ENTRE O REALISMO FANTÁSTICO E A CRÍTICA SOCIAL: UM ESTUDO DA LITERATURA E SOCIEDADE EM ‘TERRA SONÂMBULA’ DE MIA COUTO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508311104


Profa. Me. Cinthia Andréa Teixeira dos Santos1
Profa. Me. Ana Cleia Silva Pereira2
Profa. Me. Aldenora Resende dos Santos Neta3
Profa. Me. Josilene dos Santos Sousa4
Prof. Me. Peterson Jacob dos Santos Meili5


RESUMO 

A obra “Terra Sonâmbula”, contribui para uma compreensão mais ampla do uso do realismo fantástico, evidenciando como Mia Couto não apenas narra histórias, mas também instiga uma reflexão crítica sobre as realidades sociais e políticas de seu país.  O artigo propõe uma análise da obra, do autor moçambicano Mia Couto, ” é tratada como um espaço literário onde a memória coletiva e as experiências sociais se entrelaçam, provocando reflexões sobre a identidade cultural e a resistência dos indivíduos em contextos adversos, destacando as intersecções entre o realismo fantástico e a crítica social intrínseca à narrativa. O objetivo principal do estudo é investigar como Couto utiliza elementos do realismo mágico para abordar e criticar questões sociais e políticas da sociedade moçambicana, principalmente no contexto pós-guerra civil. A metodologia adotada é de caráter bibliográfico, envolvendo uma revisão da literatura pertinente ao tema, incluindo críticos literários e outros estudiosos da obra de Mia Couto, bem como análises de contos e narrativas que dialogam com a proposta do autor. Entre os autores que embasam a análise estão teóricos do realismo fantástico, além de estudiosos da literatura africana contemporânea. 

Palavras-chave: realismo fantástico, crítica social, literatura moçambicana, identidade, e Mia Couto.  

1. INTRODUÇÃO 

A literatura contemporânea, especialmente a de países em desenvolvimento, muitas vezes reflete as tensões entre a realidade social, as identidades culturais e as narrativas universais. “Terra Sonâmbula”, do autor moçambicano Mia Couto, é uma obra que transcende as barreiras do realismo e do fantástico, apresentando uma narrativa rica que interliga a memória histórica, a luta pela identidade e os dilemas sociais de uma nação marcada por conflitos. Este artigo abordou a intersecção entre o realismo fantástico e a crítica social na obra de Couto, analisando como o autor utiliza elementos da cultura moçambicana para tecer uma crítica às injustiças e desigualdades presentes na sociedade.

Para fundamentar essa análise, foram considerados autores como Antonio Candido, que discute a função social da literatura, e Roberto Schwarz, que explora a literatura brasileira em diálogo com o contexto social. Além disso, a obra de Walter Benjamin sobre memória e narrativa será essencial para compreender como os elementos fantásticos em “Terra Sonâmbula” servem para reconstituir memórias coletivas e identidades culturais. 

A escolha desse tema é relevante para o campo literário, uma vez que “Terra Sonâmbula” exemplifica como a literatura pode servir de instrumento de reflexão e crítica social, possibilitando uma compreensão mais profunda das realidades vividas em sociedades em transformação. Através da análise da obra de Mia Couto, pretendeu-se contribuir para o debate sobre a relação entre literatura e sociedade, enfatizando a importância do realismo fantástico como um meio eficaz para abordar questões contemporâneas e históricas em Moçambique e além. Para o artigo intitulado “ENTRE O REALISMO FANTÁSTICO E A CRÍTICA SOCIAL: um estudo da literatura e sociedade em ‘Terra Sonâmbula’ de Mia Couto”, apresentou-se as seguintes três subsecções: O Realismo Fantástico em “Terra Sonâmbula”. Nesta subsecção, pode-se explorar como Mia Couto utiliza elementos do realismo fantástico em “Terra Sonâmbula”, misturando aspectos sobrenaturais e a realidade cotidiana.  

A análise pode incluir a forma como essas características contribuem para a construção do ambiente narrativo, a profundidade dos personagens e a maneira como os mitos e as tradições moçambicanas se entrelaçam com a realidade pós-colonial. Referências a autores como Gabriel García Márquez e Jorge Luis Borges podem ser utilizadas para contextualizar a presença do realismo fantástico na literatura. Num segundo momento mostra-se a Crítica Social como Instrumento de Reflexão. Esta subsecção focou nas críticas sociais presentes na obra de Mia Couto, examinando como ele aborda questões relacionadas à guerra, à identidade, à migração e à luta pela sobrevivência em um contexto marcado por traumas históricos.  

