). Durante a inspeção do tecido subcutâneo, removeu-se o fragmento tumoral (Figura 5-A). Em seguida, realizou-se a aproximação das bordas utilizando sutura intradérmica com fio absorvível de poliglecaprone 25 (2-0), e o fechamento cutâneo com pontos simples separados, com fio de nylon (2-0).

FIGURA 4 – Lesão Cutânea Escapular.
FIGURA 5 – A) Incisão elíptica com, com margem de segurança. B) Ferida cirúrgica após a excisão da lesão.

Após a cirurgia, o paciente apresentou boa recuperação, demonstrando melhora rápida no período pós-operatório imediato. O prognóstico foi considerado reservado, uma vez que o hemangiossarcoma não possui tratamento específico e definitivo. A quimioterapia, por ser inespecífica, compromete tanto células neoplásicas quanto células saudáveis, podendo impactar negativamente o conforto e o bem-estar do animal.

No pós-operatório, administrou-se dipirona (25 mg/kg), uma vez que o procedimento foi de curta duração e não produziu dor intensa. Transcorridos 10 dias, o paciente retornou à clínica para retirada dos pontos, apresentando evolução clínica satisfatória.

O tutor recebeu orientação sobre o tratamento com doxorrubicina, fármaco que pode prolongar a sobrevida média em aproximadamente cinco a seis meses. Contudo, optou por não instituir essa terapêutica devido aos potenciais efeitos adversos, como gastroenterite, anorexia, vômitos e diarreia. Diante disso, decidiu priorizar o bem-estar do animal, adotando acompanhamento clínico periódico, com reavaliações a cada três meses.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O caso descrito evidencia a complexidade do manejo clínico e cirúrgico de neoplasias de partes moles em cães, especialmente quando há suspeita de hemangiossarcoma cutâneo, afecção caracterizada por comportamento agressivo e prognóstico geralmente reservado. A apresentação inicial do paciente, com ferida crônica não responsiva aos tratamentos prévios, dispneia e sinais sistêmicos inespecíficos, reforçou a necessidade de uma investigação minuciosa, envolvendo exame físico detalhado, avaliação radiográfica e biópsia excisional. A intervenção cirúrgica permitiu a remoção da lesão e alívio imediato do desconforto, cumprindo seu papel paliativo diante da ausência de terapias curativas amplamente eficazes para essa neoplasia. Apesar da possibilidade de tratamento adjuvante com doxorrubicina, a decisão do tutor em priorizar qualidade de vida, evitando efeitos adversos significativos, demonstra a importância da medicina veterinária centrada no bem-estar e na comunicação clara das opções terapêuticas. A boa recuperação pós-operatória, aliada ao acompanhamento periódico, evidencia que abordagens paliativas podem proporcionar estabilidade clínica e conforto ao paciente, mesmo em condições de evolução imprevisível. O presente caso destaca a relevância do diagnóstico precoce, da escolha criteriosa de condutas e do suporte contínuo ao tutor na tomada de decisões que considerem tanto a sobrevida quanto o bem-estar do animal.

REFERÊNCIAS 

ALLEN, D. et al. Diagnostic challenges in canine hemangiosarcoma. Journal of Veterinary Science, v. 22, n. 3, p. 199-207, 2021.

BARBOSA, J. A. et al. Avaliação histopatológica de neoplasias vasculares. Ciência Rural, v. 49, n. 8, p. 1-9, 2019.

BROWN, C. et al. Sunlight exposure and canine skin tumors. Veterinary Dermatology, v. 29, n. 3, p. 145-153, 2019.

CÂMARA, F. S. et al. Aspectos clínicos do hemangiossarcoma cutâneo em cães. Revista Brasileira de Medicina Veterinária, v. 40, n. 2, p. 123-130, 2018.

CLARK, H. et al. Histopathology of vascular tumors in dogs. Journal of Veterinary Diagnostic Investigation, v. 31, n. 6, p. 812-819, 2019.

COSTA, L. M. et al. Técnicas cirúrgicas em tumores cutâneos de cães. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 71, n. 5, p. 1501-1509, 2019.

EVANS, K. et al. Surgical outcomes of canine cutaneous sarcomas. Journal of the American Animal Hospital Association, v. 55, n. 4, p. 205-212, 2019.

