TRENDS IN TUBERCULOSIS RATES IN THE STATE OF PARÁ: MUNICIPAL ANALYSIS (2017–2024)
TENDENCIAS DE LAS TASAS DE TUBERCULOSIS EN EL ESTADO DE PARÁ: ANÁLISIS MUNICIPAL (2017-2024)
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512041102
Andrei Barbosa de Sá1
Elaine Cristina Simões do Vale2
Mara Alexandra Faria Mourão3
Orientadora: Eliane Leite da Trindade4
Coorientadora: Caroline Ferreira Fernandes5
RESUMO
Introdução: A tuberculose (TB) é uma doença infectocontagiosa causada pelo Mycobacterium tuberculosis, sendo os pulmões os órgãos mais afetados. No entanto, a TB também pode acometer os rins, a pele, os ossos, os gânglios linfáticos e diversos outros órgãos e tecidos. A transmissão ocorre pela via aérea, por meio da inalação de aerossóis que contêm os bacilos, os quais são expelidos pela tosse, espirro ou fala de indivíduos com TB pulmonar ou laríngea. Estudos indicam que o bacilo pode permanecer no ambiente por até oito horas, sendo esse tempo maior em ambientes pouco ventilados e sem circulação de ar. É importante destacar que apenas as pessoas com a forma ativa da doença e bacilíferas são capazes de transmitir a TB. Objetivo: Analisar a evolução dos índices de tuberculose nos municípios do estado do Pará no período de 2017 a 2024, identificando tendências, variações regionais e possíveis fatores associados. Metodologia: O estudo será do tipo epidemiológico descritivo, retrospectivo, com abordagem quantitativa. O estudo foi realizado por meio de análise de dados disponibilizados pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Serão extraídos registros referentes ao perfil epidemiológico da tuberculose no Estado do Pará, no período de 2017 a 2024, incluindo informações sociodemográficas, clínicas e laboratoriais. Os dados serão baixados em formatos compatíveis para análise estatística (CSV ou XLS) e organizados em planilhas. Serão analisadas informações de casos de tuberculose por residência no Estado do Pará entre 2017 e 2024. Resultados: A análise temporal dos casos de tuberculose notificados no Estado do Pará entre os anos de 2017 e 2024 evidencia a persistência da doença como um importante problema de saúde pública. Apesar dos avanços no diagnóstico e tratamento, observa-se uma tendência geral de crescimento no número de notificações ao longo do período, sugerindo expansão da transmissão comunitária e possíveis desafios relacionados à vigilância ativa, adesão terapêutica e barreiras de acesso aos serviços de saúde. Conclusão: O presente estudo evidenciou que, entre 2017 e 2024, a tuberculose no Estado do Pará apresentou distribuição geográfica desigual, com concentração significativa de casos nos municípios da Região Metropolitana I, especialmente Belém, seguido por Ananindeua, Marituba, Benevides e Castanhal. Essa centralização das notificações reflete tanto a maior densidade populacional e a presença de áreas de urbanização acelerada quanto a melhor capacidade de vigilância e diagnóstico instalada nesses centros urbanos
Palavras-chaves: Tuberculose; Perfil Epidemiológico; Pará; Morbimortalidade; Doenças Infectocontagiosas.
ABSTRACT
Introduction: Tuberculosis (TB) is an infectious disease caused by Mycobacterium tuberculosis, with the lungs being the most affected organs. However, TB can also affect the kidneys, skin, bones, lymph nodes, and various other organs and tissues. Transmission occurs through the air, via inhalation of aerosols containing bacilli, which are expelled by coughing, sneezing, or speaking by individuals with pulmonary or laryngeal TB. Studies indicate that the bacillus can remain in the environment for up to eight hours, with this time being longer in poorly ventilated environments without air circulation. It is important to emphasize that only people with the active form of the disease and who are bacilliferous are capable of transmitting TB. Objective: To analyze the evolution of tuberculosis rates in the municipalities of the state of Pará from 2017 to 2024, identifying trends, regional variations, and possible associated factors. Methodology: The study will be a descriptive, retrospective epidemiological study with a quantitative approach. This study was conducted using data provided by the Department of Informatics of the Unified Health System (DATASUS). Records relating to the epidemiological profile of tuberculosis in the State of Pará, from 2017 to 2024, will be extracted, including sociodemographic, clinical, and laboratory information. The data will be downloaded in formats compatible with statistical analysis (CSV or XLS) and organized into spreadsheets. Information on tuberculosis cases by residence in the State of Pará between 2017 and 2024 will be analyzed. Results: The temporal analysis of tuberculosis cases reported in the State of Pará between 2017 and 2024 shows the persistence of the disease as a significant public health problem. Despite advances in diagnosis and treatment, a general upward trend in the number of notifications is observed over the period, suggesting an expansion of community transmission and potential challenges related to active surveillance, therapeutic adherence, and barriers to access to health services. Conclusion: This study showed that, between 2017 and 2024, tuberculosis in the state of Pará presented an uneven geographical distribution, with a significant concentration of cases in the municipalities of Metropolitan Region I, especially Belém, followed by Ananindeua, Marituba, Benevides, and Castanhal. This centralization of notifications reflects both the higher population density and the presence of areas of accelerated urbanization, as well as the better surveillance and diagnostic capacity installed in these urban centers.
