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	<title>Artes Cênicas &#8211; ISSN 1678-0817 Qualis/DOI</title>
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	<description>Revista Científica de Alto Impacto.</description>
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	<title>Artes Cênicas &#8211; ISSN 1678-0817 Qualis/DOI</title>
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		<title>DANÇA E ACESSIBILIDADE: PRÁTICAS COM PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NO DISTRITO FEDERAL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Revistaft LU]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Nov 2024 21:54:41 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Artes Cênicas]]></category>
		<category><![CDATA[Volume 29 - Edição 140/NOV 2024]]></category>
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					<description><![CDATA[REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/th102411261851 Thaís Cordeiro Puccinelli1Orientador: Jonas Sales2 RESUMO: A presente proposta objetiva apresentar reflexões acerca de vivências propostas por algumas danças experimentadas e produzidas para, com, por pessoas com deficiência no Distrito Federal. Configura-se em uma pesquisa empírica como orientadora da pesquisa qualitativa. Como coleta de dados foram abordadas as vivências dos seguintes profissionais [&#8230;]]]></description>
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<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/th102411261851</p>



<hr class="wp-block-separator has-text-color has-ast-global-color-0-color has-alpha-channel-opacity has-ast-global-color-0-background-color has-background is-style-wide"/>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph">Thaís Cordeiro Puccinelli<strong><sup>1</sup></strong><br>Orientador: Jonas Sales<strong><sup>2</sup></strong></p>



<hr class="wp-block-separator has-text-color has-ast-global-color-0-color has-alpha-channel-opacity has-ast-global-color-0-background-color has-background is-style-wide"/>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RESUMO</strong>: A presente proposta objetiva apresentar reflexões acerca de vivências propostas por algumas danças experimentadas e produzidas para, com, por pessoas com deficiência no Distrito Federal. Configura-se em uma pesquisa empírica como orientadora da pesquisa qualitativa. Como coleta de dados foram abordadas as vivências dos seguintes profissionais da dança: Elisabeth Maia, Rafael Tursi, Sônia Ramalho e Carla Maia. Caminha-se por definições e indefinições sobre dança contemporânea e traça-se, aqui, um paralelo juntamente aos fazeres artísticos dos artistas mencionados. Dessa forma, os resultados apresentam potencial para contribuir com reflexões acerca de dança e de acessibilidade na contemporaneidade como ponte para o fortalecimento e a disseminação da dança com pessoas com deficiência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>PALAVRAS-CHAVE:</strong> Dança – Deficiência – Acessibilidade</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>PENSAMENTOS QUE DANÇAM NA CONTEMPORANEIDADE</strong><strong>: UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO SOBRE A DANÇA CONTEMPORÂNEA</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O propósito desta pesquisa é levantar um campo de possibilidades em dança e acessibilidade em Brasília, Distrito Federal, pois a Capital Federal se mostra terreno fértil para esses saberes e fazeres. Menciono os trabalhos dos grupos Street Cadeirante e Danç’Art Especial e abordo o Pés Teatro-Dança com Pessoas com Deficiência como estudos de caso, uma proposta de diálogo entre as práticas que permeiam os processos pedagógicos, composicionais e estéticos em dança de cada um desses grupos. Inicialmente, abro espaço para pensamentos contemporâneos em dança, entre estudiosos da área para que seja possível direcionar o meu olhar enquanto artista-pesquisadora e localizar a ti, leitor, no tempo-espaço desta leitura. Assim, chegaremos nas danças pesquisadas e produzidas para, com e por pessoas com deficiência. Passando, então, por minha experiência enquanto dançarina e pesquisadora no Pés Teatro-Dança com Pessoas com Deficiência. Para chegarmos em dança e acessibilidade, em Brasília-DF, onde me insiro, acredito que seja importante passarmos pela construção de pensamentos em dança a partir da arte moderna a qual começa a ganhar espaço no final do século XIX e no início do século XX.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com o pesquisador José Rodrigues de Souza (2009), os anos iniciais do século XX foram marcados por grandiosos acontecimentos, os quais mudaram a História: Em 1903, o cinema começa a surgir com a primeira produção de um filme mudo; Guerra Russo-Japonesa em 1904; Em 1905 Albert Einstein sugere a teoria da relatividade, e Freud a teoria da sexualidade; No período de 1914-1918, eclode a primeira guerra mundial, essa concebeu a sociedade o entendimento que a tecnologia e a ciência podem também tirar vidas; Após a guerra na década de 20, o mundo vai bem com o crescimento industrial, hipoteticamente; No ano de 1929, crise econômica mundial; Segunda guerra mundial no período de 1939-1945. E em meio a tal contexto sociocultural, origina-se, então, a Dança Moderna.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">A arte moderna e urbana pretendeu realizar um olhar além do comum, capturar peculiaridades e ir além do convencional. Em princípio, o artista percebe impressões do universo, não apenas interpretando-as, mas soltando-se do seu mundo particular e incluindo-se no todo infinito. (Souza, 2009, p. 66).