EFICÁCIA DO TREINAMENTO DOS MÚSCULOS DO ASSOALHO PÉLVICO NO TRATAMENTO DA INCONTINÊNCIA URINÁRIA EM PACIENTES SUBMETIDOS À PROSTATECTOMIA: REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510152008


Sarah Castro e Coelho
Marciene de Sousa Cavalcante Costa


RESUMO

Introdução: A incontinência urinária (IU) é uma das complicações mais prevalentes após a prostatectomia radical, comprometendo a qualidade de vida dos pacientes. Nesse contexto, o treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP) tem sido amplamente investigado como estratégia terapêutica não invasiva para acelerar a recuperação da continência. Tem-se como objetivo verificar a eficácia do treinamento dos músculos do assoalho pélvico no tratamento da incontinência urinária após prostatectomia. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada nas bases PubMed, PEDro e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), contemplando estudos publicados entre 2019 e 2025. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados que abordaram a eficácia do TMAP isolado ou associado a recursos adjuvantes, como biofeedback, eletroestimulação, Pilates e intervenções complementares, no tratamento da IU pós-prostatectomia. Resultados: Os resultados evidenciaram que o TMAP isolado promove melhora significativa da continência e da qualidade de vida. Protocolos que associaram o TMAP a biofeedback e Pilates potencializaram os efeitos, acelerando a recuperação funcional. A eletroestimulação mostrou resultados positivos em alguns estudos, embora ainda haja heterogeneidade metodológica. Além disso, intervenções precoces e multimodais foram mais eficazes, especialmente quando aplicadas nos primeiros meses após a cirurgia. Conclusão: Conclui-se que o TMAP deve ser recomendado como intervenção de primeira linha para a reabilitação da IU pós-prostatectomia. A combinação com recursos adjuvantes pode otimizar os resultados, reforçando a necessidade de protocolos padronizados e personalizados para garantir maior efetividade clínica.

Palavras-chave: incontinência urinária; prostatectomia; treinamento dos músculos do assoalho pélvico; fisioterapia; reabilitação.

ABSTRACT

Introduction: Urinary incontinence (UI) is one of the most prevalent complications after radical prostatectomy, compromising patients’ quality of life. In this context, pelvic floor muscle training (PFMT) has been widely investigated as a non-invasive therapeutic strategy to accelerate continence recovery. Methodology: This is an integrative literature review conducted in PubMed, PEDro, and the Virtual Health Library (VHL), including studies published between 2019 and 2025. Randomized clinical trials and systematic reviews that addressed the efficacy of PFMT alone or in combination with adjuvant resources, such as biofeedback, electrical stimulation, Pilates, and complementary interventions, in the treatment of post-prostatectomy UI were included. Results: The results showed that PFMT alone significantly improves continence and quality of life. Protocols that combined PFMT with biofeedback and Pilates potentiated the effects, accelerating functional recovery. Electrical stimulation has shown positive results in some studies, although methodological heterogeneity remains. Furthermore, early and multimodal interventions were more effective, especially when applied in the first months after surgery. Conclusion: We conclude that PFMT should be recommended as a first-line intervention for the rehabilitation of post-prostatectomy UI. Combining it with adjuvant therapies can optimize results, reinforcing the need for standardized and personalized protocols to ensure greater clinical effectiveness.

Keywords: urinary incontinence; prostatectomy; pelvic floor muscle training; physical therapy; rehabilitation.

1 INTRODUÇÃO

O câncer de próstata é a segunda neoplasia maligna mais prevalente entre homens em todo o mundo e, frequentemente, o tratamento indicado é a prostatectomia radical. Apesar de sua eficácia oncológica, esse procedimento pode trazer complicações funcionais significativas, sendo a incontinência urinária (IU) uma das mais impactantes, pois compromete diretamente a qualidade de vida, a saúde mental e o bem-estar social dos pacientes. Estudos indicam que uma parcela expressiva dos homens submetidos à prostatectomia apresenta algum grau de IU no período pós-operatório, especialmente nos primeiros meses após a cirurgia (Milios et al., 2020; Gandaglia et al., 2021).

