PRODUÇÃO OFFSHORE E OS DESAFIOS DE MANUTENÇÃO E SEGURANÇA NAS PLATAFORMAS DE PETRÓLEO

OFFSHORE PRODUCTION AND THE CHALLENGES OF MAINTENANCE AND SAFETY ON OIL PLATFORMS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511302016


Luciene Dos Santos Gomes1
Moacir Porto Ferreira2


RESUMO

Este estudo aborda os desafios de manutenção e segurança em plataformas offshore, com foco nas unidades FPSO operando no pré-sal brasileiro. O objetivo é analisar estratégias e práticas adotadas para assegurar continuidade operacional, integridade dos ativos e sustentabilidade das operações. A pesquisa utiliza abordagem qualitativa, combinando entrevistas com profissionais do setor, análise documental de relatórios técnicos e revisão bibliográfica. Os resultados evidenciam que a integração entre manutenção preventiva, corretiva e preditiva, aliada ao uso de tecnologias digitais e à gestão eficiente das paradas programadas, é essencial para minimizar riscos e otimizar a produção. Destaca-se a relevância da cultura de segurança, da capacitação contínua das equipes e da adoção de práticas sustentáveis para reduzir impactos ambientais. Conclui-se que o aprimoramento das estratégias de manutenção e segurança contribui diretamente para a eficiência e sustentabilidade das operações offshore, alinhando-se às demandas do setor e às exigências regulatórias.

Palavras-chave: Manutenção; Segurança Operacional; Plataformas Marítimas; Sustentabilidade; Produção de Petróleo.

ABSTRACT

This study examines the challenges of maintenance and safety on offshore platforms, focusing on FPSO units operating in Brazil’s pre-salt fields. The objective is to analyze key strategies and practices that ensure operational continuity, asset integrity, and sustainability. The research adopts a qualitative approach, combining semi-structured interviews with industry professionals, document analysis, and literature review. Results show that integrating preventive, corrective, and predictive maintenance, together with digital technologies and efficient management of scheduled shutdowns, is essential to minimize risks and optimize production. The study also highlights the importance of safety culture, continuous team training, and sustainable practices to reduce environmental impacts. It concludes that improving maintenance and safety strategies directly enhances the efficiency, safety, and sustainability of offshore operations, meeting industry demands and regulatory requirements.

Keywords: Maintenance; Operational Safety; Offshore Platforms; Sustainability; Oil Production.

1 INTRODUÇÃO

A produção offshore representa uma das principais frentes de expansão da indústria petrolífera mundial, sendo de especial relevância no contexto brasileiro, em função das vastas reservas do pré-sal. Segundo Silva et al. (2020), com a crescente complexidade das operações em águas profundas e ultra profundas, tornam-se cada vez mais evidentes os desafios associados à manutenção dos ativos e à segurança das operações. Em especial, as unidades do tipo FPSO (Floating Production Storage and Offloading), amplamente utilizadas em diversas regiões offshore, demandam práticas robustas de manutenção preventiva e corretiva, aliadas a protocolos rigorosos de segurança operacional.

A crescente complexidade das operações offshore e a necessidade de garantir a segurança e a manutenção eficaz dos ativos representam desafios significativos para a indústria petrolífera. A gestão inadequada desses aspectos pode resultar em interrupções na produção, acidentes e impactos ambientais negativos. Portanto, o presente estudo busca analisar os principais desafios e estratégias relacionados à manutenção e segurança operacional nas plataformas FPSO, destacando o impacto dessas práticas sobre a produtividade e a sustentabilidade das operações offshore. A pesquisa tem como foco aspectos técnicos e gerenciais que integram o escopo da Engenharia de Produção, considerando a aplicação de tecnologias preditivas, sistemas de gestão e práticas de engenharia voltadas à confiabilidade e à segurança.

A escolha do tema justifica-se pela importância estratégica da produção offshore para o cenário energético brasileiro e pela necessidade de aprimoramento contínuo das práticas operacionais em ambientes de elevada criticidade. De acordo com Costa e Almeida (2021), a gestão eficaz da manutenção e da segurança em FPSOs é essencial para garantir a continuidade da produção, a integridade dos ativos e a preservação ambiental. Neste contexto, a pesquisa busca responder à seguinte questão: Quais são os desafios e as soluções adotadas na gestão da manutenção e da segurança nas plataformas FPSO, e como essas práticas influenciam a eficiência da produção offshore?