Keywords: Tuberculosis; Epidemiological Profile; Pará; Morbidity and Mortality; Infectious Diseases.
RESUMEN
Introducción: La tuberculosis (TB) es una enfermedad infecciosa causada por Mycobacterium tuberculosis, siendo los pulmones el órgano más afectado. Sin embargo, la TB también puede afectar los riñones, la piel, los huesos, los ganglios linfáticos y otros órganos y tejidos. La transmisión se produce por vía aérea, mediante la inhalación de aerosoles que contienen bacilos, que son expulsados al toser, estornudar o hablar por personas con TB pulmonar o laríngea. Estudios indican que el bacilo puede permanecer en el ambiente hasta ocho horas, siendo este tiempo mayor en ambientes mal ventilados y sin circulación de aire. Es importante destacar que solo las personas con la forma activa de la enfermedad y bacilíferas son capaces de transmitir la TB. Objetivo: Analizar la evolución de las tasas de tuberculosis en los municipios del estado de Pará entre 2017 y 2024, identificando tendencias, variaciones regionales y posibles factores asociados. Metodología: El estudio será un estudio epidemiológico descriptivo, retrospectivo y cuantitativo. Este estudio se realizó utilizando datos proporcionados por el Departamento de Informática del Sistema Único de Salud (DATASUS). Se extraerán los registros relacionados con el perfil epidemiológico de la tuberculosis en el Estado de Pará, de 2017 a 2024, incluyendo información sociodemográfica, clínica y de laboratorio. Los datos se descargarán en formatos compatibles con el análisis estadístico (CSV o XLS) y se organizarán en hojas de cálculo. Se analizará la información sobre los casos de tuberculosis por residencia en el Estado de Pará entre 2017 y 2024. Resultados: El análisis temporal de los casos de tuberculosis notificados en el Estado de Pará entre 2017 y 2024 muestra la persistencia de la enfermedad como un problema significativo de salud pública. A pesar de los avances en el diagnóstico y el tratamiento, se observa una tendencia general ascendente en el número de notificaciones durante el período, lo que sugiere una expansión de la transmisión comunitaria y posibles desafíos relacionados con la vigilancia activa, la adherencia terapéutica y las barreras de acceso a los servicios de salud. Conclusión: Este estudio mostró que, entre 2017 y 2024, la tuberculosis en el estado de Pará presentó una distribución geográfica desigual, con una concentración significativa de casos en los municipios de la Región Metropolitana I, especialmente Belém, seguido de Ananindeua, Marituba, Benevides y Castanhal. Esta centralización de las notificaciones refleja tanto la mayor densidad poblacional y la presencia de áreas de urbanización acelerada, como la mejor capacidad de vigilancia y diagnóstico en estos centros urbanos.
Palabras clave: Tuberculosis; Perfil Epidemiológico; Pará; Morbilidad y Mortalidad; Enfermedades Infecciosas.
1. INTRODUÇÃO
A tuberculose (TB) é uma doença infectocontagiosa causada pelo Mycobacterium tuberculosis, sendo os pulmões os órgãos mais afetados. No entanto, a TB também pode acometer os rins, a pele, os ossos, os gânglios linfáticos e diversos outros órgãos e tecidos. A transmissão ocorre pela via aérea, por meio da inalação de aerossóis que contêm os bacilos, os quais são expelidos pela tosse, espirro ou fala de indivíduos com TB pulmonar ou laríngea. Estudos indicam que o bacilo pode permanecer no ambiente por até oito horas, sendo esse tempo maior em ambientes pouco ventilados e sem circulação de ar. É importante destacar que apenas as pessoas com a forma ativa da doença e bacilíferas são capazes de transmitir a TB (SESPA, 2021a).
Os primeiros registros históricos da tuberculose (TB) constam em escritos do médico italiano Girolamo Fracastoro, em 1546, nos quais ele descreveu as características de contágio da doença. Posteriormente, em 24 de março de 1882, o médico alemão Robert Koch apresentou à comunidade científica o isolamento do Mycobacterium tuberculosis, identificando-o como o agente etiológico da TB. Em sua homenagem, o bacilo também é conhecido como bacilo de Koch. Antes da pandemia de COVID-19, a TB era a principal causa de morte por um único agente infeccioso, ultrapassando o HIV/AIDS (WHO, 2021).
Vestígios da TB foram encontrados em restos humanos da era pré-histórica na Alemanha, com relatos que remontam a aproximadamente oito mil anos antes de Cristo (a.C.). Na época, por se tratar de uma doença desconhecida, a tuberculose, assim como diversas outras enfermidades, era frequentemente interpretada como castigo divino. A disseminação da tuberculose pelo mundo foi intensificada com o advento das guerras, que favoreciam o estreito contato entre indivíduos, facilitando a transmissão da doença. É importante ressaltar que, nas últimas décadas, houve avanços significativos no combate à TB, incluindo diagnósticos, tratamentos e estratégias. Contudo, ainda é um importante problema de saúde pública, longe de ser superado (Tavares et al., 2020).