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, tanto na Europa quanto nos EUA, a arte moderna ganha espaço, acompanhada de seus novos conceitos estéticos como experimentação formal, liberdade criativa, subjetivismo e multidisciplinaridade. E, dos centros urbanos dos Estados Unidos, nasce uma nova forma de pensar e fazer dança: A <em>Modern Dance. </em>Com a ascensão do meio urbano, os corpos tornaram-se mais presentes em tal meio e a Dança Moderna apropria-se, inicialmente, dos movimentos desses corpos de forma que houvesse uma aproximação entre a dança e o cotidiano</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tendo em vista que a dança clássica, foi o referencial de movimento devido ao seu rigor, a sua estética harmônica, graciosa e sua precisão, a Dança Moderna visava libertar os bailarinos das amarras artísticas e dos paradigmas do belo. Tais pensamentos e movimentos geraram julgamentos aos corpos que se aventuravam experimentar novas possibilidades e estímulos, pois eles provocavam, questionavam e instigavam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, a Dança Moderna transformou-se em um meio para despertar sensibilidades, reflexões e emoções. “A dança não era apresentada como simples diversão e sim como manifestação reflexiva do intelecto, através do qual se pretende aumentar o nível da experiência e de comunicação do intérprete ou da plateia.” (Souza, 2009, p. 127), o que acarretou para os dançarinos modernos o exercício constante de pesquisa de movimento. Muitos precursores desse modo de pensar a dança, sistematizaram suas técnicas, pensaram em métodos para desenvolver suas descobertas e utilizaram muito da técnica de improvisação, experimentação e pesquisa pessoal, exceto Isadora Duncan<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a>. De acordo com Bourcier (2011) a sua influência na dança, deu-se por sua atitude e personalidade, visto que Isadora não deixou sistematizada sua técnica, tampouco uma metodologia de ensino.<em></em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>A técnica lhe parece sem interesse: fazer gestos naturais, andar, correr, saltar, mover seus braços naturalmente belos, reencontrar o ritmo dos movimentos inatos do homem, perdidos há anos, “escutar as pulsações da terra”, obedecer à “lei de ‘gravitação’, feita de atrações e repulsas, de atrações e resistências”, consequentemente, encontrar uma “ligação” lógica, onde o movimento não para, mas se transforma em outro, respirar naturalmente, eis seu método. (Bourcier, 2011, p. 248).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Por conta disso, descobriram o uso da contração, a relevância do gesto, a expressividade dos movimentos do torso, quedas e suspensões, exploração do nível baixo, ampliação de movimentos a partir de planos espaciais e diferentes eixos. Em todos os métodos há muito da identidade dos fortes padrões religiosos de seus pesquisadores, os quais buscam autenticar suas coreografias.&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Repudiam a obrigatoriedade de um andar leve, de um desenho coreográfico frontal, de movimentos repetitivos e cíclicos. No entanto, curvou-se a base clássica para, a partir dela, propor novas descobertas para o corpo em movimento. É inegável que seria impossível não fazer uso das descobertas dos mestres de <em>Ballet </em>Clássico e, ao mesmo tempo, reconquistar o sentido de ordem e até de necessidade que a arte propunha. Havia um esforço para realizar uma profunda renovação, mas sempre um arranjo ordenado, velha herança. Em si mesmo, o problema não era novo para a arte. Não se deve perder o foco dessa ambiguidade na Dança Moderna. (Souza, 2009, p. 147).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A partir daí, a dança é livre! Rompe-se, assim, com as sapatilhas de ponta. Os pés entram em contato com o chão, o corpo de baile vai perdendo o espaço para solos e duos e a dança passa a ocupar espaços abertos e públicos. Os movimentos codificados abriram caminho para pesquisas corporais por meio de improvisação, sensação, respiração e modulação expressiva do gesto. Não se tratava de uma forma alcançada, mas sim, da profundidade do processo da dança apresentada. Acreditava-se que, quem se movia livremente encontrava a confiança em si.&nbsp; Acredito que com toda efervescência na arte da dança, o movimento moderno desassociou a concepção de corpo/instrumento de trabalho, uma vez que na Dança Moderna o corpo assume um lugar expressivo, reflexivo, questionador, o corpo é a arte em questão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No que tange a pensamentos contemporâneos em dança e dançarino-obra de arte, a professora e pesquisadora Thereza Rocha, 2004, investiga um estado permanente de dança, estudo que tem com título: “Por Uma (des)Ontologia Da Dança Em Sua (Eterna) Contemporaneidade). Rocha aponta como referência Marcel Duchamp, afamado como pai da arte contemporânea, por sua obra de 1913, A Fonte, que se trata de um mictório invertido apresentado como obra de arte em uma exposição. Segundo Rocha (2004), pós Duchamp, tudo pode vir a ser arte, ou seja, conquistou-se liberdade poética para a criação. A obra de Duchamp nos convida da ir para além do gosto, deixar-se afetar, instigar, questionar, refletir, a própria obra questiona o público o motivo pelo qual aquilo é arte. Sob o imediatismo que vivemos, a arte na contemporaneidade propõe ao espectador algum tipo de reflexão. A partir de signos e significados, a dança acontece quando chega no outro, não necessariamente comunica algo objetivo, mas instiga, acredito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considero, então, que a dança contemporânea é uma dança para cada corpo, para qualquer corpo, podendo chamá-la de autoral, de acordo com cada vivência e experiência gravadas nas células. Sob um olhar contemporâneo da dança, percebo inúmeras possibilidade geradas pela pluralidade, diversidade e mobilidade, uma vez que o sujeito contemporâneo apresenta a multiplicidade, assim como o hibridismo como característica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O artista contemporâneo da dança está em constante pesquisa. Ao fazer dança, ele é impulsionado a revisitar o nascimento da sua proposta.