FERREIRA, L. M. et al. Hemangiossarcoma em cães: revisão de literatura. Revista Científica de Medicina Veterinária, v. 28, n. 2, p. 77-89, 2021.

FREITAS, G. A. et al. Prognóstico do hemangiossarcoma em cães: revisão de literatura. Ciência Animal Brasileira, v. 22, n. 3, p. 1-10, 2021.

GOMES, A. P. et al. Manejo pós-operatório em cães submetidos a excisão de tumores cutâneos. Veterinária em Foco, v. 18, n. 2, p. 45-52, 2020.

HARRIS, E. et al. Outcomes of surgical and adjuvant therapies in hemangiosarcoma. Veterinary Surgery, v. 49, n. 2, p. 188-197, 2020.

JOHNSON, T. O.; COUTO, C. G. Small animal oncology. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2020.

KIM, J. et al. Prognostic factors in canine vascular tumors. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 34, n. 5, p. 2010-2018, 2020.

LEE, M. et al. Chemotherapy protocols in canine hemangiosarcoma. Veterinary and Comparative Oncology, v. 18, n. 4, p. 456-465, 2020.

MARTINS, F. R. et al. Mutações em TP53 associadas a hemangiossarcoma em cães. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 39, n. 8, p. 555-562, 2019.

MURPHY, S. et al. Epidemiology of cutaneous tumors in dogs. Veterinary Record, v. 187, n. 1, p. 23-30, 2020.

NGUYEN, T. et al. Clínical features of canine skin sarcomas. BMC Veterinary Research, v. 16, n. 1, p. 234-242, 2020.

OLIVEIRA, A. C. et al. Estabilização clínica pré-operatória em oncologia veterinária. Revista CFMV, v. 24, n. 2, p. 99-106, 2018.

PARKER, L. et al. Advances in veterinary oncology. Frontiers in Veterinary Science, v. 8, p. 550-559, 2021.

PEREIRA, H. J. et al. Importância da biópsia excisional em tumores cutâneos. Acta Scientiae Veterinariae, v. 50, n. 1, p. 1-9, 2022.

PINTO, D. R. et al. Manejo anestésico em pacientes oncológicos. Revista Brasileira de Anestesiologia Veterinária, v. 13, n. 1, p. 55-63, 2021.

RIBEIRO, C. A. et al. Terapias emergentes em oncologia veterinária: eletroquimioterapia. Journal of Veterinary Oncology, v. 3, n. 2, p. 77-85, 2020.

ROCHA, A. C. et al. Recorrência de tumores cutâneos em cães. Arquivo Brasileiro de Pesquisa Veterinária, v. 39, n. 5, p. 299-307, 2019.

SANTOS, R. F. et al. Imuno-histoquímica no diagnóstico de neoplasias vasculares em cães. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 41, n. 4, p. 278-284, 2021.

SILVA, A. C. et al. Aspectos clínicos e terapêuticos do hemangiossarcoma em cães. Revista Veterinária Hoje, v. 15, n. 3, p. 87-95, 2021.

SMITH, J. K. et al. Cutaneous hemangiosarcoma in dogs: epidemiology and risk factors. Veterinary Pathology, v. 58, n. 5, p. 733-740, 2021.

SOUZA, G. H. et al. Protocolos terapêuticos em oncologia de pequenos animais. Medicina Veterinária Atual, v. 12, n. 1, p. 33-41, 2020.

VASCONCELOS, R. et al. Oncologia de cães e gatos: diagnóstico e tratamento. Rio de Janeiro: Roca, 2019.

VILLALOBOS, Alice. Quando e como Decidir que um Paciente Geriátrico com Câncer é Terminal. In:VILLALOBOS, A.; KAPLAN, L. Oncologia em Cães e Gatos Geriátricos: honrando o vínculo homem-animal. São Paulo. Roca, 2011. Cap. 09, p. 323 – 343. 

WARD, H.  et. Al. Manual of Canine and Feline Oncology. British Small Animal Veterinary Association.  2011.

WILLARD, M. D; TVEDTEN, H. Small Animal Clínical Diagnosis by Laboratory. 2012   

WILLIAMS, D. et al. Advances in canine hemangiosarcoma therapy. Journal of Small Animal Practice, v. 61, n. 7, p. 423-431, 2020.

