DESAFIOS E ESTRATÉGIAS NO TRATAMENTO DA TUBERCULOSE: ADESÃO TERAPÊUTICA E ENFRENTAMENTO DA RESISTÊNCIA MEDICAMENTOSA: REVISÃO DE LITERATURA

CHALLENGES AND STRATEGIES IN TUBERCULOSIS TREATMENT: TERAPEUTIC ADHERENCE AND COMBATING DRUG RESISTANCE: LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511302230


Elayne Cristina Gomes da Silva Corrêa1
Isaila Maria Fernandes2
Nivea Maria Pereira Pinho3
MSc Frederico Augusto Rocha Neves4


Resumo 

A tuberculose permanece como um dos maiores desafios de saúde pública mundial, caracterizando-se  por altas taxas de incidência, mortalidade e pelo crescente problema da resistência medicamentosa. O  tratamento envolve esquemas prolongados que exigem adesão rigorosa dos pacientes, fator essencial  para alcançar a cura e interromper a cadeia de transmissão. No entanto, dificuldades socioeconômicas,  efeitos adversos dos medicamentos e falhas no acompanhamento clínico contribuem para o abandono  terapêutico, favorecendo o surgimento de cepas multirresistentes. Nesse cenário, a atuação do  farmacêutico e de equipes multiprofissionais torna-se indispensável, seja no acompanhamento da  terapia, na promoção do uso racional dos medicamentos ou na orientação ao paciente. Além disso, a  incorporação de novos fármacos, como a bedaquilina, a delamanida e a linezolida, tem ampliado as  possibilidades de tratamento da tuberculose resistente, embora ainda enfrente barreiras relacionadas ao  acesso e à toxicidade. A literatura recente destaca a necessidade de estratégias integradas, envolvendo  educação em saúde, monitoramento da adesão, fortalecimento das políticas públicas e ampliação do  acesso a terapias inovadoras, como elementos fundamentais para o enfrentamento da tuberculose e da  resistência medicamentosa. 

Palavras-chave: Adesão terapêutica. Farmácia clínica. Resistência medicamentosa. Tuberculose.  Tratamento farmacológico.  

INTRODUÇÃO 

A tuberculose é uma das doenças infecciosas mais antigas da humanidade e, ainda  hoje, representa um dos maiores desafios à saúde pública mundial. Estima-se que,  anualmente, milhões de pessoas sejam infectadas pelo Mycobacterium tuberculosis,  configurando-se como uma das principais causas de morbimortalidade em diversos países,  especialmente aqueles em desenvolvimento (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).  Apesar dos avanços obtidos com a implementação de programas nacionais e internacionais de  controle, a doença continua sendo uma preocupação global, sobretudo devido à elevada  incidência em populações vulneráveis e à emergência da resistência medicamentosa  (BRASIL, 2024). 

O tratamento da tuberculose, baseado em esquemas combinados de antibióticos de  primeira linha, apresenta elevada eficácia quando seguido corretamente. No entanto, a  necessidade de uso prolongado, os efeitos adversos e as dificuldades socioeconômicas  enfrentadas pelos pacientes contribuem significativamente para o abandono terapêutico  (PRADIPTA et al., 2020 & ORLANDI et al., 2019). Esse fenômeno não apenas compromete  a cura individual, mas também favorece a disseminação da doença e o surgimento de cepas  resistentes, como a tuberculose multirresistente (TB-MDR) e a extensivamente resistente (TB XDR), que representam um grave obstáculo para os sistemas de saúde (SOEIRO, CALDAS  & FERREIRA, 2022). 

Diversos estudos apontam que a adesão terapêutica é um dos fatores mais críticos para  o sucesso do tratamento da tuberculose. Estratégias como o acompanhamento  multiprofissional, a promoção da educação em saúde e a atuação clínica do farmacêutico  mostram-se fundamentais para aumentar a adesão e reduzir o risco de resistência  (CONRADIE et al., 2022 & KHOSRAVI et al., 2024). Nesse sentido, a introdução de novos  fármacos, como a bedaquilina, a delamanida e a linezolida, tem trazido perspectivas mais  promissoras para o manejo da tuberculose resistente, embora ainda existam limitações  relacionadas ao acesso, ao custo e à segurança desses medicamentos (LIU et al., 2023). 