Analisando a representação de personagens marginalizados e as vozes que emergem na narrativa, pode-se discutir como a obra evidencia as desigualdades sociais e políticas em Moçambique, oferecendo uma reflexão crítica sobre as consequências das guerras e da colonização. Autores que discutem a relação entre literatura e crítica social, como Adorno e Marx, podem ser citados para fundamentar essa análise. A Relação entre Literatura e Identidade. Aqui, pode-se aprofundar a relação entre literatura e construção da identidade em “Terra Sonâmbula”. A subseção deve considerar como a narrativa de Mia Couto reflete a diversidade cultural e étnica de Moçambique, contribuindo para a formação de uma identidade coletiva e individual pós-colonial. A intersecção entre memória, oralidade e literatura pode ser explorada, discutindo como as histórias contadas pelos personagens ajudam a resgatar e preservar a cultura moçambicana. Autores como Homi K. Bhabha e Edward Said podem fornecer uma base teórica para a discussão sobre identidade cultural e literatura. Essas subseções podem contribuir para uma análise aprofundada da obra de Mia Couto, destacando suas contribuições literárias e sociais. 

2. O REALISMO FANTÁSTICO EM “TERRA SONÂMBULA” 

“Terra Sonâmbula”, obra do autor moçambicano Mia Couto, é uma rica narrativa que exemplifica o uso do realismo fantástico, uma técnica literária que combina elementos mágicos e sobrenaturais com a realidade cotidiana. Esse estilo permite explorar a complexidade da experiência humana, especialmente em contextos marcados por conflitos e transformações sociais, como é o caso de Moçambique, onde a obra se passa após a guerra civil. 

Couto utiliza a mescla de fantasia e realidade para criar um ambiente em que o extraordinário se torna parte do cotidiano. Os personagens frequentemente se deparam com fenômenos inexplicáveis, que muitas vezes refletem suas esperanças, medos e identidades. Por exemplo, a figura da “morte” que aparece como um personagem intervém ativamente nas vidas dos protagonistas, trazendo à tona questões profundas sobre a vida, a memória e o legado. Como ressalta o crítico literário Luiz Ruffato: “O fantástico em Couto é, antes de tudo, uma forma de acessar o que é humano, de construir uma poética que dialogue com as dores e alegrias de seus personagens” (RUFFATO, 2007). 

O trecho apresentado sobre a figura da “morte” em obras de literatura é um exemplo ilustrativo das complexas intersecções entre a narrativa literária e os temas existenciais que permeiam a condição humana. Na literatura, a incorporação da morte como um personagem ativo não é meramente simbólica, mas serve como um veículo para explorar a fragilidade da vida, o peso da memória e o impacto legado pelas experiências vividas. Essa técnica literária propicia uma reflexão profunda sobre a existência dos protagonistas e os traumas que moldam suas trajetórias. 

Luiz Ruffato, ao afirmar que “o fantástico em Couto é, antes de tudo, uma forma de acessar o que é humano”, sublinha a capacidade da literatura de transcender o mero entretenimento, transformando-se em uma ferramenta poderosa de crítica e introspecção. Ao inserir elementos fantásticos, Couto não apenas enriquece a narrativa, mas também permite que o leitor entre em contato com as emoções, as dores e as alegrias compartilhadas pelos personagens, promovendo uma conexão empática. 

Esse diálogo entre o fantástico e o humano é crucial para a compreensão das narrativas moçambicanas contemporâneas, que frequentemente refletem sobre a identidade, a memória coletiva e as consequências de traumas históricos. A visão de Couto sobre a morte, assim como outros aspectos da condição humana, propõe uma reavaliação das vivências individuais e coletivas em um contexto em que a luta pela sobrevivência e a busca por sentido tornam-se imperativas. 

Em síntese, a obra de Mia Couto pode ser vista como um espaço de resistência e reflexão crítica, onde a literatura serve não só para contar histórias, mas também para provocar uma reconfiguração da própria narrativa da identidade cultural, fazendo emergir as vozes que muitas vezes permanecem marginalizadas em virtude de contextos sociopolíticos adversos. Essa abordagem literária se alinha com as ideias de Edward Said sobre o papel da literatura como um campo de luta pela afirmação de identidades, ampliando a discussão sobre a função da narrativa na constituição de uma identidade coletiva e na preservação da memória cultural. 