Ademais, enfatiza-se que o diagnóstico da tuberculose é baseado na combinação de vários fatores, incluindo sinais e sintomas clínicos, exames de imagem, testes de laboratório e avaliação da exposição do paciente a outras pessoas infectadas. Além disso, existem vários testes de laboratório que podem ser usados para diagnosticar a patologia, como o teste tuberculínico e a cultura de escarro. É válido ressaltar que o diagnóstico precoce e preciso da tuberculose é fundamental para o tratamento eficaz e a prevenção da disseminação da doença para outras pessoas (Freitas et al., 2022).
Logo, embora seja uma doença tratável e curável, muitos países ainda enfrentam desafios significativos no seu controle, incluindo diagnóstico tardio, tratamento inadequado e resistência aos medicamentos. Assim, delinear um perfil epidemiológico da tuberculose é fundamental para entender a distribuição da doença em uma população específica, identificar grupos de risco, desenvolver estratégias de prevenção e controle e avaliar a eficácia das intervenções de saúde pública, haja vista que tais dados podem ser usados para direcionar esforços de prevenção e controle da tuberculose, bem como questionar a eficácia das intervenções de saúde pública, monitorando as tendências temporais da doença (Arcêncio et al., 2022).
Houve uma redução na incidência da TB entre 2001 e 2015, passando de 41,9 casos por 100 mil habitantes para 34,3 casos por 100 mil habitantes. Destaca-se a incorporação de novas tecnologias, como o teste rápido molecular TRM-TB, que agiliza o diagnóstico, permitindo um aumento da incidência a partir de 2015. No entanto, houve uma queda acentuada na incidência em 2020, devido à pandemia da COVID-19, interferindo diretamente no número de pessoas diagnosticadas, assim como na busca ativa de novos casos e no seguimento do tratamento (Brasil, 2023).
Para Cortez et al., (2021), o Brasil é um país multifacetado, marcado por diferentes regiões com características singulares, destacando-se diferenças sociais, políticas, geográficas, econômicas, etc. No entanto, há um ponto em comum entre as regiões: a maioria da população, 71%, utiliza os serviços públicos de saúde prestados pelo SUS, sendo a porta de entrada fundamental para o diagnóstico e o início do tratamento.
Outro dado importante diz respeito às populações vulneráveis, entre as quais houve um aumento vertiginoso variando de 17.442 a 24.710 casos entre 2015 e 2019. Em seguida, observou-se uma queda a partir desse período, totalizando 20.064 casos em 2021. Nesse intervalo, a frequência dos casos de TB por tipo de população vulnerável, entre 2015 e 2021, variou de 5.860 a 6.773 casos em Pessoas Privadas de Liberdade (PPL); de 1.689 a 1.809 em pessoas em situação de rua (PSR); de 335 a 427 em imigrantes; e de 837 a 1.023 em profissionais da saúde (PS) (Brasil, 2022).
Altas taxas de mortalidade por TB são fortes indicadores de desigualdade em saúde. Sua proporção está diretamente ligada ao acesso precário aos serviços de saúde, resultando em falhas na adesão ao diagnóstico e tratamento ou no diagnóstico em fases avançadas da doença (Arcêncio et al., 2022).
Os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) indicam características semelhantes às médias nacionais nos casos de tuberculose no estado do Pará, predominantemente em homens, especialmente na faixa etária entre 20 e 59 anos. Isso está diretamente associado ao estilo de vida, incluindo exposição ao álcool, uso de drogas ilícitas e exposição a doenças sexualmente transmissíveis (SESPA, 2022).
A maioria dos casos é registrada em áreas urbanas, especialmente nas regiões metropolitanas, marcadas por disparidades sociais, econômicas e sanitárias. Essas regiões, com aglomeração populacional e falta de estruturas adequadas de moradia, contribuem diretamente e indiretamente para o aparecimento dos casos de TB (Freitas et al., 2022).
Para combater a TB no Brasil, foi proposto o “Plano Nacional pelo Fim da Tuberculose como Problema de Saúde Pública”, um documento com metas e estratégias de enfrentamento da doença no país. Ele propõe a redução em 90% do coeficiente de incidência da TB e uma diminuição em 95% do número de mortes pela doença até 2035, em comparação com os dados de 2015. Em termos numéricos para o Brasil, é necessário reduzir o coeficiente de incidência para menos de dez casos por 100 mil habitantes e diminuir a mortalidade pela TB, até 2035, para menos de 230 ao ano (Brasil, 2021).
Esse plano reúne os diferentes cenários brasileiros, considerando não apenas os aspectos epidemiológicos e operacionais, mas também as características socioeconômicas. Ele tem como meta apoiar gestores na compreensão das particularidades de seus territórios, visando compreender as singularidades locais no enfrentamento da TB (Brasil, 2022).
A importância deste trabalho diz respeito, sobretudo, às temáticas da prevenção, promoção, monitoramento e controle da TB no estado do Pará. Visando identificar a distribuição demográfica dos casos diagnosticados nas microrregiões e analisar a série temporal de 2020 a 2024. Identificar as microrregiões com maiores taxas de incidência é essencial, assim como identificar os principais grupos de risco e avaliar a eficácia das medidas de intervenção. Isso permite ajustes nas estratégias de controle, visando maior cobertura e direcionamento para o manejo da doença.