O objetivo geral do trabalho é analisar os desafios e as estratégias de manutenção e segurança nas plataformas FPSO e sua relação com a produção offshore. Para alcançar esse objetivo, o estudo propõe-se a identificar os principais tipos de manutenção adotados nas plataformas FPSO, avaliar as práticas de segurança aplicadas às operações offshore, relacionar os impactos dessas práticas no desempenho produtivo das unidades e investigar o uso de tecnologias para otimização da manutenção e segurança.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A produção offshore é uma atividade consolidada no setor de petróleo e gás, com destaque no cenário brasileiro em função das reservas do pré-sal. Conforme Oliveira (2019), essa modalidade envolve a extração de petróleo e gás em ambientes marinhos, utilizando tecnologias específicas para lidar com as condições operacionais. A complexidade das operações exige gestão de riscos estruturada e práticas de manutenção e segurança voltadas à integridade das instalações.

A Petrobras, principal operadora offshore no Brasil, apresenta em seus relatórios institucionais iniciativas voltadas à manutenção preditiva, paradas programadas e gestão integrada de segurança. O programa “Compromisso com a Vida” e o uso de tecnologias como monitoramento remoto e drones são exemplos de ações voltadas à melhoria da segurança e da eficiência operacional (PETROBRAS, 2023).

2.1 Manutenção em Plataformas Offshore

A manutenção em unidades FPSO é considerada essencial para a continuidade operacional e para a mitigação de riscos. Santos e Almeida (2020) classificam a manutenção em três categorias: preventiva, corretiva e preditiva. A preventiva é planejada com o objetivo de evitar falhas; a corretiva é realizada após a ocorrência de falhas; e a preditiva utiliza tecnologias de monitoramento para antecipar falhas e programar intervenções (Silva, 2021).

Além dessas classificações, destaca-se a abordagem da Manutenção Centrada em Confiabilidade (RCM), que busca identificar as tarefas mais adequadas para preservar a funcionalidade dos sistemas críticos. Essa metodologia combina elementos das manutenções preventiva e preditiva com análise de modos de falha (Mobley, 2002).

Rios et al. (2024) indicam que os custos de manutenção podem representar até 40% do OPEX em operações offshore, sendo que aproximadamente 80% desses custos estão relacionados à corrosão. O uso de modelos de aprendizado de máquina para prever falhas e otimizar planos de pintura anticorrosiva tem demonstrado potencial para redução de custos e riscos.

A elaboração de planos de manutenção estruturados contribui para a operacionalidade das unidades FPSO. Santos et al. (2022) destacam que esses planos devem incluir critérios para paradas programadas, visando minimizar impactos na produção. Oliveira (2021) complementa que a gestão dessas paradas requer coordenação entre equipes, otimização de tempo de inatividade e aplicação de técnicas de gestão de projetos.

A adoção de tecnologias digitais tem modificado a forma como as paradas são planejadas e executadas. Sistemas de monitoramento em tempo real e manutenção preditiva permitem antecipar falhas e organizar intervenções com maior precisão (Lima, 2022).

Esse processo está alinhado ao conceito de Manutenção 4.0, que incorpora tecnologias como Internet das Coisas (IoT), Big Data, Analytics e Inteligência Artificial. Sensores instalados em equipamentos críticos coletam dados operacionais que subsidiam decisões técnicas. Durante o 33º Congresso Brasileiro de Manutenção e Gestão de Ativos (CBMGA), promovido pela ABRAMAN em 2018, foram apresentados exemplos de aplicação dessas tecnologias em plataformas offshore, incluindo inspeções com drones, sistemas de gestão de ativos em nuvem e algoritmos preditivos.

2.2 Segurança Operacional

A segurança operacional em plataformas offshore envolve múltiplos fatores, considerando o ambiente de risco elevado. Costa (2021) aponta que a segurança deve abranger aspectos físicos das instalações, proteção ambiental e segurança ocupacional. Oliveira e Sousa (2022) defendem a implementação de sistemas de gestão da segurança como forma de identificar e mitigar riscos.

A cultura de segurança é definida por Reason (1997) como um conjunto de valores e comportamentos que favorecem a prevenção de acidentes. Hopkins (2012) observa que a ausência prolongada de incidentes pode gerar complacência, sendo necessário manter mecanismos de vigilância e análise de quase-acidentes.

De acordo com informações divulgadas pela Petrobras (2023), a aplicação de programas voltados à cultura de segurança esteve associada à redução da Taxa de Acidentados Registráveis (TAR), que passou de 2,15 em 2016 para 0,54 em 2021. Essa variação está vinculada à implementação de treinamentos e diretrizes operacionais voltadas à prevenção de incidentes.