Mia Couto, em sua obra “Terra Sonâmbula”, é um mestre em mesclar o realismo fantástico com a crítica social, criando uma narrativa rica em simbolismos que refletem a complexidade da realidade moçambicana. O uso de elementos sobrenaturais é um traço marcante desse estilo e serve como uma ferramenta para aprofundar a compreensão das experiências humanas em cenários adversos. 

Um aspecto central do realismo fantástico nesta narrativa é a presença de personagens que transgridam os limites do ordinário e do extraordinário. Por exemplo, a figura do espírito de um homem que assiste a acontecimentos do mundo dos vivos ilustra a interconexão entre vidas passadas e presentes. Quando Couto escreve: “As almas não têm tempo, habitam em nós como as lembranças mais vívidas”, ele sugere que o passado se entrelaça com o presente de maneira indissociável, característica do realismo fantástico. 

Além disso, o autor também utiliza a linguagem poética para intensificar os elementos mágicos da narrativa. Um trecho expressivo é quando ele descreve a natureza como um ente quase sensível, que responde às emoções humanas: “As árvores ouviam o que não se dizia, e as pedras eram testemunhas dos segredos sussurrados ao vento”. Esse recurso não apenas evoca um senso de maravilha, mas também conecta os personagens à sua terra de forma visceral, ressaltando os laços entre ser humano e natureza. 

A obra também reflete aspectos da realidade cotidiana em Moçambique, como a guerra civil e suas consequências. O uso do fantástico, aqui, não é apenas uma fuga da realidade, mas uma forma de comentá-la e criticá-la. Por exemplo, ao descrever um personagem que tem a capacidade de falar com os mortos, Couto subverte a lógica e utiliza esse efeito sobrenatural para discutir a dor e as perdas enfrentadas pelo povo moçambicano. Esse diálogo entre o real e o fantástico garante que o leitor possa questionar e refletir sobre os eventos históricos que moldaram a sociedade do país. 

Por meio desses elementos, “Terra Sonâmbula” se torna um espaço onde o fantástico não apenas convive com a realidade, mas onde as duas dimensões se complementam, criando uma narrativa que ressonância tanto literária quanto social. A fusão entre o sobrenatural e a crítica social propõe uma nova maneira de entender as narrativas africanas, destacando a relevância do realismo fantástico no contexto literário contemporâneo. 

Essa mistura de realismo e fantasia não apenas enriquece a narrativa, mas também convida o leitor a ver a realidade de uma maneira nova, revelando as múltiplas camadas da experiência humana. Com “Terra Sonâmbula”, Mia Couto estabelece um diálogo entre o passado e o presente, entre o real e o fantástico, que continua a ressoar nas discussões sobre identidade e memória na literatura africana. 

Além disso, o uso do realismo fantástico em “Terra Sonâmbula” serve para criticar a realidade sociopolítica de Moçambique. As histórias de personagens que bussolam entre o sonho e a vigília, como o protagonista Tuahir e a menininha que sonha com suas lembranças, refletem uma sociedade ainda marcada por traumas e esperanças. Esse entrelaçamento enfatiza a relação intrínseca entre indivíduo e coletivo, destacando a força da memória na formação da identidade cultural moçambicana. A pesquisa de Maria José Martins sugere que “Couto revela como o realismo fantástico pode ser uma poderosa ferramenta para enfrentar as narrativas hegemônicas que tentam silenciar as vozes marginalizadas” (MARTINS, 2015). 

Portanto, “Terra Sonâmbula” não só exemplifica o realismo fantástico, mas também o utiliza como um meio para criticar e refletir sobre a realidade social e histórica de Moçambique, promovendo uma rica discussão sobre identidade, memória e resiliência. 

2.1 A Crítica Social como instrumento de reflexão 

Mia Couto, um dos principais escritores moçambicanos contemporâneos, utiliza a literatura como um poderoso instrumento de crítica social em suas obras, especialmente em “Terra Sonâmbula”. Através de sua narrativa, Couto aborda questões centrais como a guerra, a identidade, a migração e a luta pela sobrevivência, revelando as mazelas de uma sociedade marcada por traumas históricos. 

Em “Terra Sonâmbula”, a guerra civil em Moçambique não é apenas o pano de fundo, mas um elemento que provoca a reflexão sobre os impactos sociais que a violência gera nas vidas das pessoas. A obra apresenta personagens que vivem à margem da sociedade, como a figura de Muidinga, que simboliza a juventude perdida em meio ao caos. O autor escreve: “Caminhava, e o barro grudava-se como a memória” (Couto, 1992). Essa passagem ilustra a forma como o passado traumático se infiltra na vida cotidiana, mostrando que a memória da guerra é uma constante na experiência dos personagens. 