Diante desse cenário, o estudo se justifica pela necessidade de compreender, de forma detalhada, o comportamento epidemiológico da tuberculose no Estado do Pará no período de 2020 a 2024, considerando o impacto da pandemia de COVID-19 sobre o diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos casos. A análise permitirá identificar tendências, áreas e populações mais vulneráveis, bem como avaliar a efetividade das estratégias já implementadas e subsidiar a formulação de políticas públicas mais eficazes para prevenção, controle e redução da morbimortalidade da doença no estado.
Objetivo deste estudo foi descrever a ocorrência Tuberculose nos municípios do estado do Pará no período de 2017 a 2024.
2. METODOLOGIA
O estudo foi do tipo epidemiológico descritivo, retrospectivo, com abordagem quantitativa. Tratou-se de um estudo epidemiológico cujo objetivo foi caracterizar padrões, distribuições e tendências da doença na população estudada, sem intervenção direta sobre os participantes (Rouquayrol, 2021).
Considerou-se como pesquisa descritiva aquela que teve a finalidade de desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, a partir da formulação de problemas mais precisos ou de hipóteses pesquisáveis, que serviram como subsídios para estudos posteriores (Gil, 2019).
Estudos quantitativos frequentemente utilizaram-se de escalas de mensuração de variáveis representativas dos construtos pertinentes ao estudo. Os procedimentos de tradução reversa adotados quando necessário foram descritos no método, ao se tratar das medidas utilizadas, o que conferiu confiabilidade e rigor ao estudo. Além da tradução dos itens, foram empregadas outras técnicas de validação de face do instrumento de pesquisa, como a avaliação por juízes e pesquisadores especializados no tema, para a construção do instrumento (Klotz et al., 2022).
O estudo foi realizado por meio da análise de dados disponibilizados pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Esta plataforma foi reconhecida por sua abrangência e confiabilidade na coleta e no armazenamento de informações relacionadas à saúde pública no Brasil.
A fonte primária de dados foi o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), que registrou os casos notificados de tuberculose em todo o país. Foram extraídos registros referentes ao perfil epidemiológico da tuberculose no Estado do Pará, no período de 2017 a 2024, incluindo informações sociodemográficas, clínicas e laboratoriais. A análise foi conduzida em escala territorial, com atenção especial às diferentes faixas etárias dos pacientes e à distribuição geográfica dos casos no estado.
Para os indicadores que não estavam completos no SINAN, como óbitos ou casos curados, foram utilizados dados complementares do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e dos registros de alta hospitalar do SUS, garantindo maior precisão nos cálculos epidemiológicos.
Foram incluídos no estudo todos os registros de casos de tuberculose notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponíveis no DATASUS, referentes ao Estado do Pará, no período de 1º de janeiro de 2017 a 31 de dezembro de 2024. Foram considerados elegíveis os casos confirmados de tuberculose, independentemente da forma clínica, envolvendo pacientes de todas as faixas etárias e de ambos os sexos. Incluíram-se ainda apenas os registros que continham as informações mínimas necessárias para a análise epidemiológica, tais como data de notificação, município de residência, faixa etária e sexo.
Foram excluídos da base de dados os registros duplicados, os casos notificados fora do período delimitado pelo estudo, bem como aqueles que apresentavam inconsistências ou ausência de informações essenciais que inviabilizassem a análise, como falta de município de residência, data de notificação ou definição da forma clínica. Também foram excluídos os registros provenientes de outros estados ou referentes a pacientes não residentes no Pará, a fim de garantir a fidedignidade da análise territorial proposta.
A coleta de dados será realizada a partir do banco público do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), utilizando os registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) referentes ao Estado do Pará, no período de 1º de janeiro de 2017 a 31 de dezembro de 2024. O acesso às informações ocorrerá por meio da plataforma TABNET/DATASUS, utilizando filtros específicos para tuberculose como agravo de interesse.
Serão extraídas variáveis relacionadas a: Ano de notificação; Município de residência; Sexo; Faixa etária e Raça.
Os dados foram baixados em formatos compatíveis para análise estatística (CSV ou XLS) e foram organizados em planilhas. Antes do início das análises, foi realizada a depuração do banco de dados, com a exclusão de duplicidades e de registros inconsistentes, conforme os critérios de exclusão previamente estabelecidos.
Foram analisadas informações de casos de tuberculose por residência no Estado do Pará entre 2017 e 2024. As variáveis demográficas incluíram faixa etária, cor/raça e escolaridade; o número de casos foi analisado por ano; e os dados clínicos abrangeram classificação operacional, formas clínicas e grau de incapacidade física. Para o cálculo das taxas de detecção, foram utilizados dados populacionais fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), considerando o censo de 2017 e as estimativas populacionais para os anos de 2017 a 2024.
