INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA PREDIÇÃO DA SEPSE NEONATAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510151928


Dieniffer Rios Viana1
Sofia Silva e souza2
Maria Paula Duarte Schettino3


Resumo

A sepse neonatal constitui uma das principais causas de morbimortalidade entre recém-nascidos, especialmente os prematuros internados em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). O diagnóstico precoce é dificultado por manifestações clínicas inespecíficas e pela baixa sensibilidade dos exames laboratoriais convencionais. Nesse contexto, a inteligência artificial (IA) tem se destacado como ferramenta promissora para a predição e o diagnóstico precoce da sepse neonatal, ao analisar grandes volumes de dados clínicos e fisiológicos em tempo real. Esta revisão narrativa, baseada em publicações entre 2015 e 2024, identificou que algoritmos de aprendizado de máquina, como redes neurais profundas e florestas aleatórias, alcançam acurácia superior a 85% na detecção de sepse até 24 horas antes do diagnóstico clínico tradicional. Modelos como o HeRO Score demonstraram reduzir a mortalidade neonatal em até 20%. Apesar dos avanços, desafios persistem, incluindo a heterogeneidade dos bancos de dados, ausência de validação multicêntrica e questões ético-legais sobre privacidade e responsabilidade médica. Conclui-se que a aplicação da IA na neonatologia representa um avanço significativo rumo à medicina preditiva e personalizada, capaz de otimizar o cuidado e reduzir desfechos adversos.

Palavras-chave: sepse neonatal; inteligência artificial; aprendizado de máquina; diagnóstico precoce; neonatologia.

Introdução

A sepse neonatal é uma das principais causas de morbimortalidade em recém-nascidos, especialmente entre prematuros e aqueles internados em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). Trata-se de uma síndrome clínica complexa, decorrente da resposta inflamatória sistêmica a uma infecção, que pode evoluir rapidamente para choque séptico e falência de múltiplos órgãos. No cenário global, estima-se que a sepse seja responsável por cerca de 3 milhões de mortes neonatais por ano, sendo mais prevalente em países de baixa e média renda 

 Um atraso no reconhecimento e no início da antibioticoterapia aumenta significativamente o risco de óbito e de sequelas neurológicas, logo, o diagnóstico precoce constitui um dos maiores desafios da prática clínica, visto que os sinais e sintomas iniciais são inespecíficos, incluindo instabilidade térmica, taquipneia, letargia e apneia. Além disso, exames laboratoriais como hemograma, proteína C reativa (PCR) e procalcitonina apresentam baixa sensibilidade e especificidade nos estágios iniciais da doença, o que pode atrasar o início do tratamento antibiótico.

Nesse contexto, a inteligência artificial (IA) e o aprendizado de máquina (machine learning) têm emergido como ferramentas promissoras para o aprimoramento da predição e diagnóstico precoce da sepse neonatal. Esses sistemas são capazes de analisar grandes volumes de dados clínicos, laboratoriais e fisiológicos em tempo real, reconhecendo padrões sutis de deterioração clínica que frequentemente passam despercebidos pela observação humana. A aplicação da IA representa, portanto, uma mudança de paradigma na medicina neonatal, alinhada ao avanço da saúde digital e ao conceito de medicina preditiva e personalizada.

Objetivo

O objetivo deste estudo é identificar e sintetizar as abordagens e a eficácia da Inteligência Artificial (IA) na predição de fatores de risco e no diagnóstico precoce da sepse neonatal, analisando o potencial desses modelos para melhorar os desfechos clínicos.

Metodologia

Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, abrangendo o período de 2015 a 2024, com busca nas bases de dados PubMed, SciELO, Scopus e IEEE Xplore. Utilizaram-se os descritores controlados e não controlados: “neonatal sepsis”, “artificial intelligence”, “machine learning”, “prediction” e “neonatal intensive care”.

Foram incluídos artigos em português e inglês que abordavam o desenvolvimento, validação ou aplicação clínica de algoritmos de IA para detecção precoce, estratificação de risco ou diagnóstico de sepse neonatal. Excluíram-se estudos que não apresentavam resultados quantitativos ou não possuíam relevância clínica.