Nesse cenário, o treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP) tem se destacado como uma intervenção não invasiva, de baixo custo e amplamente acessível, voltada à reabilitação da continência urinária. O fortalecimento da musculatura perineal contribui para o aumento do suporte pélvico, para a melhora do controle esfincteriano e para a redução da perda urinária, configurando-se como uma estratégia fisioterapêutica eficaz. Além disso, o TMAP pode ser aplicado isoladamente ou em associação a recursos complementares, como biofeedback e eletroestimulação, com o intuito de potencializar os resultados clínicos (Filocamo et al., 2005; Oliveira Xavier et al., 2022).

Ensaios clínicos randomizados têm demonstrado que a implementação precoce do TMAP após a prostatectomia favorece a recuperação da continência urinária. Geraerts et al. (2013), por exemplo, observaram redução significativa no tempo de recuperação da continência em pacientes submetidos ao programa de exercícios perineais supervisionados. De forma semelhante, Milios et al. (2020) relataram que a introdução antecipada do TMAP esteve associada à melhora nos índices de continência e à diminuição dos episódios de perda urinária nos primeiros meses de pós-operatório.

Por outro lado, revisões sistemáticas evidenciam que ainda existem controvérsias acerca da magnitude dos benefícios do TMAP, devido à heterogeneidade metodológica dos estudos, à variação nos protocolos aplicados e às amostras reduzidas, o que limita a força das conclusões (Anderson et al., 2015; Oliveira Xavier et al., 2022). Apesar disso, há consenso de que o início precoce e a adesão adequada ao treinamento são fatores determinantes para melhores desfechos clínicos.

Diante da relevância clínica e social da temática, torna-se fundamental reunir e analisar criticamente as evidências atuais sobre a eficácia do treinamento dos músculos do assoalho pélvico na recuperação da continência urinária em homens submetidos à prostatectomia. Assim, o presente estudo teve como objetivo verificar as evidências científicas atuais sobre a eficácia do treinamento dos músculos do assoalho pélvico no tratamento da incontinência urinária em pacientes submetidos à prostatectomia.

2 METODOLOGIA

O presente estudo trata-se de uma revisão de literatura integrativa, método que possibilita a síntese crítica do conhecimento produzido sobre determinada temática, permitindo identificar lacunas, apontar avanços e fornecer subsídios para a prática clínica baseada em evidências (WHITTEMORE; KNAFL, 2005; BENEFIELD, 2003).

A questão de pesquisa foi estruturada de acordo com a estratégia PICO, conforme apresentado no Quadro 1. Assim, formulou-se a seguinte pergunta: Quais são as evidências atuais sobre a eficácia do treinamento dos músculos do assoalho pélvico no tratamento da incontinência urinária em homens após prostatectomia?

Quadro 1 – Descrição da estratégia PICO para elaboração da pergunta norteadora

AcrônimoDefiniçãoDescrição
PPopulaçãoHomens pós-prostatectomia
IIntervençãoTreinamento dos músculos do assoalho pélvico
CComparaçãoAusência de intervenção, cuidados usuais ou outras técnicas fisioterapêuticas
ODesfechoRedução da incontinência urinária (tempo de recuperação, frequência dos episódios, qualidade de vida).

Fonte: Autoria própria, 2025.

Foram incluídos artigos originais, preferencialmente ensaios clínicos randomizados, estudos quase-experimentais e observacionais, publicados em português e inglês, disponíveis na íntegra, no período de 2020 a setembro de 2025, que abordassem os efeitos do treinamento dos músculos do assoalho pélvico no tratamento da incontinência urinária em homens submetidos à prostatectomia.