Após a coleta e depuração dos registros provenientes do DATASUS/SINAN, os dados serão organizados e analisados quantitativamente. Para isso, serão utilizados softwares estatísticos apropriados como Microsoft Excel, SPSS ou R — conforme disponibilidade e necessidade das análises. Esses programas permitirão a construção de planilhas estruturadas, aplicação de testes estatísticos, elaboração de gráficos, cálculo de frequências absolutas e relativas, bem como a análise temporal das variáveis epidemiológicas.
O presente estudo foi conduzido em conformidade com as normas éticas e legais vigentes no Brasil, especialmente a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos, bem como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD – Lei nº 13.709/2018), que dispõe sobre o tratamento e a proteção de dados pessoais.
Como a pesquisa utilizou exclusivamente dados secundários, de caráter público e agregado, extraídos das bases do DATASUS/SINAN, não houve qualquer identificação individual dos pacientes. Todas as informações analisadas encontravam-se de forma anonimizada, garantindo sigilo, confidencialidade e ausência de riscos diretos aos indivíduos.
O presente estudo utilizou dados de acesso público e de caráter agregado, provenientes do DATASUS/SINAN, sem identificação de pacientes. Não houve risco físico, psicológico ou social para os participantes, uma vez que todas as informações analisadas estavam desvinculadas de nomes ou documentos de identificação.
Além disso, medidas de sigilo e anonimato foram rigorosamente mantidas durante todo o processo de coleta, organização e análise dos dados. Portanto, o estudo não apresentou riscos diretos aos indivíduos, estando em conformidade com as normas éticas e legais vigentes, incluindo a Resolução CNS nº 466/2012 e a LGPD (Lei nº 13.709/2018). O estudo proporcionou conhecimento científico relevante sobre a tuberculose no Estado do Pará, permitindo identificar padrões epidemiológicos, regiões de maior incidência e fatores sociodemográficos associados à doença.
3. RESULTADOS
A análise dos dados de tuberculose no Pará entre 2017 e 2024 mostra uma tendência crescente de notificações, passando de 4.543 casos em 2017 para 6.829 em 2024. Esse aumento pode estar relacionado tanto à ampliação da capacidade diagnóstica e vigilância quanto a um possível incremento real da transmissão, influenciada por fatores sociais e estruturais do estado.
Gráfico 1: Número total e a média de casos de tuberculose no Estado do Pará no período de 2017 a 2024.

Fonte: DATASUS, 2025
A análise temporal dos casos de tuberculose notificados no Estado do Pará entre os anos de 2017 e 2024 evidencia a persistência da doença como um importante problema de saúde pública. Apesar dos avanços no diagnóstico e tratamento, observa-se uma tendência geral de crescimento no número de notificações ao longo do período, sugerindo expansão da transmissão comunitária e possíveis desafios relacionados à vigilância ativa, adesão terapêutica e barreiras de acesso aos serviços de saúde.
Esse cenário reforça a necessidade de intensificar estratégias integradas de controle, com foco especial na detecção precoce, no acompanhamento sistemático dos casos e na atenção às populações mais vulneráveis. A seguir, apresenta-se a distribuição mensal dos casos notificados de tuberculose no Pará, permitindo observar padrões sazonais e oscilações anuais que auxiliam no planejamento e na tomada de decisão em saúde pública.
Tabela 1: Distribuição da tuberculose por por mês de Notificação no Estado do Pará no período de 2017 a 2024
| Ano da Notificação | ||||||||||
| Mês | 2017 | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | Total | Média |
| Janeiro | 365 | 342 | 393 | 480 | 394 | 456 | 512 | 520 | 3462 | 433 |
| Fevereiro | 337 | 329 | 463 | 432 | 402 | 459 | 428 | 523 | 3373 | 422 |
| Março | 432 | 367 | 443 | 463 | 415 | 519 | 576 | 555 | 3770 | 471 |
| Abril | 354 | 417 | 472 | 360 | 417 | 485 | 514 | 676 | 3695 | 462 |
| Maio | 438 | 402 | 557 | 337 | 437 | 583 | 510 | 615 | 3879 | 485 |
| Junho | 406 | 407 | 467 | 418 | 479 | 550 | 494 | 534 | 3755 | 469 |
| Julho | 343 | 417 | 509 | 433 | 468 | 434 | 525 | 589 | 3718 | 465 |
| Agosto | 381 | 440 | 447 | 396 | 486 | 547 | 551 | 635 | 3883 | 485 |
| Setembro | 396 | 399 | 499 | 422 | 486 | 495 | 518 | 585 | 3800 | 475 |
| Outubro | 351 | 446 | 482 | 407 | 442 | 483 | 519 | 594 | 3724 | 466 |
| Novembro | 398 | 416 | 424 | 432 | 468 | 462 | 531 | 505 | 3636 | 455 |
| Dezembro | 342 | 329 | 369 | 348 | 418 | 477 | 464 | 498 | 3245 | 406 |
| Total | 4543 | 4711 | 5525 | 4928 | 5312 | 5950 | 6142 | 6829 | 43.940 | 5.493 |
Fonte: DATASUS, 2025
Observa-se também um padrão sazonal importante: os maiores registros de tuberculose no Estado do Pará concentram-se entre os meses de março e outubro, com destaque para março, maio, agosto e setembro, que apresentaram as maiores médias no período analisado. Em contraste, os meses de dezembro, janeiro e fevereiro apresentaram menores notificações, possivelmente influenciadas por variações no funcionamento dos serviços de saúde, períodos festivos, fatores climáticos e menor procura espontânea por atendimento no início e final do ano.
