REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511300658
Gabriela Zille Pereira Vieira
Melissa Aparecida Pinto Soares
Raquel Lopes Rosa
Sarah Izabella Gomes Lizardo
Yuri Vilela Reis
Orientador: Felipe dos Santos Muniz
RESUMO
O lipoma é uma neoplasia benigna de origem mesenquimal, composta por adipócitos maduros bem diferenciados, apresentando crescimento lento, margens definidas e comportamento não infiltrativo. Embora seja uma das neoplasias cutâneas mais frequentes em cães, sua ocorrência no conduto auditivo externo é considerada rara, despertando interesse clínico pela possibilidade de provocar alterações funcionais e inflamatórias locais. A presença de um lipoma nessa região pode gerar compressão tecidual, acúmulo de secreções e ventilação inadequada do canal auditivo, fatores que favorecem o desenvolvimento de otite externa secundária. O presente estudo descreve o caso de uma cadela da raça Schnauzer acometida por lipoma ulcerado no conduto auditivo, associado a quadro de otite unilateral persistente. O diagnóstico foi confirmado por meio de exame citológico e histopatológico, que evidenciaram tecido adiposo unilocular, bem diferenciado e sem sinais de malignidade. O tratamento consistiu na remoção completa da massa com auxílio de técnica endoscópica, que possibilitou a excisão segura e minimamente invasiva. O acompanhamento clínico revelou resolução completa do processo inflamatório e ausência de recidiva tumoral. O caso evidencia a importância do diagnóstico precoce de neoplasias benignas auriculares, ressaltando que, mesmo em lesões não metastáticas, a localização anatômica pode acarretar complicações inflamatórias relevantes, como a otite, comprometendo o bem-estar e a qualidade de vida do animal.
Palavras-chave: inflamação auricular; conduto auditivo externo; adipócitos
ABSTRACT
Lipoma is a benign neoplasm of mesenchymal origin, composed of well-differentiated mature adipocytes, exhibiting slow growth, defined margins, and non-infiltrative behavior. Although it is one of the most frequent cutaneous neoplasms in dogs, its occurrence in the external auditory canal is considered rare, arousing clinical interest due to the possibility of causing local functional and inflammatory alterations. The presence of a lipoma in this region can generate tissue compression, accumulation of secretions, and inadequate ventilation of the auditory canal, factors that favor the development of secondary otitis externa. This study describes the case of a female Schnauzer dog affected by an ulcerated lipoma in the auditory canal, associated with persistent unilateral otitis. The diagnosis was confirmed by cytological and histopathological examination, which showed unilocular adipose tissue, well-differentiated and without signs of malignancy. Treatment consisted of complete removal of the mass using an endoscopic technique, which allowed for safe and minimally invasive excision. Clinical follow-up revealed complete resolution of the inflammatory process and absence of tumor recurrence. This case highlights the importance of early diagnosis of benign auricular neoplasms, emphasizing that, even in non-metastatic lesions, the anatomical location can lead to significant inflammatory complications, such as otitis, compromising the animal’s well-being and quality of life.
Keywords: auricular inflammation; external auditory canal; adipocytes
1 – INTRODUÇÃO
Os lipomas são neoplasias benignas originadas em células de gordura (adipócitos) e, embora não metastatizem, podem causar complicações, principalmente quando localizados em áreas sensíveis, como o conduto auditivo externo (Birchard e Sherding, 2008; Silva et al., 2017).
Embora esses tumores sejam comuns em cães, sua ocorrência em região auditiva é extremamente rara, com poucos relatos disponíveis na literatura científica veterinária (Ramos-Vara; Miller; Patnaik 2019). Essa raridade torna relevante a descrição de casos clínicos que auxiliem na compreensão diagnóstica e terapêutica dessa afecção.
Em medicina veterinária, há consenso de que essa afecção cresce lentamente, sendo mais comuns em cães de médio e grande porte, especialmente idosos. O crescimento contínuo pode levar à compressão de tecidos adjacentes, causando dor e dificuldade de movimento, como em articulações (Crouch et al., 2020). A etiologia ainda não é totalmente compreendida, mas fatores genéticos, hormonais e a castração precoce são frequentemente citados como influenciadores, em algumas raças apresentando maior predisposição, como o Labrador, Dachshund e Cocker Spaniel (Mello et al., 2021; Costa et al., 2019).