Diante desse cenário, torna-se evidente que a tuberculose ultrapassa uma simples  questão clínica, configurando-se como um problema social, econômico e de saúde pública. O  enfrentamento da doença depende não apenas da disponibilidade de medicamentos eficazes,  mas também do fortalecimento de políticas públicas, da integração entre diferentes  profissionais da saúde e do desenvolvimento de estratégias que assegurem maior adesão  terapêutica e reduzam a resistência bacteriana.

Assim, este trabalho tem como objetivo analisar os desafios e estratégias relacionados  ao tratamento da tuberculose, com ênfase na adesão terapêutica e no enfrentamento da  resistência medicamentosa. A pesquisa se justifica pela relevância do tema, uma vez que  compreender os fatores associados à baixa adesão, resistência aos medicamentos e às falhas  terapêuticas pode contribuir para o aprimoramento das práticas clínicas e das políticas  públicas voltadas ao controle da tuberculose, promovendo impactos positivos tanto para a  saúde individual quanto coletiva. 

1. REVISÃO DA LITERATURA 

Fatores de barreira à adesão terapêutica 

A adesão ao tratamento da tuberculose é um desafio complexo e multifatorial que  envolve barreiras de ordem socioeconômica, geográfica, cognitiva, clínica e social. Em  relação aos fatores econômicos, estudos recentes demonstram que o custo do deslocamento  até as unidades de saúde, a perda de renda causada pela ausência no trabalho e a dificuldade  de manter uma alimentação adequada impactam diretamente na continuidade do tratamento.  Esses aspectos contribuem para a interrupção da terapia, sobretudo em populações em  situação de vulnerabilidade social (ABAS et al., 2024). 

Do ponto de vista geográfico, a distância entre a residência do paciente e os centros de  tratamento, somada às dificuldades de transporte e às más condições de infraestrutura, tem se  mostrado uma barreira significativa, principalmente em áreas rurais e periféricas. Esse fator  agrava o risco de abandono terapêutico e dificulta a supervisão direta da administração dos  medicamentos (HU et al., 2025). 

Outro ponto relevante é o nível de conhecimento e compreensão do paciente acerca da  doença e do tratamento. Muitos indivíduos abandonam a medicação ao perceberem melhora  inicial dos sintomas, sem compreender a necessidade da continuidade do regime por, no  mínimo, seis meses. A falta de clareza quanto à duração do tratamento e a baixa alfabetização  em saúde estão entre os principais determinantes da não adesão (ABAS et al., 2024). 

Os efeitos adversos relacionados ao esquema terapêutico também figuram como um  dos maiores desafios. Náuseas, vômitos, hepatotoxicidade e neuropatias são queixas  frequentes entre pacientes em uso de poliquimioterapia para tuberculose. Esses eventos,  quando não monitorados e manejados de forma adequada, desestimulam o paciente a  prosseguir com o tratamento (HU et al., 2025).

Por fim, fatores sociais e de apoio psicossocial são determinantes para a adesão. O  estigma associado à doença, a discriminação e a falta de suporte familiar ou comunitário  contribuem para o isolamento do indivíduo e reduzem sua motivação para seguir corretamente  a terapêutica. Nesse sentido, a presença de redes de apoio tem se mostrado fundamental para o  engajamento no tratamento, reforçando a necessidade de políticas públicas que contemplem  não apenas a dimensão clínica, mas também a social da doença (HU et al., 2025 & ABAS et  al., 2024). 