No Brasil, o Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional (SGSO) é regulamentado pela ANP por meio da Resolução nº 43/2007. Esse sistema exige das operadoras a adoção de processos estruturados de identificação de perigos, análise de riscos, planos de emergência e auditorias, em conformidade com normas internacionais como a ISO 45001:2018.

2.3 Desafios e Soluções na Gestão da Manutenção e Segurança

A gestão da manutenção e da segurança em plataformas FPSO apresenta desafios diversos. Lima et al. (2021) identificam como principais obstáculos a escassez de mão de obra qualificada, a necessidade de atualização tecnológica e a integração entre equipes.

Casos como o acidente da plataforma Deepwater Horizon (2010) evidenciam a importância de sistemas de segurança estruturados. Investigações apontaram falhas na integridade do poço e na cultura organizacional. No Brasil, o acidente da plataforma P-36 (2001) também gerou revisões nas normas de segurança offshore.

Entre as soluções propostas estão o uso de tecnologias digitais, como IoT e análise de dados, que permitem maior controle das operações. Drones são utilizados para inspeções em áreas de difícil acesso, e a digitalização dos processos de manutenção contribui para a tomada de decisão técnica.

2.4 Importância da Sustentabilidade

A sustentabilidade tem sido incorporada às práticas de gestão nas operações offshore, abrangendo aspectos ambientais, sociais e econômicos. No setor de petróleo e gás, esse conceito está associado à adoção de medidas voltadas à redução de impactos ambientais, à conformidade regulatória e à eficiência na utilização de recursos. Ferreira (2020) destaca que a integração entre manutenção, segurança e sustentabilidade contribui para a continuidade operacional e para o atendimento às exigências normativas.

As diretrizes de sustentabilidade têm sido estruturadas com base nos princípios ESG (Environmental, Social and Governance), que orientam políticas relacionadas à gestão ambiental, responsabilidade social corporativa e governança. No contexto offshore, essas diretrizes são aplicadas por meio de ações como controle de emissões atmosféricas, gestão de resíduos, eficiência energética e monitoramento de indicadores operacionais.

Segundo a Petrobras (2023), houve redução nas emissões absolutas de gases de efeito estufa entre os anos de 2015 e 2023, resultado de iniciativas como reinjeção de dióxido de carbono, ajustes em processos térmicos e controle da queima de gás. Essas ações estão vinculadas às metas internas de descarbonização e ao atendimento às exigências de órgãos reguladores.

Gaudêncio et al. (2021) propõem um sistema de indicadores multicritério de sustentabilidade para unidades offshore, considerando dimensões ambientais, econômicas e sociais. Esses indicadores permitem avaliar o desempenho das operações em relação a parâmetros como consumo de recursos naturais, geração de resíduos, impacto sobre comunidades costeiras e eficiência na utilização de ativos. A aplicação desses instrumentos contribui para o planejamento de ações corretivas e preventivas com base em evidências técnicas.

Práticas como descomissionamento sustentável, reaproveitamento de estruturas, gestão de resíduos e monitoramento ambiental têm sido incorporadas às rotinas operacionais. O reaproveitamento de plataformas desativadas como recifes artificiais é uma alternativa que reduz o descarte de materiais e viabiliza novos usos. Além disso, o uso de tecnologias digitais, como sensores ambientais e sistemas de monitoramento remoto, permite o acompanhamento de parâmetros ambientais em tempo real, contribuindo para a detecção de desvios e para a prevenção de eventos com potencial impacto ecológico.

A gestão sustentável também envolve o controle do consumo energético das unidades offshore. Sistemas automatizados de controle de processos têm sido utilizados para reduzir perdas térmicas, otimizar o uso de combustíveis e minimizar a queima de gás (flaring). Essas ações estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas, especialmente os ODS 13 (Ação contra a Mudança Global do Clima) e ODS 14 (Vida na Água).

Relatórios da International Association of Oil & Gas Producers (IOGP) indicam que a gestão de ativos offshore deve considerar o ciclo de vida completo das instalações, desde o projeto até o descomissionamento, com foco na minimização dos impactos ambientais e na eficiência operacional. A integração entre sustentabilidade, manutenção e segurança é apresentada como uma abordagem técnica voltada à conformidade regulatória e à continuidade das operações.

3 ASPECTOS METODOLÓGICOS

Esta seção descreve os métodos e procedimentos utilizados para a realização da pesquisa sobre a produção offshore e os desafios de manutenção e segurança nas plataformas de petróleo. A abordagem metodológica adotada visa garantir a validade e a confiabilidade dos resultados obtidos.