A maior preocupação ocorre quando a massa afeta áreas funcionais, como o canal auditivo, podendo causar obstrução parcial ou total, predispondo a infecções e inflamações, como a otite externa (Silva et al., 2023). A otoscopia convencional é comum para diagnóstico, mas a otoendoscopia tem se mostrado mais eficaz, oferecendo uma visão detalhada e permitindo intervenções menos invasivas (Souza et al., 2021).
Apesar da dificuldade associada à remoção cirúrgica de lesões em regiões de difícil acesso, a abordagem endoscópica apresenta vantagens notáveis, incluindo maior precisão, menor trauma e recuperação mais rápida (Lima et al., 2022).
É crucial o acompanhamento contínuo, pois os lipomas podem recidivar, especialmente em animais predispostos (Gschwendtner, 2015).
2 – REVISÃO DE LITERATURA
2.1 LIPOMA EM CÃES
O lipoma é uma neoplasia benigna de origem mesenquimal, composta predominantemente por adipócitos maduros, e normalmente se localiza nas camadas subcutâneas da pele. Essa neoplasia é mais comum em cães de meia-idade a idosos, com maior prevalência em raças de porte médio e grande. Embora o lipoma não apresente comportamento maligno, seu crescimento progressivo pode comprometer a função local, causando desconforto ao animal, especialmente quando localizado em regiões com pouco tecido de suporte, como a região cervical ou em áreas articulares (Jark et al., 2020; Mendonça et al., 2021).
O diagnóstico diferencial de massas cutâneas e subcutâneas em cães deve ser realizado com cuidado, pois existem diversas condições que podem se apresentar com características semelhantes ao lipoma, como cistos sebáceos, abscessos, granulomas, mastocitomas, histiocitomas, hemangiomas e outros tipos de sarcomas de partes moles (Smith et al., 2018; Oliveira e Souza, 2019). Dada a diversidade de possibilidades, é fundamental utilizar exames complementares, como aspiração com agulha fina, biópsias incisivas ou excessivas e exames histopatológicos, para confirmar a natureza da massa e distinguir entre lesões benignas e malignas (Jones et al., 2020).
Em casos de massas localizadas no conduto auditivo, a otoendoscopia surge como uma alternativa importante, pois possibilita uma visualização direta e detalhada, ajudando a guiar a abordagem cirúrgica e a determinar se há envolvimento de estruturas internas (Silva et al., 2020).
O exame de imagem associado a técnicas diagnósticas invasivas, como a biópsia, é essencial para o diagnóstico preciso, especialmente em casos onde a diferenciação entre lipomas e outras massas malignas, como lipossarcomas (Lima et al., 2021).
2.2 ANATOMIA DA ORELHA
A orelha dos animais domésticos é composta por três partes distintas: orelha externa, orelha média e orelha interna, cada uma com funções específicas na audição e no equilíbrio. A orelha externa inclui o pavilhão auricular e o conduto auditivo externo, cuja função principal é captar, direcionar e conduzir as ondas sonoras até a membrana timpânica (Machado, 2015).
Nos cães, o conduto auditivo externo apresenta uma conformação anatômica característica em “L”, composta por um ramo vertical e outro horizontal, formando um ângulo de aproximadamente 90°, o que dificulta a visualização completa do canal por meio do otoscópio convencional (Valente et al., 2011; Ferreira, 2019).
Essa particularidade anatômica representa um desafio clínico frequente, especialmente na avaliação de massas localizadas no interior do conduto auditivo.
Figura 1 Anatomia do sistema auditivo canino

Além da audição, a orelha também participa da manutenção do equilíbrio corporal, por meio da ação do aparelho vestibular, localizado na orelha interna. O pavilhão auricular possui mobilidade significativa em muitas espécies, graças aos músculos auriculares extrínsecos, permitindo que o animal direcione a orelha na direção dos sons, otimizando sua localização (Liebich; König, 2016).