O ano de 2020 apresentou leve queda em alguns meses, comportamento compatível com o impacto da pandemia de COVID-19, que reduziu o acesso aos serviços e afetou o diagnóstico oportuno de diversas condições, incluindo a tuberculose. A partir de 2021, verifica-se um movimento de recuperação e posterior crescimento, sugerindo a retomada das ações de vigilância, além de possível acúmulo de casos não detectados durante o período crítico da pandemia.
Essa tendência ascendente se intensifica nos anos subsequentes, alcançando 6.829 casos em 2024, o maior valor de toda a série histórica. Esse aumento pode refletir tanto a restauração da capacidade de detecção pelos serviços quanto um crescimento real da incidência, influenciado por determinantes sociais agravados no contexto pós-pandemia, como desemprego, insegurança alimentar, aumento da pobreza e condições habitacionais inadequadas.
De maneira geral, o comportamento epidemiológico demonstra que a tuberculose permanece como uma doença de alta relevância no Estado, com trajetória ascendente e necessidade de fortalecimento contínuo das estratégias de vigilância, diagnóstico oportuno e gestão do cuidado, sobretudo em populações socialmente vulneráveis.
Gráfico 2: Média mensal de casos da tuberculose no Estado do Pará no período de 2017 a 2024

Fonte: DATASUS, 2025
Entre 2017 e 2024, o Pará vivenciou aumento progressivo dos casos de tuberculose, com destaque para Belém e municípios da região metropolitana, responsáveis por mais de 90% das notificações. A expansão recente (2022–2024) indica recrudescimento da transmissão e possível impacto pós-pandemia. Municípios do interior exibem registros irregulares, sugerindo desigualdade no acesso ao diagnóstico e potencial subnotificação.
Tabela 2: Ocorrência Tuberculose nos municípios do estado do Pará no período de 2017 a 2024.
| Município | Ano da Notificação | |||||||||
| 2017 | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | Total | Média | |
| Belém | 1.802 | 1.734 | 1.895 | 1.702 | 1.866 | 1.990 | 2.157 | 2.589 | 15.757 | 1.967 |
| Ananindeua | 333 | 410 | 505 | 453 | 429 | 468 | 506 | 502 | 3622 | 451 |
| Santa Izabel do Pará | 151 | 221 | 324 | 301 | 288 | 452 | 432 | 303 | 2474 | 309 |
| Marituba | 138 | 200 | 393 | 187 | 179 | 168 | 195 | 213 | 1679 | 209 |
| Santarém | 119 | 170 | 184 | 195 | 148 | 165 | 102 | 207 | 1296 | 161 |
| Castanhal | 124 | 131 | 154 | 125 | 118 | 166 | 147 | 172 | 1138 | 142 |
| Marabá | 91 | 120 | 132 | 123 | 136 | 165 | 133 | 131 | 1032 | 129 |
| Bragança | 68 | 65 | 90 | 70 | 89 | 108 | 136 | 172 | 804 | 100 |
| Parauapebas | 56 | 62 | 96 | 97 | 106 | 113 | 82 | 114 | 728 | 91 |
| Tucuruí | 65 | 70 | 68 | 82 | 74 | 70 | 84 | 109 | 627 | 78 |
| Paragominas | 70 | 71 | 52 | 62 | 70 | 105 | 77 | 91 | 601 | 75 |
| Barcarena | 48 | 60 | 57 | 64 | 75 | 88 | 92 | 71 | 556 | 69 |
| Abaetetuba | 54 | 53 | 55 | 56 | 69 | 85 | 73 | 86 | 532 | 66 |
| Cametá | 57 | 48 | 42 | 53 | 65 | 83 | 81 | 96 | 527 | 66 |
| Outros Municípios | 1236 | 1269 | 1417 | 1326 | 1520 | 1707 | 1827 | 1920 | 12280 | 1528 |
| Total | 4412 | 4684 | 5464 | 4896 | 5232 | 5933 | 6124 | 6776 | 43.653 | 5.440 |
Fonte: DATASUS, 2025
A distribuição dos casos de tuberculose entre os municípios do Estado do Pará, entre 2017 e 2024, evidencia uma forte concentração nos grandes centros urbanos, especialmente na Região Metropolitana de Belém (RMB). Belém destaca-se como o principal polo de incidência, acumulando 15.757 notificações no período, com média anual de 1.967 casos. Esse quantitativo expressivo reflete características típicas de metrópoles com elevada densidade populacional, desigualdade social, áreas de habitação precária e circulação intensa de grupos vulneráveis, como população em situação de rua, usuários de substâncias psicoativas e pessoas privadas de liberdade.
Além disso, Belém concentra serviços de saúde, hospitais de referência e unidades de vigilância, o que amplia a capacidade de diagnóstico e detecção. A tendência ascendente, especialmente a partir de 2022, culmina em 2024 com o maior número registrado, acompanhando a intensificação das ações de vigilância e o possível aumento real da transmissão.