Desafios relativos à resistência medicamentosa 

A resistência medicamentosa na tuberculose representa uma das maiores ameaças à  saúde pública global e está diretamente relacionada tanto ao abandono ou uso irregular da  terapêutica quanto a fatores estruturais e biológicos. Nos últimos anos, tem-se observado um  aumento significativo da resistência a fármacos de última geração, como a bedaquilina,  utilizada no tratamento da tuberculose multirresistente (MDR-TB). Esse fenômeno preocupa  especialistas devido à escassez de opções terapêuticas eficazes e à toxicidade elevada dos  medicamentos alternativos (HU et al., 2025). 

Outro desafio importante diz respeito à qualidade dos medicamentos distribuídos em  alguns contextos de baixa e média renda. A circulação de fármacos falsificados ou de baixa  qualidade compromete a eficácia do tratamento e favorece o desenvolvimento de resistência  bacteriana. Estima-se que parte significativa dos medicamentos antituberculose disponíveis  em determinados mercados não atende plenamente aos padrões de qualidade exigidos,  representando um risco negligenciado para o controle global da doença (TEIXEIRA et al.,  2021). 

Além disso, a detecção tardia de casos resistentes é um fator agravante. A limitação no  acesso a testes rápidos de sensibilidade aos medicamentos e a insuficiência de laboratórios  com capacidade técnica adequada contribuem para o atraso na identificação de pacientes com  tuberculose resistente. Essa demora aumenta a probabilidade de transmissão comunitária de  cepas resistentes e dificulta a implementação precoce de terapias adequadas (SOEIRO;  CALDAS & FERREIRA, 2022). 

A utilização incorreta dos regimes terapêuticos, seja por prescrição inadequada, seja  por erros de dispensação ou falta de acompanhamento contínuo, também se configura como  um problema crítico. A introdução de esquemas mais curtos e menos tóxicos tem sido  apontada como uma estratégia promissora, mas sua implementação ainda encontra barreiras  em países com sistemas de saúde fragilizados (ABAS et al., 2024).

Portanto, o enfrentamento da resistência medicamentosa exige uma abordagem  multifatorial que envolve o monitoramento da qualidade dos fármacos, o fortalecimento das  redes laboratoriais, o acesso universal a testes rápidos de diagnóstico, além de políticas  públicas eficazes que garantam a prescrição racional e o acompanhamento contínuo dos  pacientes. O farmacêutico, nesse contexto, assume papel estratégico na vigilância,  dispensação correta e orientação sobre o uso adequado dos medicamentos, contribuindo de  forma ativa para reduzir o avanço da resistência (RANG et al., 2020). 

Estratégias e intervenções promissoras 

O enfrentamento dos desafios relacionados à adesão terapêutica e à resistência  medicamentosa na tuberculose demanda a implementação de estratégias inovadoras e  multidimensionais. Entre as abordagens mais recentes, destacam-se as tecnologias digitais  aplicadas ao acompanhamento do tratamento. O uso de aplicativos móveis, lembretes via  SMS e o acompanhamento por vídeo (video-DOT) têm demonstrado resultados positivos na  promoção da adesão, permitindo monitoramento em tempo real e maior interação entre  paciente e equipe de saúde (ABAS et al., 2024). Essas ferramentas têm a vantagem de reduzir  barreiras geográficas e aumentar a autonomia do paciente, embora ainda encontrem  obstáculos relacionados ao acesso desigual à internet e à alfabetização digital (MEIRA et al.,  2025). 

As estratégias de educação em saúde também se mostram fundamentais, uma vez que  a compreensão adequada sobre a doença e o tratamento influencia diretamente na  continuidade terapêutica. Programas de educação comunitária, aliados ao fortalecimento das  redes de apoio familiar e social, têm sido eficazes em reduzir o estigma e ampliar o  engajamento dos pacientes (NAIR et al., 2023). Nessas ações, o farmacêutico assume papel de  destaque ao orientar sobre posologia, possíveis reações adversas e importância da  regularidade do tratamento. 