2.3 OTITE
A otite é uma afecção inflamatória comum que afeta o conduto auditivo de cães e gatos, sendo uma das principais queixas na clínica de pequenos animais. Sua etiologia é multifatorial, podendo estar relacionada a processos infecciosos, dermatopatias, alterações anatômicas, neoplasias ou manejo inadequado do conduto auditivo (Moreira, 2011). Além disso, fatores predisponentes como a umidade e a conformação auricular também desempenham um papel importante no desenvolvimento da doença (Trost, 2020).
As otites em cães são classificadas em três tipos principais, com base na localização anatômica da inflamação: otite externa, que acomete o conduto auditivo externo; otite média, que envolve a bula timpânica e estruturas adjacentes; e otite interna, que afeta o vestíbulo e a cóclea. As formas externa e média são as mais prevalentes, sendo que a otite média frequentemente se desenvolve como uma complicação da otite externa crônica. Isso pode levar à perfuração da membrana timpânica, dor intensa e até sinais neurológicos (Fossum e Caplan, 2014; gomes, 2015). A otite interna, embora mais rara, pode resultar em complicações graves, incluindo comprometimento auditivo permanente e distúrbios no equilíbrio (Machado, 2018).
Os principais sinais clínicos observados em animais com otite incluem: meneios cefálicos, prurido, secreção recorrente com odor desagradável, eritema e dor ao manuseio do conduto, feridas secundárias, vocalização, além de alterações neurológicas em estágios mais avançados. Esses sintomas afetam negativamente o bem-estar do animal, muitas vezes gerando estresse contínuo (Machado, 2013; Custódio, 2019).
O diagnóstico da otite é feito com base em uma anamnese detalhada, exame físico, citologia auricular e exames de imagem, como otoscopia ou otoendoscopia, que possibilitam uma avaliação precisa do conduto auditivo e da membrana timpânica, identificando possíveis lesões ou alterações estruturais (Bradley, 2022).
A otite pode ser desencadeada por diferentes fatores, que são comumente divididos em:
- Fatores primários, como dermatopatias alérgicas (ex.: dermatite atópica), infecções parasitárias (ex.: Otodectes cynotis), ou distúrbios ceruminais, que comprometem a homeostase local e criam condições ideais para o desenvolvimento de infecções secundárias (Silva et al., 2021).
- Fatores predisponentes, que incluem conformações auriculares (ex.: orelhas longas e caídas), excesso de pelos, umidade excessiva, ventilação inadequada do conduto auditivo, e uso incorreto de produtos para limpeza das orelhas (Herrera et al., 2019).
- Fatores perpetuantes, como infecções bacterianas ou fúngicas secundárias, que podem agravar a inflamação e dificultar a resolução do quadro (Souza, 2020).
- Fatores agravantes ou permanentes, como alterações anatômicas crônicas (ex.: estenose do conduto auditivo), massas obstrutivas (pólipos, lipomas), ou estenose cicatricial, que podem tornar a otite crônica e resistente ao tratamento (Oliveira et al., 2022).
A abordagem terapêutica envolve o tratamento da causa subjacente, o controle da infecção e a gestão dos fatores predisponentes. O manejo adequado e a prevenção de fatores perpetuantes são fundamentais para evitar recidivas, sendo a monitorização regular importante, especialmente em animais predispostos (Barbosa, 2021).
2.3.1 DIAGNÓSTICO E A UTILIZAÇÃO DA OTOENDOSCOPIA
O diagnóstico da otite em cães deve ser realizado com uma abordagem multidisciplinar, começando com uma anamnese detalhada. Em seguida, são realizados exames clínicos e dermatológicos, como citologia auricular e cultura para identificar os agentes patogênicos responsáveis pela inflamação ou infecção (Silva et al., 2021).
A utilização de exames de imagem é fundamental no diagnóstico de otites, permitindo uma avaliação mais precisa das estruturas. Dentre esses exames, a otoscopia tem sido tradicionalmente utilizada, mas técnicas mais recentes, como a otoendoscopia, têm se mostrado cada vez mais importantes na prática clínica veterinária. A otoscopia convencional possui limitações, especialmente devido à anatomia do conduto auditivo de cães, que é curvado e apresenta um canal em “L”, dificultando a visualização completa da região interna (Bradley, 2022).
