NURSING PERFORMANCE IN THE HUMANIZATION OF PALLIATIVE CARE: STRATEGIES AND CHALLENGES
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511212341
José Carlos Henrique de Oliveira Bezerra¹; Ana Carla Silva Saraiva²; Fabricia do Nascimento Silveira³; Iasmim Sá de Santana⁴; Jhuan Carlos Batista da Silva⁵; Maria Aline da Silva Santos⁶; Matheus Henrique Borges Vital⁷; Nina Maria Benjamim Sousa⁸; Sandro dos Santos Oliveira Júnior⁹; Thalita Kalinny Lourenço Gonçalves Lôbo¹⁰.
RESUMO:
Os cuidados paliativos visam oferecer qualidade de vida a pacientes com doenças ameaçadoras da vida, abrangendo dimensões física, psicoespiritual, social e familiar. Esta revisão integrativa analisou a atuação da enfermagem na humanização dos cuidados paliativos, considerando estratégias, competências e desafios profissionais. A busca bibliográfica resultou na inclusão de sete estudos publicados entre 2020 e 2025, abrangendo abordagens qualitativas e quantitativas. Os resultados evidenciam que o cuidado humanizado envolve manejo da dor, promoção do conforto físico e ambiental, comunicação transparente, vínculo interpessoal e atenção às necessidades familiares. Em contextos pediátricos, práticas lúdicas e transpessoais, como o brincar, reforçam a humanização, alinhadas à Teoria de Jean Watson. Contudo, lacunas de conhecimento, falta de capacitação e dificuldade de gestão emocional diante da morte impactam a qualidade do cuidado. Estratégias de suporte institucional, educação continuada e adoção de teorias de enfermagem mostram-se essenciais para aprimorar a prática clínica. Conclui-se que enfermeiros capacitados e emocionalmente preparados contribuem significativamente para o bem-estar, promovendo dignidade e cuidado integral, embora desafios estruturais e metodológicos indiquem necessidade de pesquisas futuras em diferentes níveis de atenção à saúde e contextos de cuidado.
PALAVRAS CHAVES: Cuidados Paliativos; Assistência de Enfermagem; Humanização da Assistência.
ABSTRACT:
Palliative care aims to provide quality of life to patients with life-threatening illnesses, encompassing physical, psychosocial, spiritual, and family dimensions. This integrative review analyzed nursing performance in humanizing palliative care, considering strategies, competencies, and professional challenges. The bibliographic search included seven studies published between 2020 and 2025, covering qualitative and quantitative approaches. Results show that humanized care involves pain management, physical and environmental comfort, transparent communication, interpersonal bonds, and attention to family needs. In pediatric contexts, playful and transpersonal practices, such as therapeutic play, reinforce humanization, aligned with Jean Watson’s Theory of Human Caring. However, knowledge gaps, insufficient training, and difficulty managing emotions in the face of death impact care quality. Institutional support strategies, continuing education, and the application of nursing theories are essential to enhance clinical practice. It is concluded that skilled and emotionally prepared nurses significantly contribute to patient and family well-being, promoting dignity and comprehensive care, although structural and methodological challenges highlight the need for future research across different levels of healthcare and care settings.
KEYWORDS: Palliative Care; Nursing Care; Humanization of Care.
INTRODUÇÃO
Os cuidados paliativos configuram-se como uma abordagem essencial no campo da saúde, fundamentada no princípio da integralidade do cuidado e no respeito à dignidade humana. Seu objetivo é oferecer qualidade de vida a pacientes que enfrentam doenças ameaçadoras da vida e a seus familiares, com foco no alívio do sofrimento em suas múltiplas dimensões: física, psicológica, social e espiritual (Brasil, 2018). Diferentemente de uma assistência restrita ao fim da vida, os cuidados paliativos acompanham todo o processo de adoecimento, desde o diagnóstico, contribuindo para que esse percurso seja vivenciado de forma mais digna e humanizada (Silveira et al., 2025).