Outra intervenção com impacto relevante são os incentivos financeiros e sociais, como  o fornecimento de auxílio transporte, cestas básicas ou compensações monetárias. Essas  medidas têm demonstrado capacidade de reduzir as taxas de abandono, especialmente em  populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica (TÁVORA et al., 2021). Além  disso, o suporte nutricional vem sendo apontado como estratégia complementar, considerando  que a desnutrição é fator de risco para piora clínica e para a redução da eficácia do tratamento  (HU et al., 2025).

No campo clínico, avanços também têm sido registrados com a introdução de regimes  terapêuticos mais curtos e menos tóxicos, como os esquemas de seis a nove meses para casos  de tuberculose multirresistente, aprovados em diversos países. Esses novos protocolos visam  aumentar a adesão e reduzir a toxicidade, embora sua implementação ainda dependa de  recursos financeiros e logísticos (RANG et al., 2020). 

Diante disso, a combinação de intervenções tecnológicas, sociais e clínicas apresenta  maior potencial de impacto, sobretudo quando articulada com políticas públicas de  fortalecimento da atenção primária e da vigilância em saúde. Nesse cenário, a atuação do  farmacêutico torna-se indispensável, tanto no acompanhamento individual dos pacientes  quanto na elaboração e execução de estratégias coletivas de enfrentamento da tuberculose  (NAIR et al., 2023). 

Evidências quantitativas 

As evidências quantitativas sobre adesão terapêutica na tuberculose reforçam a  importância da regularidade no uso dos medicamentos para o alcance de desfechos clínicos  favoráveis. Estudos de larga escala têm demonstrado que não apenas a quantidade total de  doses perdidas, mas principalmente a forma como essas perdas ocorrem, influencia  diretamente o sucesso do tratamento. Pacientes que interrompem a medicação em blocos  consecutivos, ainda que por períodos curtos, apresentam risco significativamente maior de  falha terapêutica e de desenvolvimento de resistência em comparação com aqueles que  perdem doses de forma esporádica (HU et al., 2025). 

Uma revisão sistemática recente analisou diferentes estratégias de comunicação para  melhoria da adesão, incluindo lembretes eletrônicos, supervisão direta por vídeo (video-DOT)  e intervenções comunitárias. Os resultados mostraram que a combinação entre dispositivos  digitais e programas de educação em saúde resultou em aumento significativo das taxas de  conclusão do tratamento, reduzindo em até 30% os casos de abandono (ABAS et al., 2024).  Esse dado confirma a eficácia das tecnologias digitais quando aplicadas em conjunto com  medidas de suporte social. 

Outro ponto relevante está relacionado aos esquemas terapêuticos reduzidos. Estudos  multicêntricos apontaram que protocolos mais curtos, de até nove meses para tuberculose  resistente, apresentaram taxas de sucesso superiores aos regimes tradicionais mais longos,  além de maior aceitabilidade entre os pacientes (TÁVORA et al., 2021). Esses achados  sugerem que a simplificação terapêutica pode ser uma estratégia eficaz para aumentar a adesão, desde que acompanhada de monitoramento rigoroso e de disponibilidade dos  medicamentos adequados. 

Por fim, dados quantitativos também indicam que o suporte financeiro exerce papel  decisivo na adesão. Uma meta-análise envolvendo populações de países de baixa e média  renda mostrou que incentivos monetários e benefícios sociais aumentaram em até 20% a  probabilidade de adesão completa ao tratamento (MEIRA et al., 2025). Esses resultados  demonstram que a combinação de intervenções clínicas, sociais e tecnológicas é mais eficaz  do que a aplicação isolada de qualquer uma delas. 

Fármacos de primeira e segunda linha no manejo da tuberculose 

O tratamento da tuberculose baseia-se em um regime padronizado de fármacos  classificados em primeira e segunda linha, definidos conforme eficácia, toxicidade e  resistência bacteriana. Os medicamentos de primeira linha constituem a base do tratamento  por apresentarem maior potência e menor risco de toxicidade, sendo compostos  principalmente por isoniazida, rifampicina, pirazinamida e etambutol. Estes fármacos atuam  em diferentes mecanismos do metabolismo do Mycobacterium tuberculosis, proporcionando  um efeito bactericida e esterilizante essencial para a cura e prevenção da resistência. Estudos  recentes reforçam que a combinação destes medicamentos, utilizada de forma adequada, é  responsável por altas taxas de sucesso terapêutico e redução da transmissibilidade da doença  (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020 & BRASIL, 2024). 