Foram excluídos estudos de revisão, relatos de caso, dissertações, teses e publicações em anais de congresso, bem como aqueles que não apresentaram resultados relacionados ao desfecho investigado, ou que abordassem outras populações (mulheres, idosos sem histórico de prostatectomia, pacientes com câncer sem prostatectomia).

A estratégia de busca foi realizada nas bases de dados eletrônicas PubMed, Physiotherapy Evidence Database (PEDro) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizados  descritores controlados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), combinados com operadores booleanos AND. Entre os principais termos utilizados, destacam-se: “Incontinência Urinária ”, “Assoalho Pélvico”, “Exercício para o Assoalho Pélvico”, “Terapia por Exercício”, “Qualidade de Vida”, bem como suas correspondentes em inglês (“Urinary Incontinence”, “Pelvic Floor”, “Pelvic Floor Muscle Training”, “Exercise Therapy”, “Quality of Life”).

O processo de seleção dos artigos ocorreu em duas etapas: inicialmente, leitura dos títulos e resumos para triagem; em seguida, leitura na íntegra dos textos pré-selecionados, aplicando-se os critérios de inclusão e exclusão. A triagem foi realizada com apoio da plataforma Rayyan (OUSSEDIK et al., 2016), que auxiliou na organização das referências e na aplicação dos filtros de elegibilidade.

Após a análise dos registros recuperados, apenas os estudos que atenderem aos critérios de elegibilidade foram incluídos na amostra final desta revisão. Os resultados do processo de busca e seleção dos artigos foram apresentados por meio de um fluxograma, conforme as recomendações do modelo PRISMA 2020, contemplando as fases de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão.

Os dados extraídos dos artigos selecionados foram organizados em tabelas descritivas, contendo informações como Autor (ano), Tipo de estudo, População, idade, Protocolo de Intervenções, Resultados e conclusão.

A análise dos estudos foi realizada de forma descritiva e comparativa, com o intuito de identificar convergências e divergências entre os achados apresentados. Os resultados foram norteados da literatura científica atual, destacando o nível de evidência disponível e apontando as lacunas que ainda persistem, a fim de subsidiar futuras investigações sobre a temática.

3 RESULTADOS

Dessa forma, foram inicialmente identificados 163 artigos nas bases de dados PubMed, PEDro e BVS. Após a remoção dos duplicados, restaram 125 registros, que foram submetidos à leitura de títulos e resumos, resultando na exclusão de 108 estudos. Assim, 17 artigos foram selecionados para leitura na íntegra, dos quais 6 foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. A amostra final desta revisão foi composta por 11 artigos. O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos está representado no fluxograma PRISMA (Figura 1), elaborado conforme as recomendações do grupo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), que dispõe de um checklist para a coleta de dados e um diagrama de fluxo dividido em quatro fases.

Figura 1 – fluxograma dos resultados da pesquisa.

Fonte: Autoria própria, 2025.

Os 11 artigos selecionados que atenderam aos critérios de elegibilidade previamente definidos, sendo a maioria publicada em inglês, enquanto os demais estavam em português. A população dos estudos foram homens submetidos à prostatectomia, todos diagnosticados com incontinência urinária pós-cirúrgica, com faixa etária predominante entre 50 a 75 anos. A avaliação clínica mais utilizada foi por meio de questionários validados de qualidade de vida e de diários miccionais, além de testes específicos de função dos músculos do assoalho pélvico.

As intervenções fisioterapêuticas descritas abrangeram diferentes abordagens de treinamento dos músculos do assoalho pélvico, tais como exercícios domiciliares supervisionados, uso de biofeedback, eletroestimulação e programas estruturados de cinesioterapia. O tempo de intervenção variou de 4 semanas a 6 meses, sendo mais frequente o acompanhamento entre 8 a 12 semanas.