Nesse sentido, a Resolução nº 41/2018 do Ministério da Saúde institui as diretrizes da Política Nacional de Cuidados Paliativos, reconhecendo sua relevância dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). O documento estabelece que a oferta desses cuidados deve ocorrer de maneira precoce, articulada em todos os níveis da rede de atenção — atenção básica, domiciliar, ambulatorial, hospitalar e de urgência e emergência —, conduzida por equipes multiprofissionais e interdisciplinares, sempre fundamentada em práticas éticas e humanizadas. A normativa também reforça a importância da educação permanente dos profissionais de saúde, da ampliação do acesso a medicamentos essenciais para o controle de sintomas e da valorização das preferências e dos valores dos pacientes (Brasil, 2018). Dessa forma, os cuidados paliativos deixam de ser vistos como recursos exclusivos do final da vida e passam a integrar um modelo contínuo de assistência, centrado no acolhimento e no suporte integral (Monteiro, 2020).
Nesse contexto de cuidado integral, especialmente junto ao paciente em fase de finitude, a Enfermagem exerce um papel central e insubstituível. Pela natureza de sua assistência, o enfermeiro mantém contato direto e contínuo com pacientes e familiares, o que o coloca em posição privilegiada para promover o conforto — objetivo essencial e expressão máxima da humanização nos Cuidados Paliativos (Durante et al., 2025). Para alcançar esse propósito, sua atuação deve ser pautada em uma prática sistematizada que contemple o manejo adequado da dor e de outros sintomas, aspectos fundamentais para o alívio do sofrimento (Paiva et al., 2021). Em ambientes de alta complexidade, como as Unidades de Terapia Intensiva, essa responsabilidade torna-se ainda mais evidente, exigindo do enfermeiro a integração entre competência técnica e sensibilidade emocional, de modo a garantir uma assistência verdadeiramente humanizada e respeitosa à dignidade (Monteiro, 2020).
Assim, a discussão sobre Cuidados Paliativos ultrapassa a perspectiva biomédica centrada exclusivamente na cura, promovendo um modelo de atenção que reconhece a totalidade da experiência humana diante da doença. Nesse contexto, a Enfermagem assume papel de protagonismo na consolidação de práticas que aliam competência técnica a um cuidado que contempla as dimensões física, psicoespiritual, espiritual e ambiental (Durante et al., 2025). Essa integração entre assistência e suporte integral reafirma o valor da vida em sua plenitude, colocando o paciente no centro do cuidado de forma verdadeiramente humanizada (VegaAyasta et al., 2020).
OBJETIVO
Esta revisão integrativa tem como objetivo geral analisar a atuação da enfermagem na humanização dos cuidados paliativos, identificando estratégias, competências e desafios no exercício profissional.
Especificamente, busca-se: (1) identificar estratégias utilizadas para promover a humanização; (2) reconhecer os desafios enfrentados; e (3) avaliar o impacto dessa atuação na experiência de pacientes e familiares em contextos de terminalidade.
MÉTODO
Este estudo trata de uma revisão integrativa da literatura, realizada por meio de pesquisa bibliográfica direcionada à atuação da enfermagem na humanização dos cuidados paliativos, com ênfase nas estratégias, competências e desafios enfrentados pelos profissionais. O objetivo foi compreender de que forma a enfermagem contribui para a promoção da qualidade de vida e do cuidado integral ao paciente e à sua família.
A revisão seguiu etapas adaptadas do modelo proposto por Mendes, Silveira e Galvão (2008), que compreendem: a identificação do tema e a formulação da questão norteadora; a definição dos critérios de inclusão e exclusão; a busca e seleção dos estudos; a extração e análise dos dados; e, por fim, a interpretação e síntese dos resultados. A questão norteadora que orientou o estudo foi: “Quais são as estratégias, competências e desafios da enfermagem para promover a humanização nos cuidados paliativos?”
A busca bibliográfica foi realizada nas bases LILACS, IBECS e BDENF – Enfermagem, utilizando descritores baseados no DeCS: Cuidados Paliativos, Assistência de Enfermagem e Humanização da Assistência, combinados com o operador booleano AND. Os critérios de inclusão abrangeram artigos originais disponíveis na íntegra, publicados em português, inglês ou espanhol, entre 2020 e 2025, que abordassem a atuação da enfermagem em cuidados paliativos, com foco em estratégias, competências e desafios. Foram excluídos teses, dissertações, materiais não disponíveis na íntegra gratuitamente e artigos duplicados. Revisões integrativas também foram excluídas, por se tratarem da mesma natureza do presente estudo.