A otoendoscopia, por outro lado, é uma técnica que utiliza um endoscópio de alta resolução, permitindo a visualização direta da membrana timpânica e do conduto auditivo. A tecnologia moderna de otoendoscopia oferece melhor iluminação, maior profundidade de campo e resolução aprimorada, o que supera as limitações anatômicas da otoscopia convencional (Pereira et al., 2020). Esses avanços tecnológicos têm contribuído significativamente para o diagnóstico de otites crônicas, neoplasias auriculares, corpos estranhos e infecções parasitárias.
Estudos recentes demonstram que a otoendoscopia é particularmente útil na avaliação de otites crônicas e neoplasias, a visualização em tempo real através de um monitor proporciona ao médico veterinário um planejamento terapêutico mais preciso, seja na remoção de corpos estranhos, na biópsia de lesões ou na avaliação da extensão de infecções (Gomes et al., 2015; Silva et al., 2018).
Além disso, a otoendoscopia também pode ser combinada com outras modalidades de imagem, como a tomografia computadorizada ou ressonância magnética, quando necessário, para avaliações mais profundas, especialmente em casos de otite média e interna (Machado, 2022).
Essas melhorias tecnológicas fazem da otoendoscopia um recurso essencial na clínica veterinária, proporcionando diagnósticos mais rápidos e precisos e otimizando o tratamento de afecções otológicas nos cães.
3 – RELATO DE CASO
No dia 19 de abril de 2024, uma cadela da raça Schnauzer, com 14 anos de idade e pesando 5,5 kg, foi encaminhada ao Centro Integrado de Veterinária (CIV), em Belo Horizonte (MG), com queixa de secreção auricular fétida persistente na orelha esquerda.
Figura 1 – Nódulo na entrada do conduto auditivo esquerdo

Ao exame clínico, observou-se prurido intenso de coloração enegrecida na orelha esquerda e presença de massa nodular ulcerada na entrada do conduto auditivo vertical (Figura 2). Foram solicitados exames pré-anestésicos e avaliação cardiológica para a realização da anestesia e cirurgia. Após análise dos resultados, o procedimento de otoendoscopia foi agendado para remoção do nódulo.
Em 25 de abril de 2024, foi realizado o procedimento de otoendoscopia com a paciente em decúbito esternal. Como medicação pré-anestésica, foram administradas dexmedetomidina (4 mcg/kg) e metadona (0,3 mg/kg). A indução anestésica foi realizada com propofol (3 mg/kg), cetamina (1 mg/kg) e fentanil (2,5 mcg/kg), sendo utilizada isoflurano para manutenção. Houve também infusão contínua de dexmedetomidina (0,5 mcg/kg) associada a cetamina (0,6 mg/kg).
Para analgesia locorregional, procedeu-se ao bloqueio dos nervos auricular maior e auriculotemporal utilizando bupivacaína 1mg/kg a 0,25%. A massa foi removida com auxílio de alça de polipectomia sob visualização por fibra ótica, o que permitiu acesso ao ramo vertical e visualização da extensão da secreção purulenta, que acometia os ramos vertical e horizontal. Realizou-se lavagem do conduto, seguida de inspeção da membrana timpânica, a qual apresentava perda parcial da translucidez fisiológica, porém ainda permitia a visualização do cabo do martelo.
Com o objetivo de evitar recidiva, a base do nódulo foi cauterizada no mesmo procedimento. No pós-operatório imediato, foram administradas dexametasona (0,5 mg/kg) para alívio da inflamação e dipirona (25 mg/kg) para analgesia.
Para continuidade do tratamento em domicílio, foi prescrito gel otológico contendo ciprofloxacina, cetoconazol, acetonido de fluocinolona e cloridrato de lidocaína (6 gotas a cada 12 horas por 20 dias). A escolha foi baseada no exame citológico da orelha, que revelou presença de cocos e bacilos bacterianos, além de fungos, justificando o uso de formulação de amplo espectro com ação antibacteriana, antifúngica, anti-inflamatória e analgésica.
A massa removida, de aspecto nodular, foi enviada para análise histopatológica. Em 1º de maio de 2024, o laudo revelou estrutura de 2,8 x 2,0 x 1,5 cm, com superfície ulcerada e aspecto untuoso ao corte (Figuras 3 e 4). A análise microscópica evidenciou tecido adiposo unilocular, nodular e bem diferenciado, compatível com lipoma.