WITHROW, S. J., & Vail, D. M. Withrow and MacEwen’s Small Animal Clínical Oncology. Estados Unidos da América: Elsevier, 2007. 

WITHROW, S. J.; VAIL, D. M. Withrow and MacEwen’s Small Animal Clínical Oncology. 6ª ed. Estados Unidos da América: Saunders, 2019. 

ZHANG, Y. et al. Molecular pathways in hemangiosarcoma development. Oncology Letters, v. 20, n. 2, p. 1401-1410, 2020.

ANEXOS 

EXAME 1

TABELA 1 – Resultados do Hemograma realizado na Rohini, Rio Verde – GO, no dia 23 de julho de 2025 

 Resultado(s) Referência canina 1 a 8 anos 
Eritrograma Hemácias  5,4 Milhões/mm³  5,5 – 8,5 Milhões/mm³ 
Hemoglobina 15,60 g/dL 12,0 – 18,0 g/dL 
Hematócrito 45,2 % 37 – 55 % 
VCM 70,40 fl 60 – 77 fl 
CHCM 34,51 % 30 – 36 % 
Proteína Plasmática 7,5 g/dL 5,5 – 8,0 g/dL 
RDW —  
Metarrubrícitos 0 /100 leucócitos 0 – 5 /100 leucócitos 
Leucograma Leucócitos  10.800 /mm³  6.000 – 17.000 /mm³ 
Mielócitos 0 % – 0 /µl 0 – 0 
Metamielócitos 0 % – 0 /µl 0 – 170 
Bastonetes 0 % – 0 /µl 0 – 510 
Segmentados 79 % – 8.532 /µl 3.600 – 13.090 
Linfócitos 14 % – 1.512 /µl 720 – 5.100 
Monocitos 4 % – 432 /µl 180 – 1.700 
Eosinófilos 3 % – 324 /µl 120 – 1.700 
Basófilos 0 % – 0 /µl 0-170 
Plaquetas 244.000 /mm³ 200.000 – 500.000 /mm³ 

EXAME 2

TABELA 2 – Resultados da biópsia realizada no laboratório TECSA, Belo Horizonte – MG no dia 08/08/2025

Macroscopia: Próximo à escápula: Elipse cutânea medindo 7,0 x 4,0 x 1,7 cm, com nódulo ulcerado medindo 4,0 cm no maior eixo. Superfície interna enegrecida, com áreas acastanhadas, macia e irregular. Margem.

Microscopia: FRAGMENTO APRESENTANDO NEOPLASIA MALIGNA, CARACTERIZADA POR ESPAÇOS VASCULARES IRREGULARES A SÓLIDOS REPLETOS DE HEMÁCIAS E FIBRINA, DELIMITADOS POR CÉLULAS COM NÚCLEOS AMPLOS, HIPERCORADOS COM NUCLÉOLO EXUBERANTE.

Diagnóstico: HEMANGIOSSARCOMA CUTÂNEO Figuras de mitose (FN 22 – 0,237mm²): 07. Nível de invasão/infiltração: Derme superficial e profunda. Ulceração Epidérmica: Presente. Lesão actínica: Ausente. Margens histológicas estimadas: Livres.

Observações: NOTA: De Nardi AB, de Oliveira Massoco Salles Gomes C, Fonseca-Alves CE, et al. Diagnosis, Prognosis, and Treatment of Canine Hemangiosarcoma: A Review Based on a Consensus Organized by the Brazilian Association of Veterinary Oncology, ABROVET. Cancers (Basel). 2023 Mar 29;15(7):2025.