Para organizar e sistematizar os dados, foi utilizado um instrumento adaptado do modelo de Ursi (2005), permitindo a descrição detalhada das características de cada estudo, incluindo autores, objetivos, metodologia, resultados e seus resultados. Essa abordagem possibilitou uma análise clara e estruturada das informações, subsidiando a discussão sobre as estratégias utilizadas, as competências exigidas e os desafios enfrentados pelos profissionais na promoção de um cuidado humanizado.
RESULTADOS
A etapa de levantamento bibliográfico identificou 96 artigos sobre a atuação da enfermagem na humanização dos cuidados paliativos. Após a leitura inicial, 84 estudos estavam disponíveis em texto completo. Desses, 26 foram publicados dentro do recorte temporal definido. Em seguida, procedeu-se à leitura exploratória dos títulos e resumos, o que resultou na seleção de 11 artigos potencialmente relevantes. Por fim, a análise detalhada e a leitura integral dos textos permitiram a inclusão final de 7 estudos, publicados nos idiomas e bases de dados previamente definidos, que compuseram o corpus desta revisão integrativa, publicados nos idiomas e bases de dados previamente definidos, que constituíram o corpus desta revisão integrativa, apresentados de forma detalhada no Quadro 1.
Quadro 1 – Principais características dos estudos selecionados, incluindo título, autor e ano de publicação, delineamento metodológico e periódico.
| N | Título | Autor / Ano | Delineamento | Periódico |
| 1 | Perspectivas dos profissionais da saúde sobre o cuidado a pacientes em processo de finitude | Monteiro et al. (2020) | Descritivo e exploratório, de cunho qualitativo | Revista Psicologia: Ciência e Profissão. |
| 2 | Vivência de enfermeiros acerca dos cuidados paliativos. | Santos et al. (2020) | Descritivo e exploratório com abordagem qualitativa | Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental Online |
| 3 | Simpatia, conforto e espiritualidade nos cuidados paliativos oncológicos: contribuição para a humanização em saúde. | Vega-ayasta et al. (2020) | Qualitativa descritiva | Revista científica de la Asociación de Historia y Antropología de los Cuidados. |
| 4 | Aspectos históricos no manejo da dor em cuidados paliativos em uma unidade de referência oncológica. | Paiva et al. (2021) | Pesquisa qualitativa de caráter histórico-documental | Revista Brasileira de Enfermagem. |
| 5 | Assistência de enfermeiros a crianças em cuidados paliativos: estudo à luz da Teoria de Jean Watson | Dias et al. (2023) | Qualitativo | Escola Anna Nery Revista de Enfermagem (EAN). |
| 6 | Conhecimento dos profissionais de enfermagem sobre os cuidados paliativos | Nascimento et al. (2023) | Descritivo, transversal e quantitativo | Revista Enfermagem em Foco. |
| 7 | Conforto em cuidados paliativos e os fatores associados: contribuições para assistência de enfermagem | Durante et al. (2025) | Transversal e quantitativo | Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental |
Após a seleção criteriosa dos artigos que atenderam à questão norteadora do estudo, procedeu-se à organização das características analisadas em cada pesquisa, apresentadas de forma clara e sistematizada no Quadro 2.
Quadro 2 – Características dos estudos incluídos na revisão, considerando objetivos, resultados, estratégias ou intervenções identificadas e desfechos alcançados.