Figura 3 – Nódulo ulcerado de coloração bege

Figura 4 – Nódulo ao corte com aspecto untuoso

Após envio do nódulo para avaliação histopatológica obteve-se o diagnóstico morfológico de lipoma devido à grande quantidade de tecido adiposo unilocular, nodular e em diferenciado subjacente.
Figura 5 – Fragmentos tecido adiposo em pele pilosa

No retorno em 9 de maio de 2024, a paciente apresentava bom controle álgico, ausência de prurido e cessação do meneio cefálico. A avaliação otológica não revelou sinais inflamatórios, a nova avaliação citológica evidenciou apenas presença de cerúmen, sem identificação de células inflamatórias ou neoplásicas.
Foi instituído o uso de furoato de mometasona 0,2% tópico, aplicado na orelha afetada duas vezes por semana por três meses, visando à cicatrização completa da área submetida à exérese e cauterização.
No último retorno, em 12 de setembro de 2024, observou-se completa cicatrização da orelha, sem sinais de recidiva da massa.
4 – DISCUSSÃO
Os lipomas são neoplasias, formadas por adipócitos maduros, representando uma das neoplasias mais frequentes em cães de meia-idade a idosos. Caracterizam-se por crescimento lento, margens bem definidas e cápsula fibrosa, com predileção por regiões corporais ricas em tecido adiposo, como flancos, parede abdominal, membros torácicos e abdome ventral (Pegram et al., 2020; Spoldi et al., 2017).
A localização observada no presente estudo — conduto auditivo externo — é incomum e considerada atípica. Embora rara, essa apresentação é plausível, considerando a presença residual de tecido adiposo na orelha externa, que pode sofrer proliferação neoplásica sob estímulos locais específicos (Filgueira et al., 2022). Fatores como lesões por repetição, inflamação crônica e estresse mecânico têm sido relacionados à indução de alterações proliferativas no tecido adiposo, embora a patogênese dos lipomas ainda não esteja completamente esclarecida (Castro et al., 2020)
Além dos fatores locais, a predisposição genética desempenha papel importante na ocorrência de lipomas. Raças como Schnauzer, Doberman e Labrador Retriever apresentam maior susceptibilidade, sugerindo influência hereditária na formação dessas neoplasias (Moreira et al., 2021; Pegram et al., 2020). O paciente deste relato, pertencente à raça Schnauzer, corrobora a predisposição descrita na literatura.
O diagnóstico definitivo de lipomas depende da correlação entre exame clínico, exames de imagem e análise citopatológica ou histopatológica. No entanto, lesões localizadas no conduto auditivo externo podem apresentar desafios diagnósticos devido à anatomia restrita do canal e à dor associada à manipulação. A citologia aspirativa, embora útil como exame inicial, apresenta limitação na avaliação da arquitetura tecidual, sendo incapaz de diferenciar lipomas de lipossarcomas ou outras neoplasias adiposas (GOMES, 2015, citado por SILVA, 2020).
A presença do lipoma no conduto auditivo externo, embora benigno, pode causar obstrução do canal, favorecendo o acúmulo de secreções e predispondo o paciente ao desenvolvimento de otite secundária, evidenciada pela secreção enegrecida no conduto auditivo externo esquerdo. Com base nos resultados da citologia do conduto auditivo e do exame histopatológico do nódulo, sugere-se que o quadro de otite tenha ocorrido, provavelmente, como consequência da obstrução provocada pelo lipoma auricular.
A otite é uma afecção inflamatória comum que afeta o conduto auditivo de cães. Sua etiologia é multifatorial, podendo estar relacionada a processos infecciosos, dermatopatias, alterações anatômicas e neoplasias (Moreira, 2011).
Os principais sinais clínicos observados em animais com otite incluem: prurido, secreção recorrente com odor desagradável, eritema e dor ao manuseio do conduto (Machado, 2013; Custódio, 2019).
Um dos fatores que podem causar otite, destacam-se os fatores perpetuantes, como a presença de bactérias e fungos, que podem agravar a inflamação e dificultar a resolução do quadro (Souza, 2020).