A isoniazida e a rifampicina são consideradas os pilares do esquema básico, pela  potente ação bactericida. A pirazinamida tem papel crucial na redução da duração do  tratamento, uma vez que atua sobre bacilos em estado de latência. Já o etambutol, embora não  seja bactericida potente, é utilizado como fármaco complementar para prevenir resistência,  especialmente nos casos em que há risco aumentado de cepas resistentes (FOX et al., 2022). 

Quando há falha terapêutica, abandono de tratamento ou resistência aos medicamentos  de primeira linha, torna-se necessário recorrer aos fármacos de segunda linha. Esses incluem  as fluoroquinolonas (como levofloxacino e moxifloxacino), aminoglicosídeos (amicacina e  estreptomicina), além de novos agentes como bedaquilina, linezolida e delamanida. Apesar de  mais eficazes contra cepas resistentes, os fármacos de segunda linha apresentam maiores  riscos de toxicidade, custos mais elevados e maior complexidade de manejo clínico  (MICHALIK et al., 2025). 

O advento de novas moléculas, como a bedaquilina, marcou um avanço significativo  no combate à tuberculose multirresistente (TB-MDR), oferecendo melhores desfechos clínicos e menor tempo de tratamento. No entanto, ainda existem desafios relacionados ao  acesso, à disponibilidade e à incorporação destes medicamentos em programas de saúde  pública. A literatura evidencia que o uso racional dos fármacos, aliado à adesão terapêutica, é  fundamental para evitar a progressão da resistência e garantir a eficácia das estratégias de  controle da doença (APPIAH et al., 2023). 

Assim, o manejo da tuberculose exige não apenas a escolha adequada dos  medicamentos de primeira e segunda linha, mas também políticas de monitoramento,  acompanhamento farmacoterapêutico e integração entre os serviços de saúde, garantindo  melhores resultados no enfrentamento desta doença de grande relevância epidemiológica. 

Novos medicamentos no tratamento da tuberculose resistente 

O surgimento de cepas multirresistentes (Mycobacterium tuberculosis resistentes à  isoniazida e rifampicina) trouxe grandes desafios ao tratamento da tuberculose, exigindo o  desenvolvimento e incorporação de novos fármacos. Entre os avanços mais significativos  destacam-se a bedaquilina, a delamanida e a linezolida, que vêm sendo incorporadas em  esquemas terapêuticos para tuberculose resistente e extensivamente resistente. Estes  medicamentos apresentam mecanismos de ação diferenciados, maior eficácia contra cepas  resistentes e têm sido fundamentais para melhorar o prognóstico clínico dos pacientes (WHO,  2020 & SEID, et al., 2025). 

A bedaquilina atua inibindo a ATP sintase do bacilo, comprometendo a produção de  energia essencial para sua sobrevivência. Sua introdução nos protocolos terapêuticos  representou um marco, pois demonstrou potencial para reduzir a mortalidade e encurtar a  duração do tratamento em casos de tuberculose multirresistente (BRASIL, 2020 & VARGAS,  2024). Já a delamanida age inibindo a síntese de componentes da parede celular  micobacteriana, aumentando sua eficácia contra bacilos resistentes, sendo geralmente  utilizada em associação com outros fármacos de segunda linha (BRASIL, 2020a). 

A linezolida, por sua vez, pertencente à classe das oxazolidinonas, atua na inibição da  síntese proteica bacteriana. Apesar de demonstrar elevada eficácia, seu uso ainda é limitado  por efeitos adversos importantes, como mielossupressão e neuropatia periférica, o que exige  monitoramento rigoroso e acompanhamento farmacoterapêutico (MAHMOUD & TAN,  2023). 