&nbsp; Para que então possa apresentar em cena, na sala de ensaio ou em sala de aula, o mote de sua investigação, processo íntimo e profundo de cada dançarino. A corporeidade está diretamente relacionada com o estado visceral atingido pelo artista, do interno para o exterior, não mais a partir de uma forma. A dança contemporânea propõe ao dançarino a criação de sentidos e significados para que seja potencializada a sua singularidade e pode, a meu ver, contribuir com a formação de artistas/cidadãos que refletem e contextualizam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao refletir acerca das provocações de Rocha (2004) e Souza (2009), foi possível traçar um paralelo no que tange a Dança Moderna e a dança contemporânea. A modernidade, como um período histórico e cronológico, apresenta-se em uma sequência de moderno, pós-moderno e contemporâneo. No entanto, penso que, as danças contemporâneas e modernas, devido à natureza autoral de ambas, assim como de criações de sentidos, não se dissociam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, baseada nos pensadores acima, acredito que o pensamento crítico seja o que alimenta o fazer artístico sob um olhar contemporâneo. É ingênuo classificar ou conceituar a dança, pois podemos correr o risco de limitar o seu devir artístico, a dança contemporânea não se revela, não se traduz e não se explica. Sua poética eternamente contemporânea subverte o período cronológico, ela é contemporânea por suas características de possibilidades múltiplas e isso independe do tempo, as indefinições apontam as condições do tempo contemporâneo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A DANÇA E ACESSIBILIDADE NO DISTRITO FEDERAL</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A dança no Distrito Federal é rica e diversa e vêm refletido a cultura e a identidade da jovem capital brasileira, Brasília. A partir de sua construção entre 1956 e 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek, muitas pessoas e culturas de diferentes regiões do País chegaram por aqui. Uma efervescente influência de danças populares de outras regiões brasileiras foram trazidas por migrantes, como: samba, forró e quadrilha junina. A dança desempenha um papel significativo na cultura do DF e possibilitou a formação de muitas gerações de artistas, professores, dançarinos e pesquisadores nessa área de conhecimento. Sua diversidade social e cultural preserva tradições, incentiva fazeres artísticos por meio de fomentos públicos, pela graduação em Licenciatura e promove, também, o protagonismo de dançarinos com deficiência. Sobre os primeiros movimentos aqui dançados, Juliana Castro, Dançarina e professora, comenta:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">21 de abril de 1960. A cidade mal nascera e o ballet já estava por aqui, nas festividades de inauguração de Brasília, sob o olhar atento de JK, um grupo do Rio de Janeiro estreou o cerrado como palco. Entre aquelas jovens, Gisele Santoro brilhava. Apenas 3 anos depois, Brasília que era palco se tornou casa e a jovem nunca mais saiu. Foram anos mesmo especiais. Na mesma época desembarcaram no planalto Regina Maura, Norma Lilia, Rosana Assad, Lúcia Toller e Ofélia Corvello, com elas os primeiros ballets de repertório e a paixão do público. A dança secular também gerou frutos candangos. Daniela Amorim, Mônica Berardinelli, Rodrigo Mena Barreto, Regina Corvello, Beth Lissa, Gisele Santoro Filha, Flávia Tavares e Júnior O’hara são apenas alguns exemplos. Graças ao ballet que Brasília é sede há mais de 20 anos do Seminário Internacional de Dança que apresenta, anualmente, talentos de diversos países na Capital. (CASTRO, 2014, p.12)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Mas só 33 anos depois de sua fundação, em 1993, a partir da chegada de Elisabeth Maia, do Rio de Janeiro para Brasília, dançarina, fisioterapeuta, pesquisadora e, hoje, docente da Licenciatura em Dança no Instituto Federal de Brasília (IFB), que a trajetória da dança no DF ganha novas perspectivas. Maia “foi pioneira na implantação da dança no processo de reabilitação hospitalar na Rede Sarah de Hospitais.” (PIZARRO, 2022, p.196). Sobre a abertura de caminhos para a dança e acessibilidade, em entrevista ao pesquisador Diego Pizarro, Maia conta:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Em 1992 eu e Bruce<a href="#_ftn3" id="_ftnref3">[3]</a> nos conhecemos e em 1993 eu vim e iniciei o movimento em busca de uma instituição para desenvolver uma dança sensível com pessoas que se locomovem em cadeiras de rodas. Eu tinha uma série de vídeos<a href="#_ftn4" id="_ftnref4">[4]</a> dançando com o Bruce e, de um papo com um grande amigo, Humberto Brasiliense, surgiu a ideia de apresentar o trabalho para o Hospital Sarah. A princípio, levei a proposta de trabalhar no hospital com as pessoas que tinham lesão medular, pois era o que eu conhecia naquele momento. Eu não era fisioterapeuta ainda, era dançarina formada pela Angel. O Sarah bancou a ideia para que eu desenvolvesse um projeto-piloto por seis meses com os pacientes que eram do Hospital Dia e alguns da enfermaria, também. A partir desse movimento o Hospital criou o cargo de professor de dança, abrindo concurso em 1994. Bruce vinha ao meu encontro periodicamente auxiliando-me no processo de implantação do trabalho, como parte do programa de reabilitação da rede em Brasília e Salvador. A Rede Sarah, nessa época, estava em plena expansão. (PIZARRO, 2022, p. 199).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, a partir de técnicas da dança Contato-Improvisação <a href="#_ftn5" id="_ftnref5">[5]</a>como o toque, peso, relação e sensação, Maia iniciou uma nova forma de olhar, pensar e realizar dança no DF, a reabilitação de pessoas com deficiência. Assim, arou a terra, preparou o terreno, para que uma nova geração de dançarinos e professores pudessem germinar suas ideias, projetos e, então, crescer, como é o caso de Sônia Ramalho, Carla Maia e Rafael Tursi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<strong>DANÇ’ART ESPECIAL</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A Danç’art Especial é uma associação, sem fins lucrativos, que tem como missão romper a barreira do preconceito por acreditar que as pessoas são capazes de, ao estabelecer o contato com a arte, expor aquilo que as torna únicas, a sua individualidade, de acordo com a sua idealizadora Sônia Ramalho. Proporciona aos integrantes autonomia para se expressarem poeticamente, também promove ações de defesa dos direitos da Pessoa com Deficiência, visando à construção de uma sociedade justa, inclusiva e solidária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Com atividades ininterruptas desde 2008, a Dancárt se propõe a promover a inclusão social de pessoas com deficiência por meio da dança. A associação trabalha com a individualidade de cada estudante, respeitando suas singularidades e limitações, sejam elas motora, intelectual ou sensorial. Sônia recebe pessoas a partir de um ano de idade para vivenciar aulas de dança e teatro permeados por princípios de psicomotricidade