3.1 Tipo de Pesquisa

A pesquisa realizada é de natureza exploratória e descritiva. A pesquisa exploratória tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses. Já a pesquisa descritiva visa descrever as características de determinada população ou fenômeno, estabelecendo relações entre as variáveis estudadas.

3.2 Abordagem Metodológica

A abordagem metodológica adotada é qualitativa, uma vez que se busca compreender os fenômenos em profundidade, explorando as percepções e experiências dos profissionais envolvidos na produção offshore. A pesquisa qualitativa permite uma análise detalhada e contextualizada dos dados, proporcionando uma compreensão mais rica e complexa dos desafios e soluções na manutenção e segurança das plataformas.

3.3 Técnicas de Coleta de Dados

Para a coleta de dados, foram utilizadas as seguintes técnicas:

  • Entrevistas Semiestruturadas: Foram realizadas entrevistas com profissionais da indústria de petróleo e gás, incluindo engenheiros de manutenção de operações e especialistas em segurança. As entrevistas semiestruturadas permitem uma flexibilidade na condução das perguntas, possibilitando explorar em profundidade os temas relevantes para a pesquisa. Para preservar o anonimato dos participantes, os entrevistados foram identificados apenas pelo cargo, conforme recomendações éticas para pesquisas acadêmicas.
  • Análise Documental: Foram analisados documentos técnicos, relatórios de manutenção, normas de segurança e publicações científicas relacionadas à produção offshore. A análise documental complementa as informações obtidas nas entrevistas, proporcionando uma base sólida para a discussão dos resultados.

3.4 Procedimentos de Análise de Dados

A análise dos dados coletados será realizada através da técnica de análise de conteúdo. Essa técnica permitirá identificar e categorizar as principais temáticas emergentes a partir das entrevistas e da revisão bibliográfica, facilitando a interpretação dos dados e a construção de uma narrativa coerente sobre os desafios e soluções na gestão da manutenção e segurança nas plataformas offshore.

3.5 Limitações da Pesquisa

Como toda pesquisa, este estudo apresenta algumas limitações. A principal limitação diz respeito à amostra de entrevistados, que pode não representar a totalidade dos profissionais da indústria de petróleo e gás. Além disso, a abordagem qualitativa, embora rica em detalhes, não permite a generalização dos resultados para outras populações ou contextos.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Este capítulo apresenta e discute os principais resultados obtidos a partir da análise documental, entrevistas semiestruturadas e revisão bibliográfica sobre os desafios, práticas e soluções relacionadas à manutenção e segurança nas plataformas offshore, especialmente nas unidades FPSO. Os resultados são organizados em tópicos que abordam os desafios de manutenção, segurança operacional, práticas sustentáveis e depoimentos de profissionais atuantes no setor.

4.1 Desafios de Manutenção

A manutenção nas FPSOs enfrenta obstáculos como:

  • Ambiente hostil: A exposição constante à salinidade, variações de temperatura e pressão acelera processos de corrosão e desgaste dos equipamentos (Santos & Almeida, 2020).
  • Logística complexa: O transporte de peças, ferramentas e equipes especializadas depende de condições climáticas e da disponibilidade de embarcações de apoio, impactando o tempo de resposta às demandas de manutenção (Oliveira, 2021).
  • Integração de equipes: A necessidade de coordenação entre equipes multidisciplinares de operação e manutenção exige comunicação eficiente e gestão de projetos rigorosa (Lima et al., 2021).

A adoção de tecnologias digitais, como sistemas de monitoramento em tempo real e manutenção preditiva baseada em análise de dados, tem se mostrado eficaz para antecipar falhas e otimizar intervenções (Lima, 2022).

4.2 Segurança Operacional

A segurança operacional nas plataformas offshore é impactada por fatores como:

  • Riscos de acidentes: Operações em ambientes confinados, manipulação de substâncias inflamáveis e exposição a atmosferas explosivas aumentam o potencial de incidentes graves (Costa, 2021).
  • Gestão de emergências: Protocolos rigorosos de resposta a emergências, treinamentos periódicos e simulados são essenciais para mitigar riscos e proteger trabalhadores e o meio ambiente (Oliveira & Sousa, 2022).
  • Cultura de segurança: A promoção de uma cultura organizacional voltada à segurança, com participação ativa dos colaboradores, é um diferencial para a redução de acidentes e incidentes (Silva et al., 2020).