Os principais desfechos avaliados foram a redução da perda urinária (quantificada pelo pad test de 1h e 24h), a melhora da qualidade de vida (avaliada por instrumentos como ICIQ-SF e KHQ) e a recuperação da continência urinária no pós-operatório. De forma geral, os estudos apontaram melhora significativa na força e no controle dos músculos do assoalho pélvico, redução expressiva dos episódios de incontinência e consequente impacto positivo na autonomia funcional, bem-estar psicológico e reintegração social dos participantes. Esses resultados estão organizados no Quadro 1.

Quadro 1 – Caracterização dos estudos incluídos na revisão

Autor (ano)Tipo de estudoPopulação, idadeProtocolo de Intervenções Resultadosconclusão
Filippo et al/ 2025Ensaio clínico randomizado (ECR)Homens após prostatectomia (n=92; 40–80 anos)Treinamento domiciliar dos músculos do assoalho pélvico por 8 semanas; grupo experimental com observação de ação e indicação em vídeo; grupo controle com vídeos neutros; avaliação cega.Melhora da incontinência  (teste do absorvente 24h), gravidade dos sintomas, QV e função erétil em ambos os grupos; efeito adicional significativo no grupo com observação/indicação (Δ média 106,1 g; IC95% 13,4–199,1; p=0,037).TMAP domiciliar com observação de ação e indicação promove maior recuperação da continência que  sem TMAP observação/indicação após prostatectomia.
Xiaoming; et al2022Ensaio clínico randomizado (ECR)Homens após prostatectomia (PRPUI), n=96Grupo EPNS (n=64) vs. PFMT assistido por biofeedback + estimulação elétrica transcutãnea anal (TES) (n=32); 3x/semana por 8 semanas.Após 24 sessões, eficácia 68,7% (EPNS) vs 34,4% (PFMT+TES), p=0,005; melhores escores ICIQ-UI SF, incontinência , uso de fraldas e QV no EPNS; EMG com maior amplitude durante EPNS.EPNS superior a PFMT+TES no curto prazo; mecanismo sugere excitação do nervo pudendo simulando PFMT.
An, et al 2021Ensaio clínicoHomens após prostatectomia, n=42Três grupos: (A) Pilates+biofeedback; (B) Kegel+biofeedback; (C) Kegel isolado; treino diário por 8 semanas.Melhora nos três grupos em teste do absorvente 1h (34,3%, 61,9%, 67%), episódios de IU (−32,1%, −52,9%, −58,8%), ICIQ (−29,4%, −50%, −64,7%) e Oxford (+33,3%, +50%, +50%); efeito observado a partir de 3 semanas.Todos os métodos otimizaram a continência e força do MAP; grupo C > grupo B no teste do absorvente 1h, sem diferença estatisticamente significativa; importância da sensibilidade ao tempo no treinamento.
Soto et al  2020Ensaio clínico randomizado (ECR)Homens após prostatectomia; n=60 (47 completaram)Grupo tratamento: eletroterapia + biofeedback 3x/semana por 3 meses, PFMT domiciliar; controle: sem tratamento específico, PFMT domiciliar padrão.Diferenças significativas no teste do absorvente 1h aos 3 e 6 meses (p=0,001) a favor do tratamento; 64% vs 9,1% continentes aos 3 meses.Programa precoce de fisioterapia acelera recuperação da continência e melhora QV.
Jalalinia, et al. / 2020Ensaio clínico randomizado (ECR)Homens pós-prostatectomia, n=60PFMT no pós-operatório vs. cuidados padrão; avaliações em 7 dias e 1, 2 e 3 meses.Melhora significativa nos escores de IU e QV no grupo PFMT vs. controle.PFMT reduz IU e melhora QV; método não farmacológico e não invasivo, facilmente ensinável.
Kim et al / 2021Ensaio clínicoHomens após prostatectomia; n=83 (41 exercício; 42 controle)PFMT com biofeedback visual no pós-operatório vs. controle.Recuperação da continência 49,4%, 77,1%, 94,0% em 1/3/6 meses; grupo exercício superior (p<0,05). Idosos (≥65 anos) beneficiaram-se mais.PFMT com biofeedback acelera recuperação, especialmente em ≥65 anos.
Shi et al 2025Ensaio clínico randomizado (ECR)Homens com CaP pós-PR; n=101Randomização: S-PFMT; SI-PFMT (interativo somatossensorial); S-PFMT + estimulação magnética.Todos melhoraram ICIQ-UI SF (3 e 6 meses, p<0,001). Aos 6 meses, S-PFMT+MS superior no teste do absorvente 1h (p=0,012) e vs. demais grupos (p=0,033; p=0,011).Adicionar estimulação magnética ao PFMT padrão melhora recuperação da IU pós-PR.
Huang et al 2023Estudo clínicoHomens após prostatectomia; n=104Grupo estudo: estimulação elétrica de acupontos de baixa frequência; controle: PFMT tradicional.Menor nº de absorventes, tempo de recuperação mais curto, melhores escores SF-36 e maior eficácia no grupo estimulação; segurança semelhante.Estimulação elétrica de acupontos é segura e eficaz para reduzir IU e melhorar QV.
Kaushik et al 2022Ensaio clínico randomizado (piloto)Homens com CaP localizado pré-PR; n=29Ioga por 6 semanas vs. tratamento padrão antes da PR.Melhora em EPIC-sexual, FACIT-F e domínios do FACT; aumento de CD4+/CD8+, NK e redução de citocinas inflamatórias.Ioga perioperatória é viável e melhora QV e marcadores imunes; requer estudos maiores.
Chen et al 2023Protocolo de ensaio clínico randomizado (ECR)Homens após prostatectomia (planejado n=90)Grupo tratamento: EPNS (40 sessões/8 semanas) vs. controle: PFMT (Kegel).Protocolo aprovado (ChiCTR2200055461); aguardam-se resultados.
An et al 2024Ensaio clínicoHomens pós-PR; n=37, distribuídos por IMCPilates + Kegel em todos os grupos; avaliação por teste do absorvente 1h, episódios de IU, ICIQ e Oxford.Melhora significativa em todos os grupos; reduções no teste 1h e episódios IU; correlação com IMC (R² 0,51 e 0,43).PFMT+Pilates beneficia continência; IMC mais baixo associa-se a melhor controle.