Estudos recentes reforçam que a utilização combinada destes medicamentos  inovadores aumenta as taxas de cura da tuberculose multirresistente e reduz o tempo de  tratamento de 18–24 meses para esquemas mais curtos, de 6 a 9 meses em alguns casos. No entanto, a disponibilidade restrita, o alto custo e a necessidade de monitoramento  especializado ainda representam barreiras para a ampla implementação em países endêmicos,  como o Brasil (RAVAGNANI, 2023 & BRASIL, 2024). 

Assim, os novos medicamentos oferecem um horizonte promissor no enfrentamento  da resistência, mas seu uso deve estar aliado a estratégias de acesso ampliado, fortalecimento  da adesão e monitoramento de efeitos adversos, garantindo que avanços farmacológicos  resultem em impacto positivo no controle global da tuberculose. 

2. METODOLOGIA  

O presente trabalho caracteriza-se como uma revisão integrativa de literatura, de  abordagem qualitativa e caráter exploratório-descritivo. Esse tipo de pesquisa foi escolhido  por possibilitar a síntese de resultados de diferentes estudos publicados, permitindo maior  compreensão sobre os desafios e as estratégias relacionadas ao tratamento da tuberculose,  com ênfase na adesão terapêutica e no enfrentamento da resistência medicamentosa. 

O universo da pesquisa compreendeu publicações científicas indexadas em bases de  dados eletrônicas de relevância internacional, como SciELO, PubMed, LILACS e  ScienceDirect. A seleção dos estudos foi realizada entre os meses de março e abril de 2025,  utilizando-se descritores controlados dos vocabulários DeCS/MeSH, entre eles: “tuberculose”,  “adesão terapêutica”, “resistência medicamentosa” e “tratamento farmacológico”, bem como  suas correspondentes em inglês. 

Como critérios de inclusão, foram selecionados artigos originais, revisões de literatura,  diretrizes e documentos oficiais publicados entre 2015 e 2025, disponíveis na íntegra e em  acesso gratuito, nos idiomas português e inglês. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor,  resumos de congresso, dissertações e teses não publicadas em periódicos indexados, além de  estudos que não abordassem diretamente a temática proposta. 

A amostra final da pesquisa foi constituída pelos estudos que atenderam rigorosamente  aos critérios estabelecidos, sendo organizados em planilha eletrônica para análise. As  informações extraídas incluíram dados sobre o ano de publicação, país de origem, objetivos,  tipo de estudo, principais resultados e conclusões. 

A análise dos dados foi conduzida por meio da leitura crítica e interpretação dos  artigos, permitindo a categorização temática em dois eixos principais: (1) adesão terapêutica  no tratamento da tuberculose e (2) estratégias de enfrentamento da resistência medicamentosa. 

Os resultados foram sintetizados e discutidos de forma comparativa, buscando-se identificar  convergências, divergências e lacunas do conhecimento. 

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES 

A análise integrativa dos 25 artigos selecionados revelou que os principais desafios no  tratamento da tuberculose envolvem a baixa adesão terapêutica, a resistência medicamentosa  e as limitações estruturais dos sistemas de saúde, sobretudo em países de média e baixa renda.  Esses fatores comprometem o controle da doença e a eficácia dos programas de tratamento.  Segundo Brasil (2024), a adesão é um dos pilares fundamentais para o sucesso terapêutico,  sendo indispensável a supervisão direta do tratamento e o apoio multiprofissional. 

Em relação à adesão terapêutica, as evidências apontam que o abandono do tratamento  está fortemente associado às condições socioeconômicas, ao desconhecimento sobre a doença  e aos efeitos adversos dos medicamentos (SOEIRO; CALDAS & FERREIRA, 2022). Em  muitos contextos, o estigma social e a falta de suporte familiar agravam o problema, levando  o paciente a interromper o uso dos fármacos antes do término do regime prescrito  (FERREIRA et al., 2021). Nesse sentido, estratégias que combinam educação em saúde,  acompanhamento farmacêutico contínuo e intervenções psicossociais têm se mostrado  eficazes para melhorar a continuidade do tratamento (PRADIPTA et al., 2020). 