| N | Objetivo | Resultados | Estratégias ou Intervenções Identificadas | Desfechos |
| 1 | Compreender quais são as compreensões, adversidades e os sentimentos atribuídos pelos profissionais da saúde sobre o cuidado no processo de morte de pacientes. | Os resultados mostraram que o cuidado no processo de morte de pacientes gera sentimentos como frustração, impotência, tristeza e compaixão. É comum, nesse sentido, a utilização de estratégias defensivas – como racionalização e distanciamento – por parte dos médicos responsáveis. Além disso, percebeu-se que o tempo de tratamento permite cuidados diferenciados e maior humanização no processo. | 1. Autocuidado Emocional (Estratégia Implícita): A estratégia para manter a humanização é o manejo e suporte emocional ao profissional. É necessário que o enfermeiro lide com os sentimentos de frustração, impotência e tristeza, buscando suporte profissional para evitar o distanciamento afetivo e a racionalização, que são mecanismos de defesa que comprometem o cuidado humanizado. | Concluiu-se ser necessário levar em consideração as dificuldades individuais e coletivas, os sentimentos, as situações pessoais e interpessoais, bem como a satisfação/insatisfação dos profissionais. |
| 2 | Analisar a percepção de enfermeiros acerca da sua vivência em cuidados paliativos. | Os enfermeiros destacaram que os cuidados paliativos não devem contemplar apenas os pacientes, mas a família, revelando sentimentos e medidas importantes como afeto, carinho, conforto e manejo da dor. | 1. Cuidado Centrado na Relação: Estabelecimento de um vínculo de confiança sólido e duradouro com o paciente e a família. 2. Comunicação Transparente: Utilização de uma comunicação clara e aberta na relação interpessoal para solidificar a assistência humanizada. 3. Cuidado Ampliado à Família: Extensão do cuidado e do suporte à família como unidade, desde o diagnóstico até a fase de luto. | Há um processo de efetivação acerca dos princípios que permeiam esse tipo de cuidado e cabe salientar que é um serviço novo que está em processo de formação e capacitação contínuo, o que tem contribuído para os resultados. |
| 3 | Descreva a bondade, medidas de conforto e apoio prestado assistência espiritual aos pacientes com câncer em estado terminal, como percebido pelos enfermeiros e cuidadores familiares em um hospital em Chiclayo, Peru. | A) A simpatia das Medidas de enfermeiro-paciente, B) de conforto para satisfazer as necessidades básicas, C) apoio espiritual para o alívio do sofrimento. | A) Manifestação de Afeto e Acolhimento: Demonstração do ato de cuidar com “simpatia, amor e carinho” para gerar confiança no paciente. B) Gestão do Conforto Integral: Foco no conforto para otimizar a qualidade de vida. C) Suporte Espiritual: Integração da dimensão espiritual no plano de cuidados, reconhecendo-a como componente fundamental para o paciente em finitude. | A humanização no atendimento a pacientes com câncer inicia-se com gestos de bondade, respeito e toque terapêutico. Envolve medidas de conforto para aliviar a dor, atender às necessidades básicas e integrar a família no cuidado. O apoio espiritual, expresso na promoção da esperança, fé e respeito às crenças, também é essencial. Essa experiência desperta maior sensibilidade e compaixão nos profissionais de saúde. |
| 4 | Descrever as ações implementadas para o manejo da dor na assistência em cuidados paliativos oncológicos e analisar a contribuição do Hospital do Câncer IV, enquanto unidade de referência no Instituto Nacional de Câncer. | Profissionais contribuíram com ações para o manejo da dor em cuidados paliativos oncológicos: nas discussões e redação final de portarias, como relatores em eventos nacionais e internacionais, na elaboração de condutas de humanização e sistematização da assistência na abordagem da dor. | 1. Manejo Sistematizado da Dor: Adoção de condutas de humanização que incluem a sistematização da assistência para o controle eficaz da dor, que é a base para a promoção de conforto e qualidade de vida nos Cuidados Paliativos. | Essas ações favoreceram a assistência em cuidados paliativos oncológicos nos vários níveis de atenção de saúde aos pacientes e familiares, com maior reconhecimento técnico e científico para todos. |
| 5 | Compreender a assistência de enfermeiros a crianças com câncer em cuidados paliativos à luz da Teoria de Jean Watson | Os depoimentos dos enfermeiros trouxeram reflexões contundentes acerca dos conhecimentos no campo da enfermagem oncológica, com ênfase na assistência a crianças em cuidados paliativos, uma vez que as estratégias implementadas neste cenário são coerentes com a Teoria de Jean Watson, pautada nos elementos contidos no Processo Clinical Caritas. | Implementação de práticas dialógicas, transpessoais e, fundamentalmente, lúdicas (uso do brincar). O uso do brinquedo é uma estratégia central para diminuir a dor e o isolamento, promovendo o conforto e o estabelecimento de vínculo com a criança e a família. | A atuação dos enfermeiros a partir de uma assistência humanizada, com o escopo na promoção de conforto e alívio da dor e nas práticas dialógicas, lúdicas e transpessoais, é imprescindível neste processo de doença. Deste modo, as estratégias identificadas poderão contribuir para a prática clínica de enfermeiros ao cuidar de crianças com câncer em cuidados paliativos, fundamentada na Teoria de Jean Watson. |