4.3. Práticas Sustentáveis

A sustentabilidade nas operações offshore é um desafio adicional, exigindo práticas que minimizem impactos ambientais e promovam o bem-estar social (Ferreira, 2020). O reaproveitamento de estruturas, gestão adequada de resíduos e monitoramento ambiental contínuo são exemplos de iniciativas adotadas.

4.4. Depoimentos de Profissionais Offshore

Com o objetivo de complementar a análise qualitativa da pesquisa, foi elaborado um questionário semiestruturado e enviado a 50 profissionais atuantes em plataformas offshore. Os participantes estavam distribuídos em quatro unidades FPSO operando na costa brasileira. Foram obtidas 28 respostas válidas, abrangendo diferentes cargos e áreas de atuação, como engenharia de manutenção, segurança do trabalho, operações, logística, confiabilidade, meio ambiente e saúde ocupacional. Os depoimentos foram organizados de forma anônima e agrupados por função, respeitando as diretrizes éticas para preservação da identidade dos respondentes.

A seguir, apresentam-se dois exemplos de entrevistas detalhadas, seguidos de um quadro resumo com os principais comentários dos demais profissionais entrevistados.

Entrevistado 1: Engenheiro de Segurança do Trabalho

Quais são os principais desafios para garantir a segurança operacional as plataformas FPSO?

Os desafios são múltiplos. O ambiente offshore é naturalmente hostil, com riscos de atmosferas explosivas, exposição a agentes químicos e operações em altura e espaços confinados. A principal dificuldade está em manter a cultura de segurança ativa entre todos os colaboradores, especialmente considerando a rotatividade de equipes. Investimos fortemente em treinamentos periódicos, simulados de emergência e inspeções regulares. Outro ponto crítico é a gestão de emergências: precisamos garantir que todos conheçam os protocolos e que os equipamentos estejam sempre prontos para uso. A integração entre áreas de operação, manutenção e segurança é fundamental para antecipar riscos e agir preventivamente.

Quais práticas têm se mostrado mais eficazes para reduzir acidentes?

A adoção de sistemas de gestão integrados, conforme as normas NR-37 e ISO 45001, tem sido essencial. O uso de tecnologias digitais para monitoramento de condições ambientais e comportamentais também contribui para identificar desvios antes que se tornem incidentes. Além disso, o engajamento dos trabalhadores, por meio de campanhas de conscientização e participação ativa nos comitês de segurança, é um diferencial para a redução de acidentes.

Entrevistado 2: Gerente de Plataforma FPSO

Quais são os principais desafios de manutenção enfrentados na operação de uma FPSO?

A manutenção em FPSOs exige planejamento rigoroso devido à logística complexa e à necessidade de minimizar paradas não programadas. O ambiente marinho acelera processos de corrosão e desgaste, tornando indispensável o uso de manutenção preditiva e preventiva. A coordenação entre equipes multidisciplinares, o acesso a peças sobressalentes e a gestão eficiente das paradas programadas são fatores críticos. Outro desafio é garantir que as intervenções sejam realizadas com segurança, respeitando todos os protocolos e normas técnicas.

Como a tecnologia tem contribuído para a melhoria da manutenção e segurança?

A tecnologia é uma aliada fundamental. Utilizamos sistemas de monitoramento remoto, sensores inteligentes e análise de dados para prever falhas e otimizar intervenções. O uso de drones para inspeções em áreas de difícil acesso e a digitalização dos processos de manutenção aumentam a eficiência e reduzem riscos. Além disso, a integração de informações entre áreas permite uma tomada de decisão mais rápida e assertiva, contribuindo para a segurança e a continuidade operacional.

Tabela 1 – Resumo dos depoimentos dos profissionais entrevistados

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa permitiu identificar aspectos relevantes relacionados à manutenção, segurança operacional e sustentabilidade em unidades FPSO. Os dados obtidos indicam que a integração entre práticas técnicas, gestão de riscos e uso de tecnologias digitais contribui para a continuidade operacional e para o atendimento às exigências normativas.

Observou-se que planos estruturados de manutenção, sistemas de gestão de segurança e ações alinhadas aos princípios de sustentabilidade são elementos que favorecem o desempenho das operações offshore. A seguir, são apresentadas recomendações técnicas organizadas por dimensão temática.

Tabela 2 – Recomendações Técnicas para Melhoria da Manutenção, Segurança e Sustentabilidade em FPSOs

Essas recomendações podem subsidiar ações de melhoria contínua nas operações offshore, contribuindo para o desempenho técnico, a conformidade regulatória e a gestão integrada dos ativos. A aplicação dessas medidas deve considerar as especificidades de cada unidade, os recursos disponíveis e os requisitos normativos vigentes.

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