Os demais municípios da Região Metropolitana, Ananindeua, Marituba e Santa Izabel do Pará, também apresentam valores elevados e desempenham papel importante no perfil epidemiológico estadual. Ananindeua registrou 3.622 casos no período, enquanto Santa Izabel do Pará e Marituba contabilizaram 2.474 e 1.679 casos, respectivamente. Essas localidades compartilham características socioeconômicas semelhantes, marcadas por expansão urbana acelerada, precariedade habitacional em algumas áreas e forte deslocamento diário de trabalhadores entre municípios, fatores que favorecem a disseminação da doença. Santa Izabel apresenta picos marcantes em 2019 e 2022, o que pode indicar surtos localizados ou ampliação de busca ativa e diagnóstico no território.
No interior do estado, municípios de porte intermediário como Santarém, Castanhal e Marabá também se destacam pela relevância epidemiológica. Esses municípios funcionam como polos de referência regional e apresentam números significativos, com Santarém registrando 1.296 casos, Castanhal 1.138 e Marabá 1.032 entre 2017 e 2024. Apesar de números relativamente menores que os da RMB, esses municípios demonstram tendência de crescimento após 2021, acompanhando o movimento estadual de retomada da vigilância pós-pandemia. A oscilação anual indica que esses territórios possuem dinâmicas populacionais e socioeconômicas próprias que influenciam a transmissão da tuberculose.
Municípios de médio porte como Bragança, Parauapebas, Tucuruí, Paragominas, Barcarena, Abaetetuba e Cametá apresentam médias anuais de 60 a 100 casos, compondo o grupo de endemia estável, porém com crescimento acentuado a partir de 2021. Em alguns deles, como Bragança e Paragominas, o aumento recente pode estar associado à ampliação da cobertura da Atenção Primária à Saúde e ao fortalecimento de ações de vigilância. Já em municípios como Parauapebas e Barcarena, fatores econômicos, migração sazonal e expansão industrial podem contribuir para oscilações na incidência.
De forma geral, o comportamento observado segue o padrão já identificado em 2020, quando houve queda das notificações em diversos municípios devido ao impacto da pandemia de COVID-19 nos serviços de saúde. A partir de 2021, verifica-se recuperação progressiva da vigilância, que se intensifica em 2022 e 2023, resultando no expressivo aumento observado em 2024, o maior ano de toda a série histórica municipal.
Assim, os resultados da Tabela 2 reforçam que a tuberculose permanece como um agravo prioritário no Pará, exigindo fortalecimento das estratégias de vigilância, intensificação da busca ativa, ampliação do acesso ao diagnóstico, integração entre atenção básica e vigilância epidemiológica e ações específicas para populações e territórios vulneráveis.
4. DISCUSSÃO
O estudo epidemiológico de Moraes et al. (2023) mostrou que, entre 2018 e 2022, a Região Metropolitana I (composta por Belém, Ananindeua, Marituba e Benevides) concentrou 46,77% dos casos de tuberculose notificados no Pará. Esse dado confirma a observação de que Belém e municípios próximos apresentam participação desproporcional nas notificações, refletindo tanto uma possível incidência mais alta quanto maior capacidade de diagnóstico e notificação nos centros urbanos. Em contraste, regiões como Marajó I apresentaram baixa proporção de casos (1,46%), o que pode estar relacionado à subnotificação e à desigualdade no acesso ao diagnóstico, considerando a menor cobertura de serviços de saúde, laboratórios e profissionais capacitados em municípios mais remotos (Moraes et al., 2023).
A pandemia de COVID-19 afetou fortemente a vigilância da tuberculose no Brasil. O Boletim Epidemiológico Especial de 2024 do Ministério da Saúde reporta quedas na realização de testes moleculares para TB (TRM-TB) a partir de março de 2020, seguidas por uma redução temporária nas notificações e recuperação nos anos subsequentes. Já o boletim de 2025 indicou “desaceleração desse aumento” de casos em 2024, sugerindo início de controle, embora os dados ainda sejam preliminares. Essa tendência é compatível com a hipótese de “recrudescimento da transmissão”, já que a redução da detecção durante a pandemia pode ter permitido maior disseminação silenciosa da doença (Brasil, 2024).
A vigilância epidemiológica da TB no Brasil depende de instrumentos robustos, com protocolos específicos para notificação, investigação de óbitos e da infecção latente, embora a qualidade da notificação seja variável. A identificação de casos somente no momento do óbito evidencia falhas na detecção precoce da doença (Aridja et al., 2024).
A análise dos casos segundo o sexo mostra padrão consistente com a literatura nacional: a TB ocorre predominantemente em homens, mas há crescimento progressivo entre mulheres ao longo do período estudado. Entre 2017 e 2024, os casos masculinos aumentaram de 1.168 para 1.606, enquanto os femininos evoluíram de 653 para 978, indicando não apenas maior vulnerabilidade masculina, mas também crescente exposição feminina a fatores socioambientais e comportamentais (DATASUS, 2025; Brasil, 2024). Além disso, profundas desigualdades raciais são evidenciadas: em 2023, cerca de 60% dos novos casos ocorreram em pessoas pretas e pardas, enquanto a população branca representou pouco mais de 23% dos casos (Brasil, 2025).