| 6 | Avaliar o conhecimento dos profissionais de enfermagem inseridos em enfermarias de clínica sobre cuidados paliativos (CP). | O nível de conhecimento sobre cuidados paliativos entre os profissionais de enfermagem foi considerado parcialmente satisfatório. A maioria relatou ter pouco conhecimento (78,6%). Não houve diferença estatisticamente significativa entre classes profissionais, formação, tempo de formação, tempo de serviço ou capacitação prévia. Contudo, observou-se diferença significativa entre os que avaliaram seu conhecimento como suficiente e os que nunca haviam ouvido falar sobre o tema (p = 0,031). | 1. Qualificação Profissional (Estratégia Implícita): A humanização requer conhecimento e capacitação adequada dos enfermeiros. A estratégia implícita para humanizar o cuidado é o investimento em educação contínua para suprir o nível de conhecimento considerado parcialmente satisfatório sobre CP, garantindo um preparo técnicocientífico e comunicacional correto. | Conclui-se que é premente estudos envolvendo essa temática, considerando o número crescente de pacientes que necessitam desta abordagem. |
| 7 | Investigar o conforto de pacientes em cuidados paliativos por meio do Questionário de Conforto Geral (QCG) e sua associação com as variáveis sociodemográficas e clinicas. | A pontuação de conforto geral apresentou uma média de 125,58, com variabilidade significativa. Observou-se que o domínio físico apresentou a menor média e os domínios ambiental e psicoespiritual registraram as maiores medias. Houve correlação significativa nas seguintes variáveis funcionalidade, lesão por pressão e dispositivos invasivos. | 1. Promoção de Conforto Físico e Ambiental: Intervenções para aliviar o sofrimento, aliadas à otimização de fatores ambientais (como iluminação natural, cores e redução de ruídos), que impactam diretamente a sensação de bem-estar e conforto do paciente. 2. Abordagem Multidimensional do Conforto: Visão ampliada do conforto nas esferas física, psicoespiritual, social e ambiental. | O conforto de pacientes oncológicos em cuidados paliativos é um fenômeno multidimensional, influenciado por fatores físicos, psicoespirituais, socioculturais e ambientais. O uso de instrumentos específicos, como o QCG permite identificar as dimensões mais afetadas e nortear os enfermeiros na sistematização do cuidado. |
DISCUSSÃO
A presente revisão integrativa possibilitou analisar a atuação da enfermagem na humanização dos cuidados paliativos, evidenciando as estratégias e os desafios inerentes à assistência. Os achados dos estudos incluídos consolidam a Enfermagem como o cerne da humanização no processo de finitude, visto que sua atuação é singularmente focada no conforto e no alívio do sofrimento dos pacientes com doenças que ameaçam a continuidade da vida (Durante et al., 2025). Historicamente, o manejo eficaz da dor é um pilar dos Cuidados Paliativos, exigindo uma sistematização da assistência que a Enfermagem deve coordenar (Paiva et al., 2021). Contudo, a humanização transcende o técnico, manifestando-se pela demonstração de “simpatia, amor e carinho”, atitudes que transformam o ambiente de cuidado em um espaço de acolhimento e confiança para o paciente e sua família (Santos et al., 2020; Ayasta et al., 2020).
A integralidade do cuidado humano, um dos pilares da humanização, exige que a atuação do enfermeiro se estenda para além do paciente, alcançando a família, que deve ser reconhecida como a unidade fundamental de cuidado e receber suporte contínuo, inclusive no período do luto (Santos et al., 2020). Além disso, a Enfermagem deve estar apta a integrar a dimensão espiritual na assistência, visto que a busca por refúgio em uma crença ou entidade superior é comum em pacientes em fase terminal, tornando o apoio espiritual essencial para o conforto (Ayasta et al., 2020). A relação interpessoal e a comunicação transparente são cruciais para a solidificação desse cuidado humanizado, sendo potencializadas pelo tempo de convívio e o acompanhamento contínuo (Santos et al., 2020). Em contextos especializados, como na pediatria oncológica, a humanização é alcançada por meio de práticas dialógicas e lúdicas, como a utilização do brincar, que se alinham com a Teoria do Cuidado Humano de Jean Watson para atenuar a dor e o isolamento infantil (Dias et al., 2023). Intervenções simples no ambiente físico, como a adequação de iluminação e cores, também se mostram estratégias eficazes para aumentar o conforto do paciente (Durante et al., 2025).