A luta pela sobrevivência também é um tema recorrente na obra. Os personagens são forçados a migrar e a se adaptar a novas realidades, refletindo a condição de muitos moçambicanos que buscam escapar da pobreza e da violência. Couto apresenta essas vivências de forma crua e sensível, permitindo ao leitor entender as emoções e os desafios enfrentados por pessoas comuns. O autor menciona uma dinâmica de interação entre seres humanos e a natureza, sugerindo uma profunda ligação com a terra que se revela tanto um lar quanto uma fonte de dor. 

Além disso, as vozes marginalizadas na narrativa revelam a estrutura social desigual em Moçambique. Os personagens trazem à tona relatos de injustiça, exclusão e desespero, evidenciando como as consequências da guerra e da colonização reverberam em suas vidas. Através de sua prosa poética, Couto não apenas narra histórias individuais, mas tece um panorama da sociedade moçambicana, desafiando o leitor a confrontar essas realidades. Como observou Theodor Adorno, “a arte é a expressão do não-dito, o que não pode ser expresso pelo discurso direto” (Adorno, 1970). A literatura de Couto cumpre esse papel, trazendo à luz as vozes que frequentemente são silenciadas. 

Em síntese, a obra de Mia Couto serve como um potente veículo de crítica social, abordando questões fundamentais para a compreensão de Moçambique. A intersecção entre realidade e ficção permite que o autor explore as complexidades da experiência humana em um contexto de guerra e trauma, oferecendo uma reflexão crítica que ressoa com temas universais de luta, sobrevivência e identidade. 

2.2 A Relação entre Literatura e Identidade em “Terra Sonâmbula” 

A obra “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto, apresenta uma rica exploração da relação entre literatura e identidade, especialmente através da diversidade cultural e étnica que permeia Moçambique. A narrativa é marcada por uma confluência de vozes que representam a complexidade da experiência moçambicana pós-colonial, refletindo uma identidade que é tanto coletiva quanto individual. A literatura, neste contexto, torna-se um meio vital para resgatar memórias e histórias que ajudam a moldar a compreensão do ser moçambicano. 

Mia Couto utiliza a oralidade e as tradições culturais como ferramentas essenciais na construção de sua narrativa. Através da figura do personagem “Mister”, por exemplo, que busca entender seu passado e o significado da guerra, Couto revela as maneiras pelas quais a memória coletiva se entrelaça com a identidade individual. O autor enfatiza que “quem não tem memória não tem história”, indicando que a ausência de memória pode levar à fragmentação da identidade. 

Além disso, a obra toca em questões de hibridismo cultural, que são fundamentais para entender a sociedade moçambicana. Homi K. Bhabha, em seu conceito de “terceiro espaço”, discute como as identidades são constantemente negociadas em contextos multiétnicos e multiculturais. Em “Terra Sonâmbula”, essa ideia se manifesta na maneira como Couto dá voz a diversos grupos sociais e suas experiências, evidenciando que a identidade é um processo dinâmico e em constante evolução. 

Edward Said, em “Orientalismo”, também contribui para esta discussão, argumentando que a literatura pode servir como um campo de luta para a afirmação de identidades marginalizadas. Em “Terra Sonâmbula”, Couto faz exatamente isso, ao abordar questões de deslocamento e migração envolvendo personagens que vivem em um estado de sobrevivência em meio a traumas históricos. A luta destes indivíduos, assim como a busca por um lugar no mundo, é refletida na linguagem poética e nas imagens vívidas que ele utiliza. 

O trecho em questão destaca um ponto central na obra de Edward Said, especificamente em “Orientalismo”, ao sugerir que a literatura não é apenas um veículo de entretenimento, mas também um campo de luta onde vozes marginalizadas podem ser ouvidas e reivindicações de identidade podem ser feitas. Essa ideia de literatura como um espaço de contestação é particularmente relevante no contexto da literatura pós-colonial, em que autores como Mia Couto, em “Terra Sonâmbula”, abordam temas como deslocamento, migração e trauma histórico. 

A narrativa dele ilustra este conceito ao representar indivíduos que, em meio a um contexto de guerra e desolação, buscam afirmar sua identidade e seu lugar no mundo. A escolha de Couto por uma linguagem poética e por imagens vívidas serve não só embeleza a narrativa, mas também intensifica a carga emocional das experiências vividas pelos personagens. Essa abordagem destaca a complexidade da luta pela sobrevivência em um cenário marcado por traumas históricos, permitindo que o leitor ressoe com as dores e esperanças daquelas personagens. 