A implementação de tecnologias digitais, como aplicativos de monitoramento e  mensagens automatizadas, também tem sido descrita como um avanço promissor na  promoção da adesão. Estudo conduzido por LIU et al. (2023) demonstrou que o uso de  ferramentas digitais para monitorar a tomada de medicamentos aumentou significativamente a  taxa de conclusão terapêutica em pacientes com tuberculose em tratamento ambulatorial. Esse  tipo de inovação é particularmente útil em regiões onde há déficit de profissionais e  dificuldade de acesso às unidades básicas de saúde. 

Outro ponto importante identificado foi o papel do farmacêutico clínico na condução  do tratamento. Foz (2025) destaca que o profissional de farmácia atua não apenas na  dispensação de medicamentos, mas também na orientação quanto ao uso correto, na  identificação de reações adversas e no fortalecimento do vínculo com o paciente. Essa atuação  reduz erros de administração e favorece a adesão, sendo essencial para garantir o uso racional  dos fármacos. 

No que diz respeito à resistência medicamentosa, os estudos analisados evidenciam  um cenário de crescente preocupação global. A resistência às drogas antituberculose,  principalmente à rifampicina e à isoniazida, tem sido impulsionada pelo uso inadequado dos medicamentos, prescrição incorreta e descontinuidade terapêutica (HU et al., 2025). Essa  realidade é agravada pela circulação de fármacos falsificados e de baixa qualidade,  principalmente em países com fiscalização sanitária insuficiente (ABAS et al., 2024). Tais  produtos, quando administrados, comprometem o tratamento e favorecem a seleção de cepas  resistentes. 

Os avanços farmacológicos mais recentes incluem a incorporação de medicamentos  como bedaquilina e delamanida nos protocolos de tratamento da tuberculose multirresistente.  Conforme relatado pelo Ministério da Saúde, a bedaquilina foi oficialmente incorporada ao  Sistema Único de Saúde (SUS) após avaliação da CONITEC, reduzindo em até 70% o tempo  de tratamento em casos resistentes. Da mesma forma, o uso da delamanida demonstrou  potencial terapêutico significativo, contribuindo para melhores taxas de cura (BRASIL,  2020b). 

Estudos internacionais corroboram esses achados. Conradie et al. (2022), em ensaio  clínico publicado no New England Journal of Medicine, evidenciaram que regimes contendo  bedaquilina e linezolida aumentaram substancialmente as taxas de sucesso terapêutico em  pacientes com tuberculose resistente, com menor incidência de efeitos adversos graves. No  entanto, a resistência emergente a novos medicamentos, como relatado por Khosravi et al.  (2024), reforça a necessidade de monitoramento constante e uso racional dessas terapias. 

A qualidade dos medicamentos permanece como fator crítico para o controle da  doença. Segundo relatório da Vargas (2024), a distribuição de fármacos de qualidade  duvidosa representa um risco negligenciado para o controle global da tuberculose,  especialmente em regiões de vulnerabilidade social. A atuação do farmacêutico e da  vigilância sanitária é, portanto, indispensável para assegurar a procedência e a integridade dos  medicamentos disponibilizados ao paciente. 

Além dos aspectos clínicos e farmacológicos, as políticas públicas de enfrentamento  da tuberculose ainda enfrentam desafios relacionados à falta de integração entre os níveis de  atenção à saúde e à fragmentação das ações de vigilância epidemiológica. Estudos de Meira  (2025) & Mahmoud e Tan (2023) ressaltam que o êxito das estratégias globais de eliminação  da tuberculose depende da implementação coordenada de políticas que priorizem a atenção  primária, o diagnóstico precoce e o acompanhamento contínuo do paciente. 