EXAME 3 

TABELA 3 Resultados do exame Radiológico realizado Via Animale Clínica e PetShop Rio Verde– GO, no dia 04 de setembro de 2025 

REGIÃO RADIOGRAFADA: Tórax INCIDÊNCIAS: Latero lateral direita/esquerda e ventrodorsal DESCRIÇÃO: • Em projeção latero lateral esquerda, observa-se área arredondada de radiopacidade de tecidos moles, com bordos parcialmente definidos, sobrepondo a topografia dorsocaudal do tórax, caudal à base cardíaca, ao nível do 5º e 6º espaços intercostais, medindo aproximadamente 3,5 cm x 3,1 cm. • Aumento difuso da radiopacidade dos campos pulmonares, com padrão bronquial. • Silhueta cardíaca preservada radiograficamente (VHS ≅ 9,7). • Vasos pulmonares preservados radiograficamente. • Lúmen e trajeto traqueal preservados. • Lúmen esofágico não caracterizado nas projeções obtidas (achado fisiológico). • Mediastino, espaço pleural, cúpula diafragmática e arcabouço ósseo dentro da normalidade radiográfica. • Cavidade gástrica preenchida por conteúdo de radiopacidade heterogênea (gás e alimento). IMPRESSÃO DIAGNÓSTICA: • Área arredondada de radiopacidade de tecidos moles, com bordos parcialmente definidos, em topografia dorsocaudal de tórax (visualizada apenas em projeção latero lateral esquerda), possivelmente relacionada a formação de imagem por sobreposição de tecidos moles/vasos pulmonares. Não se descarta linfadenopatia ou, em menor probabilidade, neoformação pulmonar. • Alterações pulmonares compatíveis com processo inflamatório de vias aéreas inferiores (bronquite/asma), associado a atenuação de feixe secundária ao sobrepeso. Não se descarta processo infeccioso leve (broncopneumonia) como diagnóstico diferencial. COMENTÁRIOS: • Recomenda-se controle radiográfico do tórax. Tomografia computadorizada ou ultrassonografia torácica podem ser indicadas como exames complementares para melhor caracterização pulmonar. • O valor preditivo de qualquer exame de diagnóstico por imagem depende da análise conjunta com dados clínicos e demais exames complementares do paciente.

EXAME 4

TABELA 4 

LAUDO ULTRASSONOGRÁFICO

Fígado com dimensões normais, contornos regulares, bordos finos, parênquima homogêneo e ecogenicidade mantida. Arquitetura vascular com calibre e trajeto preservados. Vesícula Biliar com paredes finas e repleta por conteúdo anecogênico e com discreto material ecogênico depositado em fundo (lama biliar).

Baço em topografia habitual, contornos regulares e definidos, parênquima homogêneo com áreas arredondadas hipoecogênicas, sugestivas de lesões nodulares, que medem cerca de 0.92x 0.52 cm de diâmetro (m1) e 1.34 cm x 0.77 cm de diâmetro (m2).

Estômago com conteúdo gasoso e paredes normoespessas. Alças intestinais preenchidas por conteúdo gasoso/mucóide, apresentando paredes finas, com estratificação parietal preservada e peristaltismo evolutivo, sem evidências de processo obstrutivo total.

Rins simétricos (RE= 6.89 cm e o RD= 6.37 cm), em topografia habitual, contornos regulares e definidos com dimensões normais e ecogenicidade mantida. Relação de espessura córticomedular preservada. Não há sinais de litíase ou hidronefrose.

Adrenais em topografia habitual, apresentando contornos regulares, ecogenicidade mantida e dimensões normais.

Não há evidências de alterações ultrassonográficas em topografia de pâncreas.

Não há evidências de presença de líquido livre e linfonodomegalias.

Aorta e veia cava caudal com trajeto preservado.

Bexiga urinária com repleção adequada, paredes finas e conteúdo anecogênico. Não há sinais de litíase.

Próstata em topografia habitual, simétrica, bilobada, contornos regulares e definidos, parênquima homogêneo, ecogenicidade mantida e dimensões normais.

Testículos tópicos, simétricos, com contornos regulares e definidos, parênquima homogêneo, ecogenicidade mantida, dimensões normais e linha mediastinal preservada.

IMPRESSÃO DIAGNÓSTICA:

BAÇO:  Achados compatíveis com possíveis alterações proliferativas (neoplasias primárias ou metastáticas) processos inflamatórios ou alterações vasculares (hematomas, infartos esplênicos)


1Acadêmico de medicina veterinária UniRV. autor principal
2Acadêmico de medicina veterinária UniRV
3Acadêmica de medicina veterinária UniRV
4Acadêmica de medicina veterinária UniRV
5Profa. Dr. da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV
6Médico Veterinário
7Prof. Dr. Titular da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV – Orientador