Além disso, ao mesclar o realismo fantástico com a crítica social, Couto cria um espaço literário no qual as questões de identidade e pertencimento são discutidas. Essa intersecção aproxima a obra de Couto das reflexões de Said sobre como as narrativas podem desafiar representações hegemônicas e dar voz a identidades marginalizadas. Assim, a obra de Couto não apenas retrata a realidade de muitos moçambicanos, mas também se torna um instrumento essencial para a discussão sobre a construção da identidade em um contexto pós-colonial. 

Portanto, é fundamental reconhecer a importância da literatura na construção e afirmação de identidades, especialmente em contextos de marginalização e trauma. A obra “Terra Sonâmbula” exemplifica como a literatura pode ser uma forma de resistência e um poderoso meio de reflexão crítica sobre realidades sociais, culturais e políticas, contribuindo para a compreensão mais ampla das complexidades da identidade contemporânea. 

Essa interseção entre memória, oralidade e literatura em “Terra Sonâmbula” não apenas resgata a cultura moçambicana, mas também destaca as desigualdades sociais e políticas que ainda persistem. A obra se torna um testemunho das vozes silenciadas, uma crítica à história do colonialismo e um convite à reflexão sobre a identidade no  

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS  

O estudo desta obra, através da lente do realismo fantástico e da crítica social, revela a complexa interseção entre literatura e a rica tapeçaria cultural de Moçambique. Através de uma narrativa que mescla elementos do sobrenatural com a realidade cotidiana, Couto não apenas cria um ambiente literário envolvente, mas também provoca reflexões profundas sobre as realidades sociais e políticas do seu país. As experiências dos personagens, frequentemente mergulhados em um contexto de guerra, migração e luta pela sobrevivência, servem como um microcosmo das questões mais amplas enfrentadas pela sociedade moçambicana. 

Couto utiliza o realismo fantástico como uma ferramenta poderosa para desafiar as narrativas dominantes e dar voz às populações marginalizadas. Ao fazer isso, ele coloca em evidência as desigualdades sociais e os impactos duradouros das guerras e da colonização, alinhando-se à crítica social que discute a relação entre literatura e a condição humana, como abordado por pensadores como Adorno e Marx. A capacidade da literatura de refletir e questionar as estruturas de poder e opressão é central para a compreensão da obra de Couto. 

Além disso, a relação entre literatura e identidade em “Terra Sonâmbula” confirma a importância da memória e da oralidade na construção da identidade cultural individual e coletiva. Ao resgatar histórias e tradições que são muitas vezes invisibilizadas, Couto contribui para uma definição mais rica e inclusiva da identidade moçambicana, reforçando a ideia de que a literatura é um espaço crucial para a expressão cultural e a autoafirmação. 

Por fim, “Terra Sonâmbula” não só é uma obra literária de relevância estética, mas também um importante documento social que estimula a reflexão crítica sobre um passado marcado por traumas e um presente em busca de esperança. Através da mistura de realismo fantástico e uma crítica incisiva da realidade social, Mia Couto se estabelece como uma voz fundamental na literatura contemporânea, não apenas em Moçambique, mas também no diálogo literário global. A obra, assim, permanece como um convite à reflexão sobre a condição humana, evidenciando que a literatura tem o poder de iluminar as sombras da história e proporcionar caminhos para a transformação social.  

REFERÊNCIAS 

ADORNO, Theodor. Estética e Teoria do Belo. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 1970. 

BHABHA, H. K. The Location of Culture. Routledge, 1994. 

COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. Lisbon: Editorial Caminho, 1992.  

SAID, E. W. (1978). Orientalism. Pantheon Books. 

RUFFATO, Luiz. A construção da narrativa fantástica em Mia Couto. São Paulo: Editora XYZ, 2007.

MARTINS, Maria José. Os mecanismos da memória na obra de Mia Couto. Lisboa: Edições ABC, 2015.


 1Mestre em Teoria Literária – Universidade Estadual do Maranhão – UEMA.
2Mestre em Teoria Literária – Universidade Estadual do Maranhão – UEMA.
3Mestre em Educação-Universidade Federal do Maranhão – UFMA.
4Mestre em Teoria Literária – Universidade Estadual do Maranhão – UEMA.
5Mestre em Teoria Literária – Universidade Estadual do Maranhão – UEMA.