Apesar da reconhecida importância dessas estratégias, a prática da Enfermagem na humanização dos Cuidados Paliativos é confrontada por desafios estruturais e emocionais. Um dos principais problemas identificados é a lacuna de conhecimento e capacitação profissional. Estudos indicam que o nível de conhecimento dos enfermeiros sobre Cuidados Paliativos é considerado apenas parcialmente satisfatório (Nascimento et al., 2023). Essa deficiência decorre, em parte, de currículos acadêmicos que historicamente negligenciam o tema da morte e do morrer, resultando em um despreparo técnico e em dificuldades de comunicação que impactam diretamente a capacidade de prover uma assistência humanizada e correta no cenário da terminalidade (Nascimento et al., 2023).
Outro desafio de grande impacto é a gestão das emoções frente à finitude. O envolvimento constante com pacientes em processo de morte e morrer gera sentimentos intensos nos profissionais de Enfermagem, incluindo frustração, impotência, tristeza e compaixão (Monteiro et al., 2020; Santos et al., 2020). A dificuldade em lidar com o sofrimento alheio, somada às pressões do cotidiano, pode levar a equipe a adotar estratégias defensivas, como o distanciamento afetivo e a racionalização do cuidado, especialmente entre médicos e enfermeiros, como forma de autoproteção (Monteiro et al., 2020). Tais mecanismos, se não forem devidamente reconhecidos e gerenciados, comprometem a qualidade e a humanização da assistência, reforçando a necessidade de suporte emocional e institucional para garantir a saúde mental e a satisfação profissional da equipe (Monteiro et al., 2020). A superação desses obstáculos, portanto, passa necessariamente pela qualificação técnica aliada à gestão das emoções frente ao processo da morte.
CONCLUSÃO
A atuação da enfermagem nos cuidados paliativos é essencial para garantir uma assistência humanizada, integrando competência técnica e sensibilidade ética. Esta revisão evidenciou que profissionais capacitados e emocionalmente preparados contribuem significativamente para o bem-estar de pacientes e familiares, promovendo dignidade e qualidade de vida em momentos de vulnerabilidade.
Embora existam desafios relacionados à formação acadêmica e à estrutura dos serviços de saúde, a adoção de estratégias de humanização e o uso de teorias de enfermagem oferecem caminhos para aprimorar a prática clínica e fortalecer o cuidado centrado no paciente e em seus familiares.
Reconhece-se, entretanto, que esta pesquisa apresenta limitações, sobretudo pela predominância de estudos qualitativos e realizados em contextos hospitalares, o que reduz a representatividade de cenários domiciliares e da atenção primária à saúde. Soma-se a isso a heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos, que restringe a generalização dos resultados.
Recomenda-se que futuras investigações abordem o preparo emocional do enfermeiro diante da finitude, explorem estratégias inovadoras de comunicação com pacientes e familiares e avaliem o impacto de programas de capacitação continuada na qualidade da assistência.
Também se sugere o desenvolvimento de pesquisas multicêntricas e longitudinais que contemplem diferentes níveis de atenção à saúde, além de estudos voltados à inserção dos cuidados paliativos na formação acadêmica e nas políticas públicas, a fim de consolidar práticas cada vez mais efetivas e humanizadas.
REFERÊNCIAS:
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¹Graduando em Enfermagem – UNIFAP/CE. E-mail:j.carloshenrique03@hotmail.com;
²Graduanda em Enfermagem – UNIFAP/CE. E-mail:ana.saraiva09@gmail.com;
³Graduanda em Enfermagem – UNIFAP/CE. E-mail:fabricianscmnt890@gmail.com;
⁴Graduanda em Enfermagem – UNIFAP/CE. E-mail:iasmimsaj31@gmail.com;
⁵Graduando em Nutrição – UNIFAP/CE. E-mail:jhuancarlos449@gmail.com;
⁶Graduanda em Enfermagem – UNIFAP/CE. E-mail:maria-linedss@gmail.com;
⁷Graduando em Enfermagem – UNIFAP/CE. E-mail:mh2190086@gmail.com;
⁸Graduanda em Enfermagem – UNIFAP/CE. E-mail:ninamariab10@gmail.com;
⁹Graduando em Enfermagem – UNIFAP/CE. E-mail:soliveeirajunior@gmail.com;
¹⁰Graduanda em Enfermagem – UNIFAP/CE. E-mail:thalitalobo123@gmail.com.