Estudos sobre infecção por Mycobacterium tuberculosis entre contatos domiciliares sugerem que a probabilidade de infecção varia conforme idade e sexo, com homens adultos apresentando maior prevalência, enquanto o aumento de infecção com a idade é diferente entre mulheres. Isso indica influência de fatores biológicos, comportamentais e de exposição extra-doméstica (Silva et al., 2021). Fatores ocupacionais, tabagismo, consumo de álcool e menor adesão ao sistema de saúde contribuem para maior incidência em homens, enquanto mulheres apresentam progressão mais lenta, mas aumento expressivo em contextos urbanos e periurbanos (Moraes et al., 2023).
As desigualdades raciais também se refletem nos desfechos do tratamento. Estudos mostram que residentes em municípios com alta segregação racial e econômica têm risco significativamente maior de desfecho desfavorável, incluindo abandono, falha terapêutica ou morte (Hall et al., 2025; Montelo; Rodrigues; Sardinha, 2025). Crises sanitárias, como a COVID-19, agravaram essas desigualdades, aumentando a interrupção de tratamento entre pretos e pardos, dificultando a conclusão terapêutica em grupos vulneráveis (Brasil, 2023).
A identificação de grupos mais vulneráveis e a implementação do tratamento de casos confirmados de infecção latente por tuberculose (ILTB) tornaram-se prioridades no controle da doença. No Brasil, embora o tratamento da ILTB esteja contemplado nas recomendações oficiais, sua execução ainda é incipiente. No Pará, observa-se baixa identificação de ILTB em todos os serviços que realizam o exame (Silva et al., 2024). O Plano Nacional de 2017 visa eliminar a tuberculose como problema de saúde pública até 2035, com metas de redução do coeficiente de incidência para menos de dez casos/100 mil habitantes e do coeficiente de mortalidade para menos de um óbito/100 mil habitantes, baseado em três pilares: prevenção e cuidado integrado centrado no paciente, políticas arrojadas e sistema de apoio, pesquisa e inovação (Silva et al., 2024).
A ILTB acomete indivíduos independentemente de sexo, cor ou idade, mas há maior probabilidade de infecção em pessoas entre 31 e 50 anos, residentes na Região Metropolitana I do Pará. Pessoas vivendo com HIV e contatos de casos de tuberculose constituem os grupos mais acometidos, cada um com distribuição geográfica específica no território paraense (Silva et al., 2024).
5. CONCLUSÃO
O presente estudo evidenciou que, entre 2017 e 2024, a tuberculose no Estado do Pará apresentou distribuição geográfica desigual, com concentração significativa de casos nos municípios da Região Metropolitana I, especialmente Belém, seguido por Ananindeua, Marituba, Benevides e Castanhal. Essa centralização das notificações reflete tanto a maior densidade populacional e a presença de áreas de urbanização acelerada quanto a melhor capacidade de vigilância e diagnóstico instalada nesses centros urbanos. Por outro lado, regiões mais periféricas ou remotas provavelmente apresentam subnotificação, decorrente de limitações de acesso, infraestrutura reduzida e menor disponibilidade de profissionais capacitados, o que reforça as desigualdades estruturais no sistema de saúde.
Observou-se ainda uma predominância persistente de casos em homens, embora o aumento progressivo entre mulheres indique crescente exposição aos fatores de risco socioambientais e comportamentais em contextos urbanos e periurbanos. As diferenças segundo sexo, idade e raça/cor reforçam a complexidade da epidemiologia da tuberculose, demonstrando que determinantes sociais e estruturais como pobreza, escolaridade, habitação inadequada e inserção laboral precária interferem diretamente no risco de infecção, na busca por atendimento, no diagnóstico oportuno e nos desfechos clínicos da doença.
O impacto da pandemia de COVID-19 foi perceptível ao longo da série, com redução temporária das notificações e dos testes diagnósticos, sugerindo que a interrupção parcial dos serviços de saúde contribuiu para o aumento silencioso da transmissão comunitária. Ademais, verificou-se que desigualdades raciais permanecem como fator relevante na distribuição da doença: pessoas pretas e pardas apresentam maior incidência, maior risco de desfechos desfavoráveis e maior mortalidade, refletindo vulnerabilidades históricas e condições socioeconômicas marcadas por menor acesso a serviços de qualidade, piores condições de vida e maior exposição a fatores de risco.
Esses achados reforçam a necessidade de políticas públicas integradas e intersetoriais, capazes de combinar vigilância epidemiológica robusta, ampliação do acesso aos serviços de saúde, fortalecimento da atenção primária e estratégias de prevenção direcionadas às populações mais vulneráveis.
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3E-mail: xandamourao35@gmail.com – Orcid: https://orcid.org/0009-0008-1758-722X. Acadêmica de Biomedicina.
4E-mail: eliane_ltrindade@yahoo.com.br – Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5409-2228. Orientadora.
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