Outro fatores agravantes são massas obstrutivas e estenose do conduto auditivo (OLIVEIRA et al., 2022).
No caso relatado, a obstrução causada pela massa constituiu o principal fator predisponente para o acúmulo de secreção e inflamação local, funcionando como agente mecânico perpetuante, conforme descrito por Oliveira et al. (2022). Os sinais clínicos observados — prurido, dor à manipulação e secreção escura — coincidem com aqueles descritos por Machado (2013) e Custódio (2019) em casos de otite externa.
Após a identificação inicial do lipoma e da otite associada, a otoendoscopia foi empregada como ferramenta diagnóstica, permitindo a visualização da massa, avaliação da membrana timpânica e planejamento de sua excisão de forma minimamente invasiva, preservando a anatomia do ouvido.
A otoendoscopia permite uma visualização detalhada do conduto auditivo, identificação de massas e alterações da membrana timpânica, bem como realização de procedimentos minimamente invasivos, como biópsias direcionadas e excisão de lesões (Botelho et al., 2022). No presente caso, a remoção da massa por alça de polipectomia guiada por otoendoscopia demonstrou eficácia, segurança e preservação da anatomia auricular.
Comparada a abordagens cirúrgicas convencionais, a técnica endoscópica reduz trauma tecidual, tempo cirúrgico e anestésico, favorece recuperação rápida, diminui a necessidade de analgesia pós-operatória e mantém a integridade funcional da orelha (Botelho et al., 2022; Spoldi et al., 2017). O protocolo anestésico, combinando anestesia geral com bloqueios locorregionais dos nervos auricular maior e auriculotemporal, foi determinante para analgesia eficaz, estabilidade intraoperatória e recuperação tranquila. O uso de bloqueios regionais em cirurgias otológicas tem demonstrado reduzir necessidade de opioides sistêmicos, tempo anestésico e proporcionar melhor controle da dor pós-operatória (Otero e Portela, 2020).
No caso em questão, esses benefícios foram evidenciados pelo rápido retorno do paciente às atividades normais e pela ausência de complicações pós-operatórias, reforçando as vantagens da técnica. O protocolo anestésico utilizado, combinando anestesia geral com bloqueios locorregionais dos nervos auricular maior e auriculotemporal, proporcionou excelente estabilidade intraoperatória e recuperação tranquila, resultados que corroboram as observações de Otero e Portela (2020) sobre o uso de bloqueios regionais em cirurgias otológicas.
A abordagem multidisciplinar adotada, integrando avaliação dermatológica, anestesia multimodal e técnica minimamente invasiva, foi essencial para o prognóstico favorável do paciente. Este caso evidencia que, mesmo lesões benignas em locais incomuns, quando diagnosticadas precocemente e tratadas com técnicas modernas, apresentam excelente evolução clínica e funcional, reforçando a importância da integração entre conhecimento anatômico, diagnóstico por imagem e manejo anestésico adequado em cirurgias otológicas veterinárias.
5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente relato de caso descreve uma ocorrência rara de lipoma no conduto auditivo externo de uma cadela, uma localização atípica para esse tipo de neoplasia. A raridade da apresentação reforça a importância da investigação diagnóstica minuciosa em casos de massas auriculares, considerando que sinais clínicos inespecíficos podem mascarar afecções incomuns. Além disso, o caso evidenciou a associação entre a presença do lipoma e o desenvolvimento de otite secundária, demonstrando que alterações obstrutivas do conduto auditivo podem favorecer processos inflamatórios locais, ressaltando a necessidade de uma avaliação otológica detalhada para a detecção precoce de complicações.
A utilização da otoendoscopia mostrou-se essencial tanto para o diagnóstico quanto para a remoção completa da massa, destacando-se como uma técnica segura, eficaz e minimamente invasiva. Essa abordagem possibilitou melhor visualização das estruturas auriculares, preservando a anatomia e garantindo uma recuperação rápida. Assim, conclui-se que o diagnóstico precoce, aliado ao uso de métodos modernos como a otoendoscopia, é fundamental para o sucesso terapêutico em lesões auriculares incomuns, contribuindo para o aprimoramento das práticas clínicas e cirúrgicas em medicina veterinária.
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