e dança em cadeira de rodas (DCR), todos associados à estimulação cognitiva, sensorial e atividades lúdicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A associação ganha força junto aos seus aliados, profissionais voluntários que sensibilizam o seu público alvo, advindos de grandes periferias do DF como as Regiões Administrativas de Samambaia, Riacho Fundo I e II e Recanto das Emas onde é sediada, com acesso gratuito as aulas e demais serviços ofertados, como atendimento com nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo, fonoaudiólogo, aulas de música e prática de yoga como objetivos para uma formação digna e usufruto de seus direitos enquanto cidadãos. No que diz respeito às aulas, Ramalho (2023) diz que: &nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">A proposta de trabalho é trazer aos integrantes do projeto, oficinas que sejam prazerosas, divertidas e significativas. Que possam trazer independência, respeitando os limites de cada um dentro de sua individualidade, além de preocupar-se pela conquista de uma melhor qualidade de vida para a rotina dos integrantes e suas famílias. (RAMALHO, Sônia. Entrevistadora: Thaís Cordeiro. 07 fev. 2023).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Vale ressaltar que, para além das aulas e dos atendimentos, a Danç’art Especial também direciona o seu trabalho para criações de espetáculos com referências debruçadas no método Teatro do Movimento<a href="#_ftn6" id="_ftnref6">[6]</a> de Lenora Lobo e Cássia Navas assim como no Movimento Humano de Rudolf Laban<a href="#_ftn7" id="_ftnref7">[7]</a>. “Nosso método é não decorar sequências de movimentos e sim, deixar cada um expressar os movimentos respeitando seu ritmo e limites. Experimentar os movimentos corporais dentro das suas possibilidades e nas suas capacidades de realizá-los.” (RAMALHO, 2023).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que tange à metodologia de trabalho, é priorizada uma avaliação individual e um planejamento personalizado. “Como resultado nos deparamos com satisfatório desenvolvimento cognitivo, estímulos a independência e autoestima, melhoria na qualidade de vida e integração social.”, segundo Ramalho (2023).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Os planejamentos são construídos e direcionados depois de uma anamnese e dos relatos dos pais, relatórios médicos e a deficiência. Após esse momento de acolhimento, é proposto atividades de laboratórios mais individualizadas, onde os alunos são avaliados e com as análises detalhadas vou direcionando os atendimentos para alcançar os objetivos propostos. (RAMALHO, Sônia. Entrevistadora: Thaís Cordeiro. 07 fev. 2023).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, a associação Danç&#8217;art Especial tem um impacto social profundo e transformador, promovendo inclusão, desenvolvimento cognitivo e motor para pessoas com deficiência através do corpo em movimento. Além de estimular autoestima, confiança e acesso à arte, contribui para reduzir estigmas sociais capacitistas e fortalece laços familiares. A longo prazo, nesses 16 anos de desenvolvimento, a associação se propõe a empoderar crianças, jovens e adultos com deficiência, assim promove mudanças culturais e melhora a qualidade de vida de seus integrantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>STREET CADEIRANTE</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A Cia Street Cadeirante é uma Companhia de dança inclusiva, pioneira em Brasília, que oferece aulas de dança, presenciais e remotas, para pessoas com deficiência física. Fundada em 2018 pela dançarina e jornalista Carla Maia. A Cia, segundo sua fundadora, tem como objetivo principal promover a inclusão social por meio da dança, oferecendo um espaço seguro e acolhedor para que pessoas com deficiência possam expressar-se artisticamente. O grupo oferece aulas de danças urbanas com movimentos adaptados para os corpos em cadeiras de rodas, possui coreógrafos experientes no cenário local e nacional que provocam diferentes linguagens dentro das danças urbanas a fim de ampliar o repertório corporal dos dançarinos. De acordo com Carla Maia, 2023:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">O Street nasceu porque eu queria que outras cadeirantes, assim como eu, tivessem a oportunidade de dançar com prazer. Me permitiu um reencontro com a minha alma. Eu era apaixonada pela dança e a perdi ao ficar tetraplégica aos 17 anos. O Sreet permitiu me reconectar com quem eu era. Ganhei autoestima, feminilidade, prazer, diversão e propósito. (MAIA, Carla. Entrevistadora: Thaís Cordeiro. 14 fev. 2023).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Maia conta com Chelsie Hill, dançarina com paraplegia, como referência e inspiração nas práticas da Cia que apresentam duas vertentes: a primeira é o Street Show e a segunda é o Street Virtual. Street show se trata de apresentações de performances coreográficas em eventos, festivais, já tendo levado a Cia para apresentar-se em programas de televisão com grande alcance midiático nacional, como: Caldeirão<a href="#_ftn8" id="_ftnref8">[8]</a> do Huck em 2020 e Teleton<a href="#_ftn9" id="_ftnref9">[9]</a> em 2023.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Considero que o Street Cadeirante se destaca por ser coordenado por mim, uma pessoa com deficiência empoderada. Isso permite uma abordagem autêntica e inspiradora. Além de motivar participantes virtuais, busco excelência artística nos shows, demonstrando que o exemplo é o maior motivador. Meu objetivo é oferecer o que busco para mim mesma: oportunidades, crescimento e inclusão. (MAIA, Carla. Entrevistadora: Thaís Cordeiro. 14 fev. 2023).