Fonte: Autoria própria, 2025.

4 DISCUSSÃO

A incontinência urinária (IU) é uma das complicações mais prevalentes após a prostatectomia radical, afetando significativamente a qualidade de vida e o bem-estar psicossocial dos pacientes. Diversos ensaios clínicos randomizados confirmam a eficácia do TMAP na reabilitação desses indivíduos, sendo considerado a intervenção de primeira escolha nesse contexto (JALALINIA et al., 2020; SOTO GONZÁLEZ et al., 2020).

O TMAP isolado já se mostrou capaz de reduzir a frequência de episódios de incontinência, melhorar a força muscular e restaurar a continência em curto e médio prazo. Jalalinia et al. (2020) observaram melhora estatisticamente significativa nos escores de IU e de qualidade de vida em pacientes submetidos ao TMAP, após acompanhamento de até três meses. 

De forma semelhante, Soto González et al. (2020) verificaram que um programa abrangente de fisioterapia, realizado três vezes por semana durante três meses, foi eficaz em restaurar a continência em 64% dos pacientes, indicando que tanto a precocidade quanto a intensidade do protocolo influenciam os resultados. Do ponto de vista fisiológico, o TMAP fortalece as fibras musculares do assoalho pélvico responsáveis pelo fechamento uretral, melhora o tempo de ativação durante esforços e otimiza a coordenação com o aumento da pressão intra-abdominal, explicando sua efetividade clínica.