Além disso, foram considerados documentos oficiais do Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre vigilância da sepse neonatal, bem como revisões sistemáticas publicadas nos últimos cinco anos sobre o tema.

Resultados

Os estudos analisados apontam para um avanço expressivo no uso da inteligência artificial como suporte à decisão clínica em neonatologia. Diversos modelos matemáticos foram desenvolvidos com base em dados clínicos e sinais vitais contínuos coletados em UTINs, demonstrando capacidade preditiva elevada para detecção precoce da sepse.

Modelos de redes neurais profundas (deep learning) e florestas aleatórias (random forest) obtiveram acurácia superior a 85% na predição de sepse neonatal até 24 horas antes do diagnóstico clínico tradicional. Outros algoritmos, como regressão logística multivariada e máquinas de vetor de suporte (SVM), foram capazes de identificar alterações fisiológicas discretas — como variações na frequência cardíaca e saturação periférica de oxigênio — associadas ao início do processo infeccioso.

Um dos sistemas mais conhecidos, o HeRO Score (Heart Rate Observation), utiliza variabilidade da frequência cardíaca para prever risco de sepse com até 24 horas de antecedência, reduzindo a mortalidade neonatal em até 20% em alguns centros. Outros projetos, como o NEONAI e o SafeSepsis, combinam dados laboratoriais e clínicos em tempo real, integrando-se aos prontuários eletrônicos hospitalares para emitir alertas automáticos aos profissionais de saúde.

Além da detecção precoce, os estudos destacam que a IA pode auxiliar na estratificação de risco e na individualização da terapia antibiótica, reduzindo o uso indiscriminado de antimicrobianos e contribuindo para o combate à resistência bacteriana.

Apesar dos avanços, persistem desafios significativos: a heterogeneidade dos bancos de dados, a ausência de validação multicêntrica e a dificuldade de integração com sistemas hospitalares limitam a aplicabilidade clínica em larga escala. Questões éticas e legais relacionadas à privacidade dos dados e responsabilidade médica também necessitam de regulamentação clara.

Discussão

A incorporação da inteligência artificial à prática neonatal oferece oportunidades sem precedentes para redefinir o cuidado intensivo e a segurança do paciente. A predição da sepse, antes mesmo do surgimento dos sintomas clínicos, pode permitir intervenções precoces que alterem drasticamente o desfecho de recém-nascidos vulneráveis.

Além do potencial diagnóstico, a IA favorece uma abordagem multidimensional do paciente, integrando dados genômicos, bioquímicos e ambientais. Essa capacidade de análise complexa contribui para o avanço da medicina personalizada, onde decisões terapêuticas são adaptadas ao perfil individual do recém-nascido.

Outro aspecto relevante é a educação médica e treinamento da equipe multiprofissional. A interpretação correta dos alertas gerados por sistemas de IA exige conhecimento técnico e senso clínico apurado, reforçando a importância da colaboração entre médicos, enfermeiros e cientistas de dados.

O uso ético e seguro dessas tecnologias deve seguir os princípios de transparência algorítmica, proteção de dados sensíveis e validação científica rigorosa. A inteligência artificial deve ser vista como ferramenta de apoio, e não substituição da decisão médica, mantendo o cuidado humanizado como centro do processo.

Conclusão

A aplicação da inteligência artificial na predição da sepse neonatal representa uma revolução no cuidado perinatal e na medicina intensiva neonatal. Ao permitir a identificação precoce de alterações fisiológicas e laboratoriais sutis, esses sistemas podem reduzir significativamente a mortalidade e o tempo de internação hospitalar, além de otimizar o uso de recursos terapêuticos.

Contudo, a consolidação dessa prática depende de investimentos em infraestrutura tecnológica, capacitação profissional, validação multicêntrica dos algoritmos e adesão a protocolos éticos e de segurança da informação.

O futuro do cuidado neonatal caminha para uma integração cada vez mais estreita entre ciência de dados e cuidado humanizado, em que a tecnologia potencializa, e não substitui  a sensibilidade clínica e o vínculo entre profissionais, pacientes e famílias.

Referências — Formato ABNT

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