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A Cia Street Cadeirante representa uma nova perspectiva no modo de fazer dança no DF, quebrando barreiras e estereótipos de corpos protagonistas. Desempenha um papel importante na promoção da inclusão social, cultural e artística ao oferecer um espaço adaptado para dança, promover igualdade de oportunidades e empoderamento. Além disso, de acordo com Carla Maia (2023), contribui para a conscientização sobre acessibilidade, diversidade cultural e direitos das pessoas com deficiência. Sua atuação também gera empregos, atrai eventos, gera investimentos e desenvolve terapias alternativas. Como referência nacional, hoje, inspira outros projetos, consolidando-se como um modelo de inclusão e acessibilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>PÉS &#8211; TEATRO-DANÇA COM PESSOAS COM DEFICIÊNCIA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Criado em 2011 pelo Doutorando (2024) em artes Cênicas na Universidade de Brasília e artista educador, Rafael Tursi, a partir de sua pesquisa sobre a criação movimento e análise expressiva do gesto, tendo como referência o multiartista e teórico em dança, Rudolf Laban, que é reconhecido como o pai da dança-teatro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este importante movimento dilui os elementos dessas duas artes cênicas unindo elementos do corpo em movimento, palavra e dramaticidade, vê a possibilidade de aplicá-la para gerar movimentos cotidianos e extracotidianos em cena, dessa forma, investir na repetição, aprofundamento e transformação em poética do cotidiano com pessoas com deficiência por meio das singularidades presentes em cada corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Localizado em Brasília, Distrito Federal, o Pés<a href="#_ftn10" id="_ftnref10">[10]</a> é um projeto de arte-educação com pessoas com e sem deficiência, que pesquisa a criação, provocação, composição e execução do movimento para, com e por pessoas com deficiência, através de técnicas de <a href="#_ftn11" id="_ftnref11">[11]</a>teatro-dança. Vinculado como projeto de extensão da Universidade de Brasília &#8211; UnB, é aberto para todos os públicos, para todos os corpos, com ou sem deficiências, interessados em mover-se que estejam dispostos a mergulhar neste universo de pesquisa em movimento. Em sua atual formação, encontra-se pessoas com diversas deficiências, tais como: intelectuais, físicas, sensoriais, síndromes e deficiências múltiplas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto dançarina e pesquisadora nesse grupo, desde 2018, permito-me demorar nesta análise, pois percebo que muito já se escreveu sobre o Pés, mas há, a meu ver, uma lacuna no que tange à dança produzida e experimentada por ele. Nos últimos 13 anos, o Pés tem se mostrado terreno fértil para produção de pesquisa científica no que diz respeito as temáticas relacionadas à acessibilidade, corpos com deficiência, processos de composição e afetos. Uma vez que o nosso diretor, Rafael Tursi realizou suas pesquisas de licenciatura, bacharelado, mestrado e, agora, doutorado sobre o assunto e tivemos outros pesquisadores, participantes do grupo, os quais produziram dissertações de mestrado, artigos científicos e monografias de graduação sobre o Pés, sendo GASPAR<a href="#_ftn12" id="_ftnref12">[12]</a>, BALATA<a href="#_ftn13" id="_ftnref13">[13]</a> e RIBEIRO<a href="#_ftn14" id="_ftnref14">[14]</a> algumas dessas pesquisadoras. Com isso, a universidade sempre esteve próxima aos processos de criação, educação e pesquisa do Pés. Percebo, em mim, uma identificação e um desejo que pulsa, como integrante do grupo, de aprofundar as investigações sobre dança, por entender que o respaldo acadêmico fortifica os discursos e as poéticas dos fazeres. Além disso, a pesquisa aqui recortada se dá pelo potencial de fortalecer e valorizar as produções em dança, assim como contribuir com o cenário acadêmico em dança e acessibilidade no Distrito Federal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para além do desejo de estar em cena, da prática artística, sinto que o grupo caminha por um fazer que presa pela profundidade da simplicidade e sensibilidade. Assim, pergunto, que dança, quais danças dança o Pés? Investigo a dança que é pesquisada e produzida, nesses treze anos de trabalho, dessa dança que nasce do aprofundamento em grupo, da força do coletivo, das relações e da poesia de corpos diversos na sala de ensaio. Dos processos de composição coreográfica, pesquisas de movimentos, composição em tempo real, questiono, o que move os corpos, dilata os poros, o tempo e as percepções de multiplicidade e singularidade de cada corpo que dança?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse estudo se configura em uma pesquisa de abordagem qualitativa, por meio do método <em>Prática como Pesquisa</em>, a partir de vivências com o grupo, no qual a prática conduz o caminho teórico e reflexivo a seguir. Nesse contexto, existe uma aproximação entre as práticas corporais e teóricas, uma retroalimentação, busca-se validar os saberes corporais e criativos como proponentes dos conteúdos a serem investigados. Sobre a prática como pesquisa, a pesquisadora Fernandes afirma:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">As artes hoje têm meios de estabelecer seus próprios métodos e abordagens, atualizando contextos e desmontando preconceitos ultrapassados de pesquisa que nos usam como objeto para discutir mudanças dentro de formatos engessados, portanto sem condições efetivas para realizá-las. Assumindo nossos próprios métodos, nos tornamos sujeitos de nossa própria história, e podemos inverter essa lógica colonizadora e hegemônica e passar a influenciar os demais campos em meios e modos bem mais flexíveis e coerentes com uma (nova) realidade contemporânea. <a>(FERNANDES, 2014, p.78)</a></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Fernandes (2014), sobre a prática como pesquisa, escrevo com a dança e não sobre a dança, uma vez que teoria e prática se aproximam, não há sobreposições, nesse caso. Deixar os sujeitos de pesquisa falarem para além do teórico, tendo em vista o pressuposto para uma pesquisa criativa, falar a partir do que já existe e, assim, validar os saberes corporais e criativos como proponentes de conteúdo a serem investigados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, transpondo as criações coreográficas para o campo das ideias, da escrita, me reúno com o Pés para refletir, pesquisar, praticar, criar e investigar as danças que surgem em diálogo com a arte inclusiva, em dois encontros fixos, totalizando quatro horas semanais de trabalhos práticos. Dessa forma, me é possível abordar e discutir, juntamente ao grupo, questões relacionadas a presente proposta de pesquisa para entender que dança é essa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acredito que o processo relacional do indivíduo com o mundo se dá por meio de suas experiências e percepções. Partindo desse ponto de vista, por ter as atividades abertas e direcionadas a toda comunidade do DF e entorno, e com foco no desenvolvimento da integralidade e da socialização dos indivíduos, o Pés mobiliza o acesso à arte e pesquisa. Dessa forma, a dança ali praticada se faz necessária pela urgência social e cultural em promover uma sociedade mais igualitária, combater estereótipos de corpos que podem ou não dançar, valorizar as diversidades, gerar autonomia, protagonismo e força de trabalho das pessoas com deficiência, além da sensibilização em arte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na contemporaneidade conquistamos a diversidade e autonomia de corpos que dançam, no entanto, vale lembrar que até o século XVII os corpos foram marcados pelo mecanicismo e que abarcaram a tradução de corpos dóceis de Michel Foucault (1987), tal tradução está relacionada a corpos submissos, corpos como objetos de controle, moldados.