Intervenções que associam o TMAP a recursos tecnológicos, como biofeedback e Pilates, também apresentaram resultados superiores em comparação ao treinamento isolado. An et al. (2021) verificaram que a associação de Pilates e biofeedback, aplicada diariamente durante oito semanas, reduziu de forma mais acentuada os episódios de incontinência urinária e fortaleceu a musculatura pélvica. Kim et al. (2021) observaram que o uso de biofeedback visual acelerou a recuperação da continência, sobretudo em pacientes idosos. Esse recurso se mostra eficaz porque fornece retorno imediato sobre a qualidade da contração, corrige padrões inadequados de ativação e encurta a curva de aprendizagem motora, o que contribui para resultados mais rápidos.

Fatores individuais, como o índice de massa corporal (IMC), também influenciam os resultados. An et al. (2024) mostraram que pacientes com IMC mais baixo apresentaram maior benefício da combinação entre Pilates e TMAP, sugerindo que o perfil antropométrico pode impactar diretamente a resposta terapêutica. Esse achado reforça a importância da personalização dos protocolos de fisioterapia pélvica de acordo com as características de cada paciente.

A eletroestimulação tem sido estudada como adjuvante ao TMAP. Feng et al. (2022) compararam a estimulação elétrica do nervo pudendo ao TMAP combinado com estimulação elétrica transcutânea anal, aplicados três vezes por semana durante oito semanas, concluindo que a primeira apresentou maior eficácia em curto prazo. Huang et al. (2023) identificaram que a estimulação elétrica de acupontos com baixa frequência encurtou o tempo de recuperação da continência e melhorou indicadores de qualidade de vida. Chen et al. (2023) propuseram protocolo padronizado de 40 sessões ao longo de oito semanas para comparar a eficácia da estimulação elétrica do nervo pudendo em relação ao TMAP tradicional, contribuindo para maior uniformização metodológica.

Modalidades complementares também vêm sendo exploradas. Kaushik et al. (2022) demonstraram que a prática de ioga perioperatória resultou em melhora da qualidade de vida e parâmetros imunológicos, favorecendo uma recuperação mais global e integrada, ainda que não atue diretamente na continência. Russo et al. (2025) evidenciaram que o TMAP domiciliar, associado à observação de ação por oito semanas, gerou benefícios significativos sobre a continência urinária em comparação ao TMAP padrão, mostrando que estratégias de aprendizagem motora podem otimizar o desempenho do paciente.

Apesar dos resultados consistentes, limitações metodológicas ainda se fazem presentes. A heterogeneidade entre protocolos, a variação no tempo de seguimento, o tamanho reduzido das amostras e as diferenças nos critérios de avaliação da IU (teste do absorvente de 1h ou 24h, questionários específicos) dificultam a padronização dos achados (SHI et al., 2025; YANG et al., 2023). Essas limitações reforçam a necessidade de ensaios clínicos multicêntricos, com maior rigor metodológico e acompanhamento de longo prazo.

Em síntese, as evidências atuais sustentam que o TMAP deve ser recomendado como intervenção de primeira linha para a reabilitação da IU pós-prostatectomia. Protocolos iniciados precocemente, com duração entre oito semanas e três meses, aplicados de forma estruturada e associados a recursos como biofeedback, Pilates e eletroestimulação, apresentam maior potencial de efetividade. Considerando a relevância clínica da IU e seu impacto funcional, a implementação de programas de fisioterapia pélvica bem estruturados se consolida como estratégia essencial para melhorar a qualidade de vida dos pacientes submetidos à prostatectomia radical.

5 CONCLUSÃO

O TMAP consolidou-se como intervenção de primeira linha no tratamento da incontinência urinária pós-prostatectomia, promovendo melhora significativa da continência e da qualidade de vida dos pacientes. Protocolos que associam biofeedback, Pilates e eletroestimulação podem potencializar os resultados, sobretudo quando iniciados precocemente.

 Apesar da heterogeneidade metodológica dos estudos, as evidências atuais reforçam a necessidade de programas estruturados e individualizados de fisioterapia pélvica como parte essencial da reabilitação desses indivíduos.

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