De modo geral, os resultados desta revisão indicam que o sucesso terapêutico na  tuberculose depende de uma abordagem multifatorial e integrada, que envolva desde a  capacitação das equipes de saúde até o uso racional de medicamentos e o fortalecimento das  políticas públicas. Embora o desenvolvimento de novos fármacos represente um avanço considerável, o comprometimento dos pacientes e o acompanhamento farmacêutico constante  continuam sendo determinantes para o controle efetivo da doença e a contenção da resistência  medicamentosa. 

Figura 1: Fluxograma de Prisma – Processo de seleção dos artigos utilizados.

Fonte: CORRÊA, E. C. G. & FERNANDES, I. M., 2025.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O tratamento da tuberculose ainda enfrenta inúmeros desafios, principalmente  relacionados à adesão terapêutica e ao surgimento da resistência medicamentosa. Fatores  como condições socioeconômicas precárias, falta de informação e efeitos adversos dos  medicamentos continuam sendo os principais motivos para o abandono do tratamento,  comprometendo os resultados terapêuticos e a eficácia das políticas públicas de controle da  doença. 

O papel do farmacêutico destaca-se como essencial nesse contexto, pois sua atuação  na orientação, dispensação e acompanhamento do uso correto dos fármacos contribui  diretamente para o aumento da adesão e para o uso racional das terapias. A incorporação de  novos medicamentos, como a bedaquilina e a delamanida, representa um avanço significativo  no manejo da tuberculose resistente, reduzindo o tempo de tratamento e melhorando as taxas  de cura. 

Conclui-se que o enfrentamento eficaz da tuberculose requer uma abordagem  integrada, que combine inovação farmacológica, políticas públicas eficientes e educação em  saúde. A conscientização do paciente e o fortalecimento da atenção farmacêutica são  fundamentais para garantir o controle da doença e minimizar o avanço da resistência  bacteriana. 

REFERÊNCIAS 

ABAS, S. A. et al. Enhancing tuberculosis treatment adherence and motivation through  gamified real-time mobile app utilization: a single-arm intervention study. BMC Public  Health, 2024. Disponível em:  https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12889-023-17561-z?utm Acesso em:  01 out. 2025 

APPIAH, Maxwell Afranie; ARTHUR, Joshua Appiah; GBORGBLORVOR, Delphine. et al.  Barriers to tuberculosis treatment adherence in high-burden tuberculosis settings in Ashanti  region, Ghana: a qualitative study from patient’s perspective. BMC Public Health 23, 1317  (2023). Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12889-023-16259-6 Acesso em: 28 set. 2025. 

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BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Manual de Recomendações para o Controle da  Tuberculose no Brasil — 2.ª edição. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 (edição nacional;  versão disponível atualizada no portal). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_recomendacoes_controle_tuberculos e_brasil_2_ed.pdf. Acesso em: 18 set. 2025. 

CONRADIE, Francesca; BAGDASARYAN, Tatevik R.; BORISOV, Sergey, et  al. Bedaquiline–Pretomanid–Linezolid regimens for drug-resistant tuberculosis. New  England Journal of Medicine, v. 387, n. 9, p. 810–823, 2022. DOI: 10.1056/NEJMoa2119430. Disponível (texto completo no  PMC): https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9490302/. Acesso em: 22 set. 2025. 

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1Elayne Cristina Gomes da Silva Corrêa Discente do Curso Superior de Farmacia do Instituto Cosmopolita  Campus Belém – Pará e-mail: elayne.correa@gmail.com
2Isaila Maria Fernandes Discente do Curso Superior de Farmacia do Instituto Cosmopolita Campus Belém – Pará e-mail: isailamariafernandes222@gmail.com
3Nivea Maria Pereira Pinho Discente do Curso Superior de Farmacia do Instituto Cosmopolita Campus Belém – Pará e-mail: niveamariapereirapinhomaria@gmail.com
4Frederico Augusto Rocha Neves Docente do Curso Superior de Farmácia do Instituto Cosmopolita Campus Belém – Pará. Mestre em Biomedicina (UFPA). e-mail: freddanlu@gmail.com