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Houve, durante a época clássica, uma descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. Encontraríamos facilmente sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo – ao corpo que se manipula, se modela, que treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas forças se multiplicam. (FOUCAULT, 2009, P. 03).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">De lá para cá muito se caminhou nesse pensar o corpo, mas reflito fortemente que, ainda, há receitas prontas de como compor as coreografias as quais priorizam repetição de movimento por imitação, robotização e <em>dessubjetivação</em> do indivíduo o que corrobora com a subordinação e apagamento de singularidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Destaco, também, que se a técnica está a serviço de um determinado gênero de dança, ela pode instrumentalizar corpos, tornando-os submissos. Percebo que a dança produzida no Pés vai de encontro ao do que é, comumente, considerado belo e virtuoso no que diz respeito a execução de movimentos codificados e sistematizados ao longo dos anos. E vai ao encontro do estranhamento, do atravessamento do que pode ou não pode ser apresentado como dança e de quem pode dançar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em diálogo com Michael Foucault, sobre corpos e submissão, Siqueira pontua:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">A disciplina fabrica corpos submissos e exercitados, corpos dóceis; aumenta a sua força em termos econômicos de utilidade e diminui sua força em termos políticos de obediência; submete o corpo a um determinado tempo e a um espaço especifico. (SIQUEIRA, 2006, p. 58).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, vejo a necessidade de investigar, discutir, documentar e fortalecer o que se é produzido em dança no Pés, a partir de reflexões práticas-teóricas, para que seja cada vez mais comum dançarmos com pessoas com deficiência e pensarmos a dança e acessibilidade. Assim, de passinho em passinho, abandonar o olhar capacitista que inviabiliza, estereotipa, paternaliza e exclui o diferente para ampliar a discussão de que todos os corpos dançam e isso independe das suas condições intelectuais e físicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tursi (2014) reflete que no Pés teatro-dança com pessoas com deficiência há reabilitação por meio da sensibilização e provocação corporal, dessa forma, é possível que movimentos sejam despertados ou recuperados. No entanto, o objetivo do diretor é na pesquisa de criação e composição artística, na poesia gerada em cena. Rudolf Laban contribuiu significantemente para os experimentos em dança no Pés.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Para Laban, a dança é o meio de dizer o indizível, da mesma forma que a característica da poesia é ultrapassar o sentido estrito das palavras. Acredita que a dança seja um meio de introspecção profunda: revela ao homem suas tendências fundamentais; a partir deste ponto, projeta-o para o futuro, fazendo-o pressentir sua personalidade virtual, que poderia realizar indo até o fim de suas pulsões. (Bourcier, 2011, p. 295).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">As subjetividades das danças no Pés estão diretamente relacionadas com o estado de presença atingido pelos artistas, com e sem deficiência, do interno para o externo. Tursi propõe aos dançarinos a criação de sentidos e significados para que sejam potencializadas as suas singularidades em cena. Assim, contribui com a formação de artistas/cidadãos que refletem e contextualizam com o corpo e/ou pensamento e permite que todas as pessoas se expressem e colaborem artisticamente. Os processos de integração, sensação, movimento e relação resultam da experiência de cada um.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jussara Miller, pesquisadora em dança, no que tange à integração de sensibilidade e experiência:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">O corpo que dança permite o sensível com toda a sua gama de possibilidades de sensações e reverberações variadas de imagens e significados. Essas percepções são incorporadas pelo artista em criação e ação cênicas, a partir de suas vivências e experiências, como tatuagens em movimento, revelando que o seu corpo é vestido de seus vestígios (MILLER, 2010, p. 96).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, os pensamentos de Jussara Miller, que aqui pontuo, retiram os dançarinos de seu lugar comum no processo de criação e composição em dança, pondo-os como elementos fundamentais para o processo, a partir do conhecimento sensível. Acredito que, para que possamos compreender esses conhecimentos a partir das sensações seja imprescindível que estejamos atentos no momento presente, observar e ouvir o meu corpo e os outros. Pensando nas sensações e singularidades de cada corpo e, ainda, na dança que é pesquisada no Pés para que seja possível acessar sensações, intenções, corporeidades, para que o corpo cênico seja repleto de sentidos, Lima (2006, p. 08), chama de desocultamento, o que significa revelar, dar luz ao que não foi percebido:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Definir a técnica como uma maneira de desocultamento significa entender a essência da técnica como verdade do relacionamento do homem com o mundo e não mais algo exterior e exclusivamente instrumental, mas a maneira como o sujeito apropria-se e aproxima-se da natureza, trata-se de um fato histórico onde cada civilização mantém sua singular maneira e propósito de desocultamento.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, desocultar, desvelar e desnudar as camadas, os muitos eus e muitos nós, para que seja possível tomar para si as provocações e inquietações advindas da dança. Pause. Respire. Respire. Organize a sua coluna vertebral. Trace uma linha imaginária do seu cóccix à nuca. Perceba o ar entrando e saindo de seus pulmões. Observe os fluídos dançando em seu corpo. Ouça o espaço. Respire. Feche os olhos. Repita. Sigamos!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>PÉS QUE DANÇAM NA DIVERSIDADE</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">No decorrer desta trajetória compreendi que a dança e acessibilidade produzida no Distrito Federal, representada aqui, a partir do estudo de caso de Elisabeth Maia, Sônia Ramalho, Carla Maia e Rafael Tursi, apesar das suas diferenças pontuadas no que se refere a metodologias e resultados estéticos, seja essa dança para, com ou por pessoa com deficiência, ela é necessária, é única para cada corpo, autoral, de acordo com cada vivência e experiência gravada nas células. Para que possamos melhor visualizar, onde cada proposta se aproxima ou se afasta, proponho o seguinte quadro:</p>



<figure style="font-size:10px" class="wp-block-table"><table class="has-fixed-layout"><tbody><tr><td>&nbsp;</td><td>Projeto</td><td>&nbsp;Criação</td><td>Público alvo</td><td>Idade</td><td>Referências</td><td>Resultados</td></tr><tr><td>Elisabeth Maia</td><td>Dança na Rede Sarah de Hospitais</td><td>1993</td><td>Pacientes com deficiências</td><td>Todas</td><td>Dança Contato-Improvisação</td><td>Reabilitação e pesquisa</td></tr><tr><td>Sônia Ramalho</td><td>Danç’Art Especial</td><td>2008</td><td>Pessoas com deficiências</td><td>A partir de 01 ano</td><td>Teatro do Movimento</td><td>Inclusão, socialização e espetáculos artísticos</td></tr><tr><td>Carla Maia</td><td>Street Cadeirante</td><td>2018</td><td>Cadeirantes</td><td>Todas</td><td>Danças Urbanas</td><td>Performances e shows</td></tr><tr><td>Rafael Tursi</td><td>Pés teatro-dança com pessoas com deficiência</td><td>2011</td><td>Pessoas com e sem deficiências</td><td>A partir de 12 anos</td><td>Dança-Teatro</td><td>Arte, educação e pesquisa</td></tr></tbody></table></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Os meus pensamentos têm dançado e desassociaram a concepção de corpo enquanto instrumento a serviço de uma técnica. Uma vez que, na contemporaneidade a qual vivenciamos, o corpo assume um lugar subjetivo, reflexivo e provocador, o corpo é a arte em questão. Sigo instigada pela necessidade de dançar e “sair do jogo dos pressupostos que diz: Sabemos o que é dança a partir daí, para dizer: A dança não se sabe. A dança não se sabe nunca. Voltemos sempre aí.” (ROCHA, 2009, p. 5).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa demanda trazida por Rocha sobre revisitar os inícios e se permitir questionar, me provoca sobre que dança/quais danças movimentam os corpos com deficiência no DF, no entanto, ao longo deste processo, entendi que é ingênuo classificar ou conceituar danças, pois seu devir artístico está em movimento constante de expansão e transformação, um fluxo permanente do vir a ser, tornar-se. A dança contemporânea, bem como a pesquisa a qual me refiro, não se revela, não se traduz e não se explica, no entanto, se questiona constantemente. Sua poética eternamente contemporânea subverte o período cronológico, ela é dança por suas características e possibilidades transdisciplinares, isto é, integra conhecimentos e transcende barreiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, percebo essas danças como experiências. Não se tratam de técnicas sistematizadas, ainda, com início, meio e fim, elas passam pela experiência de cada corpo no momento presente. Essas danças podem ser o ar que passa, alimenta, preenche e transforma cada corpo, o tempo e o espaço. Sigo provocada por Rocha (2009), para quem a dança não se sabe, voltar sempre ao início de que não se sabe nunca, é um fluxo constante de corpo e pensamento em movimento e transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como sugerido ao longo deste estudo, as descobertas sugerem que as danças em corpos com deficiência se mostram essenciais para atender à urgente demanda sócio-cultural de promoção da acessibilidade. Ao produzir arte inclusiva há significante contribuição em transformação social a partir de equidade, protagonismo e quebra de estereótipos de pessoas com deficiência em cena. Há, também, contribuição cultural quando se promove diversidade artística, representatividade de minorias e inovação de linguagens. Além de valorizar artistas brasilienses com deficiência, o Distrito Federal se consolida como referência nacional em dança acessível, promovendo igualdade de oportunidades e celebração da diversidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BALATA, Ana Maria da Silva. <strong>Interações entre arte e tecnologia: relatos históricos da criação cênica no isolamento social</strong>. 2020, 50f., il. Monografia (Bacharelado em Artes Cênicas) —Universidade de Brasília, Brasília, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOURCIER, Paul. <strong>História da Dança no Ocidente</strong>. São Paulo: Martins Fontes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CASTRO, Juliana. <strong>Fragmentos da dança. </strong>Brasília, DF: Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FERNANDES, Ciane. <strong>Pesquisa Somático-Performativa: Sintonia, Sensibilidade, Integração.</strong> ARJ Brasil, Vol. ½, p. 76-95. jul./dez. 2014</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCALT, Michel. <strong>Vigiar e Punir: nascimento da prisão.</strong> vol. 1, tradução de Raquel Ramalhete. 37.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">GASPAR, Mônica. <strong>Processos composicionais de espetáculos com grupos misto-colaborativos</strong>. 2020. 189 f., il. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas)</p>



<p class="wp-block-paragraph">—Universidade de Brasília, Brasília, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GITELMAN, Claudia. <strong>Dança moderna americana: um esboço</strong>. In Pro-posições. Vol. 9 N°. 2 (26), 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MILLER, Jussara. <strong>Qual é o corpo que dança? Dança e educação somática para a construção de um corpo cênico</strong>. Campinas, SP: [s.n.], 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PIZARRO, Diego. <strong>Contato-Improvisação no Brasil: trajetórias, diálogos e práticas.</strong> Brasília, DF: Athalaia, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RIBEIRO, Maria da Guia Carolina Rodrigues. Corpos com deficiência em cena. 2024. 110 f. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas) – Instituto de Filosofia, Arte e Cultura, Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RODRIGUES DE SOUZA, José Fernando. <strong>As origens da Modern Dance: Uma análise sociológica</strong>. São Paulo: UCAM, 2009.ROCHA, Thereza. <strong>Por Uma (des)Ontologia Da Dança Em Sua (Eterna) Contemporaneidade.</strong> Cadernos Virtuais de Pesquisa em Artes Cênicas, v. 2009, p. 754/690, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira. <strong>Corpo, comunicação e cultura: a dança contemporânea em cena.</strong> Campinas, SP: Autores associados, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TURSI, Rafael. GASPAR, Mônica. BALATA, Ana. <strong>Projeto Pés Teatro-Dança com Pessoas com Deficiência.</strong> Brasília, DF: Pró-Consciência, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TURSI, Rafael. <strong>Meu corpo, teu corpo e es te outro: visitando os processos criativos do Projeto Pés</strong>. Braíslia, DF. Dissertação (Mestrado em Arte) – Universidade de Brasília, Brasília, 2014.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ENTREVISTAS</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAIA, Carla. Entrevista concedida a Thaís Cordeiro Puccinelli. 14 fev. 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAMALHO, Sônia. Entrevista concedida a Thaís Cordeiro Puccinelli. 07 fev. 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TURSI, Rafael. Entrevista concedida a Thaís Cordeiro Puccinelli. 25 nov. 2023.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Thaís Cordeiro é artista da dança, professora, pesquisadora e produtora cultural. Mestranda em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília e Licenciada em Dança pelo Instituto Federal de Brasília. Dançarina, Pesquisadora e Coordenação do grupo PÉS: Teatro-Dança com Pessoas com Deficiência. Para saber mais, acesse o seguinte endereço: &nbsp;http://lattes.cnpq.br/7234167449647655</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Isadora Duncan foi uma&nbsp;coreógrafa&nbsp;e&nbsp;bailarina&nbsp;norte-americana, considerada a precursora da&nbsp;dança moderna.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref3" id="_ftn3">[3]</a> Bruce Curtis, dançarino e pesquisador, com tetraplegia, da dança Contato-Improvisação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref4" id="_ftn4">[4]</a> Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=mSNpaaiLYmc</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref5" id="_ftn5">[5]</a> A dança Contato-Improvisação foi desenvolvida em 1972 por um grupo de pessoas em residência artística em Nova Iorque, sob a orientação do dançarino Steve Paxton.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref6" id="_ftn6">[6]</a> Teatro do Movimento é um método de dança desenvolvido pelas pesquisadoras&nbsp; Lenora Lobo e Cássia Navas. Acesse em: https://pt.scribd.com/document/338266679/Teatro-Do-Movimento</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref7" id="_ftn7">[7]</a> Rudolf Laban, foi um dançarino, coreógrafo, teatrólogo, musicólogo, intérprete, considerado como o maior teórico da dança do século XX e como o &#8220;pai da dança-teatro”. Acesse em: http://wikidanca.net/wiki/index.php/Rudolf_von_Laban</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref8" id="_ftn8">[8]</a> Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=REYdBAMWo5E</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref9" id="_ftn9">[9]</a> Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=bdw2aq1wmVQ</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref10" id="_ftn10">[10]</a> Para saber mais sobre PÉS Teatro-Dança com Pessoas com Deficiência, acesse o seguinte endereço: https://www.projetopes.com/quem-somos</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref11" id="_ftn11">[11]</a> Teatro-Dança: Conceito o qual se fala muito na sala de ensaio do PÉS, no entanto, ainda não há uma definição acadêmica e reconhecida pelos pares acerca do assunto. Pois, Rafael Tursi, desenvolve e aprofunda essa discussão, atualmente, em seu processo de Doutoramento no Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref12" id="_ftn12">[12]</a> Acesse em: chrome extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/http://icts.unb.br/jspui/bitstream/10482/40210/1/2020_M%C3%B4nicaFerreiraGaspardeOliveira.pdf</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref13" id="_ftn13">[13]</a> Acesse em: https://olharesceliahelena.com.br/olhares/article/view/195/140</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref14" id="_ftn14">[14]</a>Acesse em: https://www.repositorio.ufop.br/items/324e7be4-8d5f-4a92-8624-9e96080c3c0b/full</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide"/>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph">[1] Thaís Cordeiro é artista da dança, professora, pesquisadora e produtora cultural. Mestranda em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília e Licenciada em Dança pelo Instituto Federal de Brasília. Dançarina, Pesquisadora e Coordenação do grupo PÉS: Teatro-Dança com Pessoas com Deficiência. Para saber mais, acesse o seguinte endereço: &nbsp;http://lattes.cnpq.br/7234167449647655</p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"> Esta pesquisa foi realizada no contexto de fomento do Decanato de Pós-Graduação da Universidade de Brasília, edital DPG Nº 0001/2022, apoio à execução de projetos de pesquisas científicas, tecnológicas e de inovação de discentes de pós-graduação, sob orientação do Professor Doutor Jonas Sales, acesse em: &nbsp;http://lattes.cnpq